Ao longe, Quintos observava a batalha.
Seu manto negro balançava com o vento quente do deserto, e a espada presa à sua cintura — envolta em correntes — exibia uma serpente verde entalhada, que parecia deslizar pela bainha.
Ao seu lado, caminhava seu irmão.
Genos.
As listras vermelhas marcavam o rosto dele como cicatrizes de guerra; o cabelo cinza caía em fios desalinhados e os olhos negros carregavam um cansaço que parecia eterno. Sua armadura branca estava coberta de sangue seco, e ele segurava uma lança feita inteiramente de ossos humanos. Cada passo que dava parecia pesado demais para alguém tão jovem… ou tão velho por dentro.
— Aquele Valia é forte demais… — murmurou Genos, quase bocejando.
— Blasfêmo cuidará dele — respondeu Quintos, virando-se. — Precisamos ver Guerra.
Genos ergueu um olho, intrigado — ou apenas tentando não dormir em pé.
— Por que você quer tanto ver nosso irmão? — perguntou.
— Guerra é imprudente. Se não vigiarmos ele… acabará estragando tudo. — A voz de Quintos era firme, mas havia algo mais ali. Algo oculto.
Genos apenas assentiu, preguiçoso, e tomou a dianteira. Guiou o irmão até as profundezas do deserto.
Descendo.
Cada passo os levou para dentro de túneis subterrâneos infestados de Sangue-Sugas.
O chão era coberto de ossos humanos, as paredes pulsavam com restos endurecidos de carne, e o cheiro — um fedor ácido e pútrido — parecia colar na garganta.
As criaturas rastejavam pelas cavernas, lambendo ossos, arrastando-se na escuridão.
Genos coçou o olho, indiferente.
— Estão em menor número… — murmurou. — Alguma coisa aconteceu lá em cima.
— Os humanos fizeram algo. — Quintos estreitou os olhos. — Precisamos encontrar Guerra logo.
Genos apontou com a lança para uma abertura estreita à frente.
— Ele está ali.
Quintos não esperou.
Correu pela caverna até a sala natural onde seu irmão estava.
Guerra permanecia imóvel, parado no centro, os olhos fechados, as mãos unidas como se rezasse para algo que nem os deuses ousariam ouvir. Ainda jovem, o crânio raspado brilhava sob a pouca luz que entrava pelos buracos na terra.
Quando ouviu passos, abriu um leve sorriso.
— Quintos? É você?
— Sim. — Quintos avançou. — Os humanos se fecharam perto do Palácio Vermelho.
Guerra ergueu o queixo, confiante.
— Não se preocupe. Enquanto eu estiver vivo, eles nunca vencerão nenhuma gue—
A frase quebrou.
Sua voz simplesmente… desapareceu.
Guerra piscou, confuso.
Algo estava errado.
Algo muito errado.
“Por que… eu não consigo falar?”
E então veio a inundação.
Não de sangue — mas de memória.
Ele viu:
Ele e Quintos, ainda crianças, brigando por bobagens.
Ambos saltando da cachoeira enorme, rindo.
Quintos sempre se machucava primeiro.
E sempre sorria depois.
Depois veio a lembrança mais pesada.
“Venceremos os humanos juntos.”
Juntos.
A palavra ecoou como um chamado.
Quando abriu os olhos outra vez, não estava mais em pé.
Seu corpo caía de joelhos.
O chão aproximava-se.
Devagar.
Longe.
Lento.
Sua cabeça não estava mais sobre seus ombros.
Atrás dele, Quintos limpava o sangue da lâmina enquanto guardava a espada.
O rosto dele tremia — não de culpa, mas de algo mais profundo.
Lágrimas desciam, silenciosas, como se tivessem sido proibidas de cair.
Ele segurou firme a espada presa por correntes.
Porque sabia, no fundo do peito:
Não tinha feito nada de errado.
Guerra, já sem força, deixou seus últimos pensamentos passarem como ecos presos numa caverna infinita:
“Quintos… alguém me matou.”
E então tudo apagou.