Durante a Era Sombria
O campo de batalha tremia como se a própria terra temesse o que estava prestes a acontecer.
Vália avançava com sua espada de mármore branca, tentando acertar Blasfêmo — porém ossos surgiam do chão, curvando-se como serpentes e bloqueando cada golpe. Blasfêmo permanecia imóvel, como se nem estivesse tentando.
O rei de Verdevalia recuou um passo.
— Então este é o poder que originou a vida? Patético — disse Blasfêmo, sua voz ecoando como um sussurro tumular.
Vália, porém, sorriu.
— Acredite… isso não é nem metade do poder que originou a vida.
Blasfêmo ergueu um pouco a cabeça.
— Então você é só uma fraude.
E avançou.
Seu corpo foi engolido por uma armadura viva — feita de ouro escurecido e rubis pulsantes. O elmo ostentava uma coroa de espinhos metálicos, e de sua mão surgiu uma espada de osso e brilho carmesim, como se estivesse banhada em sangue recém-tirado de um deus.
Ele atacou com um único golpe.
Vália tentou bloquear, mas sua espada se desfez como pó de mármore.
Mil estilhaços voaram com o impacto.
O rei de Verdevalia reagiu de imediato: espinhos brotaram do chão, enrolando-se nas pernas de Blasfêmo, apertando com força. Enquanto o monstro lutava contra aquilo, Vália ergueu outra lâmina de terra e golpeou o peito da armadura, abrindo uma rachadura.
Blasfêmo olhou para a fenda.
E sorriu.
— Parabéns.
Ele juntou as mãos.
O mundo congelou.
O calor do deserto desapareceu como se tivesse sido sugado. O ar queimava de frio; o solo ficou negro; as veias de Valia começaram a escurecer. A terra rachou — e dela brotou sangue negro, espesso, podre. Caveiras emergiam junto aos jorros fétidos, espalhando o cheiro de decomposição antiga.
Vália forçou o vento a soprar, afastando a neblina pútrida.
Ele avançou mais uma vez.
As espadas colidiram — a de osso contra sua lâmina recém-formada.
Blasfêmo defendia com apenas uma mão.
Da outra, suas unhas se alongaram, afiadas como espadas, mas Vália as prendeu com espinhos que surgiram do chão.
— O que pretende com isso? — perguntou Blasfêmo, curioso.
Vália não respondeu.
Ele só sorriu.
E golpeou.
A rajada de vento que acompanhou o ataque fez o sangue negro e a areia voarem. Sua espada rachada percorreu o peito de Blasfêmo — e a armadura finalmente se partiu.
Vália olhou dentro.
E congelou.
O peito de Blasfêmo estava cheio de rubis — dezenas, centenas — todos pulsando como corações profanos. As Relíquias do Mal.
A força vital das criaturas do abismo.
Havia tantas que era impossível contá-las.
A armadura se regenerou no mesmo instante.
— Meus parabéns — repetiu Blasfêmo, agora com divertimento real na voz.
Suas unhas atravessaram o peito de Vália com um único movimento.
Ergueram-no no ar, como se não pesasse nada.
— Você perdeu. Sua raça perdeu — declarou o Senhor da Carnificina.
O corpo de Vália começou a morrer rápido demais.
Os dedos ficaram negros.
O frio estilhaçava seus ossos.
Vermes saíam de sua pele, alimentando-se dele enquanto ele ainda vivia.
O ar fugia de seus pulmões.
E Blasfêmo finalizou.
Uma lâmina de ossos atravessou o pescoço do rei.
A cabeça caiu.
O corpo caiu.
E Blasfêmo pisou sobre a cabeça, esmagando-a em uma poça de sangue e fragmentos.
No alto do muro de terra, Antony Stan assistia.
Suas mãos tremiam.
O sangue escorria entre seus dedos enquanto ele apertava o punho.
A visão do corpo de Vália, caído no chão, fez algo dentro dele quebrar.
Os exércitos de Blasfêmo se aproximavam.
E atrás deles…
uma cavalaria inteira, coberta por armaduras negras.
Talda.
Os Trones.
A muralha humana que restava entre o mundo e a extinção.
— Já perdemos esta guerra… — murmurou Antony, sem forças para mentir para si mesmo.
Blasfêmo virou-se para receber seus aliados.
A cavalaria de Talda parou a poucos passos.
Um homem avançou à frente, montado em um cavalo negro.
Cabelos escuros, pele pálida, olhar frio.
Uma marca de nascimento em forma de lótus vermelha no rosto.
Myamura.
Segundo líder dos Ronins da Noite.
Ele ergueu sua lança de aço negro.
— Você é o Rei do Horror? — perguntou.
Blasfêmo inclinou a cabeça.
— Onde está Lihan?
Myamura abriu um saco.
Jogou-o no chão.
Dele rolou a cabeça de um velho barbudo — Lihan, o antigo líder dos Ronins.
Blasfêmo mal teve tempo de reagir.
Myamura avançou como um raio.
A lança atravessou o peito do monstro e o pregou ao muro de terra.
E então Talda atacou.
Antony olhou para o lado.
Uma cobra verde rastejava pelos blocos da muralha.
A mesma que acompanhava Quintos.
Aquilo só significava uma coisa.
Guerra estava morto.
O coração de Antony disparou.
Ele ergueu a espada.
E gritou com todas as forças:
— ATAQUEM!
O grito ecoou para todas as direções.
Os Profetas derrubaram o muro de terra.
Os humanos avançaram.
E pela primeira vez em décadas…
A luz e a sombra lutavam ombro a ombro contra o horror.
Myamura saltou do cavalo, rolando pela areia enquanto Blasfêmo arrancava a lança negra de seu peito. Assim que a ergueu, a arma se desfez em poeira, como se o toque do monstro negasse a própria matéria.
— Lihan era um tolo por confiar em você — disse Blasfêmo, levantando-se lentamente.
— Lihan morreu como um maldito por servir a você — rebateu Myamura, sacando sua katana.
Antes que pudesse avançar, algo mudou no ar.
O vento ficou doce. A luz pareceu tremer.
Uma figura surgiu por trás de Blasfêmo — uma jovem de longos cabelos vermelhos, tão intensos quanto sangue fresco. Sua pele era pálida, quase translúcida. Os olhos, vermelho vivo. Unhas pintadas do mesmo tom. Os caninos, longos demais para serem humanos.
Invy.
A Quarta Filha de Ego.
Seu vestido vermelho, leve e curto, esvoaçava como chama viva.
— Precisa de ajuda, meu doce irmão? — perguntou ela, com uma voz suave e tentadora.
Seu olhar parecia acariciar quem o recebia. Uma beleza perigosa, venenosa.
Blasfêmo nem olhou para trás.
— Eu deixo ele com você — disse, caminhando em direção ao Palácio Vermelho.
— Não fuja disso, seu maldito! — gritou Myamura.
Ele avançou para atacar pelas costas, mas… parou.
Uma mão estava sobre seu ombro.
Myamura olhou — e viu os dedos de Invy cravados em sua carne.
O reflexo veio rápido.
Ele cortou o rosto dela com um golpe limpo.
Saltou para trás, retomando a distância.
Invy tocou a bochecha, onde o corte já se fechava como se nunca tivesse existido.
— Você é promissor — disse ela, sorrindo com interesse genuíno.
E então, sem aviso algum, ela soltou o vestido.
A peça caiu na areia, e Invy permaneceu completamente nua diante dele sem vergonha, sem pudor, apenas uma criatura consciente de seu próprio poder.
Myamura ergueu a katana, tentando ignorar a onda de desejo que o golpeou como um veneno.
O corte dela continuava a sarar lentamente… até desaparecer.
A espada em sua mão começou a se mover sozinha inclinando-se na direção dela, como se fosse atraída por um campo invisível.
— O que é você, maldita? — sussurrou ele.
Invy riu.
Seu sorriso era ao mesmo tempo belo e terrível.
— Eu gostei de você, garoto.
A katana tremeu.
E derreteu.
O metal líquido escorreu pelos dedos de Myamura, caindo no chão e avançando até os pés de Invy — como se fosse vivo.
O ferro subiu por seu corpo, moldando-se a ela.
Criando uma armadura vermelha e negra, perfeitamente ajustada às curvas dela.
Somente o rosto ficou exposto.
Era a forma de uma sedução infernal.
Myamura sacou duas adagas, respirando fundo.
Invy aproximou-se devagar, tocando o rosto dele com a ponta dos dedos.
— Me diga… quando vocês perderem tudo isso — murmurou ela, a voz quente como pecado — gostaria de ser meu?
Myamura apertou as adagas.
— Eu vou recusar. — respondeu ele, frio como lâmina.
Invy riu.
E seus olhos o devoraram.
Por algum motivo, Myamura sentia algo que nunca sentira antes: desejo, repulsa, pavor… tudo misturado.
Ela era lindíssima.
A criatura mais bela que já vira.
E, ao mesmo tempo…
A mais cruel.
A mais perigosa.
A mais impossível de amar… ou resistir.
Invy deu um passo à frente.
A areia vermelha estremeceu.
E Myamura finalmente percebeu:
Não estava lutando contra um soldado.
Estava lutando contra um pesadelo vestido de mulher.