Cap. 1- Entre Cinzas e Sangue
Diante dos sons de crânios se partindo, ossos quebrando e gritos desesperados ecoando como um pesadelo vívido, o pequeno príncipe despertou. Piscou os olhos, ainda sonolento, tentando entender onde estava. Mechas de seus cabelos loiros caíam sobre os olhos azuis. Ele as afastou com cuidado e passou a mão na testa, como se buscasse no fundo da memória o que estava acontecendo.
“Será só mais um pesadelo” pensou, confuso. Ele não se lembrava de quando os pesadelos haviam começado, mas ultimamente tornaram-se frequentes.
O quarto parecia o mesmo de sempre: paredes, brinquedos, os desenhos feitos com a irmã. Mas o cheiro de morte e os gritos ao fundo... aquilo não fazia sentido. Nerevia era o mais seguro dos Quatro Reinos. Nenhuma ameaça jamais cruzou os oceanos e as defesas aquáticas do país.
Um estrondo o trouxe violentamente de volta. A porta foi arremessada contra a parede e César, seu tutor, surgiu ofegante, com os olhos arregalados de pavor.
— Jovem príncipe! Que bom que você está vivo! Rápido, venha comigo!
— O que está acontecendo?! — perguntou o menino, com o coração disparado.
— Eu explico no caminho! — respondeu César, puxando-o pelo braço com uma força desesperada. — Venha!
Era crime grave tocar um membro da realeza, mas, naquele instante, nenhuma regra parecia importar.
Correram pelos corredores outrora dourados e cheios de vida. Agora eram um campo de morte. Faina, a cozinheira que tantas vezes lhe sorrira ao oferecer bolos escondidos, jazia entre louças e talheres espalhados. Guardas com quem treinava estavam tombados, o chão manchado de vermelho. O ar era uma mistura nauseante de ferro e fumaça.
O príncipe tropeçava em meio ao horror de armaduras, destroços e partes de corpos humanos, mas César continuava o puxando com força.
— Ali! Peguem o príncipe! — uma voz ecoou.
Alguns homens com armaduras ornadas por rosas azuis e espinhos avançaram.
“Reino Stoneval...?”, pensou o príncipe antes de ser puxado novamente por César.
Chegaram ao quarto do rei, local proibido a qualquer súdito. César abriu a lareira e revelou uma passagem secreta. O príncipe ficou boquiaberto passou a infância inteira explorando o palácio e nunca viu aquilo.
— Entre! — ordenou.
No interior úmido e escuro, César despiu o menino e o vestiu com roupas simples demais, de tecido grosseiro, como as de um camponês qualquer. O príncipe tentou protestar, confuso, mas antes que pudesse falar, o tutor o interrompeu com um olhar firme, quase desesperado.
— Sua vida depende disso.
O príncipe mal respirava. Então, César, com voz baixa, explicou:
— Escute com atenção... o reino foi atacado. Os outros três reinos se uniram. Eu não sei todos os detalhes, mas sei disso: eles estão atrás da família real. — Respirou fundo, como se precisasse de coragem para dizer o que viria a seguir.
— E... o... o quê?
— Sua família já não existe. Você é o único sobrevivente.
As palavras esmagaram o coração do menino. Ele quis negar, balbuciar... Mas o olhar aflito de César não deixava espaço.
— Como assim, eu não entendo?
— Disseram que seu pai planejava um pacto com o Submundo. Uma mentira para justificar a invasão é o que eu acho. — O semblante de César estava triste e vazio, os olhos acinzentados como se tivessem perdido o brilho da vida.
César segurou os ombros do menino e o encarou.
— Como você sabe desde tempos antigos existem quatro reinos, cada um regido por um elemento e uma essência. O equilíbrio sempre foi sagrado. Rompê-lo trará consequências.
Ele não demorou. Gesticulou rapidamente no ar, como se desenhasse um mapa invisível.
— Stoneval, da Terra: guerreiros duros como pedra. Vórtex, do Vento: diplomatas e assassinos velozes como redemoinhos. Ignel, do Fogo: guerreiros forjados em meio à lava. E Nerevia... sua casa... reino da Água: curandeiros, magos, profetas, eu te ensinei a teoria por trás do uso do Oryn e como dominar o Yin, más não cheguei a explicar a importância do equilíbrio, você precisa descobrir e dominar esse poder.
Um estrondo sacudiu a sala. Magias de terra e fogo explodiam contra as paredes. O menino de dez anos sentiu o peso de um mundo ruindo sobre seus ombros. Imagens felizes vieram-lhe à mente: o pai ensinando-o a segurar uma espada de madeira, a mãe ajeitando seus cabelos, a irmã correndo atrás dele no jardim, rindo com as bochechas coradas. Tudo aquilo agora parecia um sonho distante.
Ao engolir em seco foi como se tivesse uma pedra descendo devagar pela garganta.O oxigênio parecia rarefeito. Uma pressão insuportável explodia em sua cabeça, distorcendo sons, imagens e pensamentos. O mundo viraou um borrão. Restava apenas uma verdade: sua casa havia sido destruída.
— Para onde vamos...? — murmurou o príncipe, quase sem voz.
Mas a expressão de César dizia tudo.
— Para viver. E, um dia... para lutar! Você precisa sair daqui antes que nos encontrem.
— Você não vem...? — no fundo ele já sabia a resposta.
— Eu não posso. Você é o último da linhagem Draven. Sua vida é mais importante que a minha, qualquer castelo ou coroa. Continue respirando, mesmo que seus ossos se quebrem. Mesmo que a esperança morra. — O olhar firme de César era sincero. — Não desista de viver.
César ergueu uma barreira de água, condensando a umidade do ar.
— Corra para a floresta. E não olhe para trás. Depois da floresta, embaixo de uma ponte, há uma entrada secreta para um bunker. Lá terá tudo que precisa, inclusive uma biblioteca que conta a história do mundo. Use o conhecimento para sobreviver. Mas se tudo der errado... você viverá como um plebeu. — Ele respirou fundo, enquanto mais pedras estalavam contra sua magia enfraquecida. — Se perguntarem seu nome, diga que é Darius. Era o nome do meu irmão... já falecido. Nunca, jamais revele quem você é. Nunca diga seu nome verdadeiro. E não confie em ninguém. Mas faça amigos se possível.
Mais um feitiço rasgou a parede, espalhando detritos. Um fragmento passou a centímetros do rosto de Darius. Ele se assustou tanto que urinou nas roupas. Vergonha o queimou por dentro, mas ele só tinha dez anos. Era apenas uma criança.
— Viva por eles. Cresça. Lute. Vingue Nerevia — disse César, com a voz firme, mas os olhos cheios de compaixão.
A barreira de água começou a se desfazer, rachando como vidro sob pressão. Do outro lado, mais soldados avançavam.
— Preste atenção nas suas habilidades. Você pode despertar dons diferentes, dependendo de onde for, de com quem estiver. Esteja atento. Assuma uma nova vida. Uma nova missão. Sobreviva.
Ao pousar no chão, o menino cambaleou em meio à fumaça e destruição. As ruas, antes cheias de vida, estavam cobertas por cinzas e sangue. Reconhecia rostos: Dona Angelina da feira, Manssun do boteco... todos mortos.
Escondeu-se entre cadáveres quando passos inimigos ecoaram. O sangue ainda morno de uma velha escorreu sobre seu rosto. O menino chorou em silêncio, lembrando a voz da mãe, o riso da irmã, a firmeza do pai.
— Merda... sou só uma criança! — sussurrou, soluçando.
Rumo à floresta, Darius ouviu um relincho aflito. Seguiu o som e, logo adiante, viu o caos suspenso no tempo: uma menina ruiva, não muito mais nova que ele, talvez da idade de sua irmã, agarrada ao pescoço de um cavalo ferido. Um soldado vinha na direção dela, espada erguida.
O coração de Darius disparou. Ele não pensou — apenas correu, tropeçando nos próprios pés. No chão, uma lâmina caída brilhou à luz do fogo; ele a agarrou com as duas mãos, pesando mais do que podia suportar. Num gesto desajeitado e desesperado, balançou a espada. O choque foi mais sorte do que força: o soldado não esperava e caiu, atingido.
Darius ficou ofegante, o corpo tremendo tanto que quase deixou a lâmina escapar. O corpo do homem tombou com estrondo, e o menino sentiu as pernas bambas.
A garota, porém, nem olhou para o soldado. Chorava, ainda agarrada ao cavalo.
— Faísca, não morre... não morre...
Darius engoliu em seco. O cheiro de ferro, de suor, de medo — tudo o enjoava.
— Você precisa sair daqui... é perigoso. Onde estão seus pais?
— Mortos. — disse sem erguer os olhos. — Eu só quero que ele não morra.
As palavras cortaram Darius como lâmina. Ele não sabia o que fazer. Uma parte dele queria chorar junto.
— Eu... eu cuido dele, tá? — disse baixo, sem nem acreditar no que prometia. — E se ele não aguentar... eu juro que vou te dar outro cavalo. Quando eu reconstituir meu lar de, vou te dar outro. Pode até chama-lo de Faísca.
Ela o encarou com os olhos marejados.
— Promete?
Ele respirou fundo, tentando parecer firme apesar do tremor nas mãos e sentir a calça grudada a pele por causa da urina.
— Prometo. Sou príncipe... e príncipe nunca quebra promessa.
Uma mulher surgiu da fumaça, com pressa, puxando a garota pelo braço.
— Obrigada... obrigada por não deixar ela sozinha. — Olhou para Darius e acrescentou: — Você também, venha!
Darius balançou a cabeça.
— Não... eu ainda... preciso fazer uma coisa.
A mulher não insistiu. Sumiu levando a menina.
Sozinho, Darius ajoelhou-se ao lado do cavalo. O animal arfava, os olhos vidrados de dor. O menino engoliu o choro. Pegou a espada caída ao lado e, com o corpo tremendo inteiro, deu o golpe de misericórdia. O som seco do aço rasgando a vida ficou gravado nele para sempre.
Cinzas e sangue. Era tudo o que restava de Nerevia.
Darius caminhava cambaleante. Pulmões ardendo, coração descompassado. Cada cena partia seu coração, o desfazia um pouco mais. O castelo, antes símbolo de proteção e grandeza, desmoronava em chamas, como se a própria terra e o próprio céu o devorassem, e nem mesmo as águas podiam ser sentidas. O Yin daquele lugar parecia ter desaparecido com tanta brutalidade que sobraram apenas vestígios.
O Yin — a força sutil que mantinha a harmonia entre a vida e a terra, entre o sopro e a matéria havia se esvaído. Onde antes fluía equilíbrio, restavam apenas cinzas e silêncio.
Os nomes dos culpados ecoavam através dos desastres: Vórtex. Ignel. Stoneval.
Entrou na floresta e seu coração terminou de despedaçar ao ver um pequeno corpo entre troncos caídos: Anya. Sua irmãzinha de seis anos.
Os joelhos falharam. Uma onda de náusea o derrubou. Mas os soldados se aproximavam, obrigando-o a lutar contra o desespero.
À beira da floresta, a visão final extinguiu o resto de sua humanidade. Uma árvore solitária erguia-se contra o céu crepuscular. Os galhos fortes e a copa verdejante ainda guardavam uma beleza intocada, quase sagrada. Mas a vida que ela simbolizava fora violada.
No tronco, pendia a cabeça do rei Robert Gray Draven, aquele que era conhecido como seu pai. Encostada à raiz, estava sua mãe. O vestido encontrava-se rasgado e coberto de sangue seco. O peito aberto denunciava a brutalidade: o coração fora arrancado, deixando apenas um vazio grotesco onde antes pulsava amor.
Sobre o pescoço, entretanto, ainda pendia o colar de conchas que ele e Anya haviam feito para ela no último verão. Um presente infantil, torto, mas que ela usava com orgulho.
A lembrança daquele riso suave, tão vivo em sua memória, colidiu com a cena diante de seus olhos. Era como se o contraste entre a ternura do passado e a barbárie do presente dilacerasse sua alma em pedaços.
O nascer do sol cruel iluminava a cena, não como esperança, mas como denúncia. Como se o próprio mundo quisesse expor a crueldade.
Darius tombou de joelhos. Vomitou. Gritou. Rasgou a própria garganta em agonia. Já não importava quem o ouvisse. A dor era maior que o medo.
E, antes de apagar, sua mente registrou um último pensamento:
“Se eu sobreviver... não serei mais o Jovem príncipe. Serei apenas um fantasma de Nerevia o que restou de todo este sangue e cinzas