CAP. 2 - A Forja dos Sobreviventes
O escuro era absoluto. Darius corria sem direção, cada passo incerto sobre pedras soltas e raízes retorcidas. Norte ou sul, frente ou trás nada fazia sentido. Apenas corria, impulsionado pelo medo, pelo vazio e pela dor. O frio apertava a barriga, o coração disparava. Um tropeço, uma queda. O chão desapareceu sob seus pés.
Ele despencou no abismo, engolido por trevas que pareciam devorar tudo. O vento cortava o rosto, o frio queimava como ferro, e o desespero sufocava cada respiração. Então, de repente, pousou suavemente, como se o próprio ar o tivesse recebido.
Ao olhar para baixo, o que viu o paralisou. Não era seu reflexo infantil, mas uma versão adulta de si mesmo. Os cabelos loiros claros ainda caíam sobre a testa, mas o rosto exibia contornos firmes, um queixo definido, e os olhos azuis brilhavam com intensidade, carregando uma profundidade desconhecida. Metade do semblante estava banhada em luz tênue; a outra metade se perdia em sombras densas. O olho esquerdo, circundado por uma borda vermelha, parecia engolido por uma escuridão desconhecida, e um arrepio percorreu sua espinha.
Ele estendeu a mão, hesitante, como se pudesse tocar aquele outro ele. Mas o reflexo se moveu, distante, como se desafiasse o tempo e o espaço. O coração da criança disparou, a garganta apertou. Era um aviso, um presságio do que poderia se tornar. Darius acordou ofegante, os cabelos grudados à testa pelo suor, os olhos azuis arregalados.
A visão ainda estava turva. Piscou algumas vezes, acostumando os olhos à claridade da tenda. Logo percebeu dezenas de crianças reunidas ali, rostos diferentes, cores de pele e olhos variados, vindas de vários reinos. Olhares curiosos e preocupados se voltaram para ele.
— Você acordou! Como você tá? — perguntou uma menininha, olhos arregalados.
Darius passou a mão no rosto, enquanto lembranças pesadas invadiam sua mente: a destruição, a morte de sua família, a solidão. Tudo parecia real agora.
— Qual é o seu nome? — perguntou uma garota de rosto redondo e cabelos laranjas, lembrando-lhe um pão de queijo.
— Meu nome… eu… — ele hesitou — eu sou Darius. Me chamo Darius — murmurou, voz embargada.
— Certeza? — ela retrucou, desconfiada. — Ok então! Darius, eu sou Marsalla.
Ela sorriu gentilmente. Seus olhos verdes lembravam pedras de jade e contrastavam com o cabelo ruivo que emoldurava o rosto redondo. Bonita para uma criança. No peitoral, exibia um símbolo com três ondas — marca do reino de Nerevia.
Um menino de pele morena, cabelo curto e preto, se aproximou, fazendo Darius desviar o olhar.
— Eu sou Lior. Estamos no reino Vórtex. Você ficou inconsciente por uns três ou quatro dias. Veio de Nerevia, né? — disse ele com cautela, a voz vacilando. — Minha família também morreu.
As palavras caíram como pedras. Darius afundou o rosto nas mãos, lágrimas escorrendo. Logo outras crianças começaram a soluçar junto, cada uma carregando a própria dor. Ele percebeu que, embora sua tragédia fosse imensa, não era a única.
Darius ergueu os olhos marejados, confuso.
— O que aconteceu?… Nerevia foi atacada pelos outros três reinos?
— Sim — confirmou Lior, engolindo em seco. — Eles disseram que foi uma aliança preventiva. Eles acreditavam que Rei de Nerevia estava envolvido com acordos do sub mundo e isso poderia desequilibrar o sistema de força do nosso mundo. Não era maldade, apenas… justiça global.
Darius arqueou as sobrancelhas.
— Mas…que equilíbrio?— perguntou enquanto pensava na hipocrisia —“Matou tanta gente que provavelmente nunca tinham ouvido falar do sub mundo, ou até mesmo nem nunca visto o rei.”.
Leonar, um jovem mais velho de cabelos escuros cacheados e olhos cor de amêndoas compridos, se adiantou, cruzando os braços com firmeza.
— Você não sabe de nada? — Arqueou a sombrancelha— O mundo é sustentado pelo equilíbrio dos quatro reinos, que derivam dos elementos: fogo, terra, água e vento. Cada reino guarda um deles. Nenhum rei governa os outros, mas todos têm responsabilidade igual. Se um reino cai, ou se fortalece, ou se envolve com magia negra todos os outros sofrem. Por isso intervieram.
— Mas… por que então, nós crianças estamos aqui? — perguntou Marsalla, olhando ao redor, insegura. — E também há crianças de outros reinos, nunca vi isso.
— Vocês provavelmente não sabem porque não estavam em idade de saber, mas todos os anos ocorre treinamento “O Forja dos Elementais” Crianças são trazidas para Vórtex. Para iniciarem o treinamento e depois seguem para Ignel. Sempre foi assim. Só que, agora teve a queda de Nerevia, e tivemos que vir antes do tempo. O mundo precisa de nós mais cedo. — Leonar explicou, sério.
Mikkel, garoto de cabelos castanhos-ruivos e olhos cor de amêndoa, completou:
— Meu irmão mais velho é um soldado de Ignel, e me disse a mesma coisa, a força precisa ser restaurada, por isso viemos para cá, me disse também que quando foi fazer uma excursão em Nerevia percebeu que o Oryn estáva enfraquecendo. Sem ele, nada vive.
— Faz sentido, eles não derrubariam um dos quatro reino assim, do nada Oryn é a essência da vida, como o ar que respiramos. Ele nasce do Yin e do Yang. Yin é calma, defesa, absorção. Yang é força, ataque, movimento. Todo ser vivo carrega um pouco dos dois. Quando estão juntos, existe harmonia. Mas, em Nerevia, o Yin se corrompeu… e o Oryn secou. — Eu sou de Stoneval tenho 14 anos, por isso vim mas outras crianças mais novas, vieram por causa do adiantamento do treinamento— Leonar explicou. Na tenda havia crianças menores, provavelmente sem o conhecimento básico.
Max— Um menino baixinho que estava apenas observando com as mãos em volta do joelho Completou:
—Verdade, eu era da vila de pescadores da enseada, sem Oryn, não havia tantos peixes, nem energia vital. Os adultos perderam a conexão com a natureza, a agua estava parada. Não conseguiam sustentar a vida como antes, e isso afetou o mercado, as pescas, tudo.
—Será que alguém da família real, sobreviveu? — Uma criança mais ao fundo perguntou— Se sim ele é o símbolo de esperança do nosso reino.
—Tomara que ele tenha morrido, isso trará paz. — Lior falou, seco e grosso.
Darius abaixou a cabeça, engolindo em seco, sentiu vontade de gritar, queria dizer que estavam errados, que seu pai jamais se envolveria com o mal. E que ele não fez nada, Más não podia. Ninguém podia saber quem ele era. Precisava se calar. Precisava se misturar.
Ele nunca tinha saído dos muros do castelo. Tudo o que sabia vinha dos livros, das histórias dos antepassados a luta entre o céu e a terra, os dragões, os heróis, até os demônios e das lições do tutor, que lhe ensinara as bases da magia e o que era o yin. Por anos se achou um fracasso, incapaz de despertar seu poder, mesmo sendo filho do rei. Treinou em silêncio, treinou até a exaustão, até finalmente conseguir. Mas quando conseguiu… o destino lhe roubou tudo. Nunca pôde mostrar ao pai o que havia aprendido.
Agora, ali, era apenas uma criança de dez anos, obrigada a carregar um peso maior do que ela mesma. O príncipe tinha sido reduzido a nada. E diante das acusações contra seu sangue, só lhe restava engolir a dor. Não podia se revelar, não podia se defender. No vazio, ficaram apenas o sofrimento… e a semente da vingança, crescendo junto com ele.
—Mas será que o rei, estava mesmo envolvido com o sub mundo? — A única pergunta que Darius poderia fazer sem parecer suspeito.
— Como você não sabe? Você morava no mesmo reino, — retrucou Lior. — Nunca vimos o rei e nem a família real. Não havia peixes, o vento estava fraco, agua parad e a terra enfraquecida. — A voz falhou sufocada pela emoção.
— Eu to meio confuso ainda..... é isso. — Justificou Darius…
Muitas palavras, opiniões, informações eram novas para ele; mal conseguia compreender. A confusão e a raiva o fizeram sair correndo da tenda.
Ao alcançar a borda de uma falésia, parou. À sua frente, o Reino de Vórtex se estendia em beleza e grandiosidade. O vento soprava incessante, balançando longas relvas verdes. Pequenas cabanas espalhavam-se por planícies ondulantes. O ar parecia vivo, carregado de oryn Darius jurava sentir a energia do vento envolvendo tudo ao redor. A brisa do mar era forte e suave ao mesmo tempo.
Atrás dele, o caminho de pedras levava a pequenas pontes sobre riachos cristalinos.
Mais adiante, finas cachoeiras caíam suavemente. Diante da costa, erguia-se o enorme palácio real, refletindo a luz do sol. O mar espelhava o céu, trazendo consigo o cheiro salgado misturado ao aroma fresco da grama. Tudo ali era vibrante, em contraste com a água estagnada e o caos de Nerevia.
— Moleque, é hora de comer! — chamou uma voz rouca, marcante. Um homem com tapa-olho, rabicho de barba e cicatriz que riscava o rosto. Sua presença era impossível de ignorar. Darius o imaginou como um pirata.
— Tá… — respondeu, seguindo em direção às tendas.
— Você tem a maior cara de taxo, moleque — disse o homem, sorrindo provocador.
Darius não conteve uma risada seca. Olhou para trás, mas o homem já não estava mais lá, como se tivesse se dissolvido no vento.
Na tenda, vários cozinheiros serviam refeições simples, porém nutritivas. Tigelas fumegantes enchiam o ar com um cheiro acolhedor. Darius se sentou mais afastado, comendo devagar e absorvendo cada sabor. Um conforto inesperado. Mas logo a lembrança da irmãzinha voltou — ela adorava comer. Um sorriso breve e angustiado escapou de seus lábios junto com uma insistente lagrima.
Nos dias seguintes, seguiu o conselho de César, assumiu a identidade de Darius Kaelen.
O tempo passava devagar. Até que, certo dia, soldados de Vórtex anunciaram:
— Em breve haverá uma reunião. Vamos explicar tudo sobre onde vocês estão e decidir o futuro de cada um. Preparem-se.
Darius permanecia em silêncio. Todos os dias buscava a falésia, deixando o vento bagunçar-lhe os cabelos. Seus olhos contemplavam o mar com um brilho de curiosidade e esperança. O medo e nem a se dissipava com o vento. Ele nunca esqueceria o que aconteceu um dia se vingaria. Mas até lá, preferiu a quietude, arquitetando em silêncio sua retaliação. Ainda era fraco, impotente, incapaz de agir. Restava-lhe esperar pelos pronunciamentos dos reinos e ficar mais forte.
Então, numa manhã nublada, os soldados anunciaram que a hora havia chegado