CAP. 2 - A Forja dos Sobreviventes Part 2
O Mestre Zambo, um dos Dez Grão-Mestres, caminhava lentamente, e cada passo seu parecia ecoar pelo salão, como se o próprio ar reconhecesse sua autoridade. Os sussurros cessaram, e até as paredes pareciam esperar suas palavras.
O salão da academia de Vórtex encheu-se de murmúrios nervosos. Pequenos magos de 5 a 12 anos, ainda marcados pela guerra, sentavam-se em círculo, ansiosos e assustados.
— Hoje, vocês vão aprender sobre o Oryn. — Sua voz grave, porém calma, encheu o espaço. — Todo ser vivo nasce com o Oryn, a essência vital que flui dentro de vocês e conecta corpo, mente e elementos da natureza.
As crianças permaneceram tensas em seus lugares, o corpo rígido, não por curiosidade, mas porque não tinham escolha.
— O Oryn é duplo. Possui Yin e Yang. O Yin representa estabilidade, defesa, receptividade; o Yang, movimento, intensidade, ataque. Normalmente, cada pessoa tende mais a um lado. Mas quem alcança equilíbrio entre Yin e Yang atinge o Estado Harmônico, capaz de controlar seu Oryn interno e absorver o Oryn do mundo ao redor.
Zambo ergueu a mão, e os elementos dançaram com facilidade na palma dele: uma chama se formou, transformou-se em água, endureceu em pedra e se dispersou como vento. Para ele, aquilo era simples.
— Cada reino desenvolveu métodos diferentes para canalizar o Oryn, conforme suas tradições e ambiente natural:
🌊 Nerevia domina a água: fluidez, cura, adaptação.
🪨 Stoneval domina a terra: força, resistência, fertilidade.
🌬 Vórtex domina o vento: velocidade, mudança, liberdade.
🔥 Ignel domina o fogo: paixão, energia, destruição.
As crianças murmuraram com dúvidas, mas Darius conseguia acompanhar já havia estudado antes. Ele respirou fundo, tentando sentir o Oryn dentro de si, más não conseguia encontrar o equilíbrio.
Marsalla fechou os olhos, pequenas gotas de água ergueram-se do chão e caíram de volta. Lior, com olhos ardentes, controlou o fluxo da água, transformando-a em névoa que logo se dissipou. Leonar tentou a terra, e apenas uma fissura se abriu no piso.
E Darius. Ele nada conseguia fazer. Seu peito disparou, suor escorrendo na testa. Enquanto os outros faziam ao menos algo mínimo, ele permanecia impotente. “Como poderia se vingar se nem o básico conseguia realizar?” — pensou, a raiva e o ódio queimando dentro dele.
— De onde você vem, garoto? — Zambo perguntou, firme, percebendo a dificuldade de Darius.
— De… Nerevia. O reino caído. — A voz dele tremia.
— Então sua afinidade deve ser com a água. Tente mais uma vez, mas relaxe. Não encontrará o Oryn se não houver equilíbrio, precisa controlar a Raiva, ódio, medo, e até amor excessivo, bloqueiam o Estado Harmônico. Respire fundo e tente novamente.
Darius fechou os olhos. A dor ainda estava lá: perda, raiva, solidão. Mas por um instante, respirou fundo, deixando o ar atravessar o peito.
Uma rajada de vento cortou o salão. Não era água que se manifestava era um vento forte que fez o cabelo de todos balançarem. As crianças se entreolharam, surpresas. Zambo franziu o cenho. “ Quanto poder vindo desse plebeu!”
— Interessante…
— O que você fez é raro. — Zambo aproximou-se, sério, mas sem hostilidade. — Cuide disso, Darius. O equilíbrio que procura será sua maior arma… e também sua maior fraqueza. Talvez consiga dominar mais de um elemento e se torne um Nexus, alguém capaz de controlar dois elementos.
Da sombra da entrada, o homem de tapa-olho observava. O mesmo que Darius havia visto na falésia. O sorriso enigmático parecia dizer que sabia mais do que todos ali.
As portas do salão se abriram, e uma falange de guerreiros entrou, armaduras marcadas pelos quatro sigilos — Água, Terra, Vento e Fogo — cintilando à luz das tochas. Cada passo tinia como um veredito.
À frente, Luciel. Capa escura, peitoral de metal branco refletindo o símbolo do trovão, cabelos louros presos em coque, espada às costas. Seus olhos castanhos cortaram o salão com intensidade que fez até o vento vacilar.
O murmúrio das crianças morreu. Os mais novos baixaram a cabeça; os mais velhos cerraram os punhos. O peso da lembrança de Nerevia incendiada apertou o peito de Darius: o sangue, o fogo, o medo… sua própria dor refletia em cada memória, inflamando a raiva e reforçando sua determinação de se tornar mais forte.
Ele sabia que, para mudar o mundo, precisava controlar seu Oryn e dominar a si mesmo. Apenas assim poderia transformar sua vingança em poder.
Luciel avançou até o centro do salão. Não ergueu a voz, mas todos ouviram:
— Crianças de Nerevia… devo pedir desculpas a vocês diretamente.
Um silêncio pesado tomou o espaço.
— Fui um dos responsáveis pela queda do seu reino. Como chefe do Exército dos Quatro Reinos e um dos Dez Grão-Mestres, tive de tomar decisões que pesaram mais do que qualquer outra coisa. Havia sinais, denúncias, indícios de que algo em Nerevia poderia desequilibrar o mundo inteiro… Mas o peso final da escolha recaiu sobre mim.
Algumas crianças se encolheram; outras engoliram em seco. No meio do círculo, Darius sentiu a raiva subir como fogo, queimando por dentro.
—Mentira! —explodiu um garoto.
— Talvez você queira acreditar nisso — respondeu Luciel, com calma absoluta. — Mas o mundo está em desequilíbrio. O que se quebrou não se recompõe sozinho.
A sala estremeceu. Darius sentiu a dor de Nerevia se misturar à raiva, à frustração e ao desespero. Cada lembrança cruel — o sangue, a fumaça, o silêncio da destruição — inflamava seu coração.
Luciel respirou fundo e deixou que suas palavras caíssem como martelos:
— Nerevia permanecerá um reino caído e inabitável. Durante esse tempo, vocês serão treinados e se tornarão ferramentas para os três reinos, em busca de equilíbrio.
Se quiserem se vingar, lutem.
Se quiserem viver, lutem.
Se quiserem proteger, lutem.
Se quiserem provar que estávamos errados, lutem.
Porque neste mundo cruel e real, os fracos não têm escolha. Apenas os fortes podem mudar o destino.
Algumas crianças de Nerevia se encolheram, chorando baixo. Outras cerraram os punhos, com olhos ardentes de determinação. Darius respirou fundo, absorvendo a raiva, a dor e a responsabilidade que agora pesavam sobre ele. “Vou me vingar e reerguer meu reino caído, nem que para isso tenha que me tornar um soldado deste exército maldito,” pensou.
Da sombra da entrada do salão, o homem de tapa-olho observava em silêncio, o mesmo que Darius havia visto na falésia. Seu sorriso enigmático parecia dizer: “Aguenta firme.” Então desapareceu entre as fileiras, como se fosse parte do vento.
Luciel continuou, agora em tom mais técnico:
— Alguns filhos de reinos distintos podem despertar dois elementos. Pouquíssimos ultrapassam isso. — Seu peitoral relampejou quando moveu o ombro. — Relâmpago é a colisão perfeita de Yin e Yang. Hoje, apenas dez no mundo já despertaram este elemento especial. Eu sou um deles, assim como mestre Zambo e o irmão da rainha de Vórtex.
Uma faísca branca cortou o ar, desaparecendo antes de tocar a ponta da espada dele. O eco ficou preso nas paredes, lembrando a todos da força que estavam diante.
— Este é o poder do relâmpago! — concluiu. — Amanhã, ao amanhecer, começará o treinamento. Fugir significa morrer sem compreender por quê; ficar significa aprender a razão e a força que guiam este mundo. O caminho será duro. O futuro… se existir… dependerá de vocês.
Marsalla chorava silenciosa, olhos verdes marejados. Lior cerrava os punhos, fixo no chão. Entre outros, nos de Nerevia, aquelas palavras tiveram um peso maior , Leonar mantinha-se ereto, maxilar travado, orgulhoso mesmo diante do medo fazendo jus ao orgulho de Stoneval
Darius permaneceu de cabeça baixa, absorvendo cada palavra. Raiva, dor, perda e solidão misturavam-se a uma centelha de esperança. Sabia que precisava ser forte; só o domínio do próprio Oryn e de sua mente permitiria que ele se vingasse e mudasse o mundo.
Lentamente, Luciel se retirou. O cortejo de guerreiros abriu caminho, armaduras reluzindo os símbolos dos quatro reinos. Ao fundo, o mar batia nas falésias, e no alto, Vórtex aguardava, enquanto o vento da noite sussurrava presságios de desafios e poder