A chuva torrencial despencava sobre o cânion, enquanto o rugido do tsunami avançava. A terra se abriu com os terremotos, trazendo consigo mortos, destruição e o amargo sabor do fracasso. Tudo naquele lugar despertava em Darius memórias que nunca o abandonavam. Cinco anos haviam se passado desde a queda do reino de Nerevia, e o equilíbrio do mundo começou a ruir e desastre naturais passaram a acontecer constantemente. Primeiro vieram os vários terremotos, depois muitos tsunamis, furacões e cada vez mais fortes, mas certo dia veio desastres seguidos o que devastou Vórtex. Ali, ele revivia uma a uma as razões que o mantinham de pé: a dor da perda, a culpa da impotência, a raiva pela injustiça de tudo que já aconteceu.
No alto do cânion, de frente para o mesmo mar que não protegeu seu reino e que engoliu sua moradia temporária e que levou seus colegas, Darius encontrava ali seu refúgio. Era naquele abismo azul e imenso que sua dor se transformava em força. O vento bagunçava seus fios enquanto ele refletia sobre as lições que o haviam marcado até ali. Depois do treino com os cristais, buscou o silêncio, uma pausa em meio ao caos. Agora, diante da vastidão do oceano, um arrepio percorreu-lhe a espinha. Não era medo. Era determinação.
— Sempre vem aqui, né? — Uma voz familiar interrompeu seus devaneios.
Marsalla estava ao lado dele, sorrindo de forma leve e natural. Seu cabelo longo e ruivo voava com o vento, e a postura firme revelava a confiança que agora exalava. Quem diria que a menina chorona, antes tímida e frágil, se tornaria tão segura de si?
Darius sentiu o rosto aquecer, desviando o olhar.
— Sim... gosto de refletir — respondeu, com um leve desvio de cabeça.
— Suas magias... seu Oryn é impressionante. Você deve ser um dos mais fortes da nossa geração — disse Marsalla, admirando-o discretamente.
— Tudo isso é apenas parte do que preciso dominar para alcançar meus objetivos — murmurou Darius, firme. Pensava consigo mesmo: “ Preciso reerguer meu reino, meu lar. Viver hoje para lutar amanhã.”
Ela respirou fundo, recolhendo alguns fios de cabelo atrás da orelha.
— Eu também estou ficando mais forte, mais capaz. Você é sério, nunca se interessa por nada, sempre sozinho, não demonstra emoções... Mas, sabe, acho você muito gentil, sempre protegendo os outros.
Ele permaneceu em silêncio, e ela continuou, com a voz um pouco mais baixa: — Mas acho que deveria desenvolver magias de proteção e cura, se cuidar também.
— E eu acho que você deveria fortalecer o Yang e os contra-ataques, se tornar mais forte e não depender tanto dos outros — retrucou ele, seco e direto.
— Eu não quero ferir ninguém — confessou Marsalla, corando levemente. — Só quero ser suporte. Vou proteger vocês para que vocês consigam me proteger. — Ela cruzou os braços finos sobre o peito, tentando passar firmeza.
Darius estudou a amiga por um instante, calmo, sereno e sem expressão.
— Não posso prometer que vou protegê-la sempre. Não é que eu odeio vocês, mas este treinamento, esse companheirismo, são apenas degraus que estou pisando para alcançar meus objetivos — disse, pausando, ponderando as palavras. — Acho você uma pessoa com estrutura física limitada. Então por que quer ser guerreira? Se não tem estômago para matar nem coragem para a linha de frente, não lute sem, não tem um motivo real.
Ele se levantou, afastando-se lentamente, sem esperar resposta.
— Tenho um compromisso.
Darius manteve os olhos fixos no horizonte. Mas algo nele percebeu: a presença de Marsalla, o aroma sutil e doce, a luz do sol tocando seu rosto. Um instante de percepção que não exigia desviar o olhar. Seu Yang ressoava com o vento ao redor dela, quase como se pudesse tocá-la. Sem transparecer pensamentos, ele seguiu seu rumo, apressado.
Darius seguiu para o lugar onde se sentia mais vivo. Era uma clareira escondida na floresta, cercada por árvores altas que balançavam suavemente ao vento. Flores coloridas se inclinavam sobre pequenos riachos, e ao centro, uma lagoa cristalina refletia o céu. O som da água correndo se misturava ao farfalhar das folhas, preenchendo o ar com harmonia. Ali, seu Yin se intensificava.
Ajoelhou-se à beira da lagoa, tocando a superfície. Sentiu o frio da água, a pulsação da vida correndo em cada gota. Mas, para sua surpresa, percebeu algo além: sob a pele, sob a palma da mão, a densidade firme da terra também se revelava. Um arrepio subiu pela espinha. Ele, um filho de Nerevia, nascido do reino da água, agora conseguia manipular o vento e até sentir a vibração da terra. Os mestres já haviam testado e questionado esse fenômeno, mas nenhum conseguia explicá-lo. Nem ele mesmo.
Foi nesse momento que ouviu o zunido cortando o ar. Instinto puro. Darius rolou para frente, dando um mortal e mergulhou na lagoa. Uma lâmina de vento passou rente à sua nuca, cortando alguns fios de cabelo.
— Uau... você desviou bem — a voz grave veio de trás. O homem de tapa-olho com cicatriz sorria, com aquele jeito relaxado e desafiador de quem acabou de chegar.
Sem dar tempo para reação, o mascarado socou o chão. A terra vibrou, e uma sequência de elevações avançou como aríetes surgindo do nada, empurrando pedras, raízes e até a água da lagoa contra Darius em uma onda violenta. Ele ergueu uma muralha líquida, que se desfez em rajadas, repelindo os estilhaços de pedra e madeira. Em seguida, guiou o vento num arco largo, dissipando a pressão do impacto.
— Isso pode, né? — provocou, cercando o adversário em uma cortina de água.
O mascarado riu. — Então tá bom.
Um clarão cortou a clareira quando a eletricidade atravessou o círculo aquático. A água brilhou como vidro se partindo, estalos faiscantes se espalhando pelo riacho. O choque corria em direção a Darius. Ele saltou, rodopiando no ar. Correntes de vento o mantiveram suspenso, enquanto abaixo a água fervia e borbulhava.
— Não vai ficar aí dançando igual borboleta, né? — zombou o mascarado, de braços cruzados. — Tá parecendo bailarina!
Darius franziu o cenho, mas não conteve o sorriso. Abriu caminho entre as águas, desviando o curso do riacho até alcançar solo firme.
— Cala a boca! — retrucou. — Eu juro que vou te vencer!
O mascarado ergueu a mão, voz carregada de desafio: — Então vem... mostra o que sabe no mano a mano.
Darius não hesitou. Disparou, os pés afundando na lama, punhos cerrados. O choque inicial ecoou seco: punho contra punho, energia contra energia. Em seguida, os dois se moveram como sombras em frenesi, socos desviados no limite, chutes bloqueados a meio caminho, lama e folhas voando como faíscas de uma forja.
Num estalo, o mascarado arrancou um galho e, com um giro, moldou-o numa lança tosca. A madeira ganhou uma rigidez anormal, tão densa quanto ferro antigo, sua essência transformada em arma letal. Ele mirou direto a têmpora de Darius.
O jovem curvou-se, sentindo o golpe rasgar o ar rente aos cabelos. Girou sobre os calcanhares e respondeu com uma torrente de socos, cada um envolto em rajadas de vento que faziam a atmosfera estalar.
O mascarado recuava, bloqueando como podia. O bastão vibrava, quase cedendo sob a pressão.
— Golpe baixo, hein? — ironizou Darius, ao sentir uma pedra atingir sua perna por trás.
— Primeira lição de hoje: o mundo é injusto. Aprenda a lutar nele.
Darius devolveu com outra rajada, levantando poeira, folhas e até o galho descartado. O mascarado desviou a atenção por um instante o suficiente para Darius surgir por baixo, impulsionado pelo vento, e desferir um soco certeiro. O impacto o lançou contra uma rocha.
— Eu disse que venceria! — comemorou Darius, punho erguido se virando para comemorar.
Mas sua glória durou pouco. O mascarado deslizou pelo chão, agarrou-lhe os pés e o derrubou de costas na lama.
— Não, você não venceu — sorriu. — Segunda lição: nunca vire as costas para o inimigo. Terceira: suas rajadas ainda são mal calculadas. E a quarta... precisa se unir de verdade à água. Concentre-se. Sinta o Yin e o Yang. Vou ter que repetir isso toda vez? Parece até um idiota que conheço.
— Pensei que você não conhecia muita gente. Esse cara é incrível igual a mim?
O mascarado riu de canto:
— Até a arrogância é parecida. Só que ele é mais forte. Treina desde dos 4 anos.
O sangue ferveu em Darius.“Precisava ser o mais forte.”
— Eu vou superar ele. E vou ser lembrado como seu discípulo mais forte.
Ofegante, caiu sentado na lama. O cabelo loiro colado de suor e terra caiu sobre os olhos; ele o prendeu num coque apressado.
— Parece até uma moça com esse cabelo — zombou o mascarado.
— Cala a boca... — respondeu Darius, firme. — Essa eu admito que perdi. Mas na próxima, eu venço. — Sorriu descaradamente para o mestre.
O vento soprava pela clareira, as águas respingavam ao redor, e os raios de sol refletiam nas folhas e nas poças formadas pela luta. Era um treino leve, mas desafiador; uma batalha que testava força, estratégia e confiança.
O mascarado respirou fundo. Por um momento, sua voz perdeu o tom brincalhão:
— Rapaz... você ficou muito forte até aqui. Mas não posso mais te ajudar.
Estendeu a mão para o menino que já não era mais menino. Darius aceitou e se levantou, ainda com os músculos tensos pelo combate.
— Olha... obrigado por tudo. Eu nem sei como te agradecer.
O homem sorriu de lado. A expressão de Darius se perdeu em lembranças. Sua mente voltou três anos no tempo. Ele ainda era pequeno, frágil e deslocado. Não conseguia acompanhar os colegas, tropeçava nas magias, errava cada passo, por que não conseguir controlar a raiva. Até que, em um dia fatídico, tudo mudou:
Um terremoto distante sacudiu a terra e, logo depois, uma onda gigantesca ergueu-se como um tsunami, engolindo a costa de Vórtex. Entre os arrastados estava um amigo de Nerevia ... e uma menininha de apenas sete anos que se chamava Elise, ela havia conversado com ele naquela manhã. Darius tentou alcançá-la, mas foi inútil. Ela desapareceu nas águas revoltas, e ele caiu de joelhos, chorando, incapaz de salvá-la e ainda prescisou ser salvo, pelo mascardo.
Mais uma vez, não conseguiu fazer nada. Sentiu-se impotente como no dia em que o reino caiu: reino destruído, príncipe quebrado, fraco demais para continuar.
Naquele instante, fez uma promessa a si mesmo: nunca mais seria fraco. Nunca mais choraria sem lutar. Treinaria todos os dias, se tornaria forte, e ninguém mais sofreria por causa de sua impotência.
Foi então que procurou aquele homem de presença marcante, o seu salvador.
— Ô... seu descolado, sempre com cara de quem não tem nada pra fazer... me ajuda! — pediu, sério. O mais sério que um garoto de doze anos podia soar.
— Não queria perder tempo com moleques — respondeu o rapaz, rindo baixo. — Mas vejo algo em você. Um potencial... algo sombrio no olhar.
— Sombrio? Tem certeza? — Darius franziu a testa. — O que quer dizer com isso?
O homem desviou o olhar por um instante. — Isso você vai descobrir sozinho...
— Você acha? — insistiu Darius, curioso.
— Eu tenho certeza — disse o rapaz, firme. — E posso sentir de onde virá a sua força.
De volta ao presente, Darius fitava a lagoa. Ainda carregava pesadelos do passado; sua vida parecia uma tragédia.
— Já que vou embora... poderia me dizer seu nome, mestre? — perguntou, hesitante.
— Deixa eu pensar... — o homem provocou, antes de tocar no tapa-olho. — Vou te contar algo que poucas pessoas sabem. Está vendo esse meu olho? — um brilho estranho escapou por baixo da cobertura.
— Uau! Pensei que fosse só um buraco vazio — brincou Darius, tentando disfarçar a tensão.
— Minha família... fez escolhas sombrias. Pactos que jamais deveriam ter sido feitos — disse tocando o tapa-olho com firmeza. — Por isso herdei este poder. Visões. Sonhos que me mostram horrores que ainda não aconteceram. Consigo sentir perigos futuros, forças sombrias prestes a ressurgir, crueldades que ainda virão.
Darius engoliu em seco, tentando processar o peso da revelação.
— Quem é você, afinal? Dizem que o rei de Nerevia se envolveu com o Submundo e foi morto... e você ainda está vivo.
O rapaz sorriu, como quem finalmente decidia abrir um segredo:
— Prazer... Gust Kran Willians.
— O quê?! — Darius arregalou os olhos. — Esse não é o nome da família real daqui?
— Sim. Sou o irmão mais velho da Rainha Diane Kran Willians.
— Eu nunca vi a rainha... — buscou no fundo da memória, mas realmente não se lembrava dela.
— Ela vive doente. O peso do poder recaiu sobre ela. É sempre assim: alguém recebe tudo, e outro perde tudo — disse Gust, levando a mão ao tapa-olho outra vez. — Vejo potencial em você. Um dia será capaz de decidir o futuro do mundo. Então, fique forte. Lembre-se: o que faz alguém realmente poderoso não é a raiva, nem o ódio... mas aquilo que tem a proteger. Treine hoje, para proteger amanhã.
Darius ficou em silêncio. Pensou na amiga perdida, nas palavras que seu antigo tutor César dizia: “Viver hoje para lutar amanhã”. O peso do futuro parecia esmagador... mas dentro dele, uma chama de determinação crescia, misturada com o desejo de vingança.
Gust respirou fundo:
— Meu último conselho como mestre:
—você vai precisar de toda a sua força. O mundo vai exigir isso de você. Mas eu acredito que vai conseguir. Você foi treinado por um dos mais fortes que existem. Orgulhe-se disso.
— Obrigado, mestre. Eu... vou me tornar mais forte — respondeu Darius. Olhando o horizonte, a lagoa refletia o sol, o vento soprava em seu rosto. Estava pronto para o próximo desafio.
Gust, porém, guardava um peso que não dividiu por completo. Pensou consigo mesmo enquanto via o jovem pelas costas: "Senti algo... uma aura maligna dentro de você. Por isso resolvi te treinar. Se algum dia essa força tentar dominá-lo, espero que tenha poder suficiente para usar essa escuridão em favor do mundo. Você é resultado de algo que o rei de Nerevia fez, forças que poucos compreendem. Fui eu quem revelou ao exército real os pactos proibidos do rei. Eu vi o futuro... sabia que aquilo traria ruína. O ataque que destruiu o seu lar começou com minhas palavras."
Aproximou-se e tocou o ombro de Darius.
— Você foi treinado para algo maior. Para ter o poder de corrigir o que foi quebrado.
Darius ergueu o olhar, firme, determinado:
— E se eu falhar?
Gust respondeu com confiança, apertando-lhe o ombro:
— Você não pode falhar.