A Garganta do Inferno. Só o nome já bastava para fazer a bile subir pela garganta. Subir um vulcão era, por si só, uma atrocidade inimaginável; mas subir aquele vulcão, naquele tempo de desequilíbrio, era praticamente aceitar uma sentença de morte.
Dos cinquenta e seis jovens convocados para a primeira prova, esperava-se que apenas metade regressasse com vida. E essa confirmação provou-se alguns dias depois da chegada.
Os soldados não esconderam a verdade. Ignel havia pedido auxílio porque os guardas reais, responsáveis por vigiar e conter a fúria do vulcão, estavam exaustos. Desde a queda de Nerevia e o colapso do equilíbrio, o mundo inteiro passou a sofrer: terremotos engoliam cidades, tufões varriam campos, chuvas ácidas e incessantes alagavam povoados, ventanias arrancavam árvores pela raiz.
Mas em nenhum lugar o caos era tão brutal quanto em Ignel.
Ali, o vulcão parecia sentir a fúria do mundo e rugia em resposta. Mantê-lo sob controle exigia força descomunal. Os soldados resistiam apenas pela obrigação de proteger o povo, sustentados pelo fio tênue do dever.
Durante o treinamento, os jovens foram designados para reforçar a guarda noturna. Havia um contraste perturbador: o ar gélido da noite cortava a pele, mas o chão de pedra vulcânica ardia como uma fornalha. Ao longe, o brilho alaranjado da lava serpentava como rios vivos, iluminando a escuridão.
Darius e Lior estavam responsáveis pelo patrulhamento e vigília no perímetro acima do acampamento. A crosta flamejante escondia segredos antigos, histórias que até os mais velhos evitavam contar. Por enquanto estavam apenas de vigília. O verdadeiro desafio viria depois: a prova era subir até o topo do vulcão e voltar. Se possível.
Havia um perigo ainda mais traiçoeiro: o ambiente drenava a energia dos vindos de Nerevia. O Yin, elemento da calmaria, dependia da água e do oxigênio para se sustentar. Ali, sob o calor sufocante, qualquer gotícula evaporava antes mesmo de se formar. Se não fosse a barreira dos guardas reais, estariam em apuros.
Darius, por outro lado, carregava algo diferente. O Yang, moldado pelo ímpeto e pela força, resistia melhor ao fogo eterno. Seu domínio sobre o vento era uma vantagem, talvez a única coisa que o mantinha de pé onde outros já cambaleavam. Era um Nexus nato, dominador de dois elementos, mas só seria reconhecido após a prova.
No topo da colina, ele fitava a cidade ao longe, os olhos refletindo os rios de lava. Mas a mente não estava ali. Noites de insônia arrastavam-se, povoadas de pesadelos e lembranças que não lhe davam paz. Olhar para aquelas rochas derretidas brilhantes era reviver, vez após vez, a queda de Nerevia.
Lior se aproximou em silêncio e sentou-se ao lado dele, sobre a pedra quente.
— Você está com aquela sua cara de novo — disse, cutucando-o com o cotovelo.
Darius grunhiu, sem desviar o olhar do vulcão.
— Que cara?
— Essa aí... — Lior sorriu de canto. — Cara de “eu odeio o mundo e vou matar todo mundo.”
Um som escapou da garganta de Darius, entre riso e desprezo.
— É minha cara de sempre, ué. O que posso fazer? Nasci assim.
Lior balançou a cabeça, divertido.
— Tem uma coisa curiosa.
Darius arqueou a sobrancelha, sem paciência.
— O que agora?
— O engraçado é que você olha para todo mundo desse jeito... menos pra Marsalla.
Darius se virou, surpreso.
— O quê? Eu não olho para ela desse jeito.
Lior deu uma gargalhada curta, o som soando estranho naquele lugar opressor.
— Ah, qual é! Você acha que eu não vi? Naquele dia no salão, quando aqueles idiotas de Stoneval ficaram babando por ela, você parecia prestes a incendiar o salão inteiro só com o olhar.
Darius franziu o cenho, tentando disfarçar, mas o calor subiu-lhe pelo pescoço até as bochechas.
— Não seja idiota. Estou focado em ficar mais forte. Não tenho tempo pra... isso.
— “Isso”? — Lior riu alto. — Está bom, continua se enganando. Mas eu sou seu melhor amigo, Darius. Eu sei, mesmo que você não me conte.
Darius revirou os olhos, mas um quase-sorriso escapou antes que pudesse conter. O momento de leveza durou pouco. Lior suspirou e, com o olhar mais sério, estendeu a ele um pedaço de pão duro e uma fruta seca.
O momento de leveza foi quebrado quando Lior suspirou, e o tom de brincadeira sumiu. Ele estendeu a Darius um pedaço de pão duro, acompanhado de uma fruta seca.
Darius aceitou com um aceno de cabeça.
— Você não tem dormido direito, não é mesmo? — perguntou Lior, agora sério.
— Se Zayan te pega assim, vai te pôr a limpar as latrinas por uma semana.
— Este lugar não me deixa descansar — resmungou Darius, aceitando a comida.
— É difícil mesmo, esse lugar, esse calor, me apavora. Sinto saudades de casa, do meu irmão. — Ele suspirou. — Às vezes eu olho para este lugar e lembro da nossa vila. Engraçado, não é? Parte do que destruiu tudo para nós é o lar de outras pessoas.
Darius permaneceu calado, mastigando devagar o pão seco, o olhar perdido.
— Mas ele não está aqui. Você está. — Lior suspirou a raiva deu lugar a uma melancolia profunda. — Obrigado por me salvar hoje cedo, na ponte. Sei que você se faz de durão, mas... você é o irmão que a vida me deu.
A palavra "irmão" foi o gatilho. O maxilar de Darius contraiu-se com tanta força que os dentes doeram. O pedaço de pão na sua boca transformou-se subitamente em algo podre, intragável. Uma onda de náusea subiu-lhe pela garganta, quente e amarga. Por um instante, teve a certeza de que ia vomitar ali mesmo, na frente do seu amigo ou talvez do seu futuro assassino.
— Ódio não traz ninguém de volta — conseguiu ele dizer com a voz saindo baixa e neutra, um contraste violento com a tempestade que se passava dentro dele. A ironia daquelas palavras, ditas pelo rapaz que mais sentia ódio no mundo, pesou no ar.
Lior pareceu não notar. Bateu no peito.
— Eu sei. Mas a promessa ainda está aqui. Se esse príncipe estiver vivo eu vou o encontrar, juro que vou matá-lo e vingar o nosso lar. Talvez o meu irmão estivesse errado, mas foi tudo o que me restou.
O peso daquelas palavras finais caiu sobre Darius como uma montanha. A náusea deu lugar a uma pressão aguda que lhe pulsou atrás dos olhos, fazendo a luz alaranjada do vulcão dançar e perder o foco. Amizade forjada na mentira, porém verdadeira. Ele precisava sair dali.
— Minha vez de fazer a ronda do outro lado — disse firme, enquanto se levantava antes que as pernas cedessem.
— Tente não adormecer. Se cair lá embaixo, vira torresmo — aconselhou Lior, com um tom sarcástico de sempre.
Darius conseguiu esboçar um meio sorriso por um instante. Depois, virou-se e caminhou para a escuridão, sozinho.
No meio da caminhada, tremores começaram. Darius desceu rápido até onde Lior estava, quando sentiu o Yang se fortificar.
— Está sentindo isso? — murmurou Lior, os olhos fixos no céu. — O vulcão está acordando.
O chão tremeu outra vez e um rugido subterrâneo sacudiu o ar. O vulcão cuspiu uma torrente de lava incandescente. A temperatura subiu bruscamente. A montanha vomitou rochas ardentes, e a lava começou a escorrer em mais rios furiosos, iluminando tudo em vermelho vivo.
O céu, antes limpo, escureceu com a fumaça. Soldados correram, gritando ordens. Pessoas correram em desespero, arrastando crianças, carregando idosos, caindo e levantando de novo enquanto pedras ardentes choviam sobre os telhados. Animais em pânico disparavam pelas ruas estreitas, trombando contra as pessoas, aumentando a confusão. O som era ensurdecedor: gritos, desabamentos.
Os jovens soldados foram acionados às pressas. Gritos de comando ecoaram pelo acampamento. As equipes foram divididas: uns corriam para abrir rotas de fuga, outros tentavam conter os incêndios, outros ainda evacuavam os feridos. A missão era dupla: evacuar pessoas e animais e depois ir ajudar os magos a criarem barreiras de contenção.
Lior agarrou o braço de Darius.
— Vamos, Darius! Eles vão morrer se ficarmos parados!
Mas Darius não se moveu de imediato. Do alto da colina, observava a cidade sendo engolida pelo fogo. Parte dele desejava que a lava levasse tudo. Que aquele reino desaparecesse como Nerevia desapareceu. Uma punição justa. Uma vingança sem sangue derramado por suas próprias mãos.
— Darius! — gritou Lior de novo, puxando-o. — Agora!
Por fim, Darius respirou fundo, sufocando o instinto de deixar o mundo arder. O calor já queimava sua pele quando deu o primeiro passo.
— Vamos.
E desceram juntos, mergulhando no caos, enquanto a cidade gritava em agonia.
Darius e Lior seguiam pelo caminho principal até a entrada do ponto de evacuação, que era o castelo real. Ajudavam quem estava no caminho. O ar para o amigo tornava-se rarefeito; Darius sabia que precisava deixá-lo ali e correr para o posto de contenção da lava.
Mais adiante, um estábulo de pedra estava prestes a ser engolido pela lava; os gritos e os relinchos de pânico dos cavalos presos lá dentro ecoavam como lamentos.
Na outra direção, um pouco mais distante, mas igualmente em perigo, uma família: um homem, uma mulher e três crianças pequenas, estavam presos dentro de uma casa, sob as rochas de uma muralha que ruiu. Uma criança, que havia passado por uma brecha, pedia ajuda.
— Minha família, alguém salve minha família. — A criança devia ter uns onze anos, quase a mesma idade que Darius quando perdeu tudo.
O cheiro da fumaça, os gritos, os uniformes dos soldados à volta... por um instante ele não estava em Ignel. Estava em Nerevia. O ódio subiu como uma onda de calor que o cegou.
"Eles destruíram o meu lar... e agora esperam que eu os salvem?"
— Darius?! — gritou Lior; já havia desviado da rota e tentava usar sua magia enfraquecida para mover as rochas.
"Deixem queimar." O pensamento latejou na mente de Darius, frio e venenoso.
Ignorando os gritos da família e os esforços do amigo, ele seguiu para o estábulo. Usou o vento para rasgar as portas e cortou as cordas que prendiam os animais.
— Darius, eles vão morrer! O que você está fazendo?
— Eles não são minha responsabilidade — cortou ríspido, a voz fria, quase inumana. Num gesto rápido, criou uma rajada de vento que não só guiou os cavalos do estabulo seguinte para fora como também empurrou Lior para um lugar seguro, longe do perigo imediato. — Fique fora do meu caminho, está me atrapalhando.
Ele concentrou-se nos animais e fingiu não ouvir os gritos que se tornavam mais fracos atrás de si.
Um estrondo ecoou. Rochas ergueram-se do chão como extensões da vontade de alguém. Rhazer surgiu no meio do caos, e a sua presença imponente dominou a cena. Ele não vestia um uniforme de treino. Usava uma armadura negra, de placas sobrepostas de metal fosco que pareciam beber a luz das chamas. Sobre os ombros, uma capa preta e pesada, presa por fechos de prata polida na forma de martelos de guerra, o símbolo de Stoneval. Na sua cintura, pendia a Stoneword, a lendária espada da sua família. A sua lâmina cinzenta e sem brilho parecia antiga, mas o poder que emanava dela era inegável.
Com um único gesto, Rhazer ergueu os escombros que prendiam a família e criou uma barreira de terra que desviou o fluxo principal da lava, dando-lhes uma brecha para escapar.
Quando o último cavalo assustado passou por Darius, uma mão agarrou seu ombro com força; os olhos verdes faiscavam uma raiva pura.
— Você enlouqueceu?! — gritou Rhazer, empurrando-o contra a parede de uma casa. A madeira estalou sob o impacto. — Aquelas pessoas podiam ter morrido!
Darius recuperou o equilíbrio, se mantendo ereto, a própria fúria subiu-lhe à garganta.
— E daí? — respondeu com a voz baixa e cortante.
— Cavalos?! Você escolheu cavalos em vez de crianças?! — a incredulidade na voz de Rhazer era total.
— Eu não sou um herói, Rhazer. Nunca me confunda com um. — O olhar de Darius estava gelado. — Sou racional. No meu cálculo, eles eram a escolha certa. De que adianta salvar pessoas se elas precisam desses animais para sair daqui e evacuar a cidade num futuro próximo?
A fúria de Rhazer pareceu evaporar, substituída por desprezo profundo e cortante.
— Você não é racional. Você é uma vergonha. — A voz calma de Rhazer tornou as palavras ainda mais cruéis. — Hoje você não foi um guerreiro. Foi uma criança assustada brincando com poderes que não entende. O mestre Gust estava enganado sobre você.
Aquelas palavras o incomodaram, não por achar que estava errado, mas por se sentir rebaixado diante de Rhazer.
— Calma! — Zayan surgiu rápido, se pôs entre os dois. Ele estava a vários metros, mas sentiu uma energia forte e terrível vindo da direção dos rapazes.
— Dividam-se! Lado esquerdo, Stoneval: usem a terra, abram uma vala e desviem a lava para o mar! Vórtex e Ignel, do outro lado, usem o vento para conter a lava até que os soldados de Stoneval terminem e sigam para cá. Darius, use suas habilidades e dê cobertura! Nerevia, fiquem no suporte: ajudem os feridos e conduzam todos ao palácio. O calor vai matá-los se chegarem muito perto! — emitiu as ordens enquanto empurrava Darius na direção contrária ao príncipe.
Sem esperar ordens mais diretas, Rhazer virou as costas e começou a gritar instruções, organizando outros aprendizes e criando barreiras para proteger a cidade. Acima do vilarejo, ergueu sozinho uma barreira enorme que desviou a lava e, para Darius, aquela visão o irritava mais do que qualquer soco.
Darius seguiu as ordens, juntando-se aos poucos magos de Vórtex. A tarefa deles era desesperada: usar o vento para erguer uma muralha de ar e conter o avanço de um rio de lava que ameaçava o palácio, dando tempo para a equipa de Stoneval abrir uma vala de desvio. Enquanto isso, o pessoal de Ignel evacuava as pessoas e outros tentavam controlar as chamas deixadas pela lava.
O calor era um inimigo físico. Darius viu os gémeos, Ryo e Ryn, ao seu lado, os rostos pálidos, cobertos de suor. As suas barreiras de vento tremiam, enfraquecidas pelo ar rarefeito e pela exaustão.
Até que a barreira dos gémeos cedeu. Uma onda de lava escaldante escapou, deslizando diretamente para a princesa, que não deveria estar ali. Uma cadela de estimação ladrava desesperada, tentando proteger a ninhada de filhotes. Ignes estava agachada, pegando os filhotes nos braços; um tinha ficado para trás e ela tentava alcançá-lo.
Ninguém reagiu. Ninguém exceto Darius.
Num instante, moveu-se. Com a mão esquerda, manteve a muralha de vento firme. Com a direita, não invocou água: a roubou. Forçou as raízes secas das árvores a libertarem a sua última essência, e o ar condensou-se violentamente numa esfera líquida, uma anomalia no coração do inferno.
Com um grito, a lançou.
A água não apagou a lava. Explodiu a meio caminho, criando uma bolha de vapor e água fria que envolveu Ignes, os gémeos e os animais. O choque atirou-os para longe da corrente incandescente, arrancando-os da morte certa.
Um mago que deveria estar enfraquecido pelo calor acabou de usar duas magias opostas ao mesmo tempo e de criar água a partir de pura força de vontade, roubando das plantas. O impossível tinha acabado de acontecer.
A ajuda chegou nesse momento. Os soldados de Stoneval, liderados por um Leonar boquiaberto, finalmente abriram a vala, e a lava começou a ser desviada. Os magos de Ignel contiveram os últimos focos de incêndio. O perigo imediato tinha passado.
Darius caiu de joelhos. O ar não entrava nos seus pulmões. Uma queimadura fria espalhou-se pelo peito, uma sensação que ele conhecia demasiadamente bem. Era a mesma dor do dia do barco-dragão.
"O equilíbrio", a palavra ecoou na sua mente, não como lição, mas como sentença.
Para usar o seu poder total, precisava absorver o Oryn do mundo à sua volta, mas não era fácil manter a harmonia entre o Yin e o Yang dentro de si. Ali, no coração de Ignel, o Yin era fraco, quase inexistente. Para criar aquela bolha de água, não a puxou do ambiente: arrancou de dentro de si, forçando o seu próprio Yin a manifestar-se na natureza. O fogo foi controlado, mas o ar ainda estava pesado de fumaça, e os gemidos dos feridos ecoavam ao redor.
Darius afastou-se, permanecendo em pé ao lado dos animais que havia resgatado, tentando recuperar-se do choque enquanto passava a mão pela cabeça de um cavalo.
Passos hesitaram sobre a pedra vulcânica atrás dele. Darius não se virou. Esperava que fosse Lior, mas a voz que falou era outra:
— Obrigada! — disse a princesa, com a voz mais gentil do que estava habituada.
— Não foi por você — respondeu Darius, sem olhar para ela.
— Mesmo assim... e sobre o outro dia, no salão — começou ela — eu não devia ter atacado você.
Ele olhou por cima do ombro. Ela já não tinha a postura arrogante de princesa; o rosto estava manchado de fuligem e cinzas e os braços cruzados, como se tivesse frio. Apenas acenou, e ela continuou.
— Você não é muito de conversar, né? — afirmou a princesa. — Mas só queria agradecer e explicar. Então, ouça. — Aproximou-se e se sentou a uma distância respeitosa em um tronco que resistiu a tudo.
— Minha família... nós temos uma certa intuição. É uma herança de Ignel. Quando eu olhei para você naquele salão, senti algo. Uma escuridão.
Darius enrijeceu; o ceticismo lutou contra a pontada que aquilo trouxe.
— Não era maldade, era ódio. Eu só quis testar sua força — disse ela. — E você me salvou hoje. Estamos quites por eu não te ter matado naquele dia.
— Até parece que ia conseguir — murmurou ele, num risinho sarcástico. — Reis, príncipes e princesas fazem o que querem quando querem. Eu entendo isso, mas não faça de novo.
Uma serva do palácio chamou a princesa, interrompendo-os.
— Certo. — A princesa se levantou e se foi.
Darius ficou ali, acariciando o animal, e uma pergunta invadiu a sua mente: “O que eu sou? Será que, quando chegar a hora, e eu tiver de escolher entre os meus amigos e a razão, vou optar pela vingança?”
CAP-8 O Inferno Começa Aqui
Após a erupção, todos passaram a conhecer a força do vulcão e a temer a Garganta do Inferno. Durante quatro meses, o treinamento foi brutal e incessante, e Zayan e Luciel não deram descanso. Cada dia era um combate contra o calor, contra as criaturas que escapavam das fendas e contra a própria exaustão.
Para Darius, era também uma guerra interna: aprender a silenciar a fúria antes que a própria força o consumisse.
A injustiça tornou-se um veneno. Enquanto os sobreviventes de Nerevia sangravam para se adaptar, as equipes de Stoneval e Ignel tratavam o treino como um aquecimento. Cada sorriso arrogante de Rhazer, tratado como um prodígio inalcançável, era uma faísca a mais para Darius.
— Eles se acham melhores do que nós — resmungou ele para Lior, num final de tarde, o gosto amargo da frustração em sua voz. — Mas na Garganta do Inferno veremos quem vence.
E agora, o dia do acerto de contas tinha chegado.
Os aprendizes foram reunidos diante dos portões do vulcão. O ar pesado cheirava a enxofre e a perigo iminente.
No meio da multidão de jovens tensos.
Enquanto os de Ignel usavam túnicas vermelhas imaculadas e os de Stoneval já vestiam peças de armadura pesada, Darius usava a roupa padrão dos de Vórtex: uma túnica branca de tecido resistente, já gasta e com as bainhas manchadas de cinzas. Cintos de couro cruzavam o seu peito, segurando não uma espada lendária, mas facas de arremesso e uma bolsa de suprimentos. As suas calças eram práticas, de viajante, enfiadas em botas gastas pela estrada. Com os cabelos loiros e compridos presos num coque desleixado, ele não parecia um príncipe ou um prodígio. Parecia um sobrevivente. Um lobo solitário no meio de matilhas bem cuidadas.
O mestre Zayan avançou, a sua voz grave a cortar o silêncio tenso.
— A prova começa agora. As equipes são de quatro. O objetivo é sobreviver e, se conseguirem, trazer de volta um cristal de poder do interior da montanha. Quem o fizer subirá de nível.
Ele gesticulou para a paisagem sombria à frente.
— O terreno lá dentro é um inimigo vivo. A terra é amaldiçoada pelo sangue de dragões e demônios. Árvores ardem como tochas, frutos explodem em veneno, e o solo de cinzas afunda sob vossos pés. E há criaturas. Criaturas moldadas pelo fogo, que evoluíram para caçar neste inferno.
Luciel deu um passo à frente, a presença impondo respeito.
— Vocês têm dois dias. As roupas oferecem proteção, mas se rasgarem, o calor queimará vocês vivos. Não haverá resgate. Se não voltarem, serão dados como mortos. Escolham suas equipes com sabedoria.
O silêncio caiu como uma cortina de ferro. Olhares se cruzaram, e alianças se formaram em segundos. Cada um ponderava em quem confiar para não morrer. A Garganta do Inferno não perdoava erros.
Zayan observava a paisagem sombria, os olhos pesados sob a luz vermelha do vulcão. Olhares se cruzaram; alianças se formaram. Cada um ponderava: em quem confiar? Como agir? Como sobreviver?
Lior e Leonar avançaram até Darius, confiança estampada nos rostos.
— Venha conosco, irmão. Seremos imbatíveis — disse Leonar, erguendo o queixo.
Darius desviou os olhos até Marsalla, mais ao fundo. Ela sorria nervosa, e um aperto estranho surgiu em seu peito. Perto dela, Ryo e Ryn, apenas treze anos, conversavam animados, cheios de determinação inocente.
O punho de Darius se fechou. Ele não podia simplesmente escolher a equipe mais forte e deixar Marsalla e os gêmeos à mercê do perigo. Ela já havia se oferecido para protegê-los; seria um desastre.
— Eu não posso — disse ele, firme.
— O quê? — Lior franziu o cenho — Está recusando? Como pode fazer isso com seu melhor amigo? A gente ia ser a equipe dos sonhos!
Darius manteve o olhar fixo em Ryo e Ryn.
— Eles vão participar. Melhoraram, mas ainda são crianças. Se eu não estiver com eles, é arriscado demais.
Lior suspirou, a frustração visível, mas então deu um meio sorriso, lembrando de algo.
— Você e essa sua mania de salvar todo mundo... — Lior lembrou-se de um treino caótico em Vórtex, meses atrás, quando ficou cercado por golens de treino e Darius, mesmo exausto, se jogou na frente de um golpe que o teria esmagado. — Se cuide lá, "Fantasma". Não vou 'tar lá pra cuidar de você dessa vez.
Darius deu um soco leve no ombro dele.
— Eu não preciso que me salve. Você que se cuide. Fique vivo.
— Eu não preciso que me salve! — retrucou Lior, rindo, antes de ele e Leonar saírem para procurar novas equipes.
Darius avançou e colocou a mão nos ombros de cada gêmeo.
— Vocês dois, venham comigo. Lutaremos juntos.
Marsalla, ao ver a decisão, mordeu o lábio, tentando disfarçar o alívio misturado à frustração. Outros observavam, notando o equilíbrio precário da escolha de Darius; ninguém compreendeu completamente.
Darius se aproximou de Mikkel.
— Preciso de você.
Mikkel baixou a cabeça, envergonhado.
— Eu... já combinei com meu irmão. Me perdoa, Darius — disse, apontando para a equipe atrás dele.
Nesse momento, Zayan surgiu.
— Darius, vá com a princesa.
Darius revirou os olhos.
— Com ela? Prefiro me atirar direto no vulcão.
Zayan riu, cruzando os braços.
— Prefere morrer carbonizado? Às vezes é preciso aprender a conviver até com quem é menos... compatível.
— Compatível? — Darius retrucou, rindo de lado — Ela é fogo, eu sou água. Só queria ser água fervente... para afogá-la.
Os dois se encararam, trocando farpas silenciosas que arrancaram risadas de alguns ao redor. Desde o dia em que ele a salvou, eles viviam trocando olhares provocativos.
Ignes ergueu o queixo, olhos faiscando.
— Hum... prefiro ir sozinha. Muito melhor do que com esse... bonequinho de água. Vai só me atrapalhar. Deviam me deixar dar cabo dele antes.
Darius bufou, um meio sorriso atravessando o rosto.
— Você até tentou, mas não conseguiu, né, Foguinho Malcriado? — debochou.
Ignis bufou. A sua roupa, um conjunto de couro negro prático, contrastava com a sua postura real. Cintos de couro cruzavam a sua cintura, e a capa vermelha nos seus ombros dava-lhe um ar de autoridade perigosa. Ela não parecia uma "Foguinho Malcriado"; parecia uma comandante.
Zayan bateu o punho na palma da mão.
— Então está decidido. Vão vocês quatro. E lembrem-se: precisam de alguém que conheça a montanha. Ele não deixou espaço para eles debaterem.
Ignes deu um passo à frente.
— Meu nome é Ignes. Meu sangue é feito de lava, igual a esta montanha.
— E a cabeça é de minhoca — sussurrou Darius, fazendo os gêmeos caírem na risada.
O silêncio deixou claro: a equipe estava formada, mas a tensão entre eles prometia ser tão intensa quanto os desafios que os aguardavam.
Do outro lado, Rhazer reunia sua equipe.
— Precisamos de uma curandeira. Marsalla, venha conosco.
Darius sentiu um gosto amargo na boca ao ouvir o nome dela sair dos lábios de Rhazer. Ele seguiu o olhar do príncipe e a viu ali, e por um instante o barulho do acampamento sumiu, restando apenas uma pressão incômoda atrás de seus olhos.
Ele se dirigiu rapidamente a ela.
— Você não precisa ir com ele. Pode ir com Leonar, Lior... qualquer outra equipe.
Marsalla ergueu o rosto, olhos firmes.
— O que você quer, Darius? Me afasta, me ignora, me menospreza... e depois vem roubar membros da minha equipe? Sei que me acha fraca. Mas não sou mais. Me esforcei. E vou dar tudo de mim. Se não conseguir, morrerei feliz, porque pelo menos tentei.
Darius abriu a boca, mas não encontrou palavras. Silêncio absoluto.
— Se não tem nada a dizer, me dá licença — disse Marsalla, virando-se — Melhor levar isso a sério. Eu vou te vencer.
Ignes, sorridente, pisou ao lado de Darius.
— Relaxa, bonecão. Estou com você. Nunca esqueça meu nome: Ignes. Porque sou mais quente que a lava deste vulcão.
— Ah, tá! — respondeu ele, nada entusiasmado.
Rhazer se aproximou com passos firmes.
— Como Marsalla disse: vamos ganhar. Eu vou protegê-la. Diferente de você, não menosprezo os membros da minha equipe.
Darius cerrou os punhos, controlando a língua.
— Se prepare, príncipe. Vai engolir poeira, não fumaça.
— Ponha-se no seu lugar. Nunca perderia para alguém como você — retrucou Rhazer.
Os dois se encararam até que Rhazer se afastasse com sua equipe: Rhazer, Marcel de Stoneval, Leonar e Marsalla.
Darius chamou Leonar em segredo.
— A proteja e se cuide.
As equipes se fecharam. Equipe de Darius: Darius (vento/água), Ryo e Ryn (vento), Ignes (fogo) Equipe de Lior: Lior (água/gelo), Wagner (terra), Lucas (fogo), Nara (vento) Equipe de Aron: Aron (terra), Rigel (terra), Max (água), Leopoldo (terra) Equipe de Mikkel: apenas membros do Reino de Fogo
Outras equipes completavam 56 jovens no total.
O mestre Luciel ergueu a voz, reverberando pelo campo.
— Cada equipe sairá por um portão diferente, mas todos terão a mesma missão: alcançar o topo do vulcão. Quem conseguir o cristal intacto subirá de nível automaticamente. A roupa que receberam os protegerá do calor, mas se rasgarem... serão queimados vivos. Evitem contato direto com as criaturas. Lembrem-se: apenas dois dias. Se não chegarem... considerem-se mortos.
Uma figura alta e imponente deu um passo à frente, saindo da sombra dos mestres. Era o Rei Rhanzur, sua armadura negra absorvendo a luz das tochas. O ar ficou mais frio.
Seus olhos azuis e gélidos varreram os aprendizes, ignorando-os por completo, como se fossem meras sombras no chão. Então, fixaram-se apenas em seu filho.
— Rhazer.
O jovem, que estava junto à sua equipe, endireitou as costas de imediato, a expressão impassível como uma máscara.
— Pai? O que faz aqui?
— O lorde Luciel me chamou para observar o treinamento. — A voz do rei era firme, fria, carregada de um desdém quase entediado. — Disseram que esses maribundos melhoraram bastante.
— Entendi... — respondeu Rhazer, controlando o tom. — E a mãe?
O rei hesitou por um instante, como se a pergunta o tivesse incomodado.
— Hm... ficou no castelo com Khaeser. — Um breve suspiro, sem emoção. — Chegou a insistir para vir, mas... não ajudaria em nada.
Rhazer arqueou uma sobrancelha, o olhar firme e um músculo do maxilar se contraindo. Antes que pudesse responder, o pai o interrompeu:
— Boa sorte. — A voz era cortante, desprovida de calor. — E não envergonhe o nome de Drymorth.
Rhazer manteve a postura ereta.
— Eu sei.
O rei o observou por um segundo a mais do que o necessário — um olhar que pesava mais do que mil palavras antes de se virar e seguir adiante, abandonando apenas o cheiro metálico da autoridade e do silêncio.
Rhanzur o encarou por um segundo a mais, um silêncio pesado que fez os soldados ao redor desviarem o olhar. Então, o Rei deu as costas e se retirou, a capa escura girando.
Darius olhou para Mikkel, Leonar, Marsalla e Lior: as pessoas com quem mais se importava.
— Fiquem vivos. A gente se vê daqui a pouco.
Os portões se abriram, revelando a paisagem indescritível da Garganta do Inferno. Cada equipe avançou: alguns em busca da superação, outros caminhando direto para a morte. Muitos cairiam, poucos alcançariam a glória, e raríssimos veriam o topo.