Dos cinquenta e seis jovens enviados à Garganta do Inferno, quatorze já não existiam mais. E tudo isso em apenas cinco horas. O número frio, exibido nas telas, era captado nos sensores das roupas, não deixavam dúvidas: o perigo era real, implacável. Cada respiração carregava o peso da morte iminente; cada passo podia ser o último. O inferno havia aberto a boca, e poucos sobreviveriam ao seu apetite.
Nos observatórios superiores, ocultos em plataformas blindadas, a única luz vinha do brilho trémulo das telas que refletiam nos rostos dos líderes. Ali estavam Zayan, Luciel, o Rei de Ignel (anfitrião da prova) e o próprio Rei Rhanzur, que insistira em supervisionar pessoalmente a prova. Cada ponto piscante no mapa era uma vida jovem, e a gravidade das decisões que haviam tomado pesava no ar como o calor do vulcão.
— Vocês realmente colocaram os meninos nessas trilhas… de propósito? — perguntou Zayan, a voz tingida de preocupação, os olhos fixos nos dados que piscavam freneticamente.
— Foi uma decisão tática, Mestre Zambo — respondeu Luciel, firme, cortando o ar com sua voz fria.
— Uma decisão difícil, de fato. — A voz de Rhanzur era grave e controlada, soando quase paternal, embora seus olhos frios não desgrudassem das telas. Ele se virou para Zayan, a preocupação em seu rosto parecendo genuína.
— Odeio colocar crianças inocentes em risco, Mestre Zambo, mas não podemos duvidar de nossos líderes militares. Agora começa a verdadeira batalha. É hora de descobrir quem é mais forte... o príncipe caído ou o herdeiro do trono.
— Eu acredito em ambos — continuou Zayan, estreitando os olhos nos monitores. — Foram treinados por Gust, e ele mesmo deu aval para testar suas forças.
— Incrível… como aquele garoto consegue avançar. Não sei como sobreviveu àquilo tudo — murmurou Zayan, com uma mistura de admiração e receio na voz.
Um silêncio pesado caiu sobre a sala antes da próxima pergunta.
— E se algum dia ele se voltar contra os três reinos? — indagou o Rei de Ignel, a preocupação substituindo a calma habitual.
Luciel demorou um segundo antes de responder. Quando falou, sua voz quase se tornou um sussurro gélido:
— Não sei… se isso acontecer, teremos que matá-lo. Mas até lá, continuaremos a observá-lo. Veremos até onde consegue chegar.
Rhanzur permaneceu em silêncio, apenas observando a tela onde o ponto de Darius brilhava, impassível. O silêncio que se seguiu era mais pesado que qualquer explosão. Fora daquela sala, ninguém sabia a verdade. Ninguém imaginava que Darius, aquele que fingia ser apenas mais um competidor, era o centro de expectativas, estratégias e segredos capazes de decidir o destino dos três reinos.
Do outro lado da fenda vulcânica, a equipe de Mikkel avançava em meio às ondas sufocantes de calor. A serpente de carne viva que surgira diante deles pulsava com energia própria. Suas escamas vermelhas refletiam a luz da lava, fazendo o ar vibrar com um calor quase insuportável. A cada movimento, o monstro exalava um cheiro denso de enxofre e sangue coagulado.
Mikkel ergueu as mãos, reunindo chamas intensas em suas palmas. O ar se distorceu com o calor, mas a criatura resistiu, contorcendo-se como se zombasse de seu esforço. Só quando os quatro guerreiros de fogo uniram forças em ataque combinado, a pele da serpente cedeu, explodindo em fumaça e sangue fervente.
O impacto ecoou como trovão.
Mikkel limpou o suor que escorria pelo rosto, o peito arfando.
Mais adiante, a equipe de Lior enfrentava o verdadeiro inferno. Árvores vivas, deformadas pelo calor, avançavam como pesadelo vegetal. Suas raízes se retorciam como serpentes negras, afiadas como lâminas.
Wagner saltou à frente, tentando proteger Nara. Mas as raízes foram rápidas demais. Uma delas atravessou sua roupa, rasgando a carne e deixando um rastro de queimaduras. O grito dele ecoou entre as rochas, rouco, misto de dor e pânico. O ar se encheu do cheiro nauseante de carne queimada, sangue misturado ao enxofre sufocante.
Nara tentou conjurar uma barreira de vento, mas as raízes envolveram suas pernas, e espinhos penetraram a pele, arranhando, cortando e queimando tudo ao mesmo tempo.
— Está queimando! — gritou, lágrimas misturando-se ao suor que escorria pelo rosto. Seus olhos estavam vermelhos, marcados pelo terror.
A dor que rasgava seu corpo a impedia de manter o Yin protetor. Cada respiração era como inalar fogo.
— Lior! — sua voz era um fio trêmulo. — Me ajuda! Não quero morrer! — gritou enquanto era arrastada pelas vinhas.
— Siga em frente! Lucas vai pedir ajuda! — gritou Lior, tentando engolir o próprio desespero. — Não pare até achar alguém!
Sua magia criativa de gelo era inútil contra aquelas raízes sombrias, pulsando com uma energia negra.
— Só respira, Nara! Estou indo!
Ele correu até Wagner, que já não se movia. O corpo caído exalava um cheiro insuportável de queimadura. Lior, com lágrimas escorrendo, retirou a capa do amigo com mãos trêmulas, podendo sentir o corpo ainda quente.
— Me desculpa… me desculpa… — murmurou, quase sem ar, enquanto se levantava para perseguir o rastro de Nara.
O caos da Garganta do Inferno se intensificava. Rugidos distorcidos e estalos de madeira ecoavam por todos os lados, como se a própria terra estivesse viva e faminta.
Nara era arrastada sem piedade. Suas roupas estavam em farrapos, a pele marcada por cortes e queimaduras. Ainda assim, lutava. Mesmo aos prantos, conjurava rajadas de vento, enquanto tentava manter a respiração, tentando sobreviver.
Lior seguia atrás, o desespero dando-lhe forças. Ele ouviu o grito de Nara ecoar mais à frente, abafado. Ele correu, cego pela adrenalina, quando uma sombra colossal saltou das rochas, bloqueando seu caminho. Era um Predador de Sombras, uma criatura de Nível 4, com garras de obsidiana e uma pele que parecia beber a luz do fogo.
Lior derrapou, erguendo um escudo de gelo por puro instinto. A criatura golpeou. O gelo explodiu em mil pedaços.
— Merda! — ele gritou, rolando para o lado. A criatura era rápida, muito mais forte que qualquer coisa que ele já tinha enfrentado.
Ele tentou congelar o chão, mas o solo do vulcão era quente demais. Lançou lanças de gelo, que se estilhaçaram contra a carapaça sombria.
— Se o Darius estivesse aqui... — o pensamento cruzou sua mente, amargo. — Ele já teria explodido essa coisa. Lior se sentiu pateticamente fraco.
A criatura avançou. Lior, vendo Nara desaparecer ao longe, tomou uma decisão desesperada: ele não podia vencer, mas podia distrair.
— Ei, seu pedaço de merda! Vem me pegar!
Ele correu na direção oposta à de Nara. A criatura o seguiu, zombeteira. Ele foi encurralado contra uma parede de rocha. A criatura ergueu a garra, pronta para o golpe final. No último segundo, Lior se jogou no chão, mas a garra desceu, perfurando seu torso e cravando-o contra a pedra.
O ar abandonou seus pulmões em um silvo doloroso... O Predador o observou por um segundo, e então, entediado, se dissolveu nas sombras, indo atrás de presas mais fáceis.
Enquanto isso, Aron, Rígel e os guerreiros de Stoneval avançavam. O chão vibrava sob seus pés, obedecendo às manipulações de terra que formavam passagens frágeis sobre rochas incandescentes.
— Vamos atrás dos cristais? — Melhor não arriscar — disse Rígel, firme. — Nenhum cristal vale o preço de eu ter que voltar sozinho.
— Concordo — respondeu Aron, a sua voz carregada de determinação.
O calor fazia o ar ondular como se estivesse vivo. Mas o odor: metálico, cortante, como sangue antigo queimando no fogo.
Nara mancava desesperada, arrancando raízes à força de suas canelas. Ela não ouviu mais os gritos de Lior, mas algo corria atrás dela. Sem rumo, viu uma brecha no chão e, em um impulso, saltou para dentro daquele buraco na rocha, tentando se proteger.
Ao entrar, usou magia de vento para amortecer a queda e encontrou uma caverna que a deixou sem fôlego. Cristais azuis, altos como árvores, pulsavam com uma luz fria e interna, fazendo o ar vibrar com um zumbido baixo. O clima era mais agradável, mas o cheiro era de poeira antiga e de algo mais... ozono, como o de uma tempestade prestes a rebentar. Havia presenças ocultas ali, uma energia que fez seu estômago gelar.
Nara se escondeu entre as pedras, usando magia de ilusão para camuflar-se. O som de algo se arrastando ecoou, reverberando na caverna. Não eram bestas comuns, mas algo antigo, feito de treva e brasa. A ilusão a escondia, mas a energia roçava sua pele como lâminas invisíveis.
Uma voz rouca sussurrou em língua esquecida, e os cristais começaram a rachar. Nara se encolheu entre dois cristais, prendendo o fôlego, sentindo que qualquer movimento, traria sua última respiração.
Enquanto isso, Lior, empalado e sangrando contra a rocha, já não via, não ouvia, não sentia. Sua mente vagava cinco anos para trás, para Nerevia, sua vila natal, para a tragédia que marcara sua vida para sempre. O mundo de Lior reduziu-se a flashes. O cheiro de enxofre misturou-se à memória da vila em chamas. Ele viu o rosto do irmão, o caçador, gritando suas últimas palavras antes de serem separados para sempre:
“Fique vivo, Lior. Vingue o nosso lar. Se encontrar o príncipe Eryons Draven, enfie uma estaca no coração dele. É tudo culpa do filho falso do rei!”
Eryons Draven. O nome ecoou em sua mente, um veneno que carregava há anos. Mas a imagem do príncipe odiado foi substituída por outro rosto: o de Darius, o amigo que o protegia, que o ouvia em silêncio, o irmão que a vida lhe dera. A confusão era esmagadora: como podia amar seu amigo e odiar seu inimigo, se talvez fossem a mesma pessoa?
Sentiu a vida escapar, não com medo, mas com um único e amargo arrependimento. Tantas promessas não cumpridas. Tantos sonhos agora reduzidos a cinzas. Talvez... talvez um deles ainda pudesse sobreviver.
Lior sabia que sua vida terminava. Dizem que, quando a vida passa diante dos olhos, é o final. Só restavam promessas não cumpridas: restaurar o reino com os amigos, lutar pelo futuro, ser um herói, rever o irmão. Mas não conseguira salvar ninguém; apenas fora salvo. Não deixou legado, não construiu nada, não honrou o sobrenome da família e, no fim, continuou fraco. Cada sonho interrompido, cada plano despedaçado, pesava em sua consciência, lembrando que jamais veria seus companheiros novamente.
As suas últimas memórias foram do sorriso torto de Darius, da sua lealdade silenciosa. Sentiu a boca secar, os olhos marejarem. Com seu último sopro, a chama passou para outro.
— Deixo os meus desejos com você, Darius… — sussurrou para o vento — Torne o nosso sonho realidade. Faça o que eu não pude… por nós. Por Nerevia.
E com isso, sua luz apagou-se, deixando apenas a lembrança da história de uma amizade e sacrifício que nem o fogo do inferno poderia consumir.