No pátio, o foco se voltou para a luta. Marsalla, com o corpo mais definido e o olhar endurecido, avançava contra Leonar. Empunhava um machado de lâmina dupla. Leonar tentou erguer uma barreira de terra, mas ela não hesitou. Com um movimento preciso, conjurou água em torno da defesa, transformando-a em lama antes de despedaçá-la com um golpe poderoso.
Trocaram vários golpes ela usando o machado, ele se defendendo com uma estaca até que Marsalla finalmente rompeu a defesa e o atingiu com a lateral da lâmina. Leonar caiu de joelhos, ofegante, os olhos arregalados, chocado diante da força que ela havia adquirido.
— Você não é mais a mesma... — murmurou ele, o corpo arqueado.
A voz dela soou firme, quase gélida:
— A fraqueza matou Lior. Eu não vou ser fraca nunca mais.
O chão tremeu. Primeiro, um sussurro sob os pés; depois, um rugido vindo do horizonte. As águas do oceano, antes calmas, ergueram-se em uma onda colossal, tomada por uma energia sombria que parecia viva.
Zambo desceu da plataforma num salto.
— Preparem-se! — rugiu para os aprendizes.
As paredes do salão de treinamento estremeceram, e o som metálico das armas cessou por um instante.
Gust, do alto da muralha, sentiu um gelo percorrer sua espinha ao ver a criatura colossal emergir da maré sombria.
— Que merda... Não é possível — murmurou para Luciel, ao seu lado.
O chão tremeu novamente, desta vez com mais força, fazendo as colunas de pedra vibrarem.
Luciel apertou o parapeito de pedra com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Quando a criatura finalmente rompeu a superfície, o silêncio do mundo se quebrou em um rugido gutural.
A criatura que emergiu da maré — o Abissal — era semelhante a um polvo, mas de proporções titânicas. Seus tentáculos, grossos como torres antigas, chicoteavam o ar e se chocavam contra as falésias, arrancando pedaços inteiros de rocha que despencavam no mar com estrondos sucessivos. Um impacto ecoou do castelo.
Gust olhou assustado, vendo a poeira da destruição subir em turbilhões no horizonte.
— Algo aconteceu lá! — gritou, sem hesitar.
— Vai! — respondeu Luciel. — A gente cuida desse monstro, não é, Zambo?
— Claro! — um sorriso selvagem curvou os lábios dele. — Estava mesmo precisando me alongar. É bom que consiga me acompanhar.
Num piscar de olhos, o ar ao redor de Zambo começou a vibrar. Faíscas estalaram no chão, riscando o ar como serpentes de luz. As veias em seus braços brilharam em azul elétrico, e o vento girou em espirais, levantando poeira e fragmentos incandescentes. Um trovão ensurdecedor explodiu quando seu corpo foi tomado por correntes elétricas, que dançavam ao redor dele como uma armadura viva.
Gust partiu como um relâmpago em direção ao palácio. Ao atravessar o portão principal, o impacto da cena o atingiu como um golpe brutal. Colunas em ruínas rangiam sob o peso da destruição, e o salão ardia em pequenas chamas. No centro, ajoelhada, estava a princesa Diana magra, pálida, com os longos cabelos escuros caindo sobre o rosto. O vestido branco estava rasgado e manchado de um vermelho vivo que escorria de um corte profundo em seu braço. Seus lábios tremiam, e ela ofegava, lutando para puxar o ar em meio à dor.
Acima dela, o Arauto pairava, a armadura feita de fragmentos de osso e cristal. Um cajado firme nas mãos; olhos imóveis, observando cada movimento.
Um calor subiu pela nuca de Gust, e um rosnado baixo escapou de sua garganta. Seu olho, por baixo do tapa-olho, brilhou, enquanto o outro se estreitou. O poder ao redor dele, antes contido, agora faiscava de forma selvagem e perigosa, refletindo na cicatriz que cortava seu rosto e nos fios negros caindo sobre a testa. Cada passo rachava o chão; o ar zumbia pesado, como se mil trovões respirassem juntos.
— Sai de perto da minha irmã, seu desgraçado! — rugiu.
Num instante, avançou e chutou o Arauto com o pé imbuído de ar. O inimigo ergueu o cajado para se proteger, recuando apenas alguns passos.
Sem perder tempo, Gust segurou Diana pelos braços, afastando-a do perigo. A raiva queimava em cada músculo de seu corpo. Passou a mão delicadamente pelo rosto da irmã.
— Você está bem?
Ela apenas acenou timidamente.
— Desculpa por não estar aqui — murmurou ele, abraçando-a rapidamente.
Faíscas douradas percorreram suas mãos, e o ar ao redor se retorceu como um tecido sendo torcido. Com controle quase sobrenatural, combinou os elementos: ar, para ganhar velocidade e impulso; fogo, para intensificar os golpes; e água, para criar uma barreira de proteção contra o vácuo.
Avançou.
Atacava e defendia em um ritmo feroz. O Arauto desviava com agilidade sobre-humana; seus movimentos eram como pinceladas de sombras dançando entre relâmpagos e labaredas.
Gust sabia que não podia liberar toda a sua força. Sua irmã estava a poucos metros. Cada golpe era medido, cada descarga, controlada. Tentava amortecer a energia sombria do inimigo, redirecionando-a para o cajado na intenção de quebrá-lo.
Mas nada parecia funcionar. Nenhum golpe elemental surtia efeito. Fogo, ar, água, terra — tudo era dissipado, como se o Arauto fosse imune ao próprio mundo. Apenas o relâmpago puro, sua essência mais selvagem, parecia causar-lhe dor.
Gust respirou fundo, o corpo vibrando com energia reprimida. Precisava de uma abertura — um único instante para tirar a irmã dali antes que fosse tarde demais.
Criaturas surgiam do chão sob as ordens do Arauto: pequenos enxames deformados, semelhantes a insetos de sombras — Entes da Noite de Nível 5. Avançavam, mas Gust criou uma armadura de ar que os mantinha afastados. Tentava atingir o Arauto com escombros e pilares de terra, já que os elementos não funcionavam.
O som do próprio coração martelava em seus ouvidos, abafando o rugido da batalha do lado de fora. Seus pulmões ardiam a cada lufada de ar. Ele fechou os olhos por um único instante, a imagem do rosto aterrorizado da irmã atravessando sua mente. Ao abri-los novamente, o medo deu lugar a uma determinação fria como obsidiana.
Reuniu toda a força. Num movimento brusco, abriu uma cratera enorme sob os pés do Arauto e a fechou rapidamente, criando instabilidade e espaço suficiente para tirar Diana dali.
Ao alcançar uma brecha no pátio, segurou-a nos braços antes que seu corpo frágil se chocasse com o chão. Usou o ar para impulsioná-los para longe, aumentando a distância entre eles.
Diana estava mais pálida que o normal, exausta, agarrando-se a ele com força. Cada respiração saía em pequenos sopros trêmulos, acompanhando o corpo que Gust carregava com cuidado, sem perder o ritmo frenético.
O caminho até o portão secundário do castelo estava bloqueado por destroços. Sem hesitar, Gust mesclou terra e água, erguendo pilares de pedra que se projetaram do solo como trampolins improvisados. Com Diana nos braços, saltou de um para outro, o corpo rodopiando no ar enquanto ganhava segundos preciosos.
As botas esmagavam lascas de pedra a cada aterrissagem, levantando nuvens de poeira que se misturavam à fumaça e às chamas. O cheiro de cinza e sangue impregnava o ar; os Entes da Noite já haviam passado por ali, deixando rastros de destruição por todo o reino.
Por fim, alcançaram a entrada da caverna onde costumavam treinar com Darius. Gust pousou Diana no chão com cuidado. O corpo dela ainda tremia, os músculos tensos.
— Fica aqui — disse ele, firme, ainda ofegante. — Não sai daqui por nada.
Diana assentiu, os olhos marejados.
— Eu volto já — prometeu.
Ninguém sabia ao certo o que eram os Arautos do Abismo. As Crônicas do Despertar os chamavam vagamente de generais do caos ou mensageiros da ruína, mas Gust sabia que a verdade era mais antiga — e muito mais obscura.
O conhecimento popular afirmava que essas criaturas eram fragmentos sencientes do Vácuo Eterno, a entidade primordial, silenciosa e faminta que engolira a luz antes da fundação dos Quatro Reinos. O que os sábios concordavam, com base em relatos de batalha, era que cada Arauto carregava um Coração do Vácuo: um núcleo de energia negativa que se alimentava do Oryn e distorcia a vida ao redor.
Quando um Arauto tocava a terra, o Oryn se corrompia. O que era belo tornava-se grotesco.
Plantas murchavam e se erguiam novamente como espinhos vivos, gerando os Vácuos do Abismo.
Animais dissolviam-se em sombras retorcidas, dando origem às Extensões do Abismo.
Criaturas tocadas por essa energia não morriam — transformavam-se em servos de olhos brancos e vazios: as Sombras do Vácuo, guiadas unicamente pela vontade de seu mestre.
O perigo era medido por uma escala que Darius e Gust haviam criptografado a partir de textos antigos, classificando-os do Nível 5 (os mais fracos) até o Nível 2 — os Arautos de Cajado, como aquele que Gust enfrentara.
O que se sabia, porém, era que, a cada vida consumida e a cada gota de sangue derramada, o Vácuo ganhava mais forma no mundo dos vivos.
Gust olhou para a entrada do castelo. O Abissal, um monstro marinho colossal, e o Arauto de Cajado de Nível 2 representavam uma ameaça que os relatórios sequer previam. Apesar do que diziam as Crônicas do despertar, o Vácuo não estava adormecido.
Ele estava acordado.
E Gust sabia exatamente por quê.