O caos reinava em Vórtex. O Abissal avançava com seus tentáculos titânicos, destruindo falésias e cabanas como se fossem feitas de areia. Pessoas corriam para a floresta, gritando e tropeçando sobre destroços, enquanto criaturas menores — os Vácuos e as Extensões do Abismo — brotavam do chão e do mar corrompido, caçando tudo o que se movia.
Zambo e Luciel não hesitaram. Eles se moviam em perfeita sincronia, uma tempestade de ordem em meio ao pandemônio. A eletricidade já crepitava ao redor de Zambo, envolvendo-o em uma aura dourada de pura energia. Luciel, com a espada em punho, usava o vento para desviar destroços e abrir um caminho seguro para os civis em fuga.
— Zambo, a cabeça é minha! Contenha os tentáculos!
— Pode deixar! — Zambo sorriu, um brilho selvagem nos olhos.
Enquanto Luciel avançava, Zambo se tornou um borrão de movimento. Ele desviava dos tentáculos colossais, seus socos e chutes carregados de eletricidade explodindo contra a pele sombria da criatura, forçando-a a recuar. Em um instante, um tentáculo mais rápido o surpreendeu. A ponta negra e afiada tocou seu braço. Não houve impacto, mas Zambo gritou, e o corpo se contorceu. A aura dourada ao redor de seu braço vacilou, e a pele por baixo do uniforme tornou-se cinzenta e cadavérica, a energia vital sendo visivelmente sugada.
— Não deixem que eles toquem em vocês! — a voz dele saiu rouca, cheia de dor, mas ele não parou. Continuou lançando faíscas de eletricidade para manter as criaturas menores longe dos civis. — Evacuem! Tirem todos daqui!
Do alto, Luciel viu o ferimento de Zambo e entendeu. Sua mente buscou as mensagens de Darius: as fraquezas… Relâmpago, fogo aprimorado e um tipo de lâmina que o garoto não soube explicar. Força bruta era inútil. Era preciso um ataque concentrado.
Ele parou, flutuando no ar. As nuvens escuras acima do Abissal começaram a girar, obedecendo ao seu comando. Ele ergueu a espada, que brilhou com uma luz própria, e reuniu toda a energia ao seu redor, transformando a lâmina em um para-raios de poder. Com um grito, liberou o ataque. Não foi um corte; foi uma lança de pura energia que desceu dos céus e perfurou as costas do Abissal.
Um rugido de agonia fez o monstro tremer. Zambo, no chão, exclamou, incrédulo:
— Sabia que estavam aí!
A ferida nas costas da criatura não jorrou sangue. Ela se abriu como uma boca grotesca, e uma luz doentia e púrpura pulsou de dentro. Então, rasgando seu caminho para fora em meio a um jorro de lodo negro, dois Arautos emergiram. Eram Arautos de Nível 2, empunhando cajados feitos de ossos retorcidos — o que explicava o enxame de criaturas escuras, parecidas com vespas de obsidiana. Muitas delas saíram da ferida e subiram aos céus.
— Que merda! — Luciel praguejou, aterrissando ao lado de Zambo. — O desgraçado era uma colmeia!
Ele se virou para os civis que ainda não haviam escapado.
— Fujam! Corram para a floresta! Agora!
Ouvindo a ordem, Marsalla ajudava um grupo de pescadores, enquanto Leonar e os outros conduziam o caminho para a floresta. As planícies de Vórtex estavam sendo destruídas pelos tentáculos do Abissal, que chicoteavam o ar com fúria, destruindo tudo o que tocavam. O chão tremeu, rachando como se o próprio mundo tentasse se afastar da criatura. Um velho, desequilibrado pelo abalo, tropeçou e caiu do penhasco no oceano revolto.
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Marsalla não hesitou. Em vez de correr, seus pés deixaram a rocha, e a frase ecoou em sua mente: “Fraca, não. Nunca mais.”
Ela saltou.
O vento chicoteou seu rosto. Em um só movimento, ela arremessou o machado. A lâmina dupla se cravou na parede de pedra com um impacto seco. Usando o cabo como pivô, ela se lançou mais fundo no abismo.
A água do ar se condensou em sua mão, formando um chicote líquido que se estendeu e se enrolou na cintura do velho segundos antes de ele atingir as ondas. A força do impacto quase a arrastou junto. Os músculos de seu braço gritaram em protesto, e a rocha onde o machado estava preso rangeu perigosamente.
Mas Marsalla segurou firme.
Com um puxão poderoso, o corpo do homem subiu, girando no ar. Em seguida, ela lançou outra corrente de água em direção ao machado preso, usando-a como corda para subir. A corrente estalava como aço tensionado, o peso do velho quase rompendo o feitiço.
Em um mundo onde o Oryn enfraquecia a cada dia, a magia de água pura já não era suficiente. Por isso, Marsalla passou o último ano em um treinamento secreto, mergulhando em seu conhecimento de cura e na própria essência da vida.
Ela aprendeu o que nenhum outro mago de água ousaria: com um controle molecular preciso, infundia a água com polímeros de seu próprio sangue, transformando-a em Água Viva — uma matéria ao mesmo tempo líquida, incrivelmente resistente e elástica, que respondia aos seus comandos como uma extensão de seu próprio corpo. O custo era drenar sua própria força vital a cada uso, mas o resultado era um poder que ninguém mais no mundo conseguia replicar.
Um tentáculo colossal desceu em um golpe devastador, partindo a rocha e arrancando o machado da parede. O ponto de apoio cedeu.
Marsalla caiu, mergulhando no vazio.
Mas, antes que o abismo a engolisse, ela ergueu a mão. O machado respondeu ao seu chamado em um arco reluzente, cortando o tentáculo que caía sobre ela ao meio, com um som úmido e grotesco, e fixando-se logo em seguida na parede abaixo como um prego. O pedaço da criatura caiu no mar, espalhando espuma negra.
Com reflexo e pura determinação, ela usou sua Água Viva e conseguiu pegar impulso para cima, em um voo instável e desesperado.
Marsalla aterrissou de joelhos, com o velho seguro em seus braços.
— Para a floresta! AGORA! — sua voz ecoou como um trovão.
O monstro se contorcia. Marsalla se pôs de pé, girando o machado entre os dedos, com o metal ainda gotejando sangue escuro da criatura.
— Pode vir… — murmurou, o olhar duro, inabalável.
O tentáculo desceu novamente, rápido como um raio. Marsalla rolou para o lado, cortando-o em pleno movimento. Outro veio, e ela saltou sobre ele, usando sua superfície oleosa como rampa, subindo com o machado erguido. As gotas de água se ergueram com ela, formando uma espiral azulada ao redor de seu corpo.
O golpe final caiu como uma sentença. O machado brilhou como fogo líquido ao atingir o terceiro tentáculo. O grito do Abissal fez o chão estremecer.
— Corram! CORRAM! — bradou mais uma vez, a voz rouca pelo esforço.
Seu corpo começava a pesar, mas ela se manteve firme. A menina gentil que um dia chorou pela morte de Lior — a garota que detestava ferir e só queria ser um suporte — já havia morrido. Ela não podia trazer Lior de volta, mas não deixaria, jamais, que Darius sentisse aquele tipo de perda novamente. Por ele, por todos eles, ela se tornaria a arma que precisava ser: a tempestade que rugia para proteger quem amava.
Enquanto os Grão-Mestres continham a fúria inicial do Abissal, a verdadeira batalha pela sobrevivência explodia nas ruas do vilarejo.
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Perto da floresta, o chão do antigo jardim principal se contorceu. O verde havia desaparecido; em seu lugar, Vácuos do Abismo brotavam da terra enegrecida, seus espinhos e gavinhas sombrias se esticando como serpentes famintas na direção de um grupo de crianças que corria, em pânico, rumo à floresta.
Antes que as sombras as alcançassem, Leonar se lançou na frente delas. O impacto de seu corpo no chão fez o solo estremecer. Ele cravou as mãos na terra, os dedos afundando como se buscassem o coração do próprio reino.
— Terra, me ouça! — rugiu.
Um grito de esforço cortou o ar. As veias em seu pescoço saltaram, e o corpo inteiro tremeu sob o peso da magia. Então, o chão explodiu em energia bruta: uma muralha de pedra maciça se ergueu, separando as crianças das criaturas que vinham em sua direção. No momento certo, Leonar fez gigantes espinhos de pedra surgirem, destruindo os Vácuos que se chocavam contra a muralha.
Os Vácuos chicoteavam contra a rocha, arranhando e chiando, mas Leonar não recuou. O suor escorria por seu rosto, ardendo nos olhos, e mesmo assim ele não piscou. Um único pensamento martelava em sua mente: “Eles não vão passar por mim.”
— Continuem correndo! — gritou ao olhar para trás e perceber os civis paralisados de medo.
Ele avançou, tornando-se a vanguarda da evacuação. A terra o seguia como um escudo vivo. Leonar havia se tornado a própria extensão de seu elemento: firme, inabalável e implacável.
Guiados por Leonar, os gêmeos Ryn e Ryo escoltavam o último grupo de civis para a segurança da floresta. O som seco da madeira se partindo ecoava, e eles usavam o vento para afastar os destroços que choviam ao redor. Mas, ao chegarem à ponte que levava ao caminho seguro, o coração de todos afundou: a estrutura havia desabado.
— Estamos presos! — gritou um dos civis, em pânico.
Leonar se postou à beira do penhasco, pensando no que fazer, enquanto vários civis se amontoavam atrás dele. Do céu, o Enxame Negro descia como um furacão de morte.
— Ryo, Ryn! Alguma ideia? — perguntou Leonar.
Os irmãos trocaram um único olhar. Nenhuma palavra. Só a decisão.
— Leonar! — gritou Ryo, apontando para as árvores que o próprio Leonar havia derrubado antes. — A gente sustenta a ponte! Você passa todo mundo! Rápido!
Antes que Leonar pudesse protestar, os dois correram para a beira do abismo. Ryo se posicionou de um lado, Ryn do outro. Eles ergueram as mãos, e o vento atendeu ao chamado. Com um esforço que fez seus braços tremerem, arrancaram os troncos maciços do chão e, guiando-os com correntes de ar, começaram a alinhá-los sobre o precipício, formando uma passarela rústica e instável.
— Vamos! Vão, vão, vão! — Leonar gritava, empurrando os civis para a ponte improvisada. — Não olhem para baixo! Continuem se movendo!
Ao seu lado, uma jovem de cabelos curtos e armadura de Stoneval se posicionou. Era Nike, sua prima.
— Eu dou cobertura! — ela gritou, cravando os pés no chão.
Quando o Enxame Negro mergulhou para o ataque, Nike bateu as mãos na terra, e uma muralha de pedra se ergueu, bloqueando a primeira onda de criaturas.
— Ainda não é o bastante! — rosnou Leonar, correndo para o lado dela.
Juntos, unindo seus poderes, ergueram uma muralha colossal de pedra e terra curvada, tão alta que bloqueou a visão do céu, criando um túnel seguro para a travessia.
Na beira do abismo, os gêmeos sofriam. O esforço para manter toneladas de madeira suspensas cobrava seu preço. O suor escorria pelo rosto de Ryo, os dentes cerrados. Ryn, o mais novo, estava pálido, o corpo tremendo violentamente, e um fio de sangue escorria de seu nariz. O Oryn ao redor deles era fraco, e eles estavam queimando as próprias reservas de yang.
— Rápido! — Leonar gritava, empurrando a última pessoa pela ponte.
Ele se virou e correu de volta, puxando Nike pelo braço, também exausta.
— Agora vocês!
— Vai, irmão! — gritou Ryn, a voz fraca.
Ryo ajudou Leonar e Nike a passarem e se virou para o irmão.
— Ryn! Vamos!
Mas Ryn não se movia. Seus joelhos cederam. O pilar de vento vacilou, fazendo um lado da ponte tremer perigosamente. Ele respirou fundo e correu. As madeiras começaram a desmoronar atrás dele. Ele escorregou, e uma das pernas falhou devido ao cansaço.
— Pula! — Ryo bradou.
Mesmo sem equilíbrio, Ryn pulou, fazendo um último esforço, mas o corpo exausto não alcançou a borda.
No último segundo Ryo se jogou no chão, largando a sustentação da ponte e agarrando a mão do irmão. Os troncos despencaram no rio com um estrondo. Com toda a força que lhe restava, ele puxou Ryn para a segurança.
Ryn caiu no chão, ofegante, quase inconsciente. Ryo se ajoelhou ao lado dele, o próprio corpo no limite, e colocou a mão em seu ombro.
— Nunca mais vamos fazer isso de novo! É perigoso!
— Obrigado, irmão…
— E… gente? Cadê aquela menina que sempre anda com vocês? — perguntou Nike.
— Merda. A Marsalla — disse Leonar, a percepção atingindo-o com força.
No meio da correria, ninguém havia notado. Ela não estava entre eles. Provavelmente ainda estava nas falésias. E, de acordo com as visões de Gust, toda aquela parte do reino seria destruída e um dos Grão-Mestres morreria