Na linha de frente, Zambo e Luciel se moviam como uma tempestade controlada em meio ao caos. À direita, Luciel avançava não com pressa, mas com uma autoridade que fazia a própria terra estremecer sob seus pés. À esquerda, Zambo era um borrão de energia, a eletricidade dançando sobre sua pele e faiscando entre os dedos.
Os dois Arautos do Abismo, recém-nascidos do corpo do Abissal, ergueram seus cajados de osso, exalando um chiado de energia sombria que distorcia o ar ao redor.
— Luciel, vamos separá-los! — gritou Zambo.
Luciel apenas assentiu e bateu o pé no chão com força. O solo respondeu com um rugido profundo. Paredes de pedra e terra emergiram em espirais, dividindo o campo e isolando os dois Arautos, forçando duelos individuais.
O primeiro avançou contra Zambo. Ele rugiu em resposta, e o som foi engolido por um trovão. Seus punhos se cobriram de relâmpagos dourados e chamas alaranjadas, e cada golpe era uma explosão. O chão rachava, o ar ardia. O Arauto se defendia com o cajado, absorvendo parte da energia, mas a força bruta de Zambo o fazia recuar passo a passo.
*******************************************************
Do outro lado, Luciel enfrentava o segundo Arauto com a calma fria de um predador. Sua espada riscou o ar, uma nota metálica perfeita, e o vento atendeu ao seu chamado. Lâminas invisíveis cortavam os ataques de corrupção sombria, enquanto ele usava o terreno a seu favor, erguendo estalagmites e redemoinhos de poeira para confundir o inimigo. Cada movimento era cálculo, estratégia e precisão.
Foi então que ele percebeu. Os cajados pulsavam, soltando energia. Cada golpe que recebiam vibrava como um coração vivo.
— Zambo! Os cajados! — gritou Luciel. — Precisamos destruí-los!
Zambo respondeu apenas com um aceno de cabeça. Ele ergueu os braços, e faíscas douradas começaram a percorrer seus músculos, subindo até o peito. O ar ficou pesado. As nuvens acima se abriram, atraídas por ele. Faíscas se transformaram em correntes. Correntes em trovões.
Luciel entendeu o plano sem precisar de palavras. Ele fechou os olhos, concentrou o Oryn e fez o vento girar, canalizando o fluxo da tempestade que Zambo criava. Um feixe colossal de relâmpago desceu dos céus com o rugido de mil dragões, atingindo o cajado do primeiro Arauto em cheio.
A explosão foi tão violenta que o som desapareceu por um instante. Quando a poeira baixou, o Arauto começou a se desfazer em cinzas.
— Agora, Zambo! — gritou Luciel.
O segundo Arauto tentou reagir, mas Zambo já estava em movimento. Ele se lançou à frente, com o corpo virando puro brilho e fúria. Sumiu em meio às faíscas e reapareceu atrás da criatura. Sua mão atravessou o peito do monstro, agarrando o cajado por dentro.
— Isso é pelo meu povo, seu desgraçado! — rugiu.
O som do cajado se partindo ecoou como vidro estilhaçando. Um clarão branco envolveu o campo. O Arauto gritou, dissolvendo-se em energia.
Mesmo morrendo, o primeiro Arauto, reduzido à metade, lançou a ponta quebrada de seu cajado como uma lança. Luciel apenas viu o rastro. Zambo, ainda ofegante, não teve tempo de desviar. A lança de osso perfurou sua barriga, atravessando-o de lado a lado.
Zambo cambaleou, e o sangue morno escorreu entre os dedos da mão que pressionava a ferida. O brilho dourado de sua aura foi se apagando aos poucos.
— Zambo! — Luciel correu até o amigo.
O vento respondeu ao seu ódio. Ele ergueu a mão, e o que restava da forma do último Arauto foi pulverizado em pleno ar, como se uma mão invisível o tivesse fechado. O som seco de ossos e armadura sendo esmagados ecoou pelo campo.
Luciel correu e se ajoelhou ao lado do amigo.
— Aguenta firme, seu idiota... não ouse morrer agora!
A poeira assentou. O trovão cessou. Dois Arautos haviam caído, mas a vitória nunca pareceu tão amarga. Luciel olhou para o horizonte, de onde o rugido do Abissal ainda ecoava, e a fúria em seu rosto deu lugar ao desespero.
— Dois a menos... — murmurou. — Falta o que está com o Gust e esse monstrengo aí.
O polvo gigante recuava, preparando-se para uma nova investida contra as rochas. Seus tentáculos rasgavam o ar com fúria. Aqueles que Marsalla havia cortado não voltaram a crescer, mas a criatura continuava debatendo-se de forma selvagem.
Os Grão-Mestres não podiam recuar; se o monstro continuasse, destruiria toda a encosta.
Luciel, porém, estava dividido. Seu amigo Gust permanecia no castelo, junto da rainha e de um Arauto, e ele precisava ajudá-los. Mas outro de seus companheiros jazia ferido ali mesmo.
— Mestre Zambo! Posso ajudar! — a voz de Marsalla cortou o ar.
Ela, Alexander e Maya eram os únicos que restavam naquela parte da falésia, uma pequena ilha de resistência contra os tentáculos do Abissal, que estavam prestes a açoitar a costa novamente. Mas, fora o machado de Marsalla, que arrancava pedaços da criatura a cada golpe, os ataques deles mal faziam cócegas, e o monstro se regenerava.
— Ei, garota! Então venha aqui! — pediu Luciel, amparando o corpo pesado de Zambo.
Marsalla assentiu.
O ferimento de Zambo era feio: um buraco profundo e pulsante na lateral de seu abdômen. A pele ao redor estava cinzenta, cadavérica, igual à de seu braço.
— Maya, Alexander, cobertura! — ela ordenou.
Maya, a jovem de cabelos loiros e olhar focado, discípula de Marsalla, não hesitou. Sacou duas adagas e se postou à frente deles, os olhos varrendo o campo de batalha, pronta para interceptar qualquer criatura menor que se aproximasse. Alexander, o outro curandeiro em treinamento, ajoelhou-se ao lado de Marsalla, suas mãos já brilhando com uma luz azul suave.
— O que eu faço? — perguntou, a voz trêmula, mas determinada.
— Mantenha a pressão de Oryn no ferimento. Não deixe a energia dele vazar! — ordenou Marsalla, enquanto suas próprias mãos mergulhavam na ferida, compartilhando um pouco de seu sangue com ele para ajudar na cicatrização e na produção de moléculas.
Ela sentiu o corpo de Zambo quente, febril, e a energia vital dele escapando como areia por entre os dedos. Aquele homem era seu mestre. Ela não o perderia.
Enquanto Marsalla prestava os primeiros socorros, Luciel se voltou para o monstro. Seus ataques de vento cortavam o ar, mas o corpo do Abissal se regenerava quase instantaneamente. Ele precisava ganhar tempo.
Então sentiu o ar mudar. Uma energia densa, pesada, familiar.
Gust.
E estava em apuros.
— Zambo, o Gust precisa de nós! — avisou Luciel, desviando de um golpe dos tentáculos.
Zambo tentou se levantar, apoiando-se no ombro de Marsalla, a expressão marcada pela dor.
— Vai! — rugiu, a voz rouca. — Eu acabo com ele num piscar de olhos.
Marsalla, pálida e com o suor frio escorrendo pela testa, empurrou-o de volta para o chão.
— Você não vai a lugar nenhum! — respondeu, firme.
Luciel apertou o punho, sentindo a frustração.
— Merda!!
Zambo riu, um som fraco e doloroso.
— Relaxa... eu sou um Grão-Mestre.
Ele olhou para Marsalla e depois para os dois jovens que os protegiam.
— Vocês três, sigam o Luciel! Vão para o palácio... talvez precisem de vocês lá. A rainha está lá, e a chave também.
— Maya, vai você com o mestre Luciel. Alexander, por favor, cuide do mestre aqui. Já fiz os primeiros socorros e acho que já sei o que fazer para matar aquela coisa.
Maya e Alexander trocaram um olhar assustado, mas assentiram. Luciel se preparou para partir e levou consigo Maya.
A situação era complicada. Se nem três Grão-Mestres estavam conseguindo conter aquilo... quem conseguiria?