Capítulo 2:
"O Assassino de Maldições"
Arco 1: Capítulo 2
POV: "???"
A noite da Zona Infernal cantava sua canção silenciosa — o assobio do vento através das ruínas, o rangido distante de estruturas ainda se movendo, o cheiro de morte que permeava cada partícula de ar. O lugar sujo, os detritos, a poeira que nunca se assentava completamente. E ali, diante de Luna, a criatura.
Ela estava se sentindo melhor agora. O poder que consumira estava fazendo efeito — não o suficiente para se levantar e correr, mas o suficiente para rastejar. Seus braços respondiam. Suas pernas também.
Mas seus olhos não deixavam a silhueta de Empty.
Ela observou por minutos. Depois por horas. Seu corpo pedia descanso, sua mente gritava por sono, mas algo a mantinha alerta — uma necessidade urgente e crescente que pulsava dentro dela como um segundo coração.
Preciso ver.
A decisão veio antes que ela pudesse pensar. Ela se moveu como uma sombra, rastejando pelo chão empoeirado com a lentidão de quem sabe que qualquer som pode significar a morte. Seu coração batia tão alto em seus ouvidos que parecia preencher todo o espaço da casa.
O ar ficou frio enquanto ela se aproximava.
De joelhos agora, a centímetros da figura imóvel, Luna hesitou. Suas mãos tremiam no ar, pairando sobre o contorno frio da máscara.
Isso é loucura.
Eu sei.
Ele pode me matar.
Eu sei.
Então por que estou fazendo isso?
A pergunta ficou sem resposta. Com a respiração suspensa, seus dedos se fecharam ao redor da máscara.
Ela puxou.
O metal se separou do rosto com um som suave, quase delicado.
Luna não gritou.
O horror foi silencioso. Absoluto.
Suas pupilas se contraíram até virar pontos. O que ela viu sob a armadura enviou todo o seu corpo em choque — suor frio brotou instantaneamente em sua testa, e seus pulmões travaram, recusando-se a inspirar o ar que agora a tocava.
Empty acordou num instante.
O movimento foi tão rápido que Luna não o viu — apenas sentiu o ar se deslocar. A espada materializou-se no escuro com um som metálico agudo, e a máscara foi arrancada de suas mãos num puxão violento. A lâmina apontou para seu rosto antes que ela pudesse piscar.
A ponta da espada parou a uma polegada de seu pescoço.
Luna tremia. Seu corpo inteiro vibrava com o medo que tomava cada fibra, cada músculo, cada pensamento. Mas seus olhos — aqueles olhos verdes que já tinham visto tanto na Zona Infernal — permaneceram fixos no rosto de Empty.
Ela não desviou o olhar.
— NÃO...
A voz de Raphadun cortou o silêncio. Ele se levantara, desesperado, seus olhos arregalados de terror diante da cena.
— Não faça nada...
Ele se aproximou lentamente, mãos estendidas num gesto de súplica, cada passo uma prece silenciosa.
Empty começou a olhar para ele.
Raphadun agiu por instinto. Sua energia azulada envolveu Luna num piscar de olhos, puxando-a para longe da lâmina, trazendo-a para seu lado num salto de teletransporte que o deixou sem fôlego.
Raphadun puxou sua irmã pelo braço após teletransportá-la.
— O QUE VOCÊ ESTAVA PENSANDO?
Luna engoliu em seco.
— Eu vi... — Ela parou. Respirou. — Ele é uma maldição.
— TEMOS QUE LUTAR! — gritou Luna, ainda tremendo, mas já com os punhos cerrados.
— Mas Luna! — Raphadun ofegou, tentando recuperar o fôlego. — Devíamos fugir! Ele é forte! Ele saltou para enfrentar o Perseguidor! Não podemos!
— PODEMOS SIM! — ela apontou para Empty. — Você viu ontem que meu golpe pegou nele! Ele sentiu!
Empty não se moveu.
A espada, que momentos antes estivera apontada para o pescoço de Luna, agora retornava lentamente à bainha. O metal raspou contra o couro num som longo e suave.
Ele apenas ficou ali parado.
Seus olhos — aqueles olhos vazios que Luna acabara de ver — estavam fixos nos dois irmãos. Mas não havia fúria neles. Nenhuma intenção de atacar. Havia apenas...
Ele os observava.
A realidade que ele via era diferente de qualquer maldição que encontrara antes. Aqueles dois não eram como as criaturas que ele matava. Não emanavam a mesma escuridão, a mesma dor surda, a mesma fome sem sentido.
Eles tinham luz. Tinham medo. Tinham coragem.
E eles o encaravam de volta.
A curiosidade — aquela coisa estranha crescendo dentro dele desde que os vira — transmitia algo que ele não podia nomear. Algo bonito nisso. Algo que ele queria ver mais, entender mais, observar mais.
Então, ele não fez nada.
Apenas ficou ali.
A confirmação foi imediata. Um perigo iminente, assim como o Perseguidor, assim como "O Todo", "O Caos", ou qualquer outra maldição de elite. Era um ser sem fala que, independentemente de qualquer coisa, era uma ameaça.
E assim, com Empty diante de si, Luna envolveu seus punhos em magia de luz e olhou para Raphadun.
— Isto é uma ordem da sua futura rainha, irmão...
E então, Raphadun, olhando para ela: — Merda! — disse.
E ele se preparou.
E então, Luna lançou-se para frente, tentando acertar Empty, que desviou rapidamente. Quando ela tentou dar um soco, foi teletransportada por Raphadun. E então, teletransportada novamente por trás, golpeando o estômago de Empty. Empty, ao que parecia, não queria lutar. Mas ele olhou para baixo e viu que parte de sua armadura havia caído e evaporado. Raphadun juntou-se a Luna. — Estamos realmente fazendo isso? Merda, e se ele aparecer?
— Se ele aparecer, morremos, como em qualquer situação aqui! Mas com uma maldição... Eu não... — E antes que pudesse terminar, ela se lançou novamente para frente.
— NÃO TENDO PENA! — Ela investiu. Mas de repente, um sentimento assassino começou a florescer. E com um olhar de ódio, Empty investiu contra Luna com sua espada, movendo-se muito mais rápido que ela. E então, assim como o ataque estava prestes a atingi-la, Raphadun a teletransportou para longe. O ataque destruiu uma montanha adiante.
— MAS QUE—? — gritou Raphadun. O corpo de Luna não se moveu. Mas Raphadun, em seu desespero, não a teletransportara para longe o suficiente. Empty olhou para trás e, prestes a golpear novamente, avançou em direção a Luna. Mas com um teletransporte rápido, Raphadun trouxe a si mesmo, junto com o livro, diretamente na frente de Empty.
E então ele parou.
— PARE! POR FAVOR! — gritou Raphadun, tremendo.
Empty pausou. Ficou olhando por um tempo, então pegou o livro da mão de Raphadun e começou a ler e cheirá-lo, como sempre fazia.
— Luna, droga! — Raphadun ajoelhou-se para ajudar sua irmã.
— Você está ferida? ...
Luna sentou-se, tremendo, incapaz até de falar, pois sentira o cheiro da morte.
— Merda...
Então, Empty se agachou. Raphadun recuou. Mas Empty colocou o dedo no nariz dela e começou a puxar.
— Que diabos você está fazendo?! — gritou ele, puxando sua irmã para longe e tirando as mãos de Empty do nariz dela.
Luna começou a recuperar um pouco de consciência, chorando no ombro de Raphadun enquanto ele a carregava para longe dali.
Ele jogou pedras no chão em direção a Empty, que tentou segui-los — irônico, já que momentos antes tentara matá-los — enquanto carregava sua irmã. De repente, sem querer, ele ouviu sua irmã:
— Pai... Por favor...
Raphadun, ao ouvir aquilo, parou.
A memória daquela promessa veio à tona. Ele olhou para Luna e chamou: — Acorda! Ela permaneceu em choque. — ACORDA! LUNA! — Ele a sacudiu, e ela finalmente recuperou um pouco de consciência. — ME ESCUTA!
— ESTA NÃO É A HORA DE QUEBRAR!
Ele agarrou Luna pelos ombros. Olhos fixos nos dela. Desespero, sim. Mas também algo duro: teimosia. Recusa.
Luna respirou fundo. Forçou os ombros para trás.
— PRECISAMOS CONTINUAR E IGNORÁ-LO! — A voz ainda alta, ainda firme. — Temos que ativar o próximo mecanismo! E não devemos mais nos importar com essa criatura. Se não vai tentar nos machucar, podemos apenas... ignorá-lo.
— Ele pode nos seguir — continuou ele.
— E seja o que for, usaremos a estupidez dele como isca! — Entendeu? — Ele terminou.
— Mas...
As palavras não saíram.
Raphadun esperou. Ela não terminou. Ele assentiu.
Luna respirou fundo. O ar frio encheu seus pulmões. Ela não estava curada. Não estava forte. Mas estava de pé.
Ambos começaram a andar.
Empty observava de longe.
Humanos se movendo. Humanos conversando. Humanos sentem coisas que não entendem.
Mas ele seguiu.
Mantinha distância. Nunca muito perto, nunca muito longe. Apenas atrás. Apenas observando.
A caminhada foi enorme. Horas se passaram. Ruínas diferentes, estradas diferentes, a mesma morte em todo lugar.
Empty sempre a uma distância atrás deles.
Tentaram perdê-lo. Becos estreitos. Esconderijos. Todos os truques. Minutos depois, lá estava ele.
Andando.
Às vezes ele desaparecia. Por um momento, pensavam que tinham conseguido. Mais adiante, a silhueta escura surgia novamente entre as ruínas.
— Ele não para!
Num dia de ventos horrendos e chuva.
Tempestades vinham do nada. Ventos uivavam. Chuvas que não molhavam como água — algo mais pesado, mais sujo, mais errado.
Luna e Raphadun encontraram uma casa abandonada. O teto ainda segurava em alguns lugares, e as paredes ainda protegiam do vento. Entraram rapidamente.
No movimento da janela, Luna viu.
Uma figura passando. Empty.
Ela abraçou seu irmão.
— Temos que matá-lo!
— Isso não ajudaria. Você sabe disso.
Luna virou o rosto para o lado.
Silêncio. Apenas a chuva.
— Por que ele saltou contra o Perseguidor naquele dia?
— Não sei. Disputa de território?
Raphadun não respondeu.
— Fique preparada — continuou Luna. — Se ele atacar, nos teletransporte. Sei que não podemos desperdiçar nossa magia, mas...
Ela não terminou. Não precisava.
Depois de um tempo, a porta se abriu com violência.
Empty estava diante deles. Silhueta escura contra a tempestade. A chuva escorria de sua armadura. Olhos invisíveis fixos neles.
Empty levou a mão à espada.
Raphadun agiu. Energia azul envolveu Luna — ela desapareceu.
— EU DISSE! — o grito veio de fora.
Empty olhou para trás. Para Raphadun. Para a direção de Luna.
Ele acelerou o passo.
Raphadun teletransportou-se — mais longe. Empty se movia rápido demais. Toda vez que reapareciam, a silhueta já estava mais perto.
Luna parou.
Raphadun gritou seu nome. Ela não respondeu.
Ela viu Empty se aproximando.
Fechou os olhos.
— Um dia... Haverá quatro grandes maldições...
A voz feminina ecoou. Calma.
— Elas tentarão destruir o mundo... Para isso... A primeira luz definitiva deve surgir.
Luna estendeu o braço para frente.
— EXPLOSÃO DE LUZ!
Um feixe de luz dourada disparou de sua mão — diferente da luz que nutria. Mais pura. Mais forte.
Atingiu Empty em cheio.
— LUNA!
Ela caiu no peito do irmão, exausta. Corpo tremendo.
— Se isso... não funcionou... Se ele se levantar...
Da fumaça, Empty emergiu.
De pé. Observando.
Sem raiva. Sem ataque. Apenas o olhar.
Ele começou a se mover.
Raphadun estava preparado para teletransportar. Não sabia se tinha forças. Tentaria.
O braço de Empty começou a desaparecer. Partículas escuras se desprendendo, flutuando, desaparecendo.
Empty caiu de joelhos.
Olhou para eles.
Através da máscara — um sorriso.
Ele caiu.
Luna e Raphadun apenas observaram, sem saber o que fazer.
— Ele...
Então, sem aviso, eles foram teletransportados.
Ambos caíram sobre as terras mortas.
— Ah!
Eles se levantaram lentamente.
— Merda... Esse poder idiota meu...
Luna colocou-se de pé. Olhos arregalados. Respiração rápida.
— EU CONSEGUI! — O grito veio do fundo do peito. — EU CONSEGUI, IRMÃO! EU DERROTEI AQUELA MALDIÇÃO!
Ela abraçou Raphadun com força. Lágrimas escorrendo, abrindo caminho através da poeira.
— Você usou... Ele se deteriorou, viu?
— Eu... — Luna olhou para suas próprias mãos. — Com esse poder, posso ferir o Perseguidor.
Eles se olharam.
— Temos que ir para o segundo mecanismo!
Raphadun puxou do bolso um pedaço de papel amarelado, dobrado tantas vezes que as marcas pareciam parte da textura original.
— Quão longe nos desviamos? — murmurou, olhos percorrendo as linhas desbotadas. — Precisamos chegar aqui.
— Usando o cálculo de Haimbridger? — Luna se aproximou para ver.
— Sim, é aqui... — ele apontou o dedo no mapa. — O cálculo está certo.
Luna olhou para trás.
Andou um pouco mais, e no topo da colina.
Luna chamou Raphadun, que também olhou para baixo.
— Parece que chegamos... — disse Luna.
— Isto é Fuhbar, então... — disse Raphadun.
Na montanha morta onde estavam, adiante, uma cidade se estendia. A localização do último mecanismo.
A cidade era circular — casas mortas e destruídas de um tempo perdido. E no centro, como em todas as cidades que guardavam os mecanismos para abrir as cúpulas, havia uma estrutura. Diferente das outras, esta era retangular.
Começaram a descer a montanha.
Chegaram à cidade.
Caminharam pelas ruínas de casas vazias. Silêncio pesado, opressivo.
— Isto viveu séculos atrás... Quando o mundo ainda estava vivo.
— É... Estranho estar de volta.
— Não pense nisso agora. Fique preparada. O Perseguidor pode estar nos esperando.
Pararam. A enorme porta estava aberta.
— Filho... Proteja sua irmã.
— Luna... Você é a esperança de todos...
Eles passaram pela porta.
No centro, o mecanismo.
— Faça.
Luna assentiu.
Suas mãos envolveram o círculo. Ele brilhou.
A luz envolveu o dispositivo. Tudo tremeu.
— Está ativando?
Luna olhou para os céus.
Num lugar distante dali, na Zona Infernal.
O ser envolto em armadura tática, uma máscara de chumbo cobrindo seu rosto, sentava-se num trono improvisado.
O lobo ao seu lado ergueu a cabeça, sentindo o tremor.
O Perseguidor apenas olhou para cima.
Para o epicentro do mecanismo.
Ele desceu, mostrando que fora ativado.
Luna e Raphadun comemoraram, abraçando-se.
— Conseguimos, agora é...
Luna foi teletransportada.
Ela caiu perto de outro lugar. Ela viu por que Raphadun a teletransportara: uma pequena maldição, mas com garras afiadas, estava prestes a atacá-la.
Raphadun a teletransportara e recebera o golpe em seu lugar.
O ataque atingiu seu peito. Sangue jorrou de sua boca, manchando suas roupas.
— RAPHADUN!
Ela correu. Chutou a maldição. A criatura voou.
Ela ajoelhou-se. O ferimento não era profundo. Mas estava ali.
— Merda...
Atrás deles, elas surgiram. Milhares.
Tamanhos variados. Membros distorcidos. Escuras. Aproximando-se lentamente.
Luna tentou lutar. Ergueu as mãos, tentou canalizar sua luz. Mas uma maldição maior a atacou pelo lado, lançando-a para longe. Ela caiu de joelhos adiante.
— LUNA!
Uma maldição cobriu sua boca. Garras arrastaram-se sobre seu rosto.
Luna viu.
Uma maldição diante dela, sorrindo. Pronta para matar. Outra atrás dela. Pronta.
Ela olhou para Raphadun.
Sorriu.
Vá. Teletransporte-se. Deixe-me morrer.
Luna baixou a cabeça.
— Então é isso... Pai... Mãe... Foi assim que se sentiram...
— Vocês estavam errados. Eram apenas vocês. Ninguém mais nos protegerá, exceto nós mesmos.
— Nunca mais.
— Desculpe, Raphadun... Por acreditar em alguém como eu.
A criatura à frente ergueu as mãos.
A de trás golpeou primeiro.
A espada apareceu.
Atravessou a da frente. Continuou num arco perfeito — cortou a da frente.
Ambas voaram, desfeitas.
Luna abriu os olhos.
Diante dela, uma figura. Armadura negra. Elmo. Capa escura.
A máscara se formou.
The Empty Man.
Empty começou a se mover.
Exterminar. Saltar. Cortar. Rápido. Preciso.
Raphadun libertou-se. Correu para Luna.
— IRMÃ!
— Por quê?
— A mesma coisa que ele fez com o Perseguidor.
Eles observaram.
Empty cortava cabeças. Rápido demais para os olhos acompanharem. As maldições caíam ao redor deles.
— Mas... Ele foi desintegrado... Bem na nossa frente... — A voz de Luna era um fio.
Empty continuou.
Um braço foi cortado por uma garra. No instante seguinte, um novo braço cresceu em seu lugar, e a mão recém-formada golpeou a maldição que o mutilara.
Ele regenera, pensou Luna. Assim como uma... Maldição.
Raphadun e Luna correram em direção à porta, aproveitando a distração.
Ele é o que eu estava suspeitando... pensou Raphadun.
Quando alcançaram a saída, tudo começou a desabar. Pedras caíram, a estrutura cedeu, e Empty ainda estava dentro.
Ele não está fazendo isso por nós...
Raphadun pensa
Ele é um...
Raphadun olhou para trás. Viu a silhueta de Empty em meio aos escombros, ainda lutando, ainda matando, ainda de pé.
...assassino de maldições.
As pedras desabaram, bloqueando a entrada.
E Empty permaneceu dentro.
Sozinho.
Como sempre.
No pátio varrido pelo vento, Raphadun e Luna materializaram-se entre os escombros.
Luna caiu de joelhos, ofegante.
— Vamos correr para o terceiro mecanismo!
Ela olhou para trás.
— O Perseguidor estará lá — respondeu Raphadun, numa voz mais baixa.
— Sim... E se ele estiver, vamos lutar. É nossa melhor chance! Só precisamos de mais um mecanismo para ir para casa! — disse ela, tentando puxar o braço do irmão.
Raphadun estava imóvel. Seus olhos fixos no galpão arruinado, na nuvem de poeira.
— Ande, Raphadun!
— Ele está lutando. Posso sentir a energia — disse Raphadun.
— Isso não importa!
— NÃO IMPORTA! — Ele disse novamente.
Raphadun virou-se para ela. Havia algo em seus olhos que ela não reconhecia.
— ELE ESTÁ MATANDO MALDIÇÕES, LUNA! — gritou ele.
— MALDIÇÕES NÃO MATAM OUTRAS MALDIÇÕES!
— QUANTAS VEZES APRENDEMOS ISSO NA ESCOLA? — gritou novamente.
— PODE SER UMA ANOMALIA, RAPHADUN!
— PENSE BEM, LUNA!
— Ele está... aí... — sua voz falhou. — Lutando por nós... — disse.
Ele apontou para o galpão.
Raphadun correu.
Atravessou o pátio em segundos. Chegou à entrada — o que restava dela.
Uma montanha de detritos. Concreto, metal, vigas.
— Me ajude a limpar isto! — gritou, puxando pedaços com as mãos nuas.
— Ele pode ser nossa melhor chance se o Perseguidor realmente estiver lá! — gritou.
— Raphadun... Pare com isso! — A voz de Luna cortou o ar como uma lâmina. — Ele é uma maldição! Um dia, pode enlouquecer e nos matar!
As mãos de Raphadun não pararam. Continuaram removendo pedras, uma após outra, seus dedos já arranhados, sangue se misturando à poeira.
— EU SEI DISSO!
O grito veio do fundo do peito — um som que Luna nunca ouvira de seu irmão. Ela congelou.
— EU SEI, DROGA! SEI QUE ELE É UM MONSTRO, NÃO SOU CEGA!
Ele se virou para ela por um instante, e Luna viu. As lágrimas. A vergonha. A raiva. Tudo misturado naquele rosto que ela conhecia desde o nascimento.
— MAS... NINGUÉM LUTOU POR NÓS, A NÃO SER ELES! EXCETO NOSSOS PAIS E SEUS SOLDADOS LEAIS!
A menção dos pais pairou no ar como um fantasma. Luna sentiu seu peito apertar.
— Rapha... Mas... — tentou, mas sua voz falhou. Não havia palavras. Nunca havia palavras para isso.
— NEM OS MAIS FORTES DA ZONA SEGURA VIERAM NOS AJUDAR! BRUCE, ALFREDO, MARCOS... — Raphadun continuou, as palavras jorrando como sangue de uma ferida aberta. — NINGUÉM! PARA AJUDAR A LUZ QUE ELES ESPERAVAM HÁ SÉCULOS!
Ele bateu no próprio peito com o punho fechado.
— ENTÃO... EU ASSUMIREI A RESPONSABILIDADE!
— SE ELES NÃO VÃO... EU VOU! — gritou.
Luna abriu a boca para responder, mas ele não deixou.
— ELE ESTÁ AÍ, LUTANDO POR NÓS!
O grito ecoou entre os escombros, entre as ruínas, entre tudo o que restava daquele lugar amaldiçoado.
— ENTÃO NÃO IMPORTA SE ELE É UMA MALDIÇÃO, SE VAMOS MORRER! VOU FAZER ELE NOS AJUDAR, PORQUE NÃO IMPORTA...
Sua voz falhou. As lágrimas caíam livremente agora, abrindo caminho através da poeira que cobria seu rosto.
— EU VOU SALVAR VOCÊ, IRMÃ!
Ele voltou a remover as pedras. Freneticamente. Como se cada uma que ele removesse fosse um segundo a menos longe de Empty, um segundo mais perto de trazê-lo de volta.
Luna ficou imóvel.
Seu corpo não respondia. Sua mente não respondia. Havia apenas aquelas palavras ecoando dentro dela.
Ninguém lutou por nós.
Ninguém veio nos ajudar.
E então, como um soco no estômago, veio a memória.
Não era qualquer memória. Era o momento exato, anos atrás, na sala do Conselho. Seu pai, Andrew, estava diante dos líderes da Casa. Seu rosto vermelho, as veias do pescoço saltadas, sua voz trovejando contra a decisão de abandoná-los na Zona Infernal.
— NÃO IMPORTA! — O grito de seu pai ecoou em sua mente com clareza aterrorizante. — Não importa se é a Zona Infernal, eu vou lá... PARA SALVAR MINHA FILHA!
O impacto foi imediato.
Suas pernas se moveram antes que seu cérebro comandasse.
Ela correu para as pedras.
Ajoelhou-se ao lado do irmão, suas mãos encontrando os detritos com a mesma fúria, a mesma urgência, a mesma dor.
— SEU IDIOTA!
O grito dela era diferente do dele. Não era raiva pura — era raiva misturada com amor, com desespero, com algo que se parecia muito com aceitação.
— Se ele nos matar, juro que vou... MATAR VOCÊ!
Raphadun parou por um instante.
Olhou para ela.
E apesar de tudo — apesar do cansaço, apesar do medo, apesar do sangue escorrendo de seus dedos — ele sorriu.
Um sorriso pequeno, trêmulo, molhado de lágrimas. Mas era um sorriso.
— Combinado — disse.
E ambos voltaram a remover os escombros.
Suas mãos se moviam em sincronia agora — não apenas na tarefa, mas em algo mais profundo. Cada pedra removida era uma declaração. Cada grão de poeira em seus dedos era uma promessa.
Não importa.
As palavras de seu pai ecoavam em Luna a cada movimento.
Não importa.
Ela não sabia se Empty sobreviveria, e se sobrevivesse, seria aliado deles, confiaria neles, ou não. Não sabia se ele realmente era diferente. Não sabia se estavam cometendo o maior erro de suas vidas ou a única escolha certa.
Mas ela sabia de uma coisa.
Seu irmão estava ali, lutando por ela.
E isso, naquele momento, era o que importava.
Dentro da fábrica abandonada, o ar estava espesso, pesado com energia sombria.
Empty já derrotara quase todas as maldições, restando apenas uma, mais forte.
A maldição emergiu das sombras.
Dois corpos fundidos em um. Uma forma feminina, distorcida, seu rosto contorcido em dor eterna. Outra forma monstruosa, angular. Suas mãos entrelaçadas — dedos fundidos num aperto que nem a morte desfez.
Empty se moveu.
Os projéteis negros voaram — lanças de escuridão. Ele desviou de cada um, seu corpo se movendo em ângulos impossíveis.
Um dos disparos atingiu sua espada em cheio.
A lâmina voou de suas mãos, girando no ar antes de cair no vazio da cratera.
Empty estava desarmado.
Acima, a maldição pairava. Sua forma recortada contra o céu cinzento, os dois corpos fundidos girando lentamente, as mãos ainda entrelaçadas.
Estava preparada para o golpe final.
No instante em que a criatura desviou, Empty ergueu sua mão vazia.
A escuridão respondeu.
Uma nova lâmina se manifestou em sua mão — negra como piche, fria como o vazio, afiada como arrependimento.
O movimento foi tão rápido que desafiava os olhos.
A lâmina subiu num arco perfeito. O golpe foi devastador.
A maldição caiu.
Mas não foi derrotada.
Empty se moveu. Concentrou escuridão sob seus pés — explodiu em rajadas que o lançaram contra as paredes, ricocheteando como uma bala.
A maldição investiu.
Empty não estava mais lá.
Quando ela olhou para cima, ele estava acima dela — pairando, sua mão livre erguida.
A escuridão no chão respondeu.
Uma estaca de sombra irrompeu da terra, perfurando a criatura por baixo, espetando os dois corpos fundidos, pregando-os no ar como um inseto numa coleção.
A maldição gritou — um som que era dois gritos, feminino e bestial, entrelaçados como as mãos.
Empty saltou.
Os disparos vieram — projéteis negros que perfuraram sua armadura, rasgaram sua carne, alojaram-se em seu corpo como pregos. Ele não desviou. Não tentou. Apenas continuou.
Ele aceitou a dor — se é que aquilo era dor — e continuou.
Sua lâmina encontrou a criatura no ar, despedaçando-a com golpes precisos e brutais. Cada corte, uma libertação. Cada golpe, um fim.
Quando o último pedaço caiu, Empty caiu também.
De joelhos.
A energia escura se dissipou. Ele permaneceu ali — imóvel, exausto, vazio.
Luna e Raphadun observavam da entrada, seus dedos ainda sangrando. Viram Empty cair. Viram a escuridão se dissipar. Viram o silêncio.
E então viram a mudança.
Nos restos da aberração, algo estava acontecendo.
As duas mãos — permanentemente entrelaçadas — ainda estavam unidas. Mesmo depois de tudo, mesmo depois da morte, não tinham se soltado.
A parte feminina virou seu rosto diluído em direção a Empty.
Uma voz ecoou em sua mente:
"Eu tento entender quando foi o dia em que te perdi..."
O rosto se tornou humano. Olhos marejados. Um sorriso triste.
Então se dissolveu em poeira.
"Meu nome é Aline Lighting..."
"E por favor... Nos liberte..."
A maldição murmurou, não em voz alta, no cérebro de Empty.
Pena que ela não sabia.
Que ele nunca entenderia.
E ainda assim, ele o faria de qualquer maneira.
