Admito que essa é a primeira vez que ando com uma garota, não poderia estar mais nervoso — e alegre, também.
Os lugares que iremos são desconhecidos para mim, então Clara é basicamente a minha guia. Nunca pensei que poderia haver outro alguém interessado nas mesmas coisas que eu…
— Quantos anos você tem, Isaque? — pergunta Clara, de repente.
— Vou fazer quinze no mês que vem — respondo.
— Oh, eu também faço aniversário em março! Vou fazer dezesseis — ela responde. — Parece que somos parceiros de mês de aniversário — ela diz, alegre por algum motivo.
Sorrio de volta enquanto tento pensar em como iniciar um novo assunto com ela. Acabo me lembrando de quando ela disse visitar o sebo e digo que nunca a vi por lá antes.
— Ah, eu costumo ir depois da escola, eu estudo a tarde — Ela responde.
— Entendi, deve ser por isso que nunca te vi, eu trabalho só até as quatro da tarde.
...
...
...
E agora?
— Aliás, o que você quis dizer quando disse ser um ‘leitor de memórias’ antes? — pergunta Clara, me deixando completamente vermelho de vergonha, pois esqueci que eu havia dito isso.
— Ah… eu quis dizer…
Não dá, preciso fugir, aqui não é meu lugar, me revelei demais…
— Você, tipo, lê as memórias deixadas nos livros? Explorando suas histórias e origens, como um jornalista?
— Isso! — exclamo. — Quer dizer, quase isso… — sussurro, tentando manter a calma.
Essa Clara realmente é inteligente, já descobriu quase tudo sobre mim em apenas uma hora...
— Entendi, parece divertido! — ela responde, sorrindo para mim.
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Oh, desculpe, acho que o sorriso dela me deixou um pouco desconcertado…
Após caminhar por mais alguns minutos, chegamos no centro da cidade, cheio de pessoas andando para lá e para cá. Me sinto perdido e até mesmo tonto com o tanto de carro passando, mas Clara parecia conhecer bem o lugar, apontando para a direção da padaria enquanto me puxava pelo braço.
Passamos por lojas e bares, atravessamos ruas e calçadas e, por fim, chegamos em um restaurante. Chique e definitivamente caro.
— Bem, é aqui… eu acho — diz Clara, um pouco confusa. — É o mesmo endereço do mapa, então, provavelmente a padaria virou um restaurante em algum momento.
— Heh, igual quando um Pokémon evolui — comento, não percebendo que fiz uma piada nerd sem querer.
Ao ouvir minha piada, Clara começa a rir e logo em seguida para, ficando em silêncio, levemente corada.
…
— Será que devemos entrar? — pergunta Clara, tentando disfarçar.
— Eu não tenho dinheiro para isso… — respondo, relutante.
O que ganho no sebo definitivamente não serve para comer em um lugar como esse.
Enquanto pensávamos no que fazer, um senhor abriu a porta do restaurante, assustando nós dois.
— Boa tarde, belo casal — diz o homem vestido de garçom. — Mesa para dois?
— Ah, não! Só estamos olhando… você disse casal…? — respondo, ficando com vergonha por ele achar que somos um casal, quer dizer, quem dera… não, não é isso! Acabamos de nos conhecer…
— Com licença, senhor — responde Clara, educada e madura, interrompendo meu colapso mental. — Por acaso este lugar já foi uma padaria?
O garçom parece surpreso com a pergunta e confirma que sim, há muito tempo. Em seguida, ele pergunta como ela sabia sobre isso.
— Ah, é que… — A máscara educada e madura de Clara parecia se quebrar, com a pergunta do garçom a pegando desprevenida.
Será que Clara perguntou algo que não devia?
— É um trabalho de escola! — respondo rapidamente.
— Entendo… — Percebo que o garçom parecia levemente emocionado.
Eh?! Por que ele está emocionado? Perguntei a mim mesmo, e a julgar pelo rosto de Clara, aposto que ela também deve estar confusa.
— Foi há muitos anos… — começa a contar o garçom. — Quando eu estava desempregado e sem rumo, o dono da então padaria na época me contratou e, juntos, fizemos com que aquela pequena padaria crescesse.
— Ele dizia que seu sonho era abrir um grande restaurante, infelizmente, ele acabou falecendo antes de esse sonho se tornar realidade. Sem ninguém para assumir seu lugar, eu então tomei frente e lutei para realizar o sonho do meu amigo.
Me senti levemente emocionado ouvindo essa história, já que é esse o tipo de coisa que me encanta: a vivência das pessoas e suas histórias pessoais. Porém, fiquei com medo de que Clara estivesse entediada com isso tudo e apenas quisesse ir embora — talvez eu estivesse apenas a atrasando. Então, só para garantir, olho para ela, em busca de alguma resposta. Para minha surpresa, percebo que o mesmo brilho presente em meus olhos também se encontrava nos dela.
— Enfim, foi assim que a padaria se tornou esse luxuoso e famoso restaurante — conclui o homem, enxugando as pequenas lágrimas de seus olhos com um lenço.
— E hoje você só fica na porta atendendo os clientes? — pergunto, curioso.
— Sim, recepciono os clientes e observo a movimentação dentro do meu castelo, se me permite chamá-lo dessa forma — responde o homem, em tom de brincadeira.
— Que maneiro! — exclama Clara, animada. — Quer dizer, achei muito bonita a sua história… — murmura Clara, tentando disfarçar seu entusiasmo.
— Bem… — tento retomar o assunto principal antes que esqueçamos o motivo principal de termos vindo até aqui. — O senhor já notou algum casal frequente por aqui? Provavelmente de idosos? — pergunto, tentando extrair alguma informação.
— Um casal frequente aqui na casa… — responde o ex-garçom, agora promovido para chefe.
Espera, como ele poderia saber? Quantos casais já não devem ter vindo aqui? Como diabos iremos encontrar alguém que não sabemos nome, aparência nem idade direito? Isso é pior que tentar encontrar agulha no palheiro…
Começo a martelar meu cérebro com essas perguntas, percebendo o quão despreparados estamos. Ao olhar para Clara, percebo que ela também parece aflita. Será que estamos ambos surtando internamente?
— Bem, já vi vários casais por aqui antes, obviamente, mas…
Mas…?
— Tem um em minha mente que acredito sempre ter chamado a atenção desde a época da padaria. Eles sempre vinham aqui juntos, felizes e animados, com o homem sempre dizendo amar nossa comida. Faz um tempo que não os vejo, na verdade.
Será que são eles?
Sem mais perguntas a serem feitas, agradecemos ao homem antes que ele tentasse nos convencer a entrar e gastar nosso dinheiro, e seguimos viagem. Não conseguimos muitas informações, mas, pelo menos, sabemos que provavelmente estamos no caminho certo, eu espero…
Seguimos andando pelo centro da cidade, Clara passa a maior parte do tempo quieta, aparentemente perdida em seus pensamentos, talvez tentando descobrir onde fica nosso próximo objetivo: a pracinha.
Chegamos a um parque, e decidi comprar sorvete para nós dois em uma barraquinha ali perto. Finalmente, faríamos uma pausa.
— Bem, e agora? — pergunto, enquanto lambo meu sorvete lentamente, saboreando seu gosto.
— Só nos resta a pracinha citada no texto… — responde Clara, mordendo o sorvete e o devorando em poucos segundos.
Uma pracinha, né? Ela tem de estar aqui perto, então, onde será que está? Olho aos arredores procurando por algum lugar que pareça com uma pracinha que um casal iria após comer naquele restaurante…
— Um lugar que se pareça com uma pracinha e que esteja perto do restaurante…? — murmuro enquanto como meu sorvete.
Espera aí...
— Só pode ser aqui!
Por que demorei tanto para perceber isso? Pensei, enquanto Clara parecia assustada com meu grito repentino.
— Se é aqui, o que fazemos agora? — ela pergunta, terminando rapidamente de comer seu sorvete.
Boa pergunta…
Damos uma volta pelo parque em busca de algum casal que se encaixasse em nossas descrições limitadas. Até perguntamos para algumas pessoas ali presentes, mas ninguém soube nos ajudar. Parece que estamos em um beco sem saída.
— Droga… — sussurra Clara, olhando para o chão, frustrada.
— Está tudo bem, nós ainda podemos—
— Vamos embora… isso é perda de tempo — diz Clara, interrompendo minha tentativa de animá-la.
Ver Clara assim, uma pessoa tão animada e doce, frustrada daquele jeito, acabou me desanimando também.
— Tudo bem.