— Vou pegar o ônibus aqui, eu moro um pouco mais longe — falo para Isaque, mas, na verdade, apenas quero ficar sozinha.
Ele segue andando enquanto fico parada em frente ao ponto de ônibus, apenas esperando. Que frustrante…
Chegamos até aqui e não descobrimos nada, mesmo depois de eu ter me esforçado tanto… Ele deve achar que sou uma idiota.
Mesmo fingindo ser uma garota normal, a verdade é que sou patética. Fiquei apreensiva o caminho inteiro pensando ‘e se não os encontramos?’, ‘e se estivermos apenas perdendo tempo?’ e ‘e se ele perceber que estou fingindo…?’. Minha cabeça chega dói de tanto pensar.
Ao chegar em minha casa, vou direto para o quarto, ignorando minha mãe e seja lá o que for que ela tenha para me falar. Provavelmente é só algo referente ao divórcio. Não quero saber.
Afundo o rosto no meu travesseiro e tento dormir — quero esquecer esse fracasso de hoje. Para minha surpresa, eu realmente acabo pegando no sono.
Me encontro flutuando em um oceano negro, com frio, pelada e desprotegida. Sinto medo enquanto visões da minha vida aparecem diante dos meus olhos: pequenos momentos com grandes impactos — momentos que eu gostaria de mudar, apagar ou simplesmente esquecer.
Começo a pensar em como será minha vida no futuro — meu maior pavor. Odeio pensar no futuro e o que me aguarda nele — o que terei que fazer e o que terei que me tornar.
Imagino quando meus pais finalmente se divorciarem e eu terminar a escola — um futuro solitário.
Começo a perder o ar, talvez seja só uma crise, logo vai passar. Tento me lembrar do último livro que li, me imaginando dentro dele, vivendo uma outra vida, mas isso não adianta.
De repente, um rosto me vem em mente: um rosto familiar e recente. Era Isaque. Ao vê-lo, me sinto estranhamente calma. Os pensamentos ruins vão se dissipando e volto a dormir normalmente.
Após algumas poucas horas, acordo. A casa parecia estar vazia e ainda não está totalmente escuro lá fora.
Me sinto mal. Fui seca com Isaque e tenho medo de tê-lo magoado. Eu estraguei tudo. Eu odeio ser impulsiva desse jeito.
Me sinto envergonhada e bato em meu travesseiro.
Depois de me acalmar, percebo que fui uma idiota, não só pelo que fiz com Isaque, mas porque não pensei em fazer a coisa mais simples desde o início: falar com meu primo, a pessoa que me deu o livro. Com certeza ele deve saber de algo que possa nos ajudar.
Pego meu celular e tento ligar para ele, porém, ninguém atende. A essa altura do campeonato eu definitivamente não poderia fugir dessa inquietude, e então, depois de lavar meu rosto, decido ir correndo até a casa dele. Não é tão longe e não está escuro ainda, deve dar tempo. Tem que dar.
Saio de casa e começo a correr. Tenho medo de andar sozinha à noite por motivos óbvios, mas agora que percebi algo tão simples e estúpido, mesmo que fosse madrugada, eu faria isso — eu preciso fazer.
Enquanto corro, percebo que está começando a ficar mais escuro. Ainda falta alguns minutos até chegar na casa dele, que droga! Não posso voltar para trás, vou continuar correndo, independentemente de estar escuro ou não!
Graças a esse surto de energia e determinação, cheguei à casa do meu primo no exato momento em que a lua beijou o céu com sua presença.
Ao chegar, bato na porta e espero. Eu definitivamente me mataria caso não houvesse ninguém em casa, mas por sorte, havia.
Entro e converso com meu primo sobre o livro que ele me deu.
— Ah, aquele livro era do meu pai, a casa dele tá cheia de coisa velha e inútil. Me pergunto por que gente velha gosta de acumular tanta coisa...
— Espera, aquele livro é do meu tio-avô? — pergunto, surpresa.
— Ah, sim… acho que eu esqueci de te contar.
Isso quer dizer que ainda há esperanças! Eu posso perguntar diretamente para ele sobre o casal!
Mas então, por que o livro estaria com ele e não com o casal…?
Pergunto ao meu primo se ele sabe de algo, e ele me responde dizendo que o tal casal é amigo de longa data de seu pai. Fico aliviada ao ouvir isso, e, em um momento de felicidade, pego meu celular e tento ligar para o Isaque para contar as boas novas. Porém, me lembro de que nunca peguei o número dele — e que ele também nunca pediu o meu...
Levemente decepcionada, decido voltar para casa, mas meu primo não deixa, dizendo que eu não deveria sair à noite e que ele me levaria de carro. Ufa, admito que nem percebi que já estava de noite lá fora.
— Aliás, por que você não me ligou? — perguntou meu primo.
— Eu liguei! Várias vezes! — respondo, mostrando o histórico de chamadas do meu celular para ele.
— Por que tem um ‘9’ a mais no meu número? — ele pergunta.
É sério que digitei o número dele errado?
Viro o rosto para a janela do carro, tentando esconder minha cara de vergonha e frustração enquanto ele ri, se divertindo com a situação.
De volta em casa, tomo banho e me jogo na cama. Dessa vez, o sono não veio tão facilmente — estou animada demais pelo dia que virá amanhã.
Frustrado após vasculhar a Internet em busca de alguma pista e não encontrar nada, suspiro, derrotado. Penso em escrever algo no meu blog, mas não tenho nada a dizer. No fim, apenas me jogo na cama, desanimado e pensativo.
Como será que está Clara? Me pergunto, me arrependendo de não ter pegado o número dela. Será que ela está melhor?
E se eu nunca mais a ver de novo…
Antes que eu pudesse pensar em mais besteiras, meu telefone toca, me assustando. Era meu pai se desculpando e dizendo que não poderia voltar para casa hoje — culpa do trabalho, como sempre. Respondo dizendo está tudo bem e, antes de desligar, aproveito para conversar um pouco com meu velho.
Falo sobre o dia de hoje: a descoberta do livro, ter conhecido Clara, nossa aventura e seu desfecho não tão feliz.
Ele ri e diz para eu não me preocupar tanto com isso e que eu deveria procurá-la amanhã. Também questiona por que não fomos atrás do primo dela, já que foi ele quem deu o livro a ela em primeiro lugar.
Fico em silêncio e, realmente, por que não fizemos isso?
Ao perceber nossa burrice e precipitação, agradeço a ele e me despeço, desligando o telefone. Então, finalmente me deito para dormir — ou pelo menos tento, já que estou animado demais pelo dia que virá amanhã.
Logo ao acordar, decido ir até o sebo, disposto a passar o dia inteiro lá esperando por Clara, se fosse preciso. Para minha sorte, não foi necessário. Assim que cruzo a rua que leva até o sebo, avisto uma garota parada em frente à entrada: era Clara.
Sinto um frio no estômago ao vê-la, meu coração começa a bater mais rápido e admito que até medo eu senti, mas sei, no fundo, que é apenas ansiedade em poder vê-la ali de novo, talvez esperando por mim.
Mas será mesmo? Talvez eu só esteja imaginando coisas, nos conhecemos por apenas um dia, por que ela estaria aqui me esperando desde tão cedo?
Tento manter a calma e vou calmamente até o sebo, olhando para as ruas, casas, carros, tudo — menos ela.
Ao me aproximar, fico em silêncio e penso se eu deveria dizer algo. Será que ela realmente está esperando por mim? E se eu falar algo e ela me ignorar? Será que ainda está brava comigo?
E se..., e se..., e se..., e se..., e se..., e se..., e se...
— Isaque? — pergunta Clara, com um olhar preocupado. — Você está bem? Está parado aí me olhando...
Ah?
Ela realmente estava aqui esperando por mim?
Minha mente barulhenta finalmente se acalma e me sinto aliviado. Clara olha para mim, confusa, esperando por uma resposta.
— Desculpe, estou sem meu óculos, não te reconheci — respondo, sarcasticamente.
— Você nem usa óculos! — Ela responde, zangada, mas logo começa a rir.
Sem conseguir evitar, acabo rindo junto.
Ha, ha, ha…
Logo percebo que ela estava com o cabelo amarrado e vestindo uma camiseta de anime — um que conheço. Não imaginei que ela fosse tão nerd assim, pelo menos não tanto quanto eu.
Será que ela está de pijama e nem percebeu? Penso...
— Antes de tudo, me desculpe por ontem — diz Clara, olhando para o chão envergonhada. — Acabei surtando por medo de acabarmos não encontrando o que queríamos e de não conseguir corresponder às suas expectativas…
— Está tudo bem, você não precisa—
— Não! Não precisa falar isso, eu sei… mas agora eu já sei o que fazer... — responde Clara, com um olhar obstinado.
— Ah, antes que você fale, tem algo que eu pensei ontem antes de dormir que eu preciso te dizer — digo.
— Então parece que ambos temos uma ideia em mente de como agir agora, que tal falarmos ao mesmo tempo? — propõe Clara.
— Certo! — Aceito seu desafio.
1, 2, 3…
— O seu primo pode saber sobre o casal!
— Meu primo sabe sobre o casal!
Nós dois falamos ao mesmo tempo. Após nos darmos conta de que dissemos a mesma coisa, voltamos a rir juntos. Parece que estamos em sincronia.
— Eu falei com ele ontem, e seu pai, meu tio-avô, conhece o casal e é amigo deles — explica Clara.
— Então só precisamos pedir ajuda a ele, certo? — pergunto.
— Sim, mas há um problema… — Clara dá uma pausa, tentando criar suspense. — Ele mora em outra cidade.
Após isso, vamos embora juntos do sebo em direção à estação de trem. Eu nunca andei de trem antes, então estava um pouco nervoso, mas ao chegarmos, descobrimos que, por conta de um acidente durante a noite, os trens não estavam funcionando.
Dessa vez, sou eu que fico chateado, pensando que mais uma vez teríamos uma barreira em nosso caminho, mas Clara diz que poderíamos ir a pé, já que a cidade não ficava tão longe assim. Com suas palavras, ela me convence a embarcar nessa jornada cansativa, e juntos, saímos em direção a essa outra cidade.
Tivemos bastante tempo para conversar nessa nossa caminhada eterna, já que o tempo parecia não passar, no bom sentido, claro.
Clara revela um pouco mais de si para mim, dizendo ter problemas de autoestima e ansiedade, além de um já enraizado medo de fracassar — o que explica suas ações de ontem. Ela é uma garota muito inteligente e obstinada, mas diz ela que isso é apenas uma máscara que ela usa com as pessoas. Ela só estuda e consome mídia para tentar escapar dos seus problemas.
Ela diz também que seus pais estão se divorciando e parece que as coisas não estão indo muito bem. Respondo dizendo que quase não vejo meu pai por conta do trabalho dele.
Parece que nós dois temos famílias complicadas.
Voltando à tal máscara que ela citou, admito que desde o começo percebi uma certa ‘forçação’ por parte dela. Digo isso a ela — aproveitando que ela tocou no assunto e já estamos mais íntimos —, ela responde dizendo se preocupar demais com o que pensam dela, logo, ela tenta agir apenas como uma garota normal e simpática. Ela diz que é apenas fingimento, mas eu percebo o seu lado verdadeiro: uma pessoa verdadeiramente esforçada, empática e, possivelmente mais nerd do que eu.
Ela diz ter medo do futuro. Eu também tenho, não sei como ajudá-la com isso. Ela diz invejar que eu tenha um hobby que me faça capaz de ignorar o mundo a minha volta, dizendo que mesmo que o mundo esteja acabando, eu ainda estaria focado no que gosto, ignorando o resto.
Eu respondo dizendo que isso não é bem verdade, já que meu hobby é justamente observar o mundo a minha volta. Eu quero conhecer pessoas e ouvir suas histórias. O único problema é que sou inseguro demais para isso. Inseguro e sem confiança para ir atrás do que quero.
Decido me abrir mais com ela e digo que sou apenas um garoto solitário matando o tempo. Esses desejos são tudo o que tenho.
Ela diz que, mesmo assim, me acha legal.
Sinto meu rosto arder…