Finalmente chegamos à cidade, nunca vim aqui antes, então tudo parece novo e interessante, e parece que para Clara também.
Os prédios são diferentes dos que estão no centro da nossa cidade, até os modelos dos carros na rua são diferentes. Sinto uma atmosfera mais calma também, diferente do centro caótico em nossa cidade.
— Faz muito tempo desde que vim aqui pela última vez — diz Clara, com um certo medo em seus olhos.
— Você sabe como chegar até seu tio-avô? — pergunto, receoso.
Clara fica em silêncio, parecendo se perder nos seus pensamentos. É natural que isso aconteça, ela não vem aqui desde quando era criança e estamos fazendo tudo isso sem preparo.
— Está tudo bem, tenho certeza de que chegaremos até ele, mesmo que tenhamos de andar por essa cidade inteira — afirmo, tentando acalmá-la.
Clara sorri e olha para mim, dizendo estar tudo bem, que ela ainda se lembrava de alguns lugares e que conseguiria encontrar o caminho.
— Você confia na minha intuição? — pergunta Clara, com um rosto sério virado para mim.
— Claro — respondo sem excitar.
Após passarmos por alguns lugares — desconhecidos para mim, mas familiares e nostálgicos para Clara —, eles começam a funcionar como chaves para Clara, a ajudando a desbloquear suas memórias sobre a cidade, e, depois de poucos minutos caminhando, Clara já sabia exatamente para onde ir.
Seguindo seus passos, finalmente chegamos no nosso destino. Escondida em uma rua sem saída, havia uma casinha pintada de amarelo de número 86. Ao batermos na porta, um senhor já de idade a abre, e com um grande sorriso, cumprimentava sua sobrinha-neta que não via há tantos anos, logo perguntando sobre mim e, como os velhos sempre fazem, pergunta se sou seu namorado. Com vergonha, Clara diz que sou só um amigo e logo me encontro dentro de sua casa tomando café e comendo biscoitinhos.
Só um amigo…?
Tal senhor parecia morar sozinho, então obviamente ele estava feliz por ter visitas, mas temos um motivo para estar aqui. Pergunto para ele sobre o livro e a quem ele pertencia. O senhor parecia tentar pescar de sua velha mente uma resposta. Para nossa sorte, tal cabeça ainda funcionava e ele explica ser amigo do casal, os antigos dono do livro, dizendo que a casa deles é ali perto.
No trajeto, ele conta como os conheceu: era amigo de infância do marido, tendo estudado e até trabalhado com ele na mesma empresa. Diz que o amigo levava uma vida complicada, sempre se metendo em brigas e confusões, mas que tudo mudou ao conhecer uma mulher — doce e gentil, porém firme e determinada. Ele diz se lembrar claramente do dia em que o amigo decidiu se declarar para ela e, de fato, o fez, se casando no ano seguinte.
Clara e eu ouvimos atentamente essas histórias, encantados por finalmente poder conhecer mais sobre esse casal de desconhecidos — que, no fim, acabou se tornando tão familiar para nós.
Sem nos darmos conta, logo estávamos de frente com a casa do casal. Animado e mal podendo esperar para enfim conhecer os dois, fui direto apertar a campainha, imaginando ser recebido por um fofo casal de idosos felizes e apaixonados. No entanto, notei uma expressão triste no rosto do tio-avô de Clara.
— Infelizmente, os dois já não vivem mais aqui. Faleceram há algumas semanas. Ela foi primeiro, e ele, apressado como sempre, foi logo em seguida.
Logo percebi a placa de ‘vende-se’ no portão da casa.
Não há ninguém para nos atender aqui.
Após passarmos mais um tempo com o tio-avô da Clara, chega a hora de nos despedirmos. Não me sinto triste com este final. Conseguimos o que queríamos, de fato.
Tivemos a certeza de que, até o fim, esse casal se amou e viveu feliz, mesmo sabendo de tão poucos detalhes — o principal encanto de uma história.
Percebi que ganhei algo muito mais importante do que uma aventura ou satisfação para minha curiosidade mórbida: uma amiga. Aposto que Clara deve se sentir da mesma forma.
Antes de ir, Clara devolve o livro para seu tio-avô, mas ele o recusa, dizendo que ela poderia ficar com ele. Clara, com um sorriso no rosto, agradece e abraça o livro.
Ao retornarmos ao sebo, me despeço de Clara, dizendo que foi divertido viver aquela aventura com ela. Ela sorri, dizendo que também se divertiu e que no fim, nosso maior inimigo realmente foi o tempo.
Antes de ir, devolvo o livro para Clara, que estava comigo — decidi o ler uma última vez enquanto estávamos no trem, que, por sorte, voltou a funcionar — e, então, sigo para casa.
Tenho bastante coisa para escrever no meu blog. Percebo que é bobeira me sentir envergonhado de fazer o que gosto.
Assim como Clara está tentando ser mais honesta consigo mesma, eu também deveria tentar.
Vejo Isaque descer a rua e, aos poucos, desaparecer da minha vista. Decido abrir o livro para ler, pela última vez, a dedicatória que iniciou tudo isso — antes que este livro se torne apenas mais um na minha prateleira. Ao abri-lo, me surpreendo ao perceber que há algo novo escrito abaixo do texto original:
“Para Clara,
Obrigado por me acompanhar nessa caçada.
Quer se encontrar no sebo de novo algum dia desses comigo?
Tenho vários livros para te recomendar.
Aqui meu número: (XX) XXXX-XXXX
Com carinho,
Isaque”
Após ler isso, não consigo evitar que um sorriso se forme em meu rosto.