Uma reunião acontecia no Mundo Imortal.
Havia exatamente doze assentos, mas apenas onze estavam ocupados.
— Você foi mais rápido, Chu Ming. — Uma voz feminina cortou o silêncio.
Era a antiga líder da Seita da Fênix de Gelo, Xiao Mei.
Chu Ming riu.
— Posso não ser o mais forte, mas sou o mais rápido.
Assim que terminou de falar, a expressão de todos se tornou séria.
— Não devemos desperdiçar tempo — declarou Nie Long, antigo Imperador do Norte.
Todos suspiraram, tomados por um profundo pesar.
— Então o que foi relatado sobre a Era Perdida... era verdade. — Liu Hua, fundadora da Seita Lótus Carmesim, quebrou o silêncio.
Chu Ming começou a relatar tudo o que havia testemunhado.
Os demais também compartilharam algumas anomalias que haviam ocorrido em diferentes regiões do Mundo Imortal.
Havia até um boato de que a antiga Serpente do Mar da Perdição havia se submetido ao soberano que surgira.
Ela estava prestes a romper seu gargalo e ascender à condição de Dragão Imortal.
— Ainda não conhecemos as intenções daquela divindade do Mundo Superior. Por enquanto, devemos nos preparar para o pior.
A voz de Nie Long encerrou a longa reunião dos onze.
Um a um, todos partiram.
Chu Ming permaneceu observando o nascer do sol.
Perguntava-se se seriam capazes de enfrentar aquela crise enquanto ainda travavam uma guerra contra o Continente Demoníaco.
— Aquele sujeito... como sempre, não apareceu na reunião...
Soltou um longo suspiro.
— Tão poderoso quanto irresponsável... Reverendo Radiante, você nunca muda.
Enquanto o Mundo Imortal mergulhava em agitação, alheio a tudo isso, Kael despertou de seu sono.
Eram cinco da manhã.
Seu primeiro impulso foi correr para explorar aquele pequeno mundo novamente, mas conteve-se.
Primeiro escovou os dentes e preparou algo para comer.
Depois, como fazia todos os dias, foi verificar a caixa de correio.
Apesar de ter recebido o diagnóstico de câncer terminal, sua rotina quase não havia mudado.
Como seus pais haviam sido dados como mortos, ainda nutria uma pequena esperança de encontrar alguma carta deles.
Mas já sabia que não encontraria nada. Ou, pelo menos, era isso que pensava.
Ao abrir a caixa de correio, encontrou um envelope.
Por um instante, imaginou que o carteiro tivesse cometido um engano.
Contudo, ao olhar o destinatário, viu seu próprio nome.
Curioso, abriu-o rapidamente.
«O senhor Kael Soares recebe uma bolsa em reconhecimento às contribuições de seus falecidos pais, o Desperto Mikhael e a Desperta Katia.
Temos a honra de receber o herdeiro desses dois heróis na Primeira Academia de Elite para Despertos.»
Kael arregalou os olhos.
Leu a carta uma vez, depois outra, e mais outra.
— Que porra é essa...? Despertos? Meu pai e minha mãe eram heróis...?
Sem perder tempo, entrou na casa e subiu correndo as escadas.
Pesquisou por “Despertos” e “Academia para Despertos”, mas não encontrou absolutamente nada.
Franzindo a testa, ativou um VPN e acessou a Deep Web.
A princípio, encontrou apenas fóruns repletos de teorias conspiratórias.
«O governo esconde a verdade.
As cidades perdidas nunca foram vítimas de terremotos.
Os portais existem.»
Kael ignorou boa parte daquilo.
Continuou pesquisando até encontrar um fórum cujo acesso exigia convite.
Após alguns minutos, conseguiu entrar.
Havia milhares de arquivos vazados.
O primeiro que abriu mostrava imagens de prédios destruídos.
Homens e mulheres vestindo armaduras de combate enfrentavam criaturas gigantescas.
A legenda dizia:
«Incidente de Mana Nível 3 — Documento Confidencial.»
Assistiu a um vídeo que terminava antes de o combate acabar.
O segundo arquivo continha um relatório.
«Há aproximadamente oito anos, os primeiros portais surgiram em diferentes partes do planeta.
As armas convencionais apresentaram baixa eficiência contra as criaturas invasoras.
Após a descoberta das Pedras de Mana, iniciou-se o Projeto Despertar.»
Kael passou os olhos rapidamente pelo restante do documento.
Segundo os registros, uma pesquisadora descobrira que pedras de mana com determinado grau de pureza permitiam despertar canais de mana nos seres humanos.
Graças a essa descoberta, surgiram os Primeiros Despertos.
Seu coração acelerou quando encontrou dois nomes.
Mikhael Soares.
Katia Soares.
Suas pupilas contraíram.
Tremendo, abriu o arquivo seguinte.
Uma fotografia apareceu na tela.
Um homem de cabelos negros e uma mulher de longos cabelos castanhos sorriam lado a lado.
Entre eles, um bebê era segurado com carinho.
A legenda dizia:
«Os Primeiros Despertos — Mikhael, Katia e seu filho, Kael. Fotografia registrada antes do Incidente Zero.»
Kael ficou encarando a tela em silêncio.
Aqueles rostos... Ele conhecia cada detalhe deles.
O sorriso do pai quando tentava esconder a preocupação.
O jeito da mãe de bagunçar seus cabelos sempre que ele fazia algo de que ela se orgulhava.
Por quinze anos, aqueles dois haviam sido simplesmente seus pais.
Pessoas que preparavam seu café da manhã, perguntavam sobre sua escola e reclamavam quando ele ficava acordado até tarde.
Nunca imaginou que, por trás daqueles momentos simples, seus pais carregavam um peso que ele jamais poderia ter imaginado.
Seus dedos tocaram a tela.
— Vocês eram heróis...
A frase saiu baixa, quase como se ele ainda estivesse tentando acreditar.
“Agora tudo fazia sentido...”
“As noites em que não voltavam para casa...”
“Os ferimentos que eles tentavam esconder, dizendo que eram apenas acidentes...”
“A forma como se esforçavam para serem bons pais, mesmo quando o dever os obrigava a ficar longe...”
Durante três anos, Kael sofreu pela perda deles.
Mas agora descobria que não havia perdido apenas seus pais.
Havia perdido a verdade sobre eles.
Após um longo suspiro, abriu outro documento que explicava que, no início, poucos portais haviam surgido, mas seu número aumentava a cada ano.
O primeiro deles recebeu o nome de Portal Zero.
O governo mundial acreditava que era apenas uma questão de tempo até que toda a verdade viesse à tona.
Ainda incrédulo, abriu outro arquivo, desta vez havia dezenas de fotografias.
Kael ficou imóvel diante das imagens.
Sua garganta secou.
— Eles... são mesmo meus pais...
Mikhael empunhava uma espada envolta por relâmpagos.
Katia lançava chamas azuladas contra monstros gigantescos.
Em outra imagem, ambos apareciam cobertos de sangue, mas ainda sorriam para a câmera.
Abaixo havia apenas uma frase.
«Os heróis que sacrificaram suas vidas para impedir a queda da Primeira Academia de Despertos.»
O papel da convocação escorregou de sua mão. Kael riu, completamente desnorteado.
— Tudo isso... esteve escondido esse tempo inteiro...
As informações começaram a se encaixar.
Aquelas criaturas realmente haviam invadido a Terra.
As armas convencionais quase não eram eficazes contra elas.
Kael relembrou a feira misteriosa.
Agora, tudo o que vira naquele lugar parecia fazer sentido.
Soltou um pesado suspiro.
— Por quê... pai... mãe...?
Depois de testemunhar o mundo dentro da caixa, descobrir que a Terra estava sendo invadida por criaturas de outros mundos já não era algo tão chocante.
O verdadeiro choque era descobrir quem seus pais realmente haviam sido.
Entre os diversos arquivos da Deep Web, Kael encontrou ainda mais fotografias de Mikhael e Katia.
Também descobriu que Ashley Hoshino, uma grande amiga de seus pais, era quem havia enviado a carta.
A mestiça japonesa aparentemente ocupava uma posição importante entre os líderes da Academia de Despertos.
— Eu pensei que ela estivesse morta... Isso é repentino demais. Será que isso é alguma brincadeira? Eles devem saber que estou morrendo.
Kael coçou levemente a cabeça.
Apesar da confusão, um sorriso surgiu em seus lábios enquanto continuava lendo sobre seus pais.
Era impossível não sentir orgulho deles. Mesmo que já não estivessem vivos.
— Acho que eu também estava vivendo dentro de uma caixinha...
Seu olhar se voltou para a misteriosa caixa prateada.
— Agora descubro que até o meu próprio mundo era muito maior do que eu imaginava.
Ele ainda precisaria refletir se aceitaria ou não o convite da academia.
Mas, no fundo, já sabia qual seria sua resposta.
Era sua única oportunidade de descobrir mais sobre seus pais.
— Recebo um mundo de cultivo dentro de uma caixa das mãos de um velho estranho... e, agora, descubro uma verdade que sempre esteve bem debaixo do meu nariz.
Kael caminhou até a caixa.
Pretendia iniciar sua busca por uma cura milagrosa e descobrir como cultivar rumo à imortalidade.
Era isso que mais o atraía naquele momento.
Mas, ao se aproximar da bancada onde a caixa repousava, seu olhar congelou.
Sobre a cabeceira da cama estava a fotografia de seus pais.
Em silêncio, estendeu a mão e a pegou.
— Velho esquisito... mas de bom coração... — murmurou, com os olhos marejados. — Se iria devolvê-la... por que não fez isso antes?
Mordeu levemente os lábios.
— Mesmo sabendo o valor do que você me entregou... ainda me senti o pior filho que meus pais poderiam ter.