Kael permaneceu pensativo por alguns minutos após desligar a ligação.
Se quisesse viver sem muitos problemas após se curar do câncer, precisaria criar uma fachada bem elaborada.
Por enquanto, poderia usar a influência de sua tia, Ashley Hoshino.
Mesmo sem saber o quão influente ela era, Kael tinha certeza de que Ashley não era simples.
Ainda que estivesse bastante chateado com ela, não era do tipo que se deixava dominar pelas emoções.
Kael compreendia o que significava possuir aquele mundo em miniatura.
Poder e riqueza não seriam um problema. O verdadeiro perigo seria alguém descobrir sua existência e vir atrás dele.
Um risco ainda maior seria se aqueles seres aterrorizantes conseguissem sair daquele mundo.
Era necessário gastar algum tempo estudando todas as funções da caixa.
Decidiu voltar ao segundo andar e continuar seus planos.
Subindo pelos pedaços que restaram da escada, parou em frente à porta.
Mas, ao olhar uma segunda vez para a destruição, estreitou as sobrancelhas.
“Se aquela pele era tão pesada a ponto de causar todo esse estrago... como consegui movê-la?”
Outra coisa também o intrigava.
Quando retirou o pedaço de montanha da caixa, teve a estranha sensação de que algo o alertava sobre o perigo.
O mesmo aconteceu quando trouxe a pele e as dez pedras espirituais que Feng Li lhe entregara.
Além disso, sempre que explorava o mundo da caixa, suas dúvidas pareciam receber respostas de maneira misteriosa.
Enquanto refletia, Kael lembrou-se de um romance que havia lido.
Chamava-se Rompendo os Céus.
Nele, alguns tesouros antigos ou forjados com materiais extremamente preciosos acabavam desenvolvendo consciência própria.
“Será que a caixa é um tesouro desse tipo? Um artefato divino...?”
A ideia fez seus olhos brilharem.
“Poderia ter sido ela quem fortaleceu meu corpo para que eu não morresse esmagado?”
“Isso explicaria muita coisa.”
Um sorriso surgiu em seu rosto ao entrar no quarto.
Mas, antes de começar a interrogar a caixa, Kael fitou as dez pedras espirituais que brilhavam intensamente.
Um passo.
Dois.
Abaixando-se, pegou uma delas.
Tinha o tamanho de uma bola de beisebol.
“Me sinto mais revigorado só de segurá-la...”
Kael engoliu em seco.
“Então é isso que é uma pedra espiritual de alto nível...”
Todo o quarto era tomado por um intenso brilho verde que emanava das pedras.
“É bom que eu não tenha vizinhos em um raio de um quilômetro, ou tudo o que ocorreu hoje chamaria atenção.”
Kael se abaixou e puxou debaixo da cama um pequeno cofre de cinquenta centímetros.
Retirou dele vinte mil reais que havia guardado e colocou as dez pedras espirituais em seu interior.
Só então o intenso brilho verde desapareceu do quarto.
“Será que isso é radioativo?”
Balançou levemente a cabeça.
Não importava muito.
Na verdade, seu câncer terminal era, em parte, consequência de um erro cometido por ele mesmo.
Quando era mais novo, cerca de um ano após a morte de seus pais, encontrou um pedaço de pedra que brilhava em um tom verde-escuro.
Só mais tarde descobriu que aquilo era urânio.
Mas, até então, já o havia usado como pingente por mais de seis meses.
Naquela época, algumas das crianças do orfanato que conviviam com ele acabaram adoecendo.
Depois que perceberam aquela estranha coincidência, todos passaram a evitá-lo.
Kael passou os anos seguintes praticamente sozinho.
Mesmo após descobrir a verdade sobre o urânio, nunca contou a ninguém.
Apenas manteve esse segredo oculto e escondeu o urânio em um local seguro.
Após terminar de guardar as pedras espirituais, pegou a caixa.
Por um momento, encarou-a em silêncio.
— Caixa... você é um artefato divino?
Menos de um segundo se passou antes que os lábios de Kael se arqueassem.
Houve uma resposta.
Um simples “sim”, mas, para Kael, aquilo significava muita coisa.
— Você me ajudou para que eu não morresse esmagado pelo couro de Feng Li?
Novamente houve uma confirmação.
Em seguida, Kael perguntou se os seres do mundo em miniatura poderiam sair daquele lugar. A caixa confirmou que sim.
Mas parecia que isso só seria possível caso alguém possuísse um poder superior ao do próprio artefato divino.
Apesar de responder às suas perguntas, a caixa não respondia a tudo.
Ele perguntou sobre o velho que encontrara na feira, mas recebeu apenas silêncio.
Kael precisava pensar melhor em como formular suas perguntas.
Perguntava-se se a inteligência da caixa era semelhante à de uma IA limitada ou se ela apenas estava se fazendo de difícil.
E a maneira como ela respondia, embora ele interpretasse como palavras, era mais parecida com uma sensação ou uma intuição.
“Talvez eu seja muito fraco... e a caixa me despreze.”
Suspirou.
“Mas pelo menos sei que apenas alguém extremamente poderoso poderia escapar deste mundo em miniatura por conta própria.”
Houve uma breve pausa.
“A questão é saber o quão poderoso alguém precisaria ser...”
Ela não especificava reinos ou níveis de poder, então Kael não tinha como ter certeza. Afinal, ele ainda não compreendia completamente como as etapas de cultivo eram classificadas.
Era algo que precisaria estudar a fundo no futuro.
“A caixa não deixou isso claro. Mas tenho a sensação de que posso tirar alguém de lá se quiser... Só não sei se existem regras.”
Embora ainda tivesse muitas dúvidas, Kael já havia percebido que aquele artefato não parecia interessado em responder tudo.
Sendo assim, era melhor perguntar apenas o que realmente importava.
— Caixa... artefato divino... eu posso cultivar rumo à imortalidade?
A resposta veio logo em seguida.
Kael sorriu, mas manteve um olhar pensativo.
Entre todos os humanos da Terra, apenas ele poderia cultivar.
Foi essa a resposta que recebeu.
Quando perguntou o motivo, a caixa respondeu que ele deveria descobrir por si mesmo.
“Você é bem mesquinha... Só porque é um artefato divino não precisa ser tão arrogante.”
Kael não sabia explicar, mas teve a impressão de que a caixa bufou em desdém diante daquele pensamento.
Mesmo assim, não se importou.
Agora era hora de voltar a encontrar seu mascote e conhecer seus próximos servos.
“Hehe. Seita Dao Infinito... estou realmente ansioso.”
Kael não via a hora de finalmente encontrar uma seita daquelas que só tinha visto nos romances.
— Hoje mesmo devo começar a cultivar... Tenho que ser diligente, ou vou morrer de verdade. — murmurou enquanto abria a caixa e procurava por Feng Li.
Não demorou muito para encontrá-lo. Contudo, ficou fascinado com a cena que se apresentava no interior da caixa.
Os céus estavam cobertos por nuvens negras, e raios caíam constantemente, atingindo o Mar da Perdição.
Ondas gigantescas se erguiam no oceano.
Enquanto isso, o próprio espaço rachava e se estilhaçava repetidas vezes, regenerando-se como uma ferida aberta apenas para voltar a se partir como vidro.
Diante daquele caos, um dragão de escamas negras pairava imponente.
Raios caíam e se ligavam aos seus dois grandes chifres.
À sua frente, a poucos quilômetros de distância, havia um homem resplandecendo como um relâmpago dourado.
Ele era como uma minúscula formiga quando comparado ao tamanho assombroso de Feng Li.
Vórtices de energia se formavam ao redor dos dois.
Os olhos de Kael se iluminaram.
Era uma grande batalha entre imortais.
Não havia como deixar de assistir pessoalmente a algo que, até então, só conhecera por meio das páginas de romances.
“Que incrível... Feng Li é meu fofo mascote, mas, ao ampliar a imagem, ele parece tão aterrorizante e imponente...”
Kael balançou a cabeça em compreensão.
“É o que se espera de um orgulhoso dragão...”
“Mas, ainda assim...” — lembrou-se da destruição em sua casa. — “Você ainda não está merecendo um petisco deste Soberano.”
Kael observou o homem que enfrentava Feng Li com curiosidade.
“Ele deve ser forte para querer peitar meu mascote. Hehe... isso vai ser interessante.”