Kael ficou abismado com o quão aterrador havia sido seu arroto naquele pequeno mundo.
“Porra… será que exterminei toda a vida marinha abaixo? E o pequeno Feng Li e a mosca Radiante estão vivos?”
Ele observou a água do mar, que havia recuado por várias centenas de quilômetros, considerando as proporções daquele mundo. Agora, estava retornando e preenchendo o local vazio.
Kael teve a impressão de que um profundo fosso havia se formado exatamente onde seu arroto havia atingido.
“Eu tenho que ter mais cuidado… qualquer ação minha feita sem pensar pode arruinar esse mundo dentro da caixa.”
Ele estreitou os olhos.
“Será que realmente devo temer que alguns dos cultivadores saiam de lá…?”
Logo, balançou a cabeça.
Kael percebeu que só parecia tão poderoso por causa da absurda diferença de proporções entre ele e os seres daquele mundo. Afinal, ele ainda era apenas uma pessoa comum, com somente dois meses de vida restantes.
Se eles saíssem e ficassem com um tamanho semelhante ao dele… Kael relembrou a luta — ou melhor, a surra que seu mascote havia levado.
Raios rasgando o céu, o próprio espaço sendo despedaçado e aquele Reverendo confrontando até mesmo o vazio. Algo assim seria impossível de enfrentar.
Focando sua mente em Feng Li, logo uma imagem se projetou. Kael mostrou um sorriso forçado.
Seu dragão estava miserável. Toda a sua armadura de escamas estava rachada e, em muitos lugares, havia carne ensanguentada exposta.
Feng Li estava nas profundezas da terra sob o oceano, envolto em magma fumegante. Kael até avistou alguns enormes pedaços do que parecia ser diamante.
Seus olhos brilharam com aquela descoberta, mas, deixando isso de lado, seu coração sentiu culpa ao ver seu mascote tão maltratado.
“Isso é tudo culpa da mosca Radiante… não devo ser leve com ele. Este Soberano deve mostrar o terror.”
Kael suspirou pesadamente.
Então, ligando seus pensamentos ao Reverendo Radiante, uma imagem surgiu.
Ele também estava nas profundezas da terra, rodeado de magma. Todavia, não estava tão miserável quanto seu pobre dragão.
Havia três artefatos circundando-o. Pareciam ser um escudo de bronze, um grande vaso de formato peculiar e aquela espada dourada que ele usava. Ela havia crescido para algo em torno de cinquenta vezes seu tamanho original.
Fora isso, inúmeras espadas reluzentes se posicionavam acima, abaixo e aos lados do Reverendo, como guardas.
Isso irritou Kael. A única coisa que o fez relaxar foi perceber que todos aqueles tesouros já estavam se desfazendo em partículas de luz. Estavam completamente rachados e, além disso, o estado daquele sujeito também não parecia muito melhor.
Sua roupa dourada estava manchada de carmesim.
“Eu realmente não tenho intenção de matar esse pequeno imortal, mas seria uma pena ele não sofrer por mexer com meu mascote…”
Kael não era tolo. Afinal, aquele era apenas o segundo dia desde que começara a interagir com aquele mundo em miniatura.
A caixa-artefato também deixara claro que os seres de lá poderiam sair caso superassem o poder do artefato.
Diante disso, Kael não queria alertar aquele mundo sobre sua presença.
“É melhor manter um perfil discreto por enquanto… só depois de aprender como as coisas funcionam nesse mundo poderei ser mais ousado.”
Como os dois pareciam estar demorando para retornar à superfície, Kael foi até seu guarda-roupa e tirou uma caixa de papelão. De lá, retirou um pequeno frasco de spray.
“Pergunto-me se terá algum efeito em Feng Li…?”
O tempo passou e, depois de dez minutos, um brilho dourado surgiu do oceano, que havia se estabilizado.
Era o Reverendo Radiante. Sem dizer uma única palavra, prostrou-se em pleno ar.
O sangue já havia manchado toda a sua roupa, revelando sua situação precária.
Kael estreitou os olhos ao encará-lo. Em seguida, bufou, fazendo o pequeno homem tremer dos pés à cabeça. Mas não disse nada. Apenas aguardou mais alguns minutos, esperando seu mascote.
Então, uma sombra negra surgiu do oceano e voou para vários metros acima da superfície.
Feng Li fitou o céu com uma expressão ressentida. Ele não entendia por que havia sido punido com aquela formiga Radiante.
Aquele rugido da besta ancestral do mundo superior ainda o aterrorizava, fazendo-o engolir em seco sempre que se lembrava dele.
— Pobre Feng Li, você está tão miserável… Mas este Soberano vingará você dessa formiga brilhante.
O dragão encarou o céu, desnorteado.
“Mas é sua culpa que estou assim…”
Rapidamente, Feng Li balançou a cabeça ao lembrar que seu mestre podia ouvir seus pensamentos.
A voz do dragão surgiu:
— Este humilde servo… mascote… ficará honrado, Soberano.
Kael ficou em silêncio, sem saber o que dizer.
Para descontrair, focou sua atenção no Reverendo.
— Você entendeu agora, pequeno humano, do que um simples mascote deste Soberano é capaz? É melhor nunca esquecer…
Fez uma breve pausa dramática antes de fitar seu querido mascote.
— Feng Li, um dia, sob meus cuidados, você será tão poderoso e terrível quanto esta minha pequena besta.
O Reverendo não se atreveu a levantar a cabeça. Contudo, seus olhos queimavam de indignação.
Desde que renasceu neste mundo de cultivo, era considerado um gênio sem precedentes — alguém cuja existência não se repetiria no Mundo Imortal pelos próximos cem mil anos.
Com apenas mil e quinhentos anos, havia se tornado um Imortal Dourado e estava a um passo do Reino do Verdadeiro Imortal.
“Eu nunca fui tão humilhado assim… Apenas me aguarde, Soberano dos Nove Céus… É melhor você me matar hoje, ou cultivarei até me tornar uma Divindade do mundo superior. Então, certamente me vingarei e tomarei tudo o que você possui.”
Kael encarou o rosto do Reverendo, ampliando bem a imagem.
“Esse safado brilhante está com aquele olhar… Sim, aquele olhar de protagonista planejando uma vingança aterradora que vai durar uns mil e quinhentos capítulos… Com certeza não está pensando nada de bom sobre minha gentil pessoa.”
Por um momento, refletiu se deveria ou não esmagar aquele pequeno homem como se esmaga um mosquito.
Após algum tempo de reflexão, decidiu segurar a mão por enquanto.
“Esse cara com certeza é influente… Se eu tentar matá-lo, será que não vai aparecer do nada a alma de algum cultivador divino para protegê-lo? Ou será que todos neste mundo vão declarar guerra contra mim…?”
Kael se lembrava dos inúmeros romances que havia lido. Neles, o protagonista sempre escapava de algum jeito ou tinha alguém poderoso para protegê-lo.
Não havia como saber se o Reverendo Radiante seria diferente, mas…
“Hehe. Por enquanto, ficarei discreto…”
Enquanto Kael se perdia em pensamentos e o Reverendo se mordia de raiva, Feng Li, por outro lado, estava quase em lágrimas.
As palavras de seu mestre ressoavam em sua mente como um doce canto dos céus.
“O Soberano… ele realmente vai me fazer tão poderoso quanto aquela besta ancestral?”
Tendo começado como uma simples serpente no nível mais baixo e ascendido até se tornar um Dragão Imortal, Feng Li tinha seu orgulho. Porém, não era tão soberbo a ponto de pensar que seria capaz de exceder uma Divindade.
Mas aquelas palavras…
Elas não haviam vindo da boca de qualquer um.
Vieram do ser que governava todas as divindades do mundo superior: o Supremo Deus dos Nove Céus.
Feng Li estava tão tocado e animado que, por um momento, até esqueceu seu estado miserável.
— Antes de dar sua sentença, pequeno Reverendo... — a voz de Kael cortou o silêncio. — Entregue seu anel de armazenamento ao meu mascote, pois este Soberano acredita ser justo você sofrer um pouco pior que a morte!
Ele não pensou muito sobre o pedido. Afinal, achava perfeitamente normal que existissem anéis de armazenamento naquele pequeno mundo de cultivo. Se não fosse assim, sentiria que todos os romances de cultivo que havia lido o tinham enganado.
De repente, o ar pareceu ficar pesado onde estava o Reverendo.
Ele tremeu.
Toda a sua fortuna, suas técnicas supremas e seu tesouro mais precioso — aquele que lhe permitira alcançar seu atual Reino de cultivo — estavam dentro daquele anel.
“Eu escondi usando a técnica mística de ocultação do destino ensinado por meu mestre… como esse tal Soberano encontrou tão rápido?”
Por um momento, ele se sentiu completamente exposto diante daquele ser do Mundo Superior.
“Será que ele conseguiu percebê-la?”
Levantando o rosto para o alto, o Reverendo respirou fundo. Então, sorriu.
— Você pode ser poderoso no Reino Divino, mas existem regras que o impedem de agir como bem entender contra os inúmeros mundos onde os mortais habitam.
Sangue jorrou de seus lábios enquanto seu corpo começou a brilhar com um carmesim intenso.
— Soberano dos Nove Céus, eu me lembrarei desta humilhação!
Seu corpo desapareceu como se tivesse evaporado no próprio ar.
Kael piscou algumas vezes, surpreso. Mas logo balançou a cabeça em compreensão.
“Foi como imaginei… ele deve ser algum tipo de protagonista. Mas, hehe… quer esconder seus tesouros de mim, hein? Pobre Reverendo acha que pode fugir do dono deste mundo?”
Enquanto Kael se divertia com a situação, Feng Li ficou desesperado ao ver seu inimigo fugir diante de seus olhos.
— Esse maldito inseto Radiante… como se atreve?! — rosnou, furioso.
Ele reconheceu a técnica usada pela outra parte.
“Fuga de Sangue Divino.”
Foi algo criado por um Deus caído, mas apenas Verdadeiros Imortais poderiam utilizá-la.
— Como esse verme conseguiu…? Mas com certeza deve pagar um grande preço — murmurou, desanimado.
Era uma técnica criada para ocultar-se das inúmeras Leis do Dao. Durante algum tempo, nem mesmo os deuses eram capazes de encontrar aquele que a utilizava.
Pelo menos era o que Feng Li sabia a respeito daquela técnica divina. Afinal, ela havia sido um dos trunfos utilizados durante a grande guerra de dez mil anos atrás.
— Não se desespere, pequeno Feng. Este Soberano não o perdeu de vista.
Ouvindo aquelas palavras, o dragão suspirou. Ainda assim, não conseguiu esconder a surpresa em seu olhar.
Durante a grande guerra, nem mesmo as divindades eram capazes de encontrar aqueles que utilizavam aquela técnica. Eles conseguiam ocultar sua presença das próprias Leis do Dao do Céu e da Terra.
“Realmente, o Soberano deve ser aquele que governa o mundo superior… Eu, Feng Li, devo ter gastado a sorte de toda a minha linhagem para me tornar seu subor… mascote.”
Sem sequer imaginar o que passava na cabeça de seu mascote, Kael sentiu uma dor no coração ao ver seu dragão naquele estado.
— Feng Li, quanto tempo vai demorar para você se curar com seu cultivo atual?
O dragão negro pareceu surpreso com a pergunta. Seu Soberano deveria saber disso facilmente.
Kael percebeu o silêncio e se deu conta de que havia falado demais.
— Bem, no Mundo Superior, todos já nascem como divindades. Ferimentos como esse são curados em questão de segundos — complementou ele sem demora.
Os olhos do dragão quase saltaram das órbitas com aquela informação.
“Quer dizer que um simples recém-nascido do Reino Superior pode me esmagar?”
Esse pensamento o assombrou profundamente.
Mas, sabendo disso, também se sentiu envergonhado.
— Soberano… este humilde precisa de, no mínimo, quinhentos anos para se recuperar. Antes disso, ainda preciso eliminar o Ki do inseto Radiante que permanece em meu corpo…
Kael sugou o ar lentamente.
“Droga, isso é tempo suficiente para eu ver cinco gerações passarem, caso eu permaneça vivo… Os imortais realmente são diferenciados.”
Ele encarou brevemente Feng Li.
“Parece que devo testar isso nele… Não tem como eu esperar quinhentos anos, nem se eu quisesse.”
Kael retirou a mão novamente da caixa por um momento e pegou o spray ao lado da bancada.
Sua voz logo ecoou enquanto colocava a mão de volta dentro daquele pequeno mundo.
— Não tem como este Inestimável deixar seu pobre mascote sofrer… Venha, pequeno Feng. Experimente este medicamento divino. Talvez você possa até compreender o Dao da Regeneração.
Os olhos de Feng Li brilharam.
“Existe mesmo algo como o Dao da Regeneração?”
Ele sorriu. Depois de conhecer seu mestre, percebeu o quão limitada havia sido sua própria visão de mundo.
— Este Soberano só lhe avisa… — a voz de Kael continuou, assumindo um tom mais sério. — Este é um medicamento destinado a divindades. Você sentirá uma dor inimaginável. Pode até mesmo não funcionar… e você morrer.
Kael fez uma breve pausa antes de sorrir.
— Mas, se funcionar, os benefícios certamente valerão o risco. O que acha, meu pequeno Feng Li?
O dragão se sentiu profundamente comovido pela estima que seu Soberano demonstrava por ele. Embora seus ferimentos mais graves fossem, em parte, culpa do próprio mestre, ainda era tocante perceber que um ser tão incomparável se importava com uma existência insignificante como ele.
— Eu, Feng Li, estou disposto a ter minha alma rasgada pelo Soberano! — respondeu com determinação.
Kael riu, achando-o fofo.
“Tão pequeno, tão comportado! Como não me apegar a esse pequeno mascote?”
Ele soltou o ar lentamente. Mais uma vez, sentiu-se culpado por ter deixado o pequeno homem espancar tanto seu pet.
“Não devo perder mais tempo. Meu pobre dragão está sofrendo.”
— Escute, Feng Li. O nome deste medicamento divino é Merthiolate Cicatricure. Foi criado por grandes especialistas financiados por este Grande que vos fala…
O rosto do dragão assumiu uma expressão de expectativa e ansiedade ao ouvir aquelas palavras.
“Merthiolate Cicatricure… um tesouro divino capaz de me fazer compreender o Dao da Regeneração… Ainda que eu possa morrer, não posso perder uma oportunidade tão única.”
Por um momento, fechou os olhos.
Então, alguns segundos depois, tornou a abri-los. Um brilho de determinação surgiu em seu olhar.
— Soberano, estou pronto!
Sua voz saiu firme e determinada.
Kael sorriu.
Então, apertou o bico do spray.
Um jato colossal, contendo centenas de milhares de litros, despencou sobre o dragão como uma gigantesca cachoeira.
Por um momento, houve silêncio.
Então…
Chiado.
Um som semelhante ao de carne sendo queimada ecoou pelo mundo.
No instante seguinte, um rugido de dor agonizante reverberou pelo espaço, fazendo até mesmo o ar ao redor se distorcer e rachar.
Kael balançou levemente a cabeça.
— Tanto drama… apenas por causa de um pouco de Merthiolate.
Ele suspirou pesadamente enquanto observava seu dragão se debater em pleno ar.
— Realmente não se fazem dragões como antigamente…