Em uma sala aparentemente acadêmica, dezenas de jovens se espalhavam, conversando e rindo como se o mundo fosse um lugar perfeito. Havia uma diversidade interessante ali: altos, baixos, brancos, negros — parecia um retrato de inclusão para uma propaganda institucional. As paredes eram decoradas com quadros motivacionais genéricos, e prateleiras de livros enfeitavam os cantos, embora fosse evidente que ninguém os usava.
O barulho era intenso, uma mistura de risadas e conversas, que preenchia o ambiente com uma energia vibrante — mas também insuportável para Marcos.
Sentado em um canto mais afastado, ele tentava inutilmente se concentrar em um livro grosso intitulado “Introdução à Bolsa de Ações - Parte 2”. Não era exatamente sua leitura preferida, mas ele precisava dominar o conteúdo para manter suas notas impecáveis. Apesar disso, uma pequena parte dele queria estar lendo algo mais leve, talvez uma daquelas histórias fictícias que ele devorava online. Mas isso ficaria para depois.
Ele suspirou, olhando para a multidão com olhos cansados.
‘Esses desgraçados não têm nada pra estudar, não? Só ficam de papo furado. Tá todo mundo na mesma sala, mas só eu tô tentando ser alguém na vida?’
Marcos ajustou os óculos, que estavam escorregando pelo nariz, e tentou voltar ao texto.
‘Mas beleza. Melhor assim. Menos concorrência pra mim. Eles que fiquem rindo aí, enquanto eu construo meu futuro. Um dia vão estar me servindo café numa multinacional e…’
Seu devaneio foi brutalmente interrompido quando algo acertou sua cabeça. Uma borracha.
“— Ei, bobão! Não vi que você tinha chegado! Chega mais, cuzão…” — Uma voz cortante ecoou pela sala, arrancando risadas de algumas pessoas próximas.
Marcos fechou o livro com um suspiro derrotado. Ele já sabia o que estava por vir.
Levantou-se devagar, sua postura desajeitada o tornando ainda mais baixo do que realmente era. Ele olhou para a fonte do chamado: Eric.
Eric era alto, magro e tinha um sorriso malicioso que parecia estar sempre presente. Rodeado por um pequeno grupo de amigos e algumas garotas, ele era o típico valentão que achava graça em colocar os outros para baixo.
Marcos hesitou, mas caminhou até ele com os olhos baixos.
“— Não vai me cumprimentar, seu otário? Vai me deixar no vácuo?” — Eric disse, jogando um braço em volta dos ombros de Marcos de forma agressivamente casual.
Marcos se encolheu com o contato, mas respondeu com a voz fraca:
“— A-ah… b-bom dia.”
“— Qual foi Marcão? Não deu pra entender nada, fala pra fora!” — Eric riu alto, acompanhado por seu grupo, que parecia achar graça de absolutamente tudo.
Eric apertou o ombro de Marcos com força e olhou para as garotas ao redor.
“— A gente tava aqui falando da festa do João no fim de semana. Foi uma loucura, moleque! E essas meninas aqui? Elas arrasaram, se é que você me entende…”
Ele fez um gesto obsceno com as mãos, o que fez uma das garotas revirar os olhos.
“— Vai se fuder, Eric!” — disse ela, cruzando os braços com irritação evidente.
“— Relaxa, gata, tô só falando a verdade…” — Eric respondeu com um sorriso malicioso antes de voltar sua atenção para Marcos. — “E você, Marcão? Ficou com quantas minas nesse final de semana? No mínimo umas dez, né?”
O tom era obviamente debochado, e as risadas começaram antes mesmo de Marcos tentar responder.
“— Eu… eu…”
“— Ham? Fala mais alto, porra.” — Eric o interrompeu, apertando ainda mais seu ombro.
“— N-nenhuma…”
O grupo explodiu em gargalhadas.
“— Nenhuma? Tá de sacanagem! Olha só pra ele, cara! Você acha mesmo que ele já pegou alguém na vida?” — disse um dos amigos de Eric, rindo alto.
“— Nossa, que surpresa!”
“— Hahaha, tadinho dele…”
Marcos queria desaparecer. Ele já estava acostumado com aquele tipo de humilhação, mas isso não tornava as coisas mais fáceis.
“— Mas pera aí…” — Eric disse, fingindo uma expressão de choque exagerada. “— Você é virgem, né?”
Antes que Marcos pudesse responder, uma voz alta cortou o ambiente como uma lâmina:
“— Ei! Dá pra calar a porra da boca?”
O silêncio se espalhou instantaneamente pela sala. Todos os olhares se voltaram para o fundo da sala, onde aquele homem que havia aberto a boca estava.
O homem que disse aquilo havia se levantado e estava se aproximando deles. Todos voltaram seus olhares para aquela presença — não somente pelo que ele disse, mas por ser uma presença magnética demais. Era impossível desviar os olhos de alguém como ele.
Seu nome era… Adrien.
Adrien era… diferente. Ele tinha cabelos loiros cuidadosamente bagunçados, olhos azuis que pareciam atravessar as pessoas, e uma postura relaxada, mas incrivelmente confiante. Sua jaqueta esportiva destacava os ombros largos e os músculos tonificados, que pareciam quase fora de lugar em contraste com seus traços faciais levemente afeminados. Ele era o tipo de pessoa que atraía olhares por onde passava, como se tivesse sido esculpido para ser admirado.
“— Qual foi, Adrien?” — Eric respondeu, tentando disfarçar o nervosismo na voz. — “A gente só tá brincando… né, Marcão?”
Ele olhou para Marcos, claramente esperando que o garoto confirmasse, mas Adrien não deu tempo para isso.
“— Eu perguntei?” — Adrien respondeu friamente, seus olhos fixos em Eric. “— Vocês tão enchendo o saco e tão fazendo barulho pra caralho. Eu to tentando ler sabia? Cala a boca e deixa o moleque em paz.”
Eric abriu a boca para responder, mas pensou melhor e recuou.
“— Foi mal, Adrien… a gente já tava indo sentar mesmo.”
Ele deu um tapinha no ombro de Marcos antes de se afastar com o grupo, murmurando algo inaudível.
Marcos virou seu olhar para a figura imponente de Adrien. Era nítida a diferença entre ambos — havia um abismo entre suas existências. Um era respeitado sem nem precisar fazer nada para isso, e o outro era ridicularizado sem motivo algum. Talvez até tivesse algum motivo, mas era desconhecido por parte de Marcos.
Os dois eram realmente muito diferentes...
"O-obriga..."
"De nada." Adrien respondeu sem sequer olhar para ele, sua atenção já completamente focada no celular.
'Cacete, agora eu esqueci onde que eu tava!'
O jovem loiro portava em sua mão seu celular com um livro aberto, seu nome era “Economia do Amor: Por Que Ser Rico Te Deixa Mais Gostoso”.
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“Pega ele! Usa mais as pernas droga!”
“Põe ele no chão, ele é mais fraco pela esquerda.”
“Vamo! Esse saco é o atual da sua ex, quebra ele!”
Várias pessoas estavam treinando, descalças em um tatame preto.
O cheiro de suor e o som dos golpes ecoavam pelo ambiente. Era uma academia de artes marciais mista, onde lutadores de diferentes estilos se reuniam para treinar. No centro do tatame, um saco de pancadas balançava violentamente enquanto um jovem descarregava uma série de socos e chutes precisos.
“10, 9…” Ao notar a contagem, o jovem aumentou a intensidade e começou a atingir o saco ainda mais forte o fazendo voar.
“Beleza, acabamos por hoje Adrien. Bom trabalho” diz o homem que estava com o contador em sua mão.
“Obrigado treinador!” respondendo sue treinador e ao mesmo tempo enxugando seu suor com uma toalha e bebendo uma bebida energética que havia separado previamente.
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Depois de sair da academia, ele checou seu celular e percebeu que tinha várias mensagens não lidas. A maioria era do grupo da faculdade discutindo sobre o trabalho em grupo que precisavam entregar na próxima semana. Ele ignorou todas elas, como de costume.
Ele andava pelas ruas da cidade de São Paulo, escutando música em seus fones de ouvido e tentando ignorar os diversos olhares que recebia durante sua caminhada, a grande maioria vindo de mulheres.
Até que uma particularmente atraente, com longos cabelos vermelhos que balançavam suavemente ao vento, assobiou para ele de dentro de um carro esportivo reluzente.
“Ei, gatinho! Tá precisando de uma carona? Tem espaço pra mais um aqui dentro…” disse ela, sorrindo de um jeito que só ela conseguia, provocador e cheio de charme.
Adrien parou no meio do caminho, fingindo analisar a situação enquanto olhava para o carro e depois para ela. “Hmm… não sei, acho que a motorista desse carro pode ser perigosa.”
“Você tem razão,” respondeu ela com uma piscadela, “mas acho que você gosta do perigo, não gosta?”
Ele abriu um sorriso divertido, caminhando até o carro. “Bom, se é pra correr perigo, pelo menos o carro é bonito.” Ele abriu a porta e se acomodou no banco do passageiro, fechando a porta com cuidado.
Enquanto ela engatava a marcha e o carro arrancava com suavidade, Adrien olhou de relance para Laura, que parecia perfeitamente à vontade ao volante.
“Então,” ele começou, “quanto tempo falta pra você admitir que só me pegou porque tava com preguiça de esperar na porta da minha casa?”
Laura riu, sacudindo a cabeça. “Por favor, Adrien. Eu só quis te buscar porque queria te lembrar quem manda nessa… relação.” Ela disse em um tom sedutor
“Ah, claro,” disse ele, fingindo um tom sério. “Você manda no carro, mas em casa, quem escolhe o filme sou eu.”
“Desde que seja algo que eu queira assistir,”retrucou ela rapidamente, sem desviar os olhos da estrada.
Adrien riu, balançando a cabeça. “E pra onde estamos indo, mesmo? Porque se for outra dessas reuniões intermináveis com suas amigas falando de doramas, eu vou precisar de um aviso prévio.”
Laura lançou um olhar de canto para ele, sorrindo com satisfação. “Pior. Jantar com meu pai.”
Adrien franziu a testa, surpreso. “Sério? Você vai jogar logo o sogro na minha sexta-feira tranquila?”
“Relaxa,” disse ela, mudando de faixa com a naturalidade de quem dominava as ruas. “Ele não é tão assustador quanto parece. Só gosta de fazer perguntas desconfortáveis e julgar você em silêncio. Nada demais.”
“Ah, ótimo,” disse Adrien, com sarcasmo. “Você sabe que minha vida não é exatamente um exemplo de organização. O que ele vai pensar quando eu disser que ainda estou decidindo se quero trabalhar ou só viajar pelo mundo?”
“Ele provavelmente vai te oferecer um estágio na empresa dele,” respondeu Laura, com um sorriso divertido. “Você vai adorar passar os dias ouvindo ele falar sobre lucros e estratégias de mercado.”
Adrien suspirou, recostando-se no banco. “Pelo menos tem comida boa, né?”
“Comida ótima,” disse ela. “E vinho caro, se você souber puxar o saco dele.”
“Vinho caro, perguntas desconfortáveis e julgamento silencioso. Que programa perfeito para uma sexta-feira,” brincou ele, soltando uma risada.
Laura riu junto, mas logo sua expressão suavizou. “Sério, Adrien. Ele não é tão ruim. Ele gosta de você, mesmo que nunca diga isso diretamente. Só… não fale nenhuma das suas ideias malucas sobre abrir uma vinícola numa praia deserta, tá?”
Adrien levantou as mãos, fingindo inocência. “Sem promessas.”
Os dois riram enquanto o carro cruzava a cidade, a conversa fluindo naturalmente como sempre fazia entre eles.
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O motor do carro roncava suavemente enquanto eles deslizavam pela estrada principal. O sol da tarde tingia o céu de laranja, e as árvores ao redor lançavam sombras longas sobre o asfalto. Adrien observava as paisagens passarem, um sorriso tranquilo no rosto, sentindo-se confortável naquele momento simples e despretensioso.
“Você é mesmo um caso à parte,” disse Laura, sacudindo a cabeça. “Sabe, às vezes acho que você não leva nada a sério. Meu pai vai detestar isso em você.”
“Ou vai me adorar,” respondeu ele, olhando para ela. “Velhos sempre gostam de caras carismáticos.”
Laura abriu a boca para retrucar, mas o som de uma buzina alta interrompeu o momento. Adrien virou a cabeça instintivamente para a janela e viu, tarde demais, o enorme caminhão vindo em sua direção.
“Laura, olha—!”
A palavra morreu em sua garganta quando o caminhão atingiu o lado do carro com uma força brutal. O impacto foi devastador. Vidros estilhaçaram-se em todas as direções, o som metálico da colisão ecoando como um trovão. O carro foi arremessado para fora da estrada, girando descontroladamente enquanto Adrien sentia seu corpo ser jogado contra o cinto de segurança.
Tudo aconteceu rápido demais para processar. A força do impacto esmagou o lado onde ele estava, e o mundo tornou-se uma confusão de luzes, dor e escuridão. Quando o carro finalmente parou, tombado no meio do mato, o silêncio era quase ensurdecedor.
Adrien estava preso. O sangue escorria pela lateral de seu rosto, pingando lentamente no painel. Seu corpo doía em lugares que ele nem sabia que existiam, mas era uma dor distante, como se seu corpo já estivesse começando a desligar. Ele tentou se mexer, mas parecia impossível. Cada respiração era um esforço colossal, e seus olhos começaram a pesar.
“Adrien!”
A voz de Laura, desesperada, chamou-o de volta. Ele ouviu o som de passos rápidos no mato e, logo depois, sentiu mãos trêmulas tentando alcançá-lo.
“Adrien, por favor, fica comigo,” disse ela, a voz quebrada em soluços enquanto tentava abrir a porta do carro amassada. “Não faz isso comigo, por favor!”
Ele quis responder. Quis dizer que estava tudo bem, que ela não precisava se preocupar. Mas sua garganta parecia travada, e as palavras não vinham. Ele só conseguia olhar para ela, os olhos começando a ficar turvos.
Laura finalmente conseguiu abrir a porta, cortando as mãos no metal retorcido. Ela se ajoelhou ao lado dele, os cabelos vermelhos agora sujos e bagunçados, o rosto manchado de lágrimas.
“Adrien, olha pra mim!” Ela segurou seu rosto com as duas mãos, ignorando o sangue que manchava seus dedos. “Você vai ficar bem, tá? Eu vou chamar ajuda, só aguenta mais um pouco!”
Ele tentou focar nela, mas a dor e a exaustão eram insuportáveis. Adrien sentia como se seu corpo estivesse sendo esmagado de dentro pra fora. Ele tentou gritar, mas nenhum som saiu. Sua mente começou a se perder em fragmentos de pensamentos desconexos.
‘Isso não pode estar acontecendo… Laura… eu só queria jantar com ela… por que agora? Por que assim?’
Seu coração batia cada vez mais fraco, e o som da voz dela foi ficando distante, como se viesse de muito longe. Ele sentiu o toque dela se tornar mais leve, quase imperceptível.
‘Não é justo… eu não quero morrer…’
A última coisa que viu foi o rosto de Laura, desesperado, e os olhos dela presos aos seus como se tentar salvá-lo com um olhar fosse possível. Então, a escuridão o envolveu por completo.
Adrien estava morto.