“Eu… reencarnei.”
A ideia era absurda, mas Adrien não conseguia pensar em outra explicação. Ele estava vivo — ou, pelo menos, algo próximo disso. Seu corpo pequeno e frágil era carregado por uma mulher de aparência jovem e simples, e ele abriu os olhos com força, determinado a entender onde estava.
O ambiente à sua volta era aconchegante, mas muito diferente de tudo o que ele conhecia. A sala parecia um quarto rústico, com paredes e móveis feitos de madeira. Tudo ali tinha um ar artesanal, como se alguém tivesse esculpido aquilo com as próprias mãos. Não havia eletrônicos, nenhuma pintura nas paredes, nem mesmo um toque de modernidade. Apenas móveis simples e funcionais, que traziam um certo charme àquela simplicidade.
Adrien tentou analisar a mulher que o segurava, presumindo que fosse sua mãe. Ela usava um vestido branco de tecido grosseiro, manchado de terra em alguns pontos, mas nada disso a tornava menos bonita. Na verdade, o contraste entre sua aparência delicada e as roupas simples parecia intensificar uma beleza natural, quase selvagem.
Ela falava algo em um tom suave e melódico, mas é claro, ele não entendia uma palavra.
“Definitivamente, isso não é português… nem inglês. Não que eu saiba falar inglês, nem nada do tipo mas não se parece nenhum pouco. Na real, isso nem soa como algo normal.”
Ele tentou puxar pela memória, mas nada na língua dela lhe parecia familiar. Apesar disso, Adrien deduziu que não estava em um lugar tão distante assim.
“Talvez seja algum lugar na Europa? França? Itália? Vai ver é algum país que eu nunca ouvi falar. É… isso faz sentido.”
Enquanto ele tentava juntar os pedaços desse estranho quebra-cabeça, a porta do quarto se abriu com um rangido, revelando um homem.
O recém-chegado era grande, robusto, e tinha uma postura confiante que dominava o ambiente. Devia estar na casa dos 30, com cabelos castanhos e uma barba bem aparada. Seu rosto, embora másculo, exibia uma expressão animada e acolhedora, como a de alguém que acabara de ganhar o maior presente da vida.
Antes que Adrien pudesse processar o que estava acontecendo, o homem se aproximou com passos largos e, sem cerimônias, o pegou no colo como se fosse uma bola de futebol.
— *O que ele está fazendo?!
E então ele foi jogado para o alto.
Adrien sentiu seu pequeno corpo subir e descer no ar, guiado pelas mãos firmes do homem. Apesar do susto inicial, era estranhamente divertido.
“Ok, talvez isso não seja tão ruim assim.”
O homem parecia estar se divertindo tanto quanto ele, rindo alto enquanto continuava a jogá-lo e pegá-lo como se ele fosse o brinquedo mais incrível do mundo.
Mas a mulher que o segurava antes — sua suposta mãe — não parecia tão animada. Ela começou a falar em um tom mais alto e irritado, claramente repreendendo o homem. Ele, por outro lado, respondeu com um sorriso tranquilo, gesticulando como se quisesse acalmá-la.
“Não faço ideia do que estão dizendo, mas parece que ela está pistola porque o cara tá quase me jogando no teto.”
Adrien observava tudo com atenção. Era curioso como o homem parecia relaxado, mesmo sob as críticas da mulher. Ele era confiante, seguro de si, mas não de um jeito arrogante. Parecia… humano.
“Ok, vamos juntar os fatos. Homem grande e musculoso, aparência jovial, me jogando pra cima como um maluco. Mulher bonita e irritada que claramente está no comando. Hum… deve ser meu pai. Faz sentido.”
Quando finalmente o colocaram de volta no colo da mulher, Adrien suspirou internamente. Ainda era cedo para tirar conclusões, mas uma coisa era certa: a vida por aqui seria *muito* diferente da que ele teve antes.
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Os dias após seu renascimento foram… insuportavelmente monótonos. Adrien nunca havia se sentido tão impotente em sua vida. A primeira semana foi um verdadeiro inferno de tédio. Ele estava preso em um corpo minúsculo, sem força suficiente para falar, andar ou sequer engatinhar. Tudo que conseguia fazer era observar o teto, ouvir vozes que não entendia e chorar quando sentia fome.
‘Isso é ridículo… Eu não pedi pra reencarnar como um bebê! Quem quer viver assim?!’
Mas com o passar dos dias, as coisas começaram a melhorar. Agora, uma semana após seu renascimento, ele finalmente conseguia engatinhar pela casa. Era libertador, embora ele ainda sentisse uma frustração imensa por não entender absolutamente nada do que as pessoas ao seu redor diziam.
Ele havia percebido que tinha duas irmãs mais velhas.
A irmã mais velha, com cerca de 8 anos, era uma garota alta para a idade, com cabelos pretos ondulados que desciam até a metade das costas, brilhando sob a luz como seda. Seus olhos verdes vibrantes contrastavam com sua pele pálida, criando uma aparência quase etérea.
Ela carregava um ar de maturidade precoce, mas sua expressão travessa denunciava que adorava aprontar pequenas pegadinhas.
Suas roupas eram simples, feitas de tecido rústico, mas ela sempre as usava de forma impecável, com o cabelo preso por uma fita escura que destacava ainda mais seu semblante marcante.
Já a irmã mais nova, com cerca de 5 anos, era uma criança adorável e cheia de energia. Seu cabelo preto e liso, cortado na altura dos ombros, parecia estar sempre bagunçado, revelando sua natureza inquieta.
Seus olhos castanhos brilhavam com uma curiosidade insaciável, e suas bochechas coradas quase sempre exibiam um sorriso inocente e travesso.
Embora usasse roupas semelhantes às da irmã mais velha, elas raramente permaneciam limpas por muito tempo, evidenciando sua constante movimentação e amor por explorar o mundo ao seu redor.
Ambas eram cheias de energia e viviam correndo pela casa, o que tornava o ambiente mais caótico do que deveria ser. Adrien as observava com curiosidade, mas evitava qualquer tipo de interação desnecessária.
‘Não é como se eu conseguisse me comunicar com elas de qualquer forma…’
A língua que todos ali falavam era completamente diferente de qualquer coisa que Adrien já havia ouvido. Parecia um dialeto estranho, talvez de algum lugar extremamente isolado. Ele tinha uma teoria: devia estar em algum canto remoto da Europa. Provavelmente no interior profundo, porque nem uma mísera televisão aquela casa tinha.
‘Nem TV! Que inferno é esse?!’ Adrien pensava, fervendo de indignação. Ele xingava mentalmente o universo pela sua situação atual.
E, com tanto tempo livre, os pensamentos não paravam de borbulhar em sua cabeça. Quanto mais ele refletia, mais uma questão o intrigava: por que ele ainda tinha as memórias de sua antiga vida?
‘Isso não faz sentido… Se eu realmente reencarnei, eu deveria ter esquecido tudo, certo? Não é assim que isso funciona?’
Ele começou a conectar os pontos. Antes de renascer, ele havia visto aquelas cordas estranhas, aquela teia incompreensível de luzes que parecia entrelaçar o universo em si. A sensação de ser despedaçado e reconstruído enquanto atravessava aquilo havia sido indescritível. E se… de alguma forma, aquilo tivesse travado o “sistema”?
‘Talvez… Talvez aquilo tenha me permitido burlar o processo.’
Era apenas uma teoria, mas era a única coisa que fazia sentido. Talvez a reencarnação fosse uma verdade após a morte, mas ele, ao se deparar com aquele “lugar”—se é que podia chamar assim—acabou escapando das regras.
‘Se for isso mesmo, então… eu sou uma anomalia. Uma falha.’
A ideia era assustadora e fascinante ao mesmo tempo. Isso significava que todo o conceito de reencarnação era real, mas ele, de alguma forma, havia rompido o ciclo natural. Ainda assim, não havia como confirmar nada. Ele só tinha as memórias e suas especulações.
‘Claro, Adrien, você podia estar na paz do esquecimento eterno, mas não, né? Tinha que bugar a reencarnação e ser mandado pra esse lugar sem TV e sem internet.’
Para piorar, o tédio era tanto que ele começou a se divertir de formas questionáveis. Por exemplo, propositalmente derramava sopa na roupa, puxava o cabelo da irmã mais nova e até jogava objetos no chão só para ver a reação dos pais. Quando o repreendiam, uma palavra se repetia com frequência:
— Kael!
Era isso. Essa era a única coisa que ele tinha conseguido entender desde que chegara ali. Era o nome que todos o chamavam, seu nome novo. Adrien—ou melhor, Kael—reconhecia que aquele provavelmente era o ponto de partida para aprender a língua, mas, no momento, ele apenas se ressentia de ter sido reduzido a um bebê travesso.
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**À noite**
Kael estava acordado. Ele já havia se acostumado com o silêncio noturno da casa, mas naquele dia específico, sentiu uma inquietação incomum. Talvez fosse o cansaço mental acumulado, ou apenas a curiosidade que não o deixava em paz. De qualquer forma, ele tinha um plano.
‘Chegou a hora da Operação Fuga do Berço.’
Com movimentos precisos, ele engatinhou até a borda do berço e se agarrou à grade. Já havia ensaiado aquilo várias vezes, mas a adrenalina era diferente agora. Ele escalou a grade com esforço, quase caindo em um momento, mas conseguiu aterrissar no chão com um som abafado.
‘Perfeito. Agora, é só explorar.’
Kael começou a engatinhar pelo quarto, observando os móveis rústicos e os poucos objetos que decoravam o lugar. Ele seguiu para o corredor, sentindo o chão frio de madeira sob as mãos e joelhos. A casa era extremamente simples, construída com madeira robusta e com uma decoração que ele só podia descrever como “minimalista forçada”.
Foi então que ele notou a janela no fim do corredor. A luz suave da lua passava por ela, iluminando o ambiente com um tom prateado. Movido pela curiosidade, Kael engatinhou até lá e se ergueu para olhar.
O que viu o deixou sem palavras.
…
Três luas.
Não uma, não duas… mas três!
Três luas brilhavam no céu, cada uma de um tamanho e cor diferentes. Uma era grande e branca, como a lua que ele conhecia. A segunda era menor e azulada, enquanto a terceira era avermelhada e ligeiramente distante das outras duas.
Kael ficou parado, boquiaberto, encarando aquela visão surreal.
‘O que…?’
A ficha finalmente caiu. Ele não estava no interior da Europa, nem em lugar nenhum da Terra.
‘Não… Não é possível… Eu… Eu não estou no meu mundo.’
A revelação o atingiu como um soco no estômago. Por um momento, ele sentiu seu coração disparar, e sua mente entrou em um turbilhão de pensamentos. Não fazia sentido. Nada fazia sentido.
‘Três luas… O que diabos é este lugar?’
Kael continuou olhando para o céu, tentando processar a imensidão do que acabara de descobrir. Aquele era o ponto de partida de algo muito maior do que ele imaginava.