Era difícil entender a passagem do tempo naquele mundo.
Kael — ou Adrien, como ainda se chamava mentalmente quando o hábito escapava — se esforçava para acompanhar os dias.
No começo, ele tinha até criado um sistema simples: dormir, acordar, contar. Fácil, certo? Bem, pelo menos era assim até ele perceber que dormia muito mais do que uma pessoa normal deveria.
Seu novo corpo de bebê parecia exigir cochilos intermináveis e inesperados, como se houvesse um cronômetro invisível dentro dele que o desligava sem aviso.
Ainda assim, ele tentava se guiar pelas três luas, que, sem falta, desapareciam no horizonte para dar lugar a um glorioso sol. E que sol era aquele. Incrivelmente parecido com o da Terra, o que gerava em Kael um sentimento agridoce. Era familiar demais, como se tentasse enganá-lo, como se quisesse que ele acreditasse que ainda estava em casa.
Mas não estava.
Aquela não era a Terra — ou, pelo menos, não a versão que ele conhecia. Ele se debatia com teorias mirabolantes na mente. Talvez fosse outra dimensão. Uma linha do tempo alternativa? Um planeta distante no universo? Quem sabe! O problema era que as pessoas ali pareciam absurdamente humanas, o que só tornava tudo mais confuso.
Por fim, ele desistiu. Sua conclusão mais realista era também a mais frustrante: ele não tinha ideia de onde estava.
Com o passar do tempo — ou algo assim, já que ele não sabia exatamente quanto tempo tinha passado — as coisas começaram a ficar ainda mais nebulosas. Parte disso era culpa de sua memória, que nunca foi sua maior virtude. A outra parte era culpa daquele corpo de bebê que exigia tanto sono que ele perdia completamente a noção das horas. Ele chutava que já tinham passado meses desde que chegou ali, mas poderia muito bem ser um erro de cálculo enorme.
Kael se perguntava constantemente o que poderia fazer preso no corpo de um bebê. A lista de coisas era limitadíssima.
Ele mal conseguia controlar os próprios movimentos, quem dirá fazer algo produtivo. Mas, se havia uma coisa que ele sabia, era que sua mente ainda funcionava como a de um adulto, e ele decidiu que não desperdiçaria isso.
Assim, ele começou a observar. Com atenção. Ele ouviu, viu e tentou juntar os pedaços do mundo ao seu redor como um detetive em miniatura. Sua maior conquista nesse período foi desvendar algumas palavras do idioma local.
Um exemplo claro foi a palavra “krusy”. Ele descobriu isso quando sua mãe lhe deu uma bola vermelha. Toda vez que ele a apontava e fazia seus sons de bebê indecifráveis, sua mãe dizia “krusy” repetidamente. Eventualmente, ele conectou os pontos: *krusy = bola*.
Quando finalmente conseguiu pronunciar a palavra, foi como se tivesse ganhado um prêmio Nobel.
Sua mãe e suas irmãs comemoraram como se ele tivesse dito algo poético. Beijos, abraços e até uma fruta doce e estranha foram entregues como recompensa. Apesar de tudo, aquilo fez Kael se sentir bem. Ele ainda estava longe de dominar a língua, mas aquela pequena vitória foi o suficiente para inflar seu ego.
Mas não foi só isso que ele descobriu. Ele percebeu algo fascinante sobre sua mãe: ela era escritora.
A casa tinha uma sala inteira dedicada a livros. Prateleiras cheias deles ocupavam as paredes, e sua mãe passava boa parte do tempo lá dentro, mergulhada em leitura ou escrevendo suas próprias histórias.
Kael, curioso como era, uma vez se esgueirou para pegar um dos livros e folheá-lo. Infelizmente, não foi nenhuma surpresa descobrir que ele não conseguia ler nada.
As letras eram um completo mistério para ele.
O que realmente chamou sua atenção foi o dispositivo que sua mãe usava para escrever. Parecia uma máquina de escrever, mas era algo mais avançado, como se tivesse saído direto de um filme de ficção científica. Ela não precisava inserir folhas manualmente; a máquina parecia gerar as páginas sozinha. Aquilo o fascinou profundamente.
Kael também percebeu que poderia usar o entusiasmo natural de sua mãe para aprender mais rapidamente o idioma. Sempre que apontava para algo e fazia sons aleatórios, ela parecia perceber sua intenção e pegava o objeto, repetindo o nome devagar várias vezes. Ela fazia isso com tanto entusiasmo que Kael achava até engraçado. Talvez, como escritora, ver seu bebê tentando aprender sua língua fosse o maior orgulho dela.
Bem, *um* dos maiores.
— Sério, de novo? — Kael pensou enquanto ouvia os sons inconfundíveis vindos do quarto de seus pais. — Será que eles nunca cansam?
Era quase uma rotina. Pelo menos uma vez por noite, seus pais se entregavam a um momento de intensa… proximidade.
Não era difícil imaginar o motivo. Eles pareciam ser um casal jovem e apaixonado, e, francamente, não havia muitas formas de entretenimento naquele mundo.
— Será que eles não pensam nas paredes finas? — Kael resmungava mentalmente. — Seus filhos estão aqui, droga! Vocês poderiam pelo menos tentar ser mais discretos. - ele suspirou alto - Quem se importa? Pelo jeito estão atrás do quarto filho.
Apesar do incômodo, Kael não conseguia odiá-los por isso. Seus pais eram incrivelmente amorosos, tanto entre si quanto com os filhos. Seu pai, um fazendeiro dedicado, passava o dia cuidando de uma plantação que abastecia tanto a casa quanto mercadores da cidade. Ele parecia ganhar um bom dinheiro com isso, embora Kael ainda não tivesse ideia de como a economia daquele lugar funcionava.
A verdade era que, apesar de tudo, Kael se sentia grato. A família em que havia renascido era carinhosa, algo que ele não tinha experimentado plenamente em sua vida anterior.
Afinal, a relação com sua família antiga era… digamos, complicada.
A sensação de pertencimento e segurança o fazia se sentir especial, como se o universo estivesse lhe dando uma segunda chance de viver algo que havia perdido antes.
Mas, no fundo, havia algo que ele não conseguia esquecer desde que chegou ali. Algo que ocupava sua mente constantemente.
A mulher que dançava com o fogo.
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No mesmo dia em que testemunhou aquela cena magnífica, Kael não conseguia pensar em outra coisa.
A imagem da mulher dançando em perfeita harmonia com as chamas havia se fixado em sua mente como um incêndio impossível de apagar.
Seu domínio sobre o fogo era ao mesmo tempo delicado e devastador, como se ela fosse uma extensão viva das próprias labaredas. Era magia. Não havia outra explicação.
— *Aquilo era magia! Isso é incrível! Será que eu posso fazer isso? Como eu faço isso? Ela pode me ensinar? Eu vou falar com ela! …Droga, eu não consigo falar.*
Kael observava a cena como se estivesse preso em um transe. Seus pensamentos começaram a escapar por um caminho inesperado, e ele se perguntou se estava, de alguma forma, apaixonado pela mulher. Era difícil dizer. Ele não conseguia tirar a figura dela da cabeça.
— *Perdão, Laura… Não! Eu com certeza só estou interessado na magia! É isso! Meu sonho sempre foi lançar bolas de fogo, me tornar um mago incrível como nos filmes. Imagina só! Isso é incrível! Claro que, se aquela moça quisesse me dar umas aulas particulares…*
Kael suspirou internamente, interrompendo seus próprios devaneios.
— *Droga, Kael, você é um bebê!*
Com esforço, ele deixou os pensamentos românticos de lado e começou a refletir seriamente sobre o que tinha visto. Pelas reações das pessoas ao redor, ele deduziu que magia não era algo comum. A mulher parecia um espetáculo raro, alguém digno de admiração quase mística.
Isso o preocupou.
Até aquele momento, ele nunca havia visto seus pais ou irmãs fazerem algo remotamente mágico. Nada de flutuar objetos, conjurar luzes ou até mesmo os truques mais simples. Isso era uma péssima notícia.
— *Nascer em um mundo mágico e não poder usar magia? Seria melhor ter ficado morto!*
Determinou que precisava descobrir tudo sobre magia. Mesmo com as limitações óbvias — afinal, ele era um bebê e mal entendia o idioma local —, Kael se dedicou a investigar o assunto como um verdadeiro detetive. Sua primeira abordagem, claro, envolveu experimentação prática.
Ele começou a apontar suas pequenas mãos para o ar e sussurrar palavras aleatórias na esperança de que algo acontecesse. Nada. Depois, decidiu tentar métodos mais… familiares.
— *Kamehameha!*
Kael gritou mentalmente, assumindo a clássica pose de ataque. Ele ficou ali, imóvel, por alguns segundos, esperando que alguma energia mágica surgisse do nada.
Nada.
— *Merda, isso não funciona! É impossível!*
Kael caiu no chão, frustrado. Mesmo assim, ele não estava disposto a desistir. Havia magia naquele mundo, ele tinha certeza disso. E, de um jeito ou de outro, ele descobriria como usá-la.
Claro, isso depois de mais um cochilo…
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Ao adormecer, Kael foi transportado para um sonho, mas não era um sonho qualquer. O ambiente em que se encontrou era bizarro e hipnotizante, uma paisagem quase psicodélica. O espaço ao seu redor parecia infinito, repleto de fragmentos de luz flutuando por toda parte. Eram incontáveis — milhões, talvez bilhões — pequenos pedaços brilhantes espalhados como estrelas.
O mais curioso era a sensação de paz que aquele lugar transmitia. Não apenas relaxante, mas profundamente natural, como se ele pertencesse àquele cenário.
— *Que sonho bom! Pera… Como eu sei que isso é um sonho?*
Kael começou a se questionar. O nível de clareza era desconcertante. Ele podia sentir, quase como um instinto, que não era um sonho qualquer, e isso o deixou intrigado. Era como se ele estivesse tendo um sonho lúcido, mas ao mesmo tempo era algo além disso, algo único.
Os fragmentos de luz o fascinavam. Eles tinham uma qualidade semelhante às cordas brilhantes que ele tinha visto uma vez na Terra, mas eram completamente diferentes ao mesmo tempo. Ele não sabia explicar, apenas *sentia*.
Movido por uma curiosidade irresistível, ele estendeu suas “mãos” — ou algo que ele imaginava serem suas mãos naquele estado onírico — e tocou em um dos fragmentos de luz. O toque provocou uma sensação estranha, como se o fragmento vibrasse em resposta à sua presença.
Com cuidado, ele juntou aquele pedaço a outro fragmento próximo. Assim que as duas luzes se uniram, algo mágico aconteceu: o fragmento cresceu. Era pequeno, mas visivelmente maior que antes, como se a energia deles tivesse se fundido.
Kael ficou encantado, observando o resultado daquela interação com uma mistura de surpresa e excitação.
De repente, tudo se apagou, e ele abriu os olhos no mundo real mais uma vez.
— *Acho… que achei a minha resposta,* —
murmurou o pequeno bebê de cabelos negros, com um sorriso debochado que não combinava nem um pouco com seu corpinho frágil.