Capítulo 5 - A Grande Reunião Imperial - Parte II
Caminhei a passos firmes de volta pelo corredor principal, com Erich logo atrás mantendo a guarda atenta. O breve diálogo no refeitório havia renovado as minhas energias, eu estou bem mais leve agora, mas a realidade da política imperial voltou a pesar assim que as pesadas portas de bronze do Salão Neutro se abriram.
O ambiente continuava carregado. Nobres e generais conversavam em sussurros tensos, e a minha chegada acompanhado de Erich não passou despercebido.
Meu pai estava de pé ao lado da mesa circular, com os braços cruzados e uma expressão gélida. Ao me ver entrar, estreitou os olhos e fez um sinal rígido para que eu se aproximasse.
— Onde você estava, Kamio? — perguntou ele em um tom baixo e severo, sem nem mesmo olhar diretamente para mim. — Informaram-me que você foi visto conversando a sós com a Princesa da Casa Élfica durante o intervalo.
Luki, que ajustava suas luvas de couro nobre logo ao lado dele, soltou uma risada abafada e provocativa.
— Nosso irmãozinho deve achar que diplomacia se faz com conversinhas sociais e sorrisos, — zombou Luki. — Espero que não tenha dito nada que comprometa as negociações do nosso pai, Kamio. Os elfos são astutos, e aquela princesa não é tão ingênua quanto parece.
Do outro lado do salão, Sylph acabava de ocupar seu assento na bancada élfica. Ela manteve a expressão calma e distante exigida pelo protocolo, mas dedicou um olhar sutil de fração de segundo a mim, parecendo entender da cobrança que eu enfrentava da minha família.
Erich permaneceu impassível atrás de minha sombra, pronto para intervir verbalmente se a pressão dos nobres humanos ficasse excessiva, mas sabia que aquela arena exigia a resposta da minha coragem e lealdade ao meu objetivo.
— Fique quieto irmão. Pai, eu só estava tomando um chá com a Princesa Sylph, algum problema em relação a isso?
O ar na bancada pareceu congelar por um segundo com a resposta direta que dei. meu irmão mais velho abriu a boca, pego de surpresa pela audácia, e o meu pai apenas trincou os dentes, sustentando o seu olhar rígido em mim.
— Mantenha sua língua sob controle, Kamio, — advertiu ele de forma gélida, embora o lampejo de minha firmeza, tivesse feito o recuar um pouco. — Comportamento irresponsável ou não, agora não é o momento para picuinhas. Sente-se.
O Mediador Neutro posicionou-se no centro do salão e ergueu o cajado de pedra, sinalizando que a segunda metade da Grande Reunião estava prestes a começar para a votação dos acordos preliminares.
**Baque!**
O Mediador Neutro bateu o cabo do cajado no chão de mármore, fazendo o eco ressoar por todo o salão e silenciando os burburinhos.
— Atenção aos representantes das Quatro Casas Imperiais! — declarou o mediador. — Daremos início à votação dos termos preliminares negociados. A primeira pauta diz respeito à liberação das rotas do norte para a Casa dos Dragões em troca da redução das tarifas de minério e patrulha conjunta com a Casa Humana.
O Rei Dragão ergueu-se de seu assento, encarando o meu pai do outro lado da mesa circular.
— A Casa dos Dragões concorda com os termos propostos, — declarou o monarca de escamas, a voz grave ressoando com autoridade. — Desde que o tratado seja assinado imediatamente e a retirada das barreiras comece ao amanhecer.
meu pai assentiu rigidamente, mas antes que pudesse assinar o documento místico trazido pelo embaixador neutro, um dos generais da Casa Humana inclinou-se no ouvido de Luki e cochichou algo apressado. O 1º Príncipe sorriu de forma maliciosa e levantou a mão, interrompendo o processo.
— Aguardem, — disse ele, erguendo-se com um olhar vitorioso. — Recebemos um relatório de última hora das nossas patrulhas de fronteira. Uma frota de reconhecimento élfica foi avistada nos limites das terras dos Dragões há menos de uma hora. Como podemos assinar um acordo de segurança com os Dragões se os Elfos estão movimentando tropas em segredo?!
O salão explodiu em murmúrios imediatos. Os nobres anões começaram a discutir entre si, o Rei Dragão fechou os punhos com a cara amarrada de fúria e o Rei Harold encarou a bancada élfica com desconfiança mortal.
Na bancada oposta, os conselheiros élficos pareceram pegos de surpresa. A Princesa Sylph ergueu-se rapidamente, seus lindos olhos demonstrando uma mistura de choque e indignação contra a acusação repentina.
— Isso é um absurdo! — declarou a Princesa Sylph, mantendo a voz firme, embora a tensão no salão fosse sufocante. — A Casa Élfica não enviou nenhuma frota militar para as fronteiras dos Dragões! Nossas patrulhas estão estritamente dentro dos nossos domínios!
— É o que você diz, Princesa! — esbravejou Luki, apontando para o pergaminho de relatório em sua mão. — Ou você está mentindo para proteger sua casa, ou não tem o controle que pensa ter sobre o seu próprio exército!
A situação, que parecia caminhar para uma trégua diplomática, despencou novamente em um estado de crise total.
Erich inclinou-se discretamente sobre o meu ombro, a voz baixa e urgente:
— Vossa Alteza... esse relatório veio da facção dos generais do seu irmão. Pode ser uma informação manipulada para sabotar o tratado e forçar um conflito armado.
Quando ouvi isso, comecei a roer as unhas de uma forma inquietante, pensando no que eu poderia fazer nesse exato momento, antes que a reunião desmoronasse de vez. Até que uma luz no fim do túnel surgiu.
— Silêncio! Isso é uma acusação muito severa irmão, toda a acusação exige uma prova, essa é uma das emendas de nossa Casa, então, com essa acusação, se isso for verdade, apresente as suas provas!
Minha voz soou como um golpe de martelo no metal. Bati a mão sobre a mesa de mármore e levantei-me, encarando o Luki com um olhar afiado que deixou a ala dos generais humanos surpresa.
A citação direta da emenda imperial fez o silêncio retornar ao salão como uma onda de choque. Luki piscou, visivelmente desconfortável por ter sido desarmado na frente de todas as autoridades do império.
— Provas...? — gaguejou ele por um milissegundo, recuperando a postura em seguida com um sorriso amarelo. — O relatório do capitão da patrulha do norte deveria ser prova suficiente, Kamio! Ou você duvida da palavra dos nossos próprios soldados?!
— Um relatório sem a verificação dos selos de magia da auditoria e sem a confirmação de patrulhas neutras é apenas um pedaço de papel, — rebati de forma gélida e firme, sem ceder um único centímetro. — A acusação de movimentação de tropas sem provas concretas é considerada um ato de incitação à guerra desnecessária. Você quer mesmo colocar a assinatura da Casa Humana em risco por causa de um boato não verificado, irmão?
Meu pai ficou alternando a visão entre mim e o Luki. O olhar dele era denso e rigoroso, ele podia ser um homem rígido e ganancioso, mas era experiente demais para cair em uma armadilha que pudesse desmoralizá-lo juridicamente perante as outras casas.
— Kamio está certo, — declarou o meu pai, com a voz profunda, fazendo Luki se encolher ligeiramente. — A lei do império exige verificação. Entregue o relatório ao Mediador Neutro para que o círculo de magia da verdade confirme a autenticidade dos fatos.
Luki hesitou, fechando os punhos com tanta força que as articulações ficaram brancas.
Eu sabia que se o relatório fosse uma invenção da facção radical dos generais ou do próprio Luki, a magia da verdade no Salão Neutro o desmascararia na hora.
Do outro lado, a Princesa Sylph respirou fundo, recuperando a compostura. Seus olhos brilharam com um sentimento indescritível ao olhar para mim. Já que não apenas a defendi, mas usei as próprias leis da Casa Humana para desarmar a armadilha armada pela facção de guerra do meu irmão.
— A Casa Élfica coloca seus registros de patrulha à disposição do Mediador Neutro imediatamente, — declarou ela, erguendo a cabeça com orgulho e um tom de pura integridade. — Não temos nada a esconder.
O Mediador Neutro aceitou os documentos das duas partes, acenando para que os magos da torre iniciassem o ritual de verificação no centro do salão.
— A verificação das acusações levará o restante da tarde! — anunciou o Mediador. — A sessão principal da Grande Reunião fica suspensa até o final do dia! Os resultados serão apresentados na cerimônia do banquete noturno!
**Baque!**
Levantei me da cadeira e saí do salão neutro indignado com o ataque do meu irmão, não imaginava que ele iria tão longe assim afim de proteger a sua obsessão por poder.
— Venha Erich!
Caminhei pelos corredores de mármore com passos firmes, mantendo a expressão séria até estar a uma distância segura do Salão Neutro. Erich vinha em meu encalço, mantendo os olhos atentos a qualquer movimento suspeito nos corredores da Torre Principal.
Assim que cruzei o portão, saí para o jardim suspenso do quarto nível, uma área aberta ornamentada com vegetação trazida das quatro regiões do império, fontes de água mágica e varandas com vista para a capital, soltei todo o ar que eu estava prendendo em meus pulmões desde a discussão.
— O senhor jogou de forma brilhante lá dentro, Vossa Alteza, — disse Erich, parando ao lado de uma arcaria de pedras antigas. — Usar as emendas constitucionais contra o seu irmão foi uma jogada mestra. Ele ficou totalmente desarmado na frente dos conselheiros e do seu pai.
Aproximei-me da belíssima fonte de águas mágicas, apoiando o meu corpo na beira do mármore da fonte e olhando para as flores coloridas e diversas do jardim suspenso.
— Ele tentou criar uma guerra do nada, Erich... — disse em tom baixo, o cansaço visível aparece conforme meus olhos estavam cada vez mais pesados. — Se aquele relatório for falso, meu irmão e os generais do norte foram longe demais. Eles não querem diplomacia, querem sangue.
— A facção militar está desesperada, — ponderou Erich. — Eles sabem que se a pauta da harmonia e dos acordos comerciais avançar, a influência do exército no governo vai despencar. No entanto, o senhor precisa tomar cuidado. O seu irmão não vai esquecer a humilhação de hoje.
Enquanto nós dois conversavamos sob o vento suave da tarde, o som de passos leves sobre as pedras do jardim fez Erich virar-se rapidamente, com a mão instintivamente repousando sobre a bainha da espada.
Emergindo do caminho entre as roseiras de mana, acompanhada apenas por uma guarda de honra que permaneceu à distância, estava a Princesa Sylph.
Ela retirou o capuz de seu manto prateado, deixando seus longos cabelos brilharem sob o sol da tarde. Seus olhos azul-violeta encontraram os meus com uma mistura de alívio e admiração profunda.
— Eu sabia que o encontraria aqui, — disse a princesa Elfa, caminhando devagar até onde eu estava. — Gostaria de lhe agradecer novamente, Príncipe Kamio... dessa vez por ter arriscado sua própria posição perante seu pai e sua casa para proteger a minha.
— A-a.. C-claro... Você não precisa me agradecer sabe... Só estou fazendo a coisa certa, não gosto de mentiras, e forjar documentos em prol da instabilidade é muito mais do que uma mentira. — disse a ela enquanto olhava para as geometrias delicadas dos pedregulhos que formam o caminho.
A Princesa deu um passo mais perto, aproximando-se da fonte de magia onde eu estava apoiado. Um sorriso suave e genuíno iluminou seu rosto, desfazendo completamente a aura distante de uma governante regente.
— 'Apenas fazendo a coisa certa'... — repetiu ela em um tom baixo, quase como um suspiro carinhoso. — Você fala disso como se fosse algo simples, Príncipe Kamio. Mas neste palácio, fazer a coisa certa é o ato mais corajoso e perigoso que alguém pode escolher.
Ela virou-se para a grande janela de observação do jardim que da acesso a paisagem da capital, os fios de cabelo prateado esvoaçando levemente com a brisa da tarde.
— Aquele relatório era uma fraude. Eu tenho certeza disso, — continuou a Princesa, o olhar tornando-se mais firme. — Minha casa jamais enviaria tropas sem o meu consentimento. Se a verificação da magia da verdade confirmar que o documento do seu irmão foi forjado, a facção militar humana sofrerá um golpe duro. Mas... eles não vão aceitar a derrota em silêncio.
A Princesa Sylph voltou seus olhos para mim, demonstrando uma preocupação sincera.
— Seu irmão e os generais vão ver você como um obstáculo ainda maior a partir de hoje. Eu me preocupo com a sua segurança dentro dos muros da sua própria casa.
Erich, que observava atentamente a alguns passos de distância, deu um aceno sutil de cabeça em concordância com as palavras da Princesa, ciente de que a tensão na ala humana poderia atingir o nível máximo nessa noite.
— Eu sei disso Princesa, eu sei que estou indo para um caminho perigoso, mas se for pelo bem da nossa população, sabe, eu não me importaria de me....
Respondi enquanto observava de longe a janela circular, a grande capital imperial.
— Não diga isso! — interrompeu a Princesa, a voz subindo de tom por um breve momento, carregada de uma emoção genuína que ela raramente demonstrava.
Ela deu mais um passo à frente, aproximando-se o suficiente para que eu pudesse sentir o calor de sua presença. Suas mãos delicadas tocaram suavemente o meu braço, me fazendo virar o rosto em sua direção. Seus olhos brilhavam com uma intensidade surpreendente.
— Não fale da sua vida como se ela fosse descartável, Principe Kamio, — disse ela, o tom baixinho, mas firme e carregado de sentimentos. — De que adianta alcançarmos a harmonia entre as raças se as poucas pessoas que realmente lutam por ela com o coração acabarem sacrificadas pelo caminho? A população precisa de um líder vivo, alguém capaz de guiar este império para um futuro diferente... Não de um mártir.
Ela soltou o meu braço devagar, quando percebeu a proximidade, um leve rubor avermelhou as pontas de suas orelhas. A Princesa respirou fundo para recuperar a compostura, mas não desviou o seu olhar de mim.
— Se você cair, a esperança de mudarmos esse sistema morre com você. Prometa-me que será cauteloso. Não podemos deixar que a ganância dos nossos irmãos ou a cegueira dos nossos pais nos destruam antes mesmo do nosso ideal dar frutos.
Erich, observando a cena de fundo, deu um sutil sorriso de canto de boca, impressionado com a preocupação explícita que a Princesa Elfa demonstrava pela minha pessoa.
— Nossa Princesa, acho que ninguém mais além do meu guarda, o Erich, demonstrou se importar tanto assim comigo.
Fechei os meus olhos enquanto comecei a sorrir lentamente em direção a Princesa Sylph.
— Mas.. Por que você confia tanto em mim? A alguns anos atrás eu não confiava em mim mesmo, eu pensava que não conseguiria mudar as coisas, e talvez ainda hoje não consiga, mas só de ter pessoas ao meu lado confiando em mim, me deixa feliz!
A Princesa piscou, surpresa com a vulnerabilidade e a honestidade das minhas palavras. O leve rubor nas pontas de suas orelhas intensificou-se ligeiramente, mas sua expressão suavizou-se em um olhar profundo de carinho e respeito.
Ela deu um passo para mais perto da fonte, encarando o meu perfil enquanto o vento suave da tarde balançavam suas tranças prateadas.
— Por que eu confio em você? — murmurou ela, soltando uma risada curta e melodiosa, como o farfalhar de folhas ao vento. — Talvez porque, em um palácio onde todos usam máscaras e calculam cada palavra como uma jogada de xadrez, você foi o único que falou com o coração.
Ela olhou para as próprias mãos, entrelaçando os dedos delicadamente antes de voltar o olhar para os meus olhos âmbar.
— Eu passei a minha vida inteira cercada por conselheiros que me diziam que os humanos eram gananciosos, que os dragões eram violentos e que os anões eram teimosos. Eu me sentia completamente isolada com os meus ideais... até ver você se levantar naquele salão. Ver você tremer de ansiedade, mas ainda assim encarar o seu próprio pai e o Rei Dragão pela paz... foi aí que percebi que não estava sozinha.
A Princesa sorriu, um sorriso genuíno que iluminou todo o seu rosto.
— Você não precisa carregar o peso do mundo sozinho, Príncipe Kamio. Se você acha que não consegue mudar as coisas sozinho... saiba que agora você tem a mim ao seu lado. Juntos, nós seremos a força que este império precisa.
Erich, mantendo a vigilância a alguns passos de distância, pigarreou discretamente para avisar que o tempo do intervalo no jardim estava chegando ao fim.
O sol começava a baixar no horizonte, tingindo o céu de Luminus com tons de laranja e amarelo, anunciando a chegada da noite, e com ela, o banquete onde a verdade sobre o relatório forjado seria finalmente revelada.
— Muito obrigado Princesa Sylph, por confiar em mim. — respondi de uma forma um pouco tímida e envergonhado, corando-me levemente. — É melhor voltarmos para dentro!
A Princesa inclinou a cabeça suavemente, presenteando a mim com um último olhar acolhedor antes de ajustar seu manto prateado.
— Com certeza, Príncipe Kamio. Vamos ver qual será o veredito da verdade, — disse ela, caminhando a passos leves de volta ao salão principal junto comigo.
A cena termina com uma visão impressionante, a cidade de Luminus na janela de observação totalmente iluminada e viva, o céu.. tingida pelas cores quentes do final da tarde, e o sol ao fundo se preparando para hibernar.