Capítulo 6 - A Ascenção da Verdade
Ao sair dos jardins suspensos junto ao Erich, sem a Princesa, já que se nos víssemos juntos achariam suspeito, caminhamos até a grande porta do salão de banquetes da torre principal.
Ao abrir as pesadas portas duplas, me deparei com o lugar totalmente transformado. Lustres de cristal mágico feitos de quartzo rosa flutuavam sob o teto elevado, iluminando as extensas mesas ornamentadas de carvalho e ouro cobertas por banquetes luxuosos.
No entanto, o clima festivo era pura fachada. O ar entre as quatro grandes casas parecia eletrizado, acumulando a tensão da revelação que viria a seguir.
Ocupei meu assento na ala da Casa Humana, ao lado de Luki e do meu pai. Luki mantinha uma postura rígida, encarando o prato com uma expressão sombria e os dentes cerrados, dava para ver claramente que ele estava escondendo alguma coisa.
*Baque!*
O Mediador Neutro avançou até o centro do salão, segurando um grande pergaminho lacrado com uma runa de luz azul. O silêncio caiu instantaneamente sobre todos os nobres e soberanos.
— Atenção aos líderes e representantes do Império! — anunciou a voz retumbante do mediador. — Os magos do Salão Neutro concluíram o ritual da magia da verdade nos documentos apresentados pela Casa Humana.
O Mediador rompeu o selo mágico, e o texto do pergaminho projetou-se no ar em letras douradas e brilhantes para que todos vissem, enquanto partículas mágicas de cor azul rodeavam o pergaminho.
— Foi constatado que o relatório de movimentação das tropas élficas continha selos falsificados e assinaturas adulteradas por oficiais da ala militar do norte da Casa Humana, — declarou o mediador. — A acusação contra a Casa Élfica é oficialmente declarada nula e improcedente.
Um murmúrio furioso e surpreso percorreu as mesas dos anões e dos dragões. O Rei Dragão soltou uma gargalhada baixa e debochada, enquanto o meu pai virou-se lentamente em direção ao Luki. O olhar dele era uma tempestade de fúria contida.
— Você nos envergonhou diante de todo o conselho, — rosnou meu pai para o Luki, a voz tão baixa e gélida que apenas a comitiva humana pôde ouvir. — Retire-se para os seus aposentos. Agora.
Luki levantou-se abruptamente, a cadeira se arrastou com ruído pelo chão de mármore. Antes de sair pisando fundo, ele me observou com um olhar carregado de um ódio mortal, nesse momento, senti como se uma aura maligna tivesse invadido minha mente.
Do outro lado do salão, a Princesa Sylph ergueu sua taça em um brinde silencioso e discreto em minha direção, seus lindos olhos azul-violeta brilharam de satisfação.
Erich inclinou-se suavemente atrás de mim, murmurando.
— A verdade prevaleceu, Vossa Alteza. O tratado de paz está garantido... mas o seu irmão acabou de se tornar o seu pior inimigo público.
— Eu sei disso Erich... você sentiu isso também? — perguntei para ele enquanto meus olhos estavam fixos a porta que meu irmão acabara de sair.
— Do que o senhor está falando, meu jovem Mestre? — questionou Erich com um rosto confuso enquanto reclinava-se em minha direção com sua mão na bainha de sua velha espada.
— Não sei dizer.. De repente eu senti algo pesado e vazio na minha mente... Bom acho que o cansaço finalmente começou a me dominar. — disse isso enquanto fazia um sinal de mão para que Erich se aproxime de mim e reclinasse a sua cabeça para lhe sussurrar algo.
— Tenho uma missão especial para você, fique de olho no meu irmão por um tempo por favor, não sei o que ele poderá fazer agora, mas sinto que não é coisa boa, se ele estiver planejando algo, me avise imediatamente!
Erich levantou a cabeça levemente, mantendo a postura impecável para não chamar a atenção dos nobres e diplomatas que ainda observavam a mesa da Casa Humana.
— Consideração sábia, Vossa Alteza, — sussurrou Erich de volta, a voz quase inaudível sob o som das harpas e das conversas no salão. — A ferida no orgulho do seu irmão é profunda e perigosa. Mobilizarei meus homens mais confiáveis da guarda pessoal para vigiá-lo discretamente. Qualquer movimento suspeito, mensagem enviada aos generais rebeldes ou reunião clandestina chegará ao seu conhecimento na mesma hora.
Enquanto Erich se afastava com passos sutis para dar início às ordens, o Mediador Neutro bateu o cajado no chão uma última vez para encerrar a noite.
*Baque!*
— Diante da resolução dos fatos e da validação dos acordos, declaramos encerrada a sessão da Grande Reunião! Os tratados de trânsito com a Casa dos Dragões e de preservação com a Casa Élfica serão oficialmente ratificados amanhã ao amanhecer!
Meu pai se levantou em silêncio, lançando um breve olhar avaliador para mim antes de se retirar acompanhado por sua guarda real. O clima no salão começou a abrandar à medida que os banquetes continuavam e as comitivas comemoravam o sucesso inesperado da diplomacia.
A Princesa Sylph permaneceu em seu assento por mais alguns instantes, me observando com um olhar sereno e tranquilo, ciente de que, embora a tempestade no salão tivesse passado, uma nova preocupação agora rondava os bastidores do palácio.
Após o término da reunião e do banquete noturno, suspirei em alívio e exaustivamente saí do Salão de Banquetes.
O eco do baque das portas duplas do salão de banquetes marcava o fim daquele longo teatro político. Eu comecei a arrastar os pés pelos corredores de mármore do quarto nível, sentindo o meu corpo finalmente cobrar a conta de cada minuto de ansiedade, pressão e adrenalina acumulados ao longo do dia.
O palácio à noite era um lugar completamente diferente. As luzes das runas místicas nas paredes estavam reduzidas a um tom suave de azul, e o silêncio só era quebrado pelo som distante do vento batendo nas torres, o cantar dos grilos e pelos meus próprios passos arrastados e cansados.
Assim que cruzei a entrada do meu aposento privado, fechei a porta pesada de madeira, encostando a testa na superfície fria e soltando um longo e profundo suspiro.
— Finalmente... paz... — murmurei para mim mesmo, com a voz abafada.
Me desfiz da capa formal de nobre, jogando-a sobre a poltrona, e caminhei até a varanda do meu quarto. Dali, a vista de toda a capital sob a luz do luar era estonteante. Mas ao olhar para o horizonte, eu não conseguia afastar os pensamentos sobre o que acabara de acontecer.
A aliança silenciosa com a Princesa Sylph, a raiva estampada no rosto do meu irmão e a ordem secreta que dei ao Erich... Tudo indicava que a verdadeira tempestade não seria travada nas reuniões diplomáticas, mas sim nas sombras do próprio palácio humano.
De repente, um toque alto e tenso na porta do quarto quebrou o silêncio, rapidamente me afastei da porta depois do susto que eu tomei. Ao se aproximar da porta novamente, abri-a com cuidado, e bom...
Era a Luna! Trazendo consigo uma pequena bandeja de prata com um bule de chá fumegante e uma carta lacrada com o símbolo de uma flor de lótus prateada — o selo pessoal da Casa Élfica.
— Aquiiii está Vossa Alteza!! Tem uma carta para você também!! mas e então? Ocorreu tudo certo hoje? — Luna perguntou com um olhar muito curioso e protetor.
— Lunaa! Você quase me matou de susto agora!!
— Mas bem.. de modo geral, sim.. Mas o Luki ficou muito revoltado com tudo isso, e não sei o que ele pode fazer e sinceramente.. Não quero nem pensar. — me deitei na cama enquanto fiquei olhando fixamente para o teto com um olhar preocupado.
— Masss e entãooo, vai ler a cartaa meu mestre hihi... — Luna olhou para mim com aqueles olhos pervertidos de novo dando uma risada baixa enquanto esconde a sua boca com a mão.
— Ah, sim vejamos.. — me sentei na cama macia, coloquei a bandeja prateada do meu lado e rompi o selo da lótus prateada, o aroma suave de orvalho e néctar da flor de lótus emanava após o rompimento da cera prateada..
A caligrafia era impecável, traçada com linhas elegantes e fluidas em tinta negra:
"
Ao Príncipe Kamio,
Escrevo esta mensagem no silêncio dos meus aposentos, enquanto o palácio finalmente adormece. As estrelas de hoje parecem brilhar um pouco mais vivas, e sei que devo essa tranquilidade à sua coragem no salão.
A verdade prevaleceu hoje, mas o olhar do seu irmão ao deixar a mesa não era o de alguém derrotado, era o de alguém que busca vingança. Por favor, mantenha sua guarda alta. As sombras nesta torre podem ser mais profundas do que parecem.
Saiba que, independente dos desafios que virão daqui para frente, a Casa Élfica e eu, pessoalmente ajudaremos em tudo o que precisar.
Nos lembramos daqueles que lutam com a verdade. Amanhã ratificaremos os tratados, mas hoje, descanse. Você fez mais do que o suficiente.
Com sincero respeito e gratidão,
Princesa Sylph Van Luminus
"
Ao terminar de ler a carta encarei as letras negras por alguns instantes, sentindo um calor reconfortante afastar um pouco do cansaço que pesava em meus ombros. dobrei o pergaminho cuidadosamente e o guardei na gaveta da mesa na cabeceira.
— Aaaaa, essa é a Princesa Elfa? Ela está te mandando cartas? hmmm você está gostando dela né? — Incita Luna com uma cara assustadora e risonha mas de um jeito bobo e brincalhão enquanto mantem a mão em sua boca.
— N-não é nada di-disso! A gente só está trabalhando junto em uma coisa, só isso... — o ambiente de repente começa a ficar quente do nada, o sangue começa a invadir o meu rosto enquanto olhava a expressão assustadora de Luna.
— Um, hu, huu... — Luna se aproxima devagar enquanto seu rosto parece ficar cada vez mais assustador.
— Chega, preciso pensar, boa noite Luna! — Rapidamente eu "joguei" a minha empregada mestra "favorita" para fora do quarto, fechando e trancando a porta, me virei de costas enquanto encostava na textura gelada de carvalho, e dei um leve suspiro.
Sinceramente... Essa emprega não bate bem da cabeça... Pensei comigo mesmo.
Fui em direção a bandeja de prata que deixei em cima da cama e me servi da xícara de chá morna de mirtilo feito pela Luna, e caminhei até a janela, observando a vista que tenho do quarto de Luki, cujas luzes estão apagadas.
A noite estava tranquila, mas no dia seguinte, os tratados seriam assinados e a resposta do meu irmão certamente viria.
Com o chá em uma mão e a carta da Princesa Sylph na outra, caminhei até a varanda e apoiei os meus braços na sacada de pedra fria. O vento noturno soprava suavemente, trazendo o som distante e abafado da cidade que parecia recusar-se a dormir.
Lá embaixo, a capital imperial brilhava sob a luz do luar e dos faróis místicos. As ruas principais estavam marcadas por caminhos de luz dourada e azul, e o movimento dos mercadores, guardas e moradores das mais diversas raças dava uma sensação de vida vibrante à noite. Era um contraste fascinante com o ar pesado e gélido que dominava os corredores do palácio.
Dei um longo gole no chá, sentindo o calor descendo por meu peito, e soltei um sorriso discreto.
— É por isso... — murmurei para a brisa da noite, os meus olhos fixos na luz da praça central. — É por pessoas vivendo em paz assim que tudo isso vale a pena.
A mensagem carinhosa da Princesa e a imagem da cidade acesa renovaram minhas esperanças. Eu sabia que a manhã seguinte ocorreria a ratificação dos acordos e que a facção do meu irmão poderia tentar algo nos fundos.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, Eu não me sinto sozinho ou inseguro sobre o meu papel nessa
história.
Terminando o chá, retornei para dentro do quarto, fechei as portas da sacada e finalmente deitei-me na cama, deixando o cansaço do dia me levar a um sono tranquilo. Enquanto esperava ansiosamente pelo dia de amanhã.