CAPITULO 3
DEVANEIOS E A FÉ DOURADA
A caminhada até o refúgio de Elias foi curta, mas cheia de desvios para evitar os sensores de pressão que o inventor havia espalhado pelas raízes.
Quando finalmente cruzaram uma cortina de trepadeiras grossas, a floresta deu lugar a uma clareira caótica. No centro, erguia-se uma oficina improvisada dentro da carcaça de um antigo navio voador caído, agora coberto de musgo e tubulações de cobre que expeliam fumaça branca e limpa.
— Elias! Ô, homem do parafuso frouxo! — Bituca gritou, batendo com a coronha da espingarda no chão metálico da entrada. — Aparece, que temos problema do tamanho de uma caldeira!
De dentro da carcaça, ouviu-se um estalo alto, uma pequena explosão e o som de ferramentas caindo.
A pesada porta de ferro se abriu com um rangido, Aluara tossindo e abanando o ar com as mãos, foi entrando, Bituca já empunhando seu velho trabuco e Pyros segurando a espada em chamas sagradas, esperavam encontrar um exército de zumbis, porém o que eles iriam ver era outra coisa.
— Centelhas de Valkaria! Eu disse que a proporção de pólvora de magnésio estava errada! — uma voz enérgica e estridente ecoou, seguida por passos rápidos.
O homem que emergiu da fumaça era a própria definição da excentricidade. Elias tinha os cabelos pretos como carvão, completamente esvoaçados e apontando para todas as direções, como se tivesse acabado de levar um choque mágico.
Seu bigode era longo e pontudo, meticulosamente modelado nas pontas, contrastando com a bagunça de sua cabeça.
Sobre os olhos, ele ostentava óculos de lentes vermelhas vibrantes, bizarramente fixos diretamente em sua pele, sem nenhuma alça para prendê-los.
Ele vestia um sobretudo amarelo-mostarda chamativo, adornado com ombreiras pesadas de cobre polido. Por baixo, usava uma camisa de linho claro sob um colete marrom-escuro bem gasto.
Sua calça era um labirinto de bolsos de todos os tamanhos, presa por um cinto largo de utilidades de onde pendiam chaves de fenda, calibradores e frascos de óleo. Nos pés, botas pretas robustas calçadas por cima da calça batiam ruidosamente no chão.
— Aluara! Bituca! E... um paladino banhado a ouro! — Elias parou abruptamente, os óculos vermelhos brilhando enquanto ele avaliava o trio. — Que surpresa magnífica. Eu estava justamente pensando se a composição química do suco de amora-azul do bosque poderia ser usada como lubrificante para engrenagens de relógio... as amoras são tão fascinantes, sabiam? Elas mancham os dedos de um jeito que parece magia purpúrea, mas o gosto é formidável em tortas. Enfim! O que traz vocês aqui com um enlatado sangrando?
Enquanto falava, o braço esquerdo de Elias — completamente mecânico, feito de placas de latão e fiação rúnica azulada — começou a girar sozinho.
Com um estalo mágico, os dedos de metal se recolheram para dentro do pulso, e a mão inteira se transformou em uma chave inglesa pneumática perfeita, apenas para logo depois mudar para uma pinça de precisão.
— Elias, o negócio é sério — Aluara deu um passo à frente, apontando para Pyros. — Os drones do Grande Arquivista invadiram o bosque. E o Perseguidor da Ferrugem estava com eles. Eles atacaram o Pyros para pegar o que está na bolsa dele.
O olhar de Elias mudou instantaneamente de doidice para uma seriedade afiada. O braço mecânico dele voltou à forma de uma mão articulada, e ele coçou o bigode pontudo.
— O Perseguidor? Kirion... aquele pobre coitado que virou sucata nas mãos do Arquivista — Elias divagou por um segundo, os olhos fixos no horizonte. — Eu me pergunto se o Arquivista usa óleo mineral ou graxa animal para lubrificar as juntas dele... se for graxa animal, deve feder muito no verão, o que é uma escolha de design terrível para um vilão. Mas voltando ao assunto! Sim, eu sei que eles estão aqui. Meus sismógrafos de raiz registraram os tremores da explosão e o avanço de metal pesado na fronteira leste.
Ele deu as costas, caminhando em direção a uma mesa cheia de mapas e engrenagens flutuantes, gesticulando para que o grupo o seguisse.
— Eles não mandaram só batedores, meus caros. O Arquivista está movendo os Rompe-Matas. Máquinas de desmatamento pesado movidas a Necrovapor. Se eles entrarem no bosque... não vai sobrar folha sobre folha.
— Mas vamos ao que interessa, essas cobras na sua armadura e essa cor dourada, um paladino Boitatá fiel ao Deus Aelion ... fascinante, simplesmente fascinante! — Elias exclamou, os oculos vermelhos colados no peito de Pyros enquanto o empurrava para uma cadeira de ferro reforçada. — Sabiam que o revestimento térmico das escamas de um Boitatá tem uma resistência à fusão que desafia as leis da termodinâmica tradicional? Eu tentei replicar isso uma vez usando cascas de besouro-do-fogo e verniz de resina, mas a mistura explodiu e quase derreteu minhas sobrancelhas. Demorou três meses para crescerem de novo! Mas enfim, sua armadura dourada está clamando por socorro, meu caro.
Antes que Pyros pudesse protestar com sua rigidez habitual, o braço mecânico de Elias disparou.
Com um estalo rúnico, os dedos de latão se fundiram, transformando-se em um maçarico alquímico que brilhava com uma chama azul-celeste e faíscas de pura magia de criação.
Elias começou a passar a ferramenta mágica pelas placas danificadas da armadura de Pyros. Onde a chama tocava, o ouro opaco e corroído pelo Necrovapor derretia e se reestruturava instantaneamente, selando as rachaduras e recuperando o brilho heróico de antes.

— Cuidado com a armadura, Elias! Se arranhar o ouro, desvaloriza o passe do enlatado — Aluara comentou com um sorriso ladino, recostando-se na mesa cheia de engrenagens e jogando uma porca de bronze para o alto, pegando-a no ar. — Mas me conta, homem do bigode, o que mais os seus sensores estúpidos descobriram sobre os planos deles?
— Ah, os planos! Sim, terríveis, brutais, desprovidos de qualquer senso estético industrial! — Elias divagou, sem desacelerar o braço mecânico, que agora mudara para um martelo magnético de precisão que moldava as ombreiras de Pyros. — Eles estão sob o comando direto do braço direito do Arquivista, o General Ironclad. Um autômato sem alma, pura eficiência de ferro preto. Eu detesto ferro preto, sabiam? Tão sem vida. Prefiro o latão, tem um calor humano, uma vibração... Já notaram como os relógios de latão parecem respirar? sempre com um tic e tac, e um clac, eles se movimentam parecendo um coração caloroso! Mas voltando ao ponto! Ironclad quer o Núcleo de Ignição Cósmica que você carrega, paladino. Ele sabe que com isso pode expandir a Ferrugem da Alma por todo o reinado. Os Rompe-Matas são só a vanguarda. Eles vão passar por cima do bosque em menos de doze horas.
Pyros testou os movimentos dos ombros, impressionado ao ver que a armadura se movia com a mesma perfeição de antes. Ele encarou Elias com seu semblante severo de paladino.
— O General Ironclad é uma abominação conhecida pela nossa ordem. Onde suas lagartas de ferro passam, a terra morre — Pyros declarou, a voz grave ecoando pela oficina mecânica. — Se o Núcleo cair nas mãos dele, Aetherium cairá em trevas industriais. Minha espada purificadora deve encontrar o peito daquele monstro mecânico antes que ele ordene o avanço.
— Ah, claro! O herói dourado quer marchar sozinho contra um exército de tratores gigantes e zumbis — Bituca esbravejou, cruzando os braços e batendo o calcanhar no chão da oficina, visivelmente irritado. — Acorda, paladino! Se aquela lata preta do Perseguidor quase quebrou o seu escudo na clareira, o Ironclad vai te transformar em uma lata de sardinha amassada! Minha munição rúnica acabou, a floresta está chorando fumaça e você quer dar uma de mártir?
— O rabugento tem razão na parte tática, Pyros — Aluara interveio, deslizando de cima da mesa com um tilintar de botas. Ela ajustou os goggles vermelhos na testa e olhou para o mapa holográfico de Elias. — Ir direto até o General é suicídio e ainda existe a possibilidade de apenas o Perseguidor aparecer. Mas nós jogamos em casa. O bosque é nosso. Se os Rompe-Matas estão vindo pela fronteira leste, nós sabemos exatamente onde o terreno afunila.
— Exatamente! No Desfiladeiro das Raízes Chorosas! — Elias interrompeu, o braço mecânico voltando à forma de mão humana enquanto ele apontava com o dedo indicador para o mapa. — Se usarmos uma descarga elétrica de alta potência combinada com uma barreira de fogo místico... ah, por falar em chorar, vocês sabiam que as cebolas do pântano choram uma seiva ácida que dissolve couro? Uma vez estraguei um par de botas novinho colhendo tempero para o ensopado e no final ainda não consegui comer. Mas focando no plano! Podemos armar uma emboscada lá. Se pararmos as máquinas pesadas no desfiladeiro, o Ironclad vai ser obrigado a se expor.
Pyros olhou para Aluara, depois para o Kurapi ranzinza, e finalmente para o inventor excêntrico. O paladino assentiu lentamente, segurando firme o elmo de serpente.
— Uma emboscada no desfiladeiro. Que os deuses abençoem nossa estratégia. O que precisamos para preparar essa armadilha?
— Bugigangas! Sim, claro, as bugigangas! — Elias deu um salto, batendo as palmas das mãos, o que fez os seus óculos vermelhos sem alça vibrarem levemente sobre os olhos. — Enquanto vocês discutiam geopolítica militar e táticas florestais, meu braço esquerdo entrou em modo de multitarefa subconsciente. Sabiam que o cérebro humano gasta quase vinte por cento da sua energia apenas mantendo o equilíbrio bípede? Se nós tivéssemos quatro pernas, como os centauros, talvez fôssemos trinta por cento mais eficientes em matemática avançada. Mas isso não vem ao caso! Bituca, passe para cá essa sua matraca velha e barulhenta.
Antes que o Kurapi pudesse protestar, o braço mecânico de Elias se estendeu como uma pinça hidráulica, arrancou a espingarda rúnica das mãos de Bituca e a jogou dentro de uma câmara de montagem rápida na parede.
O que se seguiu foi um borrão de faíscas azuis, engrenagens girando a toda velocidade e o som de metal sendo forjado por magia de criação.
Alguns minuto depois, a escotilha se abriu com um chiado de pressão. Elias retirou a arma com as duas mãos, exibindo-a com o orgulho de um pintor mostrando sua obra-prima.
— Contemplem... o Arquebusto de Éter-Fogo! — anunciou o inventor, com o bigode pontudo empinado.
Até mesmo Bituca deu um passo à frente, os olhos vermelhos brilhando ao encarar a nova arma. Ela ainda mantinha a robustez de uma arma de caça, mas sua natureza mágica e mecânica agora era inegável.
Os Canos: O cano duplo antigo fora substituído por cinco canos de bronze rúnico dispostos em um arranjo circular, como um carrossel mortal. Cada um deles ostentava profundas gravuras de runas de evocação que pulsavam sutilmente em um tom alaranjado e azul.
O Tambor e Manômetro: Na culatra, onde antes ficava o mecanismo de pólvora, agora havia um tambor giratório de cobre interligado por pequenos canos e engrenagens expostas. Um pequeno manômetro de vidro exibia a pressão interna, mas em vez de vapor comum, o ponteiro oscilava medindo a mana em uma névoa azulada brilhante.
O Receptáculo de Cristal: No lugar onde se colocaria a pólvora negra, Elias instalou uma câmara de vidro reforçado protegida por uma grade de latão reluzente.
A Coronha: A madeira de balsa escura fora reforçada com placas de metal e uma almofada de couro grosso na extremidade para amortecer o recuo.

— O que você fez com o meu trabuco, homem maluco?! — resmungou Bituca, embora já estivesse estendendo as mãos calejadas para pegar a arma, testando o peso perfeito dela. — Onde é que enfio o chumbo e a pólvora nisso?
— Em lugar nenhum, meu caro amigo rabugento! — Elias começou a explicar, gesticulando com o braço mecânico que agora imitava o formato de um pistão. — A pólvora negra é tão... século passado. Suja, fedorenta, obstrui os canos. O Arquebusto substitui completamente o chumbo por Mana Pura e Cristais de Matéria Primal! Deixe-me explicar a ciência da coisa:
A Carga: Você insere um Cristal de Mana naquele receptáculo de vidro — ou, se estiver no meio do caos, gasta sua propria Mana tocando o gatilho rúnico. Essa energia é sugada instantaneamente para a caldeira interna, onde é "fervida" e convertida em vapor arcano de alta pressão.
O Disparo: Ao puxar o gatilho, uma válvula se abre. O vapor de mana é direcionado para um dos cinco canos. As runas gravadas no bronze moldam essa energia bruta, disparando um projétil cinético-mágico translúcido e altamente destrutivo.
O Carrossel (Os 5 Tiros): A cada disparo, o mecanismo de engrenagens faz o tambor girar automaticamente com um clique satisfatório, alinhando o próximo cano resfriado e pronto para o tiro. Você pode disparar até 5 vezes antes que o vapor de mana precise ser reabastecido ou estabilizado.
Bituca puxou o cão da arma. O carrossel de canos girou com um som metálico perfeito, e o manômetro de éter brilhou em resposta à energia do próprio Kurapi. Um sorriso raro e assustador cruzou o rosto do guardião.
— Nada mal... nada mal mesmo — admiti o Bituca, mirando em um alvo fantasma na parede.
— Mas escute bem, porque aqui vai uma dica — Elias ergueu o dedo indicador, os óculos vermelhos brilhando seriamente. — Eu instalei um dispositivo que chamo de Instabilidade Estética, ou, para os menos refinados, o Modo Rajada. Apertando essa alavanca vermelha, você força as engrenagens, e libera toda a pressão de uma vez e disparar os 5 canos simultaneamente. Vai fazer um estrago digno de um dragão de Wynna! Porém... isso deixa a arma completamente Superaquecida, impedindo que ela seja recarregada ou disparada até que ela resfrie. Então, use apenas se o General de Lata ou o seu zumbi de estimação estiverem colados na sua cara, entendido?
Aluara cruzou os braços, soltando uma risada descontraída ao ver o parceiro tão fascinado.
— Cuidado para não queimar os próprios dedos com o brinquedo novo, Bituca.
— Fica na sua, guria! — Bituca retrucou, mas sem conseguir parar de admirar o Arquebusto de Éter-Fogo. — Agora o chumbo... quer dizer, a mana vai comer de verdade.
Elias esfregou as mãos, virando-se para Aluara e Pyros com os cabelos pretos ainda mais esvoaçados de entusiasmo.
— Muito bem! Agora que resolvemos o poder de fogo do nosso amigo rabugento... — Elias começou, virando-se em direção a uma bancada cheia de bobinas e fios para a atualização de Aluara. — Vamos focar no que eu planejei para a sua manopla, guria. Sabiam que se mudarmos a frequência dos cristais de...
— Espere, inventor — a voz grave de Pyros interrompeu, ecoando de forma solene pela oficina.
O paladino não estava olhando para Elias, nem para os mapas. Seus olhos brilhantes estavam fixos em um canto escuro da oficina, onde uma pilha de sucata enferrujada, chapas de ferro velhas e engrenagens quebradas repousava como entulho esquecido.
No meio daquela pilha de lixo industrial, algo havia chamado sua atenção. Um brilho morno, quase imperceptível para olhos comuns, mas claro como o dia para um devoto do Deus do Sol.
Pyros caminhou até o entulho e, com sua mão enluvada de ouro, afastou dois canos de bronze velhos. Lá embaixo, jazia um escudo.
— Ah, isso? — Elias deu de ombros, mal olhando para trás enquanto limpava o bigode pontudo. — Só um pedaço de bronze velho que achei enterrado perto da fronteira com o Deserto da Perdição. Pensei em derreter para fazer fivelas ou parafusos de suporte para as pernas dos javalis mecânicos... javalis mecânicos são uma ideia fantástica, não acham? Mas o metal é rústico demais, fosco, não segura bem a solda alquímica. Pode deixar aí, é lixo.
— Isto não é lixo, Elias — Pyros disse, sua voz carregada de uma reverência profunda.
Ele ergueu o item com as duas mãos. O escudo era pesado, feito de um bronze rústico e fosco, visivelmente desgastado pelas areias do tempo. Tinha um formato oval e alongado, que lembrava a silhueta de uma gota de sol. Em seu centro trazia a gravação entalhada de um sol estilizado, de onde saíam raios que se espalhavam como labaredas simples pelas bordas, em um design clássico e imponente que lembrava armaduras de civilizações antigas. Na sua estrutura inicial, havia espaço para apenas duas joias catalisadoras.

— Como um grande devoto de Aelion, eu reconheço este metal — Pyros continuou, limpando a poeira da superfície com o calor de sua palma. — Existe a possibilidade de este ser um item bem peculiar. As lendas dos acampamentos do deserto falam dele. Este é o Broquel do Deserto.
— Um broquel? — Aluara inclinou a cabeça, curiosa, aproximando-se de forma suave. — Ele parece meio... apagado para um paladino dourado como você.
— Porque ele começa sua jornada de forma humilde, Aluara — explicou Pyros. — Diz a lenda que este escudo foi a primeira tentativa de um ferreiro sagrado do Deserto da Perdição de replicar o escudo do próprio Aelion. Sem acesso ao metal divino, ele usou o bronze mais puro que encontrou e abençoou o item com uma prece: "Que este metal seja tão forte quanto a fé de quem o empunha".
O paladino fechou os olhos por um segundo, sentindo a vibração oculta na peça.
— Ele foi usado por um jovem guerreiro que pereceu defendendo uma caravana de devotos contra uma horda de criaturas da ferrugem. Antes de morrer, o guerreiro fincou o escudo na areia. O calor do deserto e a aprovação de Aelion fundiram a determinação do herói ao metal. Desde então, ele aguarda por um novo paladino cuja força de vontade seja digna de despertar seu verdadeiro potencial. Este escudo possui uma propriedade espiritual única: ele ressoa com a alma do portador. À medida que minha fé provar-se inabalável e nossa força de vontade crescer, o bronze absorverá essa energia, polindo-se sozinho, manifestando novos adornos — incluindo o rosto do leão — e despertando o poder adormecido das outras joias até se transformar no lendário Esplendor de Aelion.
— Ora, vejam só... um escudo que se limpa sozinho! — Bituca resmungou, embora olhasse para o item com respeito. — Bem melhor do que as tralhas que o Elias acumula. Pelo menos esse tem história de verdade.
Pyros prendeu o escudo pesado de bronze no braço esquerdo. Ele pesava cerca de 7 kg, oferecendo uma proteção mágica notável. Sendo um escudo manejável, permitia que Pyros ainda usasse a mão esquerda para segurar itens leves, como um símbolo sagrado, mantendo a destra livre para sua espada flamejante.
No topo e na base do sol entalhado, dois rubis opacos começaram a pulsar com um brilho tênue, respondendo ao toque do paladino.
— Ele está acordando... — Aluara sussurrou. — O que essas duas joias fazem?
— Elas contêm frações do poder inicial do sol — Pyros disse, sentindo a mana fluir para o bronze. — Posso canalizar minha energia através delas. O Rubi da Alvorada Tímida me permite amplificar minhas preces de cura; quando uso o Impor Mãos, a luz cura mais intensamente e faz o alvo brilhar com uma luz suave, iluminando o ambiente.
Ele tocou o rubi inferior, que faiscou como uma brasa.
— E a Centelha do Meio-Dia. Ao desferir um golpe para Destruir o Mal, o escudo projeta um feixe de luz focado que estende o alcance do meu ataque. Aumentando a luz sagrada e segando meus oponentes
Elias ajustou os óculos vermelhos, olhando para o escudo com o queixo caído e o bigode tremendo.
— Incrível... uma liga metálica psicorreativa de base divina! Porcas e parafusos sagrados! Imaginem a eficiência mecânica de uma rosca abençoada pelo Deus do Sol, livre de qualquer atrito ou oxidação por três mil anos! — Elias divagou alto, os cabelos pretos como carvão parecendo flutuar ainda mais enquanto ele andava em círculos, gesticulando freneticamente com o braço de latão. — Eu poderia ter revolucionado o sistema de suspensão dos javalis... Mas enfim! O sol brilha para os crentes e a eletricidade ruge para quem tem pressa. Aluara deu um tapinha no ombro de Pyros, fazendo as bobinas de suas luvas estalarem de leve.
— Ficou elegante, enlatado. Agora que você achou seu brinquedo ancestral no lixo do Elias, o que o homem do bigode tem para mim? Estou doida para fritar alguns Rompe-Matas!
— Aluara, guria, passe para cá essas suas luvas de couro e o seu par de adagas. Outro dia eu estava observando uma tempestade estalar sobre o Pico dos Vendavais e tive uma epifania maravilhosa. Sabiam que os raios têm uma preferência estética por árvores altas por causa da menor resistência do ar ionizado? Fascinante não é?! Mas voltando ao foco: me dê suas armas, agora!
Aluara soltou uma risada descontraída, deslizando as luvas pelas fivelas de bronze e desembainhando as duas adagas de lâminas foscas. Ela entregou o conjunto para o inventor com uma reverência dramaticamente exagerada.
— Prontinho, doutor. Só tente não transformar minhas adagas em colheres de sopa ou minhas luvas em saquinhos de rapé. Eu meio que preciso delas inteiras se quisermos que o enlatado dourado ali viva para ver o nascer do sol — ela provocou com seu tom sarcástico de sempre, piscando para Pyros, que permanecia estático e severo ao lado de Bituca.
Elias não respondeu. Ele agarrou os itens com sua pinça mecânica e mergulhou em uma bancada repleta de cristais de quartzo-relâmpago e fios de prata pura. O laboratório virou um borrão de alta magia de Transmutação e Evocação. O cientista louco trabalhava cantando uma melodia desconexa sobre a densidade do óleo de motor, enquanto soldava bobinas com precisão cirúrgica.
Quando ele se virou, os óculos vermelhos sem alça refletiam faíscas azuladas. Nas mãos, ele carregava o par atualizado: as Manoplas da Tormenta & As Presas de Pará-Raios.
— Uma obra-prima maior de engenharia mágica e alquimia! — Elias exclamou, entregando-as de volta a Aluara.

As luvas de cano longo agora misturavam couro preto fosco e marrom escuro de alta qualidade. No dorso de cada mão, um intrincado mecanismo de bobinas de cobre polido e cristais de quartzo-relâmpago pulsava com energia. As adagas tinham cabos envoltos no mesmo couro, mas agora exibiam um pomo pesado de ferro puro, desenhado especificamente para aterrar e atrair energia, as laminas tinham runas gravadas que serviam como amplificação arcana das descargas eletricas.
— Lindas. Combinam com as minhas meias — Aluara sorriu, vestindo-as e sentindo o couro se ajustar perfeitamente aos seus antebraços. — E como eu faço para fritar os Rompe-Matas com isso, Elias?
— Elas funcionam como um catalisador puramente acoplado a sua Mana, minha cara! Elas não têm carga própria; drenam a sua própria energia vital e mágica através da prata condutora. Por isso você pode sentir uma leve fadiga, é bom ter uns elixires a disposição. Deixe-me explicar os três modos fundamentais antes que eu me esqueça de como se faz um nó de marinheiro... ah, nós de marinheiro são tão úteis para amarrar cabos de alta tensão... Enfim! Preste atenção:
1. Disparo de Energia (Bobinas Ativas): Suas mãos vão centelhar com eletricidade azulada. Seus ataques desarmados ou com as adagas vão torrar qualquer um que quiser chegar perto de você. E se quiser distância, você pode disparar um arco elétrico em um alvo a até 9 metros! o infeliz que levar essa faiscada não vai ficar muito alegre.
2. O Combo das Adagas Pará-Raios: É aqui que a mágica da tempestade acontece. Você pode arremessar uma ou as duas adagas em um inimigo ou fincá-las no chão.
O Pará-Raio: Se disparar seu raio contra um alvo a até 3 metros de uma adaga fincada, ele vai sofrer um choque muito grande, porque o magnetismo puxa a eletricidade direto para ele!
Arco Condutor: Se fincar as duas adagas em alvos diferentes (até 6 metros entre si), você pode disparar um raio em uma delas. A energia vai saltar instantaneamente para a outra adaga, criando uma linha de eletricidade pura! Qualquer zumbi no meio do caminha vai levar uma boa dose de eletricidade, porem como vai ser dividido, o dano vai ser menor. Perfeito para limpar fileiras de zumbis sem atingir o Bituca ou o paladino!
3. Poder Magnético (Atração e Repulsão): Você manipula as linhas magnéticas.
Repelir: Boa defesa contra armas de metal, desviando os golpes. E você pode aproveitar para desarmar ele.
Atrair: Funciona como a magia Mãos Mágicas para metal, e você pode puxar as adagas de volta para suas mãos.
Aluara flexionou os dedos. O carrossel de canos do arquebusto de Bituca emitiu um estalo, e o escudo de bronze de Pyros brilhou morno, mas as manoplas de Aluara responderam com um estalo violento de estática azul que iluminou toda a oficina.
— Ah, Elias... você me conhece tão bem — Aluara sibilou, os olhos âmbar brilhando com uma malícia divertida. — Dá para fazer um estrago lindo com isso. Imagina fincar uma dessas adagas bem no meio daquela armadura do Perseguidor e usar como aterramento? Ele vai virar uma torradeira.
— Uma torradeira bem grande! — Elias completou, rindo como um cientista louco, antes de voltar a olhar para o mapa do Desfiladeiro das Raízes Chorosas. — Agora que todos vocês estão devidamente atualizados e armados... o tempo está correndo. Os Rompe-Matas estão quase no ponto de afunilamento.
Bituca bateu o Arquebusto de Éter-Fogo no ombro, Pyros empunhou o Broquel do Deserto, e Aluara fez as adagas girarem nos dedos antes de sumirem nas bainhas. O grupo estava pronto.