Capítulo 2: A Sede dos Ossos
O instinto gritava. A lógica, uma passageira aterrorizada dentro de um corpo que não era seu, apenas concordava. A grande sombra da costela era a única promessa de refúgio em um mundo sem esconderijos, e Agnes se arrastou em direção a ela com a força desesperada de uma criatura recém-nascida. A cinza fina e morna entrava em sua boca, em suas narinas, um pó que não tinha cheiro nem gosto, apenas a textura da própria inexistência.
O som que a perseguia não era o de uma fera. Faltava-lhe o peso, a cadência de patas ou garras(mas talvez, tal som não soasse nesse solo estranho?). Era um arrastar úmido e disforme, pontuado por um estalido suave, como o de galhos molhados se partindo. Ela não ousou olhar para trás. O medo era uma certeza fria em seu peito: ver a fonte daquele som seria o fim. A imagem por si só a paralisaria, a deixaria pronta para ser... desfeita.
Finalmente, suas garras arranharam algo sólido. A superfície do osso de uma caixa torácica do tamanho de um elefante com costelas grossas e emaranhado em vinhas prata opaca. Era suave e polida como marfim, mas emanava um frio sutil que parecia sugar o calor de seu toque. Ela se espremeu na curva interna da costela, uma alcova natural que a escondia da planície aberta. Encolhida, com o coração batendo um ritmo frenético contra suas próprias costelas frágeis, ela se forçou a espiar.
A coisa emergiu da névoa de cinzas. Uma sombra disforme e longa no horizonte que se movia a uma velocidade insana uma "aparição carnal". A descrição que havia surgido em sua mente antes era tanto poética quanto terrivelmente inadequada.
Não era uma aparição. Era uma massa ambulante de carne pálida e sem pele, um amálgama de membros que se desdobravam e se recolhiam em ângulos impossíveis. Um braço humanoide se estendia de um toco que poderia ter sido uma perna, terminando em dedos que se flexionavam e estalavam. Movia-se sem um propósito aparente, deslizando sobre o deserto de cinzas, deixando um rastro úmido e escuro.
Não parecia estar caçando; parecia simplesmente... passar, e o horror estava no fato de que o caminho dela estava em seu curso.
Agnes prendeu a respiração, um chiado agudo em seus pulmões alienígenas. A aparição estava perto, a talvez cinquenta metros de distância. Mas então, algo mais chamou sua atenção. Um som diferente, vindo de mais perto. Um clique agudo, vindo das sombras mais profundas da própria estrutura óssea.
Ela olhou para baixo. No chão, perto da base do osso onde a cinza era mais escura e úmida, pequenas criaturas se moviam. Eram como insetos do tamanho de um punho, com carapaças feitas de osso lascado e múltiplas pernas finas que se moviam em uma velocidade desconcertante um como monte de centopéias. Eles não estavam fugindo da aparição. Estavam saindo para encontrá-la.
Foi quando a verdade a atingiu, uma onda de frio mais paralisante que o próprio medo. Os ossos não eram um refúgio. Eram um recife. Um ecossistema. A aparição, em sua passagem sem sentido, estava agindo como um batedor oportuno, afugentando ou revelando qualquer coisa que pudesse estar escondida nas cinzas ao redor. E os verdadeiros predadores, os habitantes do osso, estavam emergindo para o banquete. Ela não havia fugido para um esconderijo. Ela havia entrado em um ninho.
Um dos insetos de osso virou sua cabeça multifacetada em sua direção. Não havia olhos, mas ela sentiu o foco de sua atenção sobre ela. Um predador havia encontrado sua presa.
Justo quando o inseto se preparava para saltar, o mundo se iluminou.
O céu, antes um brilho carmesim moribundo, pulsou com uma intensidade ofuscante. Um som, não um trovão, mas um rasgo agudo no tecido do silêncio, ecoou pela vastidão. Distante no horizonte, um pilar de luz líquida e incandescente desceu do teto de fogo. Não era um raio em ziguezague, era um cilindro perfeito de energia pura que atingiu o chão com uma violência inaudível.
Uma onda de choque silenciosa varreu o deserto, levantando a cinza em uma muralha. Segundos depois, uma cúpula de névoa negra e espessa se ergueu do ponto de impacto, subindo e se espalhando lentamente antes de começar a se dissipar, assentando de volta ao chão como um novo estrato de poeira.
A aparição carnal parou. A massa de membros se contorceu, recuando da luz e da perturbação. Os insetos de osso, antes tão confiantes, emitiram um chiado agudo e correram de volta para as fendas e buracos na base do osso, desaparecendo na escuridão.
A tempestade era um perigo maior, um caçador indiscriminado que todos temiam.
Agnes estava sozinha novamente, a ameaça imediata substituída por uma ameaça ambiental. Outro raio rasgou o céu, este mais perto. E um terceiro atingiu a ponta superior da costela colossal sob a qual ela se escondia.
Ela se encolheu, esperando o impacto, a explosão, o fim. Mas não veio. Em vez disso, um brilho ofuscante iluminou toda a carcaça revelando detalhes antes não visíveis. O raio líquido atingiu o osso e não explodiu. Como seu senso comum o avisava, a superfície do osso e as vinhas agarradas como carne na estrutura não pareceu sentir o raio na verdade o fez deslizar. A energia fluiu pela superfície do osso como mercúrio luminoso sendo absorvido aos poucos fluindo pela estrutura porosa do osso e sendo rapidamente absorvida pelas vinhas como se as mesmas estivessem vivas.
As plantas beberam a luz. Por um instante, elas brilharam com um poder verde profano e suas vinhas começaram a se abrir como flores revelando folhas grossas e coriáceas, com suas veias se tornando visíveis como filamentos de fogo branco. O próprio osso pareceu ressoar, um zumbido baixo e vibrante que subiu do chão. E então, na parte interna da curva do osso, bem acima da cabeça de Agnes, algo começou a escorrer.
Um gotejamento lento vindo de um bulbo carnudo e pulsante. Gota após gota. Logo, um fio constante de líquido claro e límpido descia pela superfície de marfim que logo se torna uma ducha quente e refrescante nesse ambiente desolador, acumulando-se em uma poça no fundo da carcaça, pra logo depois ser absorvido pelo solo agora úmido, sendo possível notar os insetos se remexendo entre solo tentando criar uma passagem de ar para evitar o afogamento.
‘Água…’
A percepção atingiu Agnes junto com uma sede que ela não sabia que sentia, uma secura em sua garganta que parecia ter eras de idade. Hesitante, ela se arrastou para fora de sua alcova improvisada, os olhos fixos na fonte na coluna da carcaça onde o bulbo carnudo estava entrepado e chovendo dentro da carcaça, e depois, seus olhos miraram no céu furioso. A tempestade que ameaçava matá-la era também a única fonte de vida dentro desse ecossistema macabro.
Com as mãos em concha, ela aparou a água. O líquido era levemente quente, e até mesmo formigava na mão, como se o raio tivesse se tornado realmente água ou sempre tivesse sido água. É puro e relaxante. Ela bebeu, e a sensação foi como apagar um incêndio com chá quente dentro de si mesma. Era real. Era água.
A salvo por enquanto, com a tempestade rugindo lá fora e os predadores escondidos e ao mesmo tempo desesperados por ar, Agnes se permitiu um momento. Olhou para suas mãos, cobertas de cinzas e sujeira sendo regado e limpo ao poucos revelando uma pele rosada como a de um porco, mas que devido a estrutura óssea e a falta de alguns enchimento que não fosse cartilagem e músculos pequenos e tensionados tornava essa cor de pele estranha para sua aparência atualmente demoníaca.
Um resquício de sua antiga vida, de seu antigo eu retornou como um vislumbre, a preocupação com higiene e ordem, a sensação de um banho quente e o relaxamento que uma manicure trazia para sua consciência. Usando a água que continuava a cair por toda a sua anatomia, ela lavou o rosto, as mãos, limpando a fuligem de das partes mais estreitas de seu novo corpo. Foi um pequeno ato de desafio, um momento de humanidade em um lugar que não tinha nenhuma.
Enquanto a água escorria, ela observou a tempestade. Viu outro raio explodir ao longe, a névoa negra subindo e depois assentando. Seu cérebro de engenheira, enferrujado e traumatizado, começou a girar lentamente. Água... cinzas... se ela pudesse encontrar alguma fonte de gordura, talvez de alguma bestas... Ela poderia fazer sabão.
O pensamento era tão absurdo, tão mundano, que quase a fez rir. Um riso seco e rouco que soou estranho em sua própria garganta.
Ela estava no inferno. Tomando banho em uma armadilha de centopéias repugnantes. E estava pensando em fazer sabão.
Talvez, apenas talvez, se ela continuasse viva, afinal, mesmo em outro corpo, ela ainda era humana… não é?
(Fim do capítulo)