O tempo, Agnes não tinha ideia quanto dele tinha se passado, então em seu desespero por lógica, começou a notar os movimentos do céu como “tempo”. Havia o tempo antes da tempestade, o tempo durante a tempestade, e o agora: o tempo após.
Metade de um "dia", se é que tal conceito existia ali, parecia ter se esvaído. O primeiro sinal da mudança foi sutil. As nuvens de fogo e fuligem, que antes formavam um teto claustrofóbico, começaram a recuar. Elas não se dissiparam; elas se moveram, uma massa coesa que deslizava em direção às bordas distantes do mundo, como uma cortina de teatro sendo lentamente aberta.
O que foi revelado por trás delas fez Agnes parar, o pé-garra estranho de seu corpo afundado nas cinzas. Pela primeira vez, ela viu o céu deste mundo em seu estado mais limpo. E era magnífico. Um gradiente impossível que ia de um azul-cobalto profundo no zênite a um laranja vibrante e pulsante no horizonte. Não havia sol, nenhuma fonte de luz discernível, apenas a cor em si, pura e auto iluminada. A luz que banhava o deserto de cinzas não era mais o brilho avermelhado do inferno, mas a luz melancólica de um crepúsculo eterno.
Com a mudança na luz, veio uma mudança na temperatura. O frio neutro deu lugar a um calor leve, quase agradável, mas que ainda carregava um arrepio por baixo, como o calor febril de um corpo doente.
Por um momento, a beleza a transportou. Era uma visão tão fundamentalmente... bela, que parecia fora de lugar, uma piada cruel em meio à desolação. Mas a beleza não durou. A realidade de sua situação retornou com a dor em seus pés.
Ela continuou a caminhar, um ritmo lento e arrastado. Cada passo era um pequeno tormento. Seus pés não eram feitos para caminhar, eram feitos para agarrar. As garras em “Y” se enterravam nas cinzas, mas a estrutura aviária de seus tornozelos e a falta de um calcanhar apropriado a forçavam a uma marcha desajeitada e dolorosa. Ela lamentou não ter tido tempo ou material para improvisar algum tipo de sandália ou botas, já que seus pés estavam molhados quando fugiu da carcaça e agora eles estavam grudados com cinzas molhadas.
Sua postura também era uma fonte constante de frustração. Seu corpo não queria ficar totalmente ereto; a curva de sua coluna e a estrutura de suas pernas a forçaram a uma posição semi-agachada, como um predador perpetuamente pronto para atacar. A engenheira em sua alma odiava a ineficiência daquilo, o desperdício de energia em cada movimento e o incômodo de cada passo era de matar.
Estava tão perdida nesses lamentos físicos, nessa análise de seu próprio chassi defeituoso, que quase não percebeu o perigo até ser tarde demais.
Não houve som de aviso. As cinzas à sua frente simplesmente explodiram em uma forma cinzenta e grandiosa.
Tinha a envergadura de uma águia, mas com um bico serrilhado como uma faca de pão e olhos que eram poços negros e sem brilho. garras que pareciam eficientes na tarefa de estraçalar e prender a carne de suas vítimas, irrompendo do chão, onde estava enterrada, em uma emboscada silenciosa. Uma ave. Era maior do que as que ela havia vislumbrado à distância no conforto de sua casa na TV ou aquelas na janela de seu apartamento. Garras do tamanho de facas de trinchar se estenderam, mirando seu torso magro.
Agnes gritou, um som rouco e animalesco. Ela se jogou para o lado, e foi apenas sua pequena estatura que a salvou. As garras, projetadas para agarrar presas mais substanciais, rasparam sua túnica de folhas e arranharam suas costas, mas não conseguiram uma pegada firme em seu corpo esguio e ossudo.
O pássaro soltou um guincho de frustração e pousou desajeitadamente a alguns metros de distância enquanto tentava se manter em equilíbrio, virando a cabeça para encará-la. Agnes não esperou. Começou a correr.
Sua corrida bípede era patética. Desequilibrada, lenta, e com sua túnica agora rasgada e caída para o lado do seu corpo, até mesmo atrapalhada, cada passo uma batalha contra sua própria anatomia. A ave de rapina foi mais rápida. Com duas batidas poderosas de suas asas, ela estava no ar novamente, planando baixo, o som de suas penas cortando o ar como um chicote. Agnes podia sentir a sombra dela cobrindo-a, o terror frio subindo por sua espinha.
Estava perto demais. O próximo ataque a acertaria, afinal, pela sombra acima de Agnes, a ave parecia um torpedo vingativo tentando abocanhar a pequena existência de uma só vez.
Em um ato de puro desespero, a lógica se desligou e o instinto tomou o controle. Agnes tropeçou e caiu para a frente, mas em vez de se espatifar no chão, suas mãos-garra se plantaram na cinza. E ela continuou a correr. Sobre quatro patas.
A mudança foi instantânea e chocante. A dor em seus tornozelos desapareceu, a falta de equilíbrio se foi. O movimento era fluido, poderoso. Seu corpo se sentia... certo. Cada membro trabalhava em perfeita sincronia, impulsionando-a para a frente com uma velocidade que ela não sabia que possuía. A coluna curvada, antes uma fraqueza, agora era uma vantagem, permitindo que ela se estendesse e se contraísse como uma mola. O mundo se tornou um borrão cinzento e laranja. Ela não era mais uma humana desajeitada em um corpo de demônio; ela era um animal fugindo de outro.
A ave foi pega de surpresa pela explosão de velocidade. Ela guinchou, irritada, e um pouco temerosa, mas como se seu orgulho tivesse sido quebrado, bateu as asas com mais força para acompanhar. A perseguição se estendeu pelo deserto, uma dança de caça e fuga sob o céu surreal.
Mas eles não eram os únicos naquele deserto.
Agnes não viu o que aconteceu. Ela ouviu. Um som que não pertencia àquele lugar. Não era um rugido, não era um guincho. Foi um estalo agudo, como o de um chicote quebrando a barreira do som, que fez o ar vibrar e doer em seus ouvidos.
Imediatamente depois, algo passou zunindo por cima de sua cabeça, uma mancha escura tão rápida que era quase invisível.
A ave, que estava prestes a mergulhar sobre ela, parou no ar. Seu guincho de caça se transformou em um grito de dor, surpresa e resignação. A mancha escura a atingiu no meio do peito. Não houve uma luta. Houve apenas uma desintegração. A ave de rapina explodiu em uma chuva de penas cinzentas, sangue escuro e fragmentos de osso.
Agnes derrapou até parar, o corpo de quatro patas se encolhendo instintivamente.
Uma chuva macabra caiu ao seu redor. Agarrado ao que restava do dorso da ave cinzenta, por um único instante, estava seu salvador. Era pequeno, não maior que ela mesma, com a aparência de um morcego sem pelos, de pele escura e coriácea. Seus olhos eram grandes e vermelhos, e sua boca se abriu para revelar dentes finos como agulhas. Ele rosnou, um som baixo e vibrante que prometia uma violência mil vezes maior que a da ave que acabara de destruir.
Não houve um momento de alívio. Não houve gratidão. Apenas a compreensão fria e imediata de que ela havia escapado de um predador apenas para atrair a atenção de um assassino.
Antes que o morcego pudesse sequer olhar em sua direção, Agnes se virou e correu. Correu sem pensar, em um pânico cego, para longe do massacre. Ela não parou até que seus pulmões queimassem por falta de ar, ou seja lá o que ela respira agora, seus membros tremeram de exaustão, e finalmente desabando atrás de uma duna de cinzas.
Quando ela ousou levantar a cabeça, ofegante, viu que sua fuga sem rumo a havia levado a um novo marco no deserto. Era mais uma carcaça, mas diferente das outras. Um crânio. Tinha o formato do crânio de um canídeo gigantesco, do tamanho de uma pequena casa, com presas do comprimento de seus braços saindo da mandíbula superior. E, em uma imagem de estranha e mórbida beleza, uma árvore retorcida, de casca negra e sem folhas, havia crescido de baixo para cima, atravessando a cavidade ocular direita do crânio e estendendo seus galhos para o céu laranja.
Era um abrigo em potencial. Ou era o covil de algo ainda pior do que a criatura que ela acabara de ver. Nesse mundo infernal raramente havia uma terceira opção.
(Fim do capítulo)