Ele não tinha nome. Tão pouco sabia de tal formalidade. Nomes eram para coisas que precisavam existiam estáticos. Ele era um ser que mudava constantemente. Adaptável, mutável, o caçador perfeito.
Ele era a fome que se movia na escuridão, o medo no coração de suas presas, algo que está destinado a ser o supremo lorde desse mundo.
Sua primeira lembrança era o vazio. Um ovo coriáceo se partindo e o cheiro de cinzas. Não maior que um grão. A primeira fome. A primeira caça. Um inseto de osso, estaladiço e cheio de minerais e muito maior, devorou seu predador sem saber, isso causou sua morte. Ele absorveu sua carapaça, sua carne, seus fluidos vitais lentamente, sentindo a natureza de sua existência absorvendo dureza do exoesqueleto se fundir à sua própria existência naquele momento, ele tinha uma mente. Fraca e primitiva, mente, o suficiente para caçar de novo.
A segunda foi uma serpente de cinzas, . Ele absorveu sua flexibilidade, a capacidade de se mover sem som e a grande quantidade de massa biológica. A vida era simples. Encontrar. Matar. Absorver. Mudar. Nos seus poucos dias de existência, ele já havia sido couraça, garra, veneno e asa, um mosaico de mortes que o tornava cada vez mais perfeito. O ápice. O predador da noite.
Um dia, ele sentiu um cheiro.
Não era o cheiro mofado e assustador de uma besta-rocha ou o odor acre de uma hiena corredora. Era um cheiro alienígena, complexo. Havia medo nele, sim, mas também... Plantas estranhas? Carnes estranhas? Talvez outro como eu? Isso realmente importava por sinal? algo que sua mente predadora não conseguia categorizar, algo que o irritava e o fascinava. A caça.
Ele seguiu o cheiro até um lugar estranho. Uma carapaça que não era uma carapaça, um buraco no chão coberto por uma casca dura que cheirava a couro, cinzas, sangue e... aquelas plantas. Ele se aproximou, os sentidos aguçados, mas o cheiro estava... velho. A presa não estava mais ali. Frustrado, ele golpeou a casca dura com uma garra quitinosa. A estrutura, uma espécie de concreto primitivo, se desfez. Vazia. Ele rosnou, a irritação se transformando em um nó em seu estômago. Aquela noite, ele dormiu com fome, não por falta de caça, mas por escolha. O cheiro da presa que escapou nunca saiu de sua mente.
Uma presa que podia se esconder. Que podia desaparecer.
A falha o mudou. Sua evolução, antes um processo oportunista, agora tinha um propósito. Ele não caçava mais apenas por fome; caçava por ferramentas. Devorou um rato voador, não por sua carne, mas por seus ouvidos, absorvendo a capacidade de ver com o som. Perseguiu uma toupeira-escavadora por um dia inteiro, não por suas garras, mas pela membrana em seus olhos, ganhando a capacidade de enxergar no escuro absoluto. Ver. Ouvir. Sentir. Tudo para ser o caçador perfeito, descartando o inútil e melhorando constantemente.
O tempo passou. Ele sentiu o cheiro novamente. Desta vez, perto dos ossos do pescoço do leviatã. Mais forte. Mais fresco. Ele se moveu com uma velocidade e silêncio que teriam aterrorizado qualquer outra criatura. Chegou a uma fenda na espinha dorsal. O cheiro era avassalador. Mas o ninho... estava vazio. Abandonado. E era apertado, pequeno demais até mesmo para a forma esguia que ele adotara.
A fúria o endureceu. Duas vezes. Duas vezes a presa havia escapado. Como? Sua mente de predador não conseguia processar a falha. A fúria exigia uma válvula de escape. Ele se tornou mais implacável. Atacou criaturas maiores, não por necessidade, mas para provar seu domínio. Seu físico mudou, tornando-se bizarro e humanoide, uma colagem de suas caças mais mortais: placas ósseas cobrindo seu peito, garras retráteis em seus dedos, um ferrão venenoso na ponta de uma cauda segmentada.
Um dia, a noite já avançada, quando ele deveria estar em seu covil digerindo sua última matança, ele sentiu. O cheiro. Fresco. Próximo. E em movimento.
A necessidade de dormir se foi, substituída por uma fúria sem limites. Ele não rastejou. Ele não espreitou. Ele correu. A caça havia começado.
Ele a viu. A fonte do cheiro. Uma criatura pequena, bípede, coberta de couro e ossos, correndo na base da carcaça. Seu alvo.
Agnes, ao notar a forma bizarra e veloz se aproximando na escuridão, agiu por puro instinto. Ela parou, girou e arremessou sua lança com toda a força que seu corpo demoníaco podia reunir.
O caçador, soberbo em sua perfeição, não se importou. Uma vara de madeira? Patético. Ele continuou a correr, o peito estufado, pronto para o impacto que nunca viria.
Sua boca derretia em êxtase, seu corpo parecia ser preenchido por um poder que ele sempre desejou, a caça que ele esteve desejando por toda a sua vida, estava ali, fraca, pequena e sem defesa, ele a estraçalhar como fez com todos os outros, e se banha dia em seu sangu~
Um partilho de carne sendo dilacerada ecoou por todo o seu corpo perfeito
A dor o atingiu.
Não era a pressão de um golpe ou o rasgo de uma garra. Era algo novo, agudo, uma violação. A lança não havia atingido suas placas ósseas, mas a fresta entre elas, a articulação de seu ombro. A ponta de couraça afiada perfurou carne e tendão. A criatura, que em sua curta e gloriosa vida nunca havia sentido dor, parou, um gemido de choque e agonia escapando de sua garganta.
Ele olhou para o ombro, para o objeto alienígena cravado em sua carne. Quando ergueu a cabeça para destilar sua fúria… seu alvo... havia sumido. Desaparecido na luz carmesim do mar de fogo como se nunca tivesse existido.
A dor se misturou ao ódio. O ódio se tornou rancor, sentimentos tão complexos, que nem ele sabe como surgiram.
Ele agarrou a haste da lança e a arrancou de seu ombro com um uivo de agonia. O sangue, escuro e espesso, jorrou da ferida. Carregando a arma de sua humilhação, ele mancou de volta para seu ninho – a carcaça inteira de uma besta-rocha que ele mesmo derrubara com o veneno potente de seus fluidos bucais.
Lá dentro, ele observou a lança com um desejo genuíno, uma admiração perversa, a mente, veio a cena do golpe, uma caída? Talvez um ferrão? feito de outras bestas. Uma associação familiar foi feita em sua cabeça, mas a sua mente não conseguia realizar tal ligação, mas ele não se importou com isso no auge do seu ódio, apenas a caça podia trazer alguma paz de espírito.
Devorou restos de ossos e carne de uma pilha próxima, sentindo a energia fluir para ele. Então, ele fez algo que nunca havia tentado antes. Usando sua habilidade inata, ele se concentrou em seu braço ferido e o modificou, como sempre pode, da maneira que quisesse. E então, com um grito que ecoou por seu covil, ele o arrancou.
A dor foi intensa, mas o impulsionou ainda mais longe. Comeu mais, desesperadamente, ossos, carne, até mesmo pedaços da estrutura de seu ninho e dos cipós estranhos que lhe davam água. A energia se acumulou no toco ensanguentado de seu ombro. Um novo braço começou a crescer, lembrando de seus erros, ele criou algo, do zero, usando cada sabor. Cada experiência, de cada presa caçada, algo mais duro, mais flexível, mais ela! Ele foi até seu antigo braço amputado, pegou-o e o tocou. Era ele, mas também não era, ele criou uma nova vida, algo que só servirá a ele e somente a ele, uma cabeça pontuda dura e afiada, um corpo como a de uma cobra e um ferrão resistente e venenoso.
algo que ele não esperava também ocorreu, a sensação nova, era o cipó, ele sentia a água, como ela fluía como ela passava, como cria-la, a sensação de algo novo. Novo. De novo, ele precisava mudar de novo, precisava de mais comida, mais mudança, MAIS CAÇA!
O novo braço. A nova arma não podia terminar ali, ele não podia terminar só com isso, com a sua nova arma em mãos e a motivação dada a ele por uma grande caçada, o ambiente parecia mudar, parecia perceber sua existência, temê-lo.
Um caçador cruel havia nascido. E ele tinha uma vontade e uma presa!
(Fim do capítulo)