O medo era a essência da caçada. O Caçador aprendera isso a cada refeição. Algumas presas tinham um gosto melhor quando morriam em pânico. Outras, quando lutavam com fúria. Mas naquele momento ele devia deixar o medo para trás. O interior da carcaça do leviatã. Um colosso tão gigantesco que só de pensar na criatura que o caçou era aterrorizante, cheirava a um tipo diferente de medo: um medo antigo, territorial, que dizia "não entre", como se tal besta ainda estivesse a espreita. Sua mente primitiva, instintiva, gritava perigo. Mas a dor em seu ombro, uma memória agora encarnada em sua nova e poderosa arma, gritava mais alto.
A nova arma fundida a seu braço através de sua cauda de ferrão, vivo e pulsante, uma lança que lembrava uma arraia, prometia silenciar todos os gritos.
Ele entrou. O interior era uma catedral de ossos, alguns gigantescos, pequenos ou mesmos pilhas tirânicas que emitem a aura do massacres, separada em anéis concêntricos por barreiras naturais de esqueletos menores e maiores que criavam valas de ossos circulares, não se sabe como tal formação ocorreu, mas o caçador não se importava com isso agora.
O ar era denso, úmido e ao mesmo tempo seco e amplo. O primeiro círculo era um campo de treinamento para os fracos filhotes das bestas poderosas, se você não pudesse passar por ali, não estava qualificado para viver. Cobras cegas colossais deslizavam entre as costelas, e fungos venenosos liberavam esporos mortais. Para o Caçador, era apenas um incômodo. Ele precisava de matéria-prima, e a melhor estava nos anéis mais profundos.
Sua primeira caça apareceu rapidamente. A mancha escura e irritante. Um jovem morcego assassino. Em seu primeiro encontro, a criatura o havia forçado a se encolher, a se esconder de seus ataques sônicos e mergulhos mortais. A perseguição havia sido frustrante. Agora, não havia perseguição.
O morcego guinchou, o som projetado para desorientar, e mergulhou. O Caçador não se moveu. No último segundo, seu braço-lança se projetou para cima. A arma viva, sentindo a intenção de seu hospedeiro, vibrou, e o ferrão em sua ponta se estendeu, triplicando de comprimento. O morcego, incapaz de desviar em sua velocidade, empalou-se, mesmo tentando desviar, ele falhou, somente o medo profundo em seu último suspiro sobrou de sua luta.
A batalha durou menos de um segundo. A letalidade de sua nova arma era impressionante. O Caçador arrancou um pedaço da asa coriácea, absorvendo a memória de seu voo silencioso, talvez pudesse usar mais tarde, e continuou, deixando o resto para os fungos devorarem.
No segundo círculo, ele encontrou algo inesperado. Uma besta-rato. Sozinha.
Ele ignorou a presa fácil, mas a presa não o ignorou. Diferente das que ele já vira. Esta usava uma placa de osso amarrada ao peito com cipós como armadura e segurava uma costela afiada como uma espada. Uma imitação. Um eco de sua verdadeira presa.
Algo que o caçador só percebeu quando caiu em uma armadilha, seus pés amarrados pelo que parecia mais um monte de cipós. A irritação inicial do Caçador se transformou em um interesse cruel.
A batalha foi árdua do que ele pensara. O rato era um estrategista sujo. Jogava lascas de osso pontiagudo no solo para limitar o terreno e cipós dispostos pelo campo eram mais e mais armadilhas, que mesmo não ferindo, era o suficiente para distraí-lo e dar tempo ao rato de desferir um golpe.
Nessa árdua troca de golpes, o rato acabou desarmado, o caçado tinha vencido até que o rato começou a usar as sombras do esqueleto para se esconder, não para fugir, mas para um ataque à distância, lanças de ossos roídos preparados anteriormente, uma imitação pobre mais eficaz, indo de sombra em sombra. De osso em osso, com guinchos maníacos como se tentasse propositalmente endurecer o caçador.
Com um ataque tão covarde. O caçador foi forçado a usar sua lança não apenas para atacar, mas também para defesa, uma alavanca, uma ferramenta. As diversas utilidades da de sua arma foram o suficiente para vencer o traiçoeiro rato. No final, a força superior do Caçador prevaleceu. Ele encurralou o rato e, com um golpe de sua lança, quebrou sua armadura e sua espinha, o rato parecia olhar pro caçador com descrença, talvez por pura confiança em seu método, considerando que a espécie dele jamais havia pisado no interior da carcaça, ele tinha a confiança que nem as mais poderosas bestas possuíam, esse foi seu erro mortal.
O prazer da caçada o fez fazer algo que normalmente evitava: provar a carne ferida dos ratos. Enquanto devorava o corpo, encontrou algo estranho. Um estômago? Não do rato, mas um estômago de outra criatura, costurado com fibras de cipó e fechado com uma cordinha trançada. O cheiro. O cheiro de sua presa. Estava por toda parte.
A fúria o cegou. Sua presa. A caça que era sua por direito. Havia sido encontrada. E roubada. Por este... verme. Como ela ousou perder para algo que não fosse ele?
Em um acesso de raiva, ele esmagou o estômago roubado, devorando os restos de carne e tripas que havia dentro.
Mas logo seu raciocínio o levou a pensar, como poderia ter caído para um rato que era só uma cópia inferior dela mesma, não… ele estava sendo tolo… ou era mais uma armadilha da sua presa tentando ocultar sua presença com a derrota. Isso… SÓ PODE SER ISSO! Não dessa vez, ele não se enganaria de novo.
Guardou a pequena corda trançada. Um rastreador. Um troféu. Uma promessa. Ele se segurou para não abandonar sua missão e sair em busca do cheiro. A evolução viria primeiro. A vingança depois.
Sua terceira batalha, no limiar do terceiro círculo, foi a mais estranha. Ele encontrou um irmão. Saído do mesmo lote de ovos primordiais, ele podia sentir a familiaridade com ele. Mas a evolução de seu irmão havia sido um erro. Era uma cobra longa com braços finos e atrofiados e quatro pares de asas de inseto, inúteis e patéticas, que apenas se agitavam no ar. Era um desrespeito à sua origem.
A criatura sibilou, um som de arrogância. Em uma conversa de rugidos e silvos, ela se proclamou superior enquanto o caçador o chamava de erro. Uma luta começou. A cobra era rápida, um borrão de escamas que se lançou contra ele, as presas pingando veneno.
O Caçador não a encontrou de frente. Um reflexo, uma memória que não de sua derrota, tomou conta. A lança. O arremesso. A dor.
Ele flexionou o braço e, com um grunhido, jogou sua arma. A lança viva se soltou de seu braço com um estalo úmido, o ferrão se retraindo. Ela voou, não como uma lança morta, mas como um pássaro de caça. Estruturas flexíveis em sua cabeça se ajustaram, e lamínulas cortantes se abriram em suas pontas. A cobra, em sua investida soberba, não teve tempo de reagir. A lança perfurou sua cabeça ofídica como se fosse manteiga, cravando-a no chão.
O Caçador ficou decepcionado. Até o morcego havia reconhecido o perigo de sua arma. Seu irmão, não. Aquele movimento, aquele arremesso... foi um eco de sua presa. A lembrança o invadiu. Ele devorou a carcaça de seu irmão inútil, absorvendo a estrutura oca de seus ossos, tornando-se mais leve, mas também, uma estranha sensação, como se ele tivesse terminado um ciclo, mas com sua mente mais focada em seu objetivo. Ele se voltou para a lembrança biológica do rato, algo que só quer pensou que um dia notaria.
Ele notou algo que nunca havia considerado em outras criaturas. A massa encefálica. Não era grande ou resistente. Mas tinha algo... uma flexibilidade, uma complexidade que o intrigava. Ele usou a carne de seu irmão como matéria, comparou e combinou várias memórias e informações genéticas diferentes para assim criar o cérebro perfeito, enquanto criava, percebeu relações que nunca tinha notado como o cérebro afetava na percepção do mundo, na visão, audição, olfato até mesmo em como o corpo se movia, com isso criou a mente perfeita, e assim o fez.
A mudança foi instantânea. Não em seu corpo, mas em sua mente. Ideias. Uma enxurrada de novas informações, de designs, de táticas. As propriedades biológicas de todas as criaturas que ele havia consumido, antes apenas um catálogo de peças, agora eram uma biblioteca de possibilidades. Ele podia combinar a dureza da couraça da tartaruga com a leveza dos ossos de seu irmão ou até mesmo criar uma carapaça que liberava veneno ao ser… as possibilidades. Maestria, a palavra exata, entendimento total, mão só um simples instinto dizendo que algo era bom, ele realmente sabia que era bom e porque era bom.
Animado. Ele continuou seu caminho, a mente fervilhando com novas experiências, mas a caçada a Agnes permaneceu como a estrela-guia em seu novo universo mental. Chegou ao quarto círculo, ansioso para testar seus novos movimentos e ideias.
E encontrou sua presa, a besta-rocha, decrépita, à beira da morte, o corpo coberto de tumores e fungos. A decepção foi imensa. Não haveria teste. Não haveria desafio. Mas ele sabia que essas bestas andavam em grupo, e uma caçada mais longa o atrasaria podendo até ser mortal. Algo o dizia que a noite aqui, o ambiente em que sempre foi o campeão, escondia feras terríveis. A decepção foi rapidamente substituída pelo pensamento dominante: cada segundo gasto aqui era um segundo mais perto da morte, e mais a tempo de vida que sua verdadeira presa tinha para se regozijar com sua forma traiçoeira.
Ele matou a criatura moribunda com um único golpe misericordioso e rasgou uma passagem até suas entranhas. O capítulo de sua história nesse lugar terminaria aqui, o Caçador em meio a um banquete de matéria-prima, sua nova e brilhante mente já projetando as alterações que faria em seu corpo. Cada mudança, cada evolução, talvez até novas armas, com um único propósito em mente.
(A CAÇADA COMEÇA AQUI)