O interior da carcaça decrépita da besta-rocha deixou de ser apenas mais um entre vários restos naquele cemitério de bestas; era uma forja. Um laboratório biológico onde a criação e a destruição dançavam ao ritmo de uma única vontade obsessiva. Fumos e gosmas eram emitidos pelos ossos e carne ainda em decomposição matando qualquer coisa que se aproxima, espantando possíveis carniceiros e deixando o ambiente mortalmente silencioso.
Dentro da carcaça. Pedaços e mais pedaços de órgãos e partes do corpo, até mesmo aberrações distorcidas de criaturas horrendas, como um laboratório de um cientista louco, no centro desse ambiente visceral está o seu principal contribuinte. O Caçador estava se refazendo, não só se melhorando, como se recriando em uma cópia, na verdade, todos os restos ali eram ele, ele era a cobaia e o cientista.
Ele arrancou as placas ósseas de seu peito, descartando o peso morto. Em seu lugar, secretou uma nova armadura: um exoesqueleto de quitina negra e brilhante, segmentado e flexível. Era mais leve, mais ágil, e podia ser descartado em placas para uma explosão de velocidade, se necessário. Proteção não era mais uma constante, era uma variável tática.
Enquanto isso, uma versão dele, muito mais insectoide, parecia agonizar no chão, mas foi por pouco tempo. Desmembrado e depois devorado, mesmo que parte da matéria seja queimada e até mesmo inutilizável, desperdício parecia um crime para o caçador, aproveitando a nova leva de material ele começou a finalizar os próximos projetos.
Sua arma foi a próxima. Ele a devorou. A lança viva, o troféu de sua primeira dor, foi reabsorvida em seu sistema, suas propriedades biológicas catalogadas e analisadas por sua nova mente. uma cauda começou a crescer em seu corpo, uma versão superior de sua antiga arma. A nova lança era mais fina, mais cruel. A ponta não era mais um ferrão grosseiro, mas uma lâmina afiada e oca que lembrava o bico de uma ave de rapina. A haste era uma trança viva de tecido de cobra, fibras de cipó e musculatura de inseto, contorcendo-se sutilmente em seu braço. E logo abaixo da lâmina, dois apêndices que pareciam pequenos pulmões pulsavam com um brilho esverdeado. Glândulas de veneno. Com um pensamento, ele podia envenenar a lâmina ou, cortesia da biologia dos cipós de raio, disparar uma rajada quente de veneno líquido através de furos na cabeça da lança, que se abriam como um respirador, agora ele não precisaria lançar sua lança para causar um golpe mortal, e com ela ligada ao corpo, tão pouco perdela.
Sua mente expandida exigia dados. Ele começou a comer tudo. Não por fome, mas por informação. Ele devorou fungos, insetos, até mesmo baratas, insetos irritantes de gosto insosso que comiam ossos e o principal motivo para mudar a composição de sua carapaça, não por representarem um perigo para ele, mas pelo simples fato de ter adicionado em sua mandíbula a mesma glândula que diferia ossos. Cada ser vivo era uma página em uma biblioteca genética. Em um momento de curiosidade lógica, ele tentou comer as cinzas do deserto. O resultado foi uma dor de estômago, uma sensação de queimação interna que ele nunca havia experimentado. Foi confuso. Foi enfurecedor. Ele tentou comer um pedaço do osso antigo de seu ninho e a mesma dor retornou. A lição foi registrada: coisas mortas por muito tempo não continham poder, apenas decadência. A ineficiência o encheu de um rancor profundo pelas próprias fundações daquele mundo.
Ele precisava de um novo método de transporte. Seu novo corpo era ágil, mas lento. A perseguição a longas distâncias era lenta. Ao devorar seu irmão, ele absorvera uma habilidade latente: criar vida. Uma prole. Mas a caçada era mais importante agora do que botar ovos.
Dias de experimentação e criaçoes que simplesmente não conseguiam viver ou tentava o matar, mas foi questão de tempo até alcançar a perfeição. Em vez de criar um filho, ele criou uma ferramenta. Moldou a massa com os melhores traços de seu repertório: as pernas ágeis da hiena corredora, a pele resistente da besta-rocha, os sentidos aguçados do morcego. Uma besta sem mente, nascida com um único propósito: carregá-lo e servir como um armazém de material.
É claro, havia muito mais além disso, mas o próprio caçador achou muito complicado levar tais coisas, desde que tivesse matéria prima para comer ele poderia produzir essas ferramentas à vontade.
Com seu armamento completo e sua montaria pronta, ele partiu.
Moveu-se pelo exterior da grande ossada, a corda trançada de sua presa amarrada em seu pulso, um faro sobrenatural o guiando. Ele era um arqueólogo da sobrevivência dela. Encontrou o ninho inundado, a túnica de folhas rasgada por algo que parecia um pássaro, ironicamente, a ossada do pássaro estava ao lado, pescoço quebrado e sua ossada coberta por vinhas e couro velho e esticado, colocado propositalmente ali. Encontrou os restos de bestas que ela comera, notando os cortes precisos, a colheita de materiais.
Encontrou mais um abrigo improvisado de concreto de cinzas. Era mais engenhoso do que o primeiro, sua estrutura era complexa, com vigas é até mesmo uma passagem que poderia ser fechada, mas ainda aparecia uma construção apresada, lá dentro, havia um grupo de 6 ratos, 3 adultos e dois jovens, esses pareciam copiar sua presa da mesma forma que o último que ele encontrou, cobertas por couro e ossos e usando facas feitas de presa, estranhamente pareciam estar comendo cipós, mais precisamente o bulbo, Talvez mais uma tentativa de imitar Agnes.
Ao verem o caçador, se espremeram de medo emitindo guinchos de ameaça, mas que se tornaram inúteis devido ao claro desespero que eles tinham, o caçador os ignorou, notando as vinhas em crescimento, percebeu a clara organização e também os vasos feitos do mesmo material que a casa cheia de restos de animais das quais as plantas cresciam, um claro rastro da passagem de sua presa. O caçador foi até os cipós e pegou um dos bulbos, algo que ele nunca se importou realmente, mas agora que percebeu a clara utilidade biológica de tais coisas, pensou que utilidade haveria para sua presa em tais coisas, ele comeu o bulbo em uma bocada, sua estrutura biológica não era diferente do resto da planta, era somente mais macio e um pouco saboroso, mas nada que substitua uma caçada… talvez vários desses quem sabe.
Ele encontrou a fenda na coluna vertebral, aquela mesma que ele já havia vindo, mas agora, estava escavada, parecia algo feito pelas baratas, mas a superfície estava áspera, como se tivesse sido lixada. Sua presa havia voltado a esse abrigo e o melhorado, mas todo seu trabalho parece ter sido roubado, uma cobra cega colossal parecia ter feito ali sua morada, o caçador a matou e começou a procurar por mais pistas. Ele não encontrou dejetos, nenhum sinal de desperdício corporal. A presa era limpa, cuidadosa, mas principalmente, boa parte de seus rastros haviam sido destruídos ou modificados. Isso o irritava. Era... Natural, mas ao mesmo tempo antinatural.
Ele não estava apenas seguindo um rastro de uma besta; estava construindo um perfil. Ela era inteligente. Usava o ambiente. Mas era pequena. E estava sozinha. Ele começou a planejar a caçada, a visualizar o combate. Ele a encurralaria em terreno aberto, onde seus abrigos apertados seriam inúteis. Ele a forçaria a usar sua lança e depois a mataria, e então… ele nem sabia quão forte essa besta poderia ser…
O cheiro.
Fresco. Muito fresco. Vinha de uma área da pata traseira do leviatã, onde a estrutura óssea se encontrava com uma série de cavernas subterrâneas escavadas por criaturas antigas.
Ele desmontou de sua besta, deixando-a escondida entre os ossos. Aproximou-se a pé, o silêncio de uma serpente em seu passo. Encontrou a entrada. O cheiro de sua presa estava misturado com o de ratos e o de terra úmida. Ela estava lá.
A fúria primitiva gritou para que ele entrasse, para que a matasse, para que terminasse a caçada. Mas a nova mente, a mente forjada na dor e na derrota, o deteve. Ela era esperta. O covil dela poderia ter armadilhas, rotas de fuga. E o dia estava terminando, as nuvens de fogo começando seu lento retorno.
Ele recuou, encontrando um ponto de observação em um osso mais alto, com vista para a entrada da caverna. A noite era seu domínio. O calor crescente não o incomodava. A escuridão era sua camuflagem, seu campo de caça. A paciência, ele descobrira, era a mais afiada de todas as armas.
Ele observou a entrada da caverna enquanto o céu se tornava carmesim. Ele esperou. Ele a havia encontrado. Ele a havia estudado. Agora, ele ditaria os termos dessa batalha.
Os seus dias de subestimar o inimigo acabaram.
(Fim do capítulo)