Todos os heróis se espantaram ao ouvir uma voz familiar vindo por entre as árvores do pátio.
— Que discurso ridículo. — A voz surgiu fria.
O ambiente inteiro mudou, as risadas desapareceram e Gabriel se levantou lentamente da grama enquanto os passos ecoavam na escuridão além das árvores, pesados, firmes e controlados.
E então ele apareceu.
Um homem alto saiu das sombras usando um longo sobretudo negro. Seus cabelos escuros caíam até a altura do pescoço, parcialmente bagunçados pelo vento da noite. Uma espada longa permanecia presa à cintura, e seus olhos carregavam algo pior do que desprezo. Rejeição, como se apenas olhar para Gabriel naquela situação fosse inaceitável.
Amara imediatamente fechou a cara.
— Ah não… ele não.
Aeron suspirou irritado.
— Você escolheu mesmo estragar o clima, hein?
Kaelis permaneceu imóvel, mas sua expressão endureceu, Gabriel observou o desconhecido por alguns segundos antes de perguntar.
— Quem é ele…?
Amara cruzou os braços.
— Riven. — Respondeu com evidente desgosto. — Outro herói do grupo.
Ela fez uma pausa antes de continuar.
— Quase tão forte quanto Kaelis.
Os olhos de Gabriel se arregalaram levemente, mas Riven sequer reagiu, ele continuava analisando Gabriel de cima a baixo em silêncio, como se estivesse avaliando seu valor, e então ele soltou um pequeno riso sem humor.
— Então esse é o garoto.
Gabriel franziu a testa.
— Por que disse aquilo?
Riven inclinou levemente a cabeça.
— Porque é a verdade.
O silêncio ficou pesado, Gabriel apertou lentamente os punhos.
— Eu estou treinando. — Respondeu firme. — E vou ficar mais forte.
Riven permaneceu calado.
— Eu vou proteger as pessoas que amo… — Gabriel continuou. — E vou resgatar minha mãe!
E por um instante o olhar de Riven mudou, e no segundo seguinte o ar se tornou mais frio, um som metálico surgiu, nem mesmo Amara ou Aeron percebeu o momento em que ele sacou a espada.
— O quê?! — Exclamou Aeron
E Riven desapareceu, mas Gabriel sentiu, uma intenção esmagadora atravessou seu corpo como uma lâmina invisível
"Morte!"
Seus olhos emanavam um brilho em violeta, e no segundo seguinte o corpo de Gabriel desviou por instinto, por onde ele pressentiu que o corte viria, mas ele congelou imediatamente, porque Riven não estava na frente dele, estava atrás, os olhos de Gabriel se arregalaram, a lâmina estava parada a poucos centímetros de sua garganta, e ele soava frio.
Amara se levantou furiosa.
— RIVEN!
Kaelis deu um passo à frente imediatamente, mas Riven apenas falou calmamente.
— Você nunca chegará ao nosso nível. — Gabriel ficou imóvel. — Nem em dez vidas. — A pressão da espada aumentou levemente contra sua pele. — Se insistir em ir atrás dela… vocês dois vão morrer. — Os olhos de Gabriel tremeram. — Porque você é fraco. — Silêncio. — Todo esse treinamento… — Continuou Riven friamente. — Não passa de perda de tempo.
Então ele guardou a espada, como se nada tivesse acontecido e começou a se afastar lentamente. Amara imediatamente apontou para ele furiosa.
— BABACA ARROGANTE!
— Um dia alguém ainda vai quebrar essa cara insuportável! — Aeron gritou.
Riven sequer respondeu, ele apenas continuou andando até desaparecer entre as árvores, e o silêncio voltou novamente, mas dessa vez ele estava mais pesado. Gabriel permanecia parado, os dedos tremendo levemente, então suas pernas cederam devagar, e ele se sentou na grama.
Kaelis se aproximou primeiro.
— Gabriel...
— Eu não sou fraco… — Murmurou ele baixinho. — Todos ficaram em silêncio, Gabriel abaixou a cabeça. — Eu vou salvar ela... — Sua voz falhou por um instante. — Mamãe…
O vento soprou novamente pelo pátio.
Muito longe de Aethernys, em um lugar onde nem a luz alcançava, uma enorme caverna permanecia mergulhada em completa escuridão.
O ambiente era tomado por grunhidos, rosnados e respirações pesadas. Centenas de silhuetas monstruosas observavam das sombras. Algumas possuíam dezenas de olhos, outras corpos deformados, membros extras ou formas tão grotescas que sequer pareciam pertencer àquele mundo, e todas elas encaravam a mesma direção. Uma única figura que permanecia parada no centro daquele covil. Ela vestia um longo manto negro que se arrastava pelo chão e um capuz ocultava completamente seu rosto, enquanto tentáculos escuros saíam lentamente de dentro das mangas de suas vestes, se movendo como serpentes vivas que sustentavam uma mulher no ar.
— AAAAAAAAHHHH! — O grito ecoou pela caverna.
Astradamas. Seu corpo tremia violentamente enquanto sangue escorria de seus olhos, nariz, ouvidos e boca, um dos tentáculos parecia transpassar sua nuca, e parecia estar conectado diretamente ao seu cérebro.
A dor era tão intensa que ela sequer conseguia respirar direito.
— Onde está...? — A voz da figura encapuzada ecoou pelo local, distorcida, como se centenas de vozes falassem ao mesmo tempo. — Onde está...?
Astradamas tentou responder, mas apenas tossiu sangue.
— Você não entende... — Murmurou com dificuldade. — Por favor... pare.
A figura permaneceu imóvel por alguns segundos, e então começou a rir, uma risada baixa, doentia
— Parar? — Repetiu.
Os tentáculos se moveram.
A dor de Astradamas aumentou instantaneamente.
— Eu apenas quero a reencontrar, e acabar com aquele verme.
A mulher ergueu lentamente o rosto, revelando seus olhos, completamente negros, eles não refletiam luz alguma, apenas sua pupilas douradas brilhavam naquela escuridão, e os gritos de Astradamas voltaram a ecoar pela caverna enquanto os monstros observavam em absoluto silêncio.
De volta a Aethernys, Gabriel caminhava pelos corredores do castelo ao lado dos heróis em silêncio, ainda abalado pelas palavras de Riven. As tochas iluminavam as paredes de pedra enquanto Amara andava ao lado dele claramente irritada.
— Ele é um babaca arrogante. — Resmungou cruzando os braços. — Sério.
— Amara. — Lilith repreendeu calmamente.
— Ué, mas é verdade.
Gabriel abaixou o olhar por alguns segundos. As palavras de Riven ainda ecoavam em sua cabeça.
“Você nunca chegará no nosso nível.” “Vocês dois vão morrer.”
Kaelis então caminhou até ele e deu um leve tapinha em suas costas.
— Não se preocupe com Riven. — Disse calmamente. — Quando o momento certo chegar… ele vai reconhecer você.
Gabriel ergueu o olhar lentamente.
— E hoje você foi muito bem.
— Mesmo…?
— Uhum. — Ela assentiu. — Seu Sentire despertou rápido demais para alguém sem experiência.
Aeron sorriu.
— E você desviou do ataque do Riven por instinto, isso já é feito e tanto.
— Mesmo ele tendo acabado com você logo depois. — Lilith comentou com um pequeno sorriso.
— EI!
Amara começou a rir imediatamente.
Gabriel fez bico, mas acabou sorrindo também. Mas ainda assim, no fundo da mente dele a imagem da mãe sendo levada permanecia. O medo. A impotência. A dor.
Ele respirou fundo.
— Eu vou ficar mais forte. — Disse em tom firme. — Muito mais forte.
E naquele instante passos ecoaram pelo corredor.
— Então aqui está você.
Gabriel imediatamente olhou na direção da voz.
— PAI!
Kalchas surgiu logo adiante e Gabriel, que correu até ele.
— Como foi seu primeiro dia de treinamento? — Perguntou sorrindo.
Os olhos de Gabriel praticamente brilharam.
— Foi incrível! Eles me ensinaram sobre Éter, Thyr, Sentire e a Kaelis quase esmagou minha cabeça várias vezes!
Kalchas ficou em silêncio por alguns segundos antes de olhar lentamente para Kaelis, que desviou o rosto assobiando.
— Controle de aprendizado. — Respondeu, a voz falhando um pouco.
Aeron começou a gargalhar.
Kalchas suspirou com um pequeno sorriso cansado antes de olhar para os heróis.
— Obrigado por cuidarem dele hoje.
— Foi divertido. — Disse Amara.
— Barulhento também. — Lilith completou.
— EI! — Gabriel respondeu
Kalchas riu baixo.
— Vamos Gabriel.
Gabriel assentiu e então se virou para os heróis.
— Boa noite pessoal!
— Boa noite. — Responderam quase juntos.
Então Gabriel e Kalchas seguiram pelo corredor, e poucos segundos depois Gabriel colocou a mão na barriga.
— Pai…
— Hm?
— Eu tô morrendo de fome.
Kalchas olhou para ele lentamente.
— Você não comeu o dia inteiro… não é?
Gabriel desviou o olhar.
— Talvez…
— Gabriel...
— Eu tava treinando!
Kalchas suspirou profundamente.
— Vamos jantar antes que você desmaie.
Enquanto os dois se afastavam os heróis observavam a cena com pequenos sorrisos antes de seguirem para seus quartos.
O quarto de Lilith era um dos mais organizados do castelo. Uma grande cama perfeitamente arrumada ocupava o centro do cômodo enquanto enormes estantes repletas de livros preenchiam as paredes. Assim que ela entrou, a porta se fechou sozinha atrás dela e suas roupas simplesmente deslizaram para fora de seu corpo através de magia, caindo emboladas em um canto enquanto água surgia do banheiro e começava automaticamente a lavá-las.
— Finalmente… — Murmurou satisfeita, espreguiçando o corpo.
Ela caminhou até o banheiro enquanto a banheira se enchia sozinha através do Éter. O vapor subia lentamente pelo ambiente. Lilith mergulhou a ponta dos pés na água.
— Perfeita.
Seu corpo era delicado e extremamente bonito, pele monera e impecável, cintura fina e curvas suaves e proporcionais, enquanto os longos cabelos caiam por suas costas ao entrar lentamente na água quente. Pequenos sais de banho surgiram automaticamente sobre a banheira e ela fechou os olhos relaxando imediatamente.
O quarto de Kaelis era completamente diferente. Simples, organizado e sem luxo, apenas uma cama, armas próximas da parede, alguns equipamentos de treino e uma escrivaninha com mapas e anotações espalhadas. Assim que entrou, ela retirou parte das roupas e as colocou em um cesto antes de ir até o banheiro.
Seu corpo era forte e definido, músculos discretos marcando braços, abdômen e pernas, enquanto algumas cicatrizes antigas permaneciam espalhadas pela pele como marcas silenciosas de batalhas passadas. Ela se sentou próxima ao balde preparado pelas empregadas, testou a temperatura da água com os dedos e começou o banho calmamente usando apenas o caneco, a esponja e o sabão.
O quarto de Aeron também era organizado. Uma enorme armadura ficava exposta próxima à parede enquanto alguns romances e poesias preenchiam uma pequena estante ao lado da cama. Assim que entrou, ele espreguiçou o corpo.
— Aaah… que sono.
Ele caminhou até o banheiro retirando as roupas no caminho. Seu corpo era robusto e coberto por cicatrizes antigas, músculos largos marcando braços, peito e costas. Assim que entrou na banheira soltou um longo suspiro satisfeito antes de colocar um pequeno óculos de leitura e abrir um romance.
Enquanto isso Alastor e Amara dividiam o mesmo quarto. Ou melhor, metade organizada e metade completamente caótica. O lado de Alastor permanecia impecável. O de Amara parecia ter sido atingido por uma explosão.
Assim que entrou, Amara simplesmente pulou na cama.
— Finalmenteeeee…
Alastor, que já retirava a própria camisa, olhou para ela.
— Vá tomar banho.
— Não quero.
— Amara...
— Nããão!
Ela começou a bater pés e mãos na cama igual uma criança, Alastor fechou os olhos lentamente, bufado.
— Não me faça fazer isso de novo.
Amara sorriu imediatamente.
— Tenta hehe.
Alastor começou a caminhar na direção dela, e Amara saiu correndo pelo quarto.
— CHEGA AMARAAA!
— ALASTOR NÃO PEGA NINGUÉM! SÓ COCÔ DE NENÉM!
Aeron provavelmente ouviu do próprio quarto porque começou a gargalhar do outro lado do corredor, Amara correu até uma parte escura do quarto, e no instante seguinte Alastor surgiu das sombras atrás dela.
— Peguei.
— AAAAH! TRAPAÇA! TRAPAÇAAAA!
Ele simplesmente a colocou nos ombros ignorando completamente ela se debatendo.
— ME SOLTAAAA! TRAPEÇEIROOOO
Alastor abriu a porta do banheiro dela, uma enorme banheira preparada com pétalas e sais aromáticos estava pronta, no instante em que Amara olhou, seus brilharam.
— UAAAAU! Elas acertaram de novo!
Ela tentou pular na água de roupa mesmo, mas Alastor a segurou no ar.
— Sem roupa.
Alastor se virou e saiu do banheiro.
— Chato…
O corpo de Amara era bonito e delicado, curvas suaves, pele clara e limpa, mas algumas cicatrizes antigas permaneciam espalhadas por partes do corpo, marcas silenciosas de um passado difícil.
Enquanto isso Alastor foi até o próprio banheiro. Simples e silencioso, seu corpo era magro, mas definido, músculos discretos marcando braços e abdômen, sem excessos e desperdícios, discretos, igual a ele próprio.
Mais tarde, após jantar com seu pai, Gabriel era guiado até seu novo quarto por uma das empregadas do castelo.
— Fico contente que despertou são do ataque anterior, e de ter sobrevivido ao treinamento da Lady Kaelis no primeiro dia… isso é impressionante.
— Quase morri umas sete vezes.
— Então foi um dia leve. — Ela riu discretamente.
Gabriel arregalou os olhos, ela riu baixo antes de abrir a porta do quarto, e ele ficou completamente imóvel. Era enorme comparado à antiga casa onde vivia. Uma cama só para ele, roupas novas cuidadosamente dobradas, uma pequena estante com livros, móveis bonitos e até um banheiro próprio.
— Um banho foi preparado. — Disse a empregada sorrindo. — Como não sabíamos suas preferências… usamos os dois modelos favoritos dos heróis.
Gabriel ainda parecia sem reação.
— E..Eu posso mesmo ficar aqui…?
— Claro. — Ela fez uma pequena reverência. — Boa sorte em sua jornada como aventureiro, pequeno Gabriel.
Ele sorriu.
— Obrigado… e tenha uma boa noite.
Depois do banho e já vestido com as novas roupas, Gabriel caminhou até a janela observando a lua iluminar a floresta distante. Mesmo agora vivendo em um lugar tão bonito ele ainda pensava nela. Sua mãe.
“Onde ela está…?”
“Ela tá bem…?”
Então seus olhos notaram alguém caminhando sozinho em direção à floresta, Riven e Gabriel piscou surpreso, e por impulso decidiu segui-lo escondido, mesmo perdendo seu rastro a princípio, ele conseguiu o achar, e estava tomando cuidado para não pisar em galhos ou folhas secas. Depois de alguns minutos caminhando pela floresta, encontrou Riven parado diante de três pequenos montes de pedra empilhados.
“… Túmulos?” — Deduziu.
Riven permaneceu ajoelhado diante deles em silêncio absoluto, e Gabriel observava escondido atrás de uma árvore tentando entender.
“De quem são…?”
Até que ele se descuidou, e um galho sob seu pé quebrou. Gabriel congelou.
"Droga..."
No mesmo instante Riven desapareceu, e uma espada surgiu encostada em seu pescoço por trás, e um fino fio de sangue escorreu. O corpo de Gabriel gelou completamente.
— Por que está aqui? — A voz de Riven saiu fria.
Gabriel não conseguia responder, apresença dele agora era muito pior do que antes. Pesada, fria e sufocante, Riven aproximou levemente mais a espada.
— Nunca mais volte a me seguir. — Gabriel tremeu. — E desista de ser aventureiro.
Silêncio, e então Riven desapareceu no instante seguinte. Gabriel permaneceu parado sozinho na floresta encarando os túmulos ao longe, confuso.
"De quem são esses túmulos? E... por que o Riven me odeia tanto?"