Kay aprendeu a fazer barulho antes mesmo de entender por quê.
O som sempre veio primeiro. Antes das palavras, antes das explicações, antes de qualquer tentativa de se encaixar. Guitarras distorcidas, volume no limite, batidas rápidas demais para acompanhar com o coração — era ali que ele se reconhecia. Onde o mundo fazia sentido por alguns minutos.
Ele nunca foi exatamente difícil. Só intenso demais para espaços pequenos.
Nascido no Reino Unido, Kay cresceu entre ruas cinzas, prédios antigos e uma sensação constante de estar fora de lugar. Não porque não fosse aceito, mas porque não sabia existir em volume baixo. Sempre sentiu tudo em excesso: raiva, alegria, frustração, amor. E ninguém ensinou para ele o que fazer quando se sente demais.
Então ele transformou isso em estilo.
As roupas largas, as unhas pintadas de preto, o cabelo sempre bagunçado como se tivesse acabado de sair de um show — tudo nele dizia não me toque. Não tente me organizar. Kay não queria ser padronizado. Queria ser verdadeiro.
A música veio como uma extensão natural disso. Static Saints não era só um nome estampado na camisa: era identidade. Um lugar onde ele podia errar alto, tocar errado, cantar errado — e ainda assim ser ouvido. Na frente de um palco, Kay não precisava explicar nada. sua admiração era o bastante.
Mas o que ninguém percebia era o silêncio que vinha depois.
Quando o som acabava, Kay ficava sozinho com os pensamentos que evitava a maior parte do tempo. A sensação de não ser suficiente. De ser intenso demais. De assustar as pessoas antes mesmo de criar uma conexão com elas.
Ele odiava isso.
Odiava ser rotulado como um problema, como um rebelde sem causa, como uma pessoa difícil Porque, no fundo, Kay só queria ser entendido sem precisar ser diminuído. Só queria existir sem ter que se preocupar com o volume de suas emoções.
Quando ele conheceu Maya, ele aprendeu a respeitar o silêncio.
Ela não pedia que ele falasse menos — apenas observava. E isso era novo. Estranho. Confortável. Kay percebia o jeito como ela olhava para ele, como se estivesse analisando e tentando entender não só o volume do som dentro dele, mas o motivo por trás dele. Pela primeira vez, alguém queria ouvir o que vinha depois do barulho.
Com a irmãzinha Kiki, era o oposto.
Kiki ria dos problemas. Abraçava sem pedir permissão emocional. Via o Kay além da estética fria, além do rock, além da pose de quem diz que está tudo bem. Com ela, ele não precisava provar nada. Podia ser exagerado, confuso, sensível. Podia falhar sem ser julgado pelo mundo.
Kay nunca admitiria em voz alta, mas eram essas conexões que o mantinham inteiro.
Porque, apesar da personalidade forte, ele carregava medo. Medo de ser descartado quando o som abaixasse de alguma forma. Medo de que, sem o palco, ninguém ficasse. Medo de que sua identidade fosse só um ruído qualquer.
Ele fingia não se importar. Mas por dentro, se importava com tudo.
O jeito agridoce de Kay nunca foi sobre chamar atenção — e sim sobre não saber como sobreviver em silêncio. Kay fazia e ouvia música porque era a única forma que encontrou de não explodir por dentro. De escapar da realidade e do mundo que se tornava cada vez mais alheio. Cada acorde era um pedido de ajuda disfarçado de atitude.
E ainda assim, havia beleza nisso.
Kay existia como um incêndio controlado: perigoso, quente, mas necessário. Iluminava os outros sem perceber. Aquecia corações. Deixava marcas.
Ao longo do tempo, ele vai aprender que não precisa gritar para ser ouvido. Que sua intensidade não é defeito. Que o silêncio também pode ser aceito de alguma forma — desde que escolhido, não imposto.
Mas, neste começo, Kay ainda está fazendo barulho por assim dizer. Porque essa foi a forma que ele encontrou para existir sem ser incomodado.