O professor estava na frente da sala, com um raro sorriso relaxado no rosto. Ele bateu palmas uma vez, o som ecoando pela sala, e todos cairam em silêncio, atentos.
— Parabéns, turma. Vocês sobreviveram às provas finais. — Sua voz carregava um tom de humor que arrancou alguns sorrisos. — Agora, como sabem, as férias de verão estão prestes a começar. Um tempo para descansar, se divertir… e, claro, fazer o trabalho de casa das férias.
Um gemido coletivo percorreu a sala, mas foi rapidamente abafado pela animação no ar. A simples menção das férias transformou completamente o ambiente.
— Eu sei, eu sei. Não é o que vocês queriam ouvir, mas lembrem-se de que o próximo semestre é tão importante quanto o que acabaram de concluir — continuou o professor, levantando um dedo praticamente enfatizando o ponto. — Então aproveitem o verão, mas não deixem os estudos de lado.
Com essas palavras, ele fez um aceno breve e nos dispensou, enquanto o sinal tocou. O som de cadeiras sendo arrastadas e mochilas sendo fechadas tomou conta da sala, enquanto conversas animadas explodiam de todos os cantos.
O peso das provas havia desaparecido, substituído por uma sensação de alívio e expectativa. Os corredores da escola estavam mais movimentados do que o normal, com vozes ecoando e grupos de alunos discutindo seus planos para as férias.
Enquanto guardávamos nossos materiais nos armários, Seiji, como sempre, foi o primeiro a puxar conversa.
— Ei, o que você vai fazer nas férias? — perguntou, o tom leve, mas com a energia de alguém já planejando mil coisas ao mesmo tempo.
Fechei a porta do armário e dei de ombros.
— Ainda não sei. Talvez só descansar… jogar um pouco.
Seiji ergueu uma sobrancelha, como se a ideia de não ter um plano já em mente fosse algo inacreditável.
— Só isso? Cara, você precisa fazer alguma coisa grande!
— Grande tipo…?
Ele limpou a garganta, se preparando.
— Eu, por exemplo, tô pensando em melhorar minhas habilidades no futebol. — Ele cruzou os braços com uma expressão de determinação que só ele conseguia fazer parecer genuína. — Talvez consiga convencer meu pai a me levar para um acampamento de treinamento. Imagina só: eu, no topo de tudo quando voltarmos!?
— Ou só com o mesmo péssimo chute de sempre — brinquei, não resistindo.
— Ei, ei, ei! Cuidado, tá!? Quando eu for famoso, você vai vir implorar por um autógrafo… — Ele riu, apontando para mim como se estivesse fazendo uma promessa.
— Sim, sim…
Rintarou, que ouvia em silêncio enquanto organizava seus próprios livros, fechou o armário e nos olhou de lado.
— E você, Rintarou? Algum plano? — perguntei, curioso.
Ele deu de ombros, com seu jeito sempre tranquilo.
— Vou estudar um pouco. As provas finais podem ter acabado, mas ainda tem muita coisa para revisar. — Ele fez uma pausa, um leve sorriso surgindo. — Mas também quero aproveitar o tempo livre para ler. Tem alguns livros que estão na minha lista há meses.
— Claro, algo muito típico de você — provocou Seiji, com um sorriso de canto. — Ao invés de aproveitar as férias, vai ficar enterrado nesses livros aí.
Rintarou riu baixinho, sem parecer ofendido.
— E, mesmo assim, vou estar mais preparado do que você quando o próximo semestre começar.
— Uff! Essa foi direta, ein! — brinquei, e Seiji balançou a cabeça, fingindo estar ofendido.
Enquanto saíamos da escola, avistei Yuki conversando com algumas amigas. Ela parecia aliviada, mas ainda mantinha a postura séria e focada.
Não pude deixar de pensar na conversa que tivemos na biblioteca sobre a pressão familiar.
Eu… decidi que durante as férias tentaria me aproximar dela.
Talvez pudéssemos nos conhecer melhor e aliviar um pouco daquela tensão que ela carregava. Mas só talvez.
— Ei, vamos comemorar o início das férias de verão? — sugeriu Seiji, quebrando meus pensamentos com seu tom sempre animado. — Que tal um sorvete? Eu pago!
— Ah, claro que você paga, Seiji — Rintarou retrucou.
— …Tô só tentando ser generoso aqui! — Seiji resmungou, mas logo riu, dando de ombros. — De qualquer forma, vai ser por minha conta, talvez. Quem tá dentro?
— Acho uma boa — concordei, aproveitando o convite para tirar os pensamentos sobre as provas.
— Vamos — Rintarou assentiu, e seguimos juntos pela rua.
No caminho, encontramos alguns colegas de classe. Mai e Akira, que haviam estudado conosco durante as provas, se juntaram ao grupo.
— …Como foram nas provas? — perguntou Mai, a voz tímida, mas curiosa, enquanto olhava para cada um de nós.
— Hmmm, acho que me saí bem, pelo menos na maioria das matérias — respondeu Akira, sempre otimista, com um sorriso fácil. — E você, Mai?
— Fiz o meu melhor. — Ela deu um sorriso pequeno e meio modesto, mas que parecia carregado de alívio.
— Tenho certeza de que todos nos saímos bem — disse Rintarou, sempre tranquilo, tentando aliviar qualquer tensão restante.
Seiji, por sua vez, não perdeu a oportunidade de cutucar.
— Tá, mas e o Takeshi? Não vi ele nem perto da sala hoje. Não me diga que ele…? — Ele deixou a frase no ar, claramente já prevendo a resposta.
Akira suspirou, dando de ombros.
— Pois é, ele ficou de recuperação em matemática. Vai ter aulas extras nas férias, mas disse que vai tentar se encontrar com a gente quando puder.
— Parece coisa do Takeshi mesmo — Seiji comentou com um sorriso irônico, mas sem maldade.
A conversa continuou leve enquanto chegávamos à sorveteria. O lugar estava mais cheio do que o normal, mas conseguimos uma mesa perto da janela, onde a brisa do início do verão ajudava a aliviar o calor.
Entre colheres de sorvete e risadas, o clima descontraído fez com que o peso das provas parecesse algo distante. Falamos sobre tudo. As perguntas mais difíceis, o que escrevemos e até planos para as férias. Era bom ver todos relaxados e sorrindo, como se o esforço das últimas semanas tivesse finalmente valido a pena.
Seiji, claro, encontrou um jeito de animar ainda mais o grupo, compartilhando uma de suas histórias exageradas sobre como quase salvou o dia durante as provas ao descobrir um método único, mas obviamente errado, para resolver uma questão.
— Então você basicamente inventou uma nova fórmula que não existe? — perguntou Rintarou, erguendo uma sobrancelha.
— Eu só acho que deveria valer pontos a mais pela criatividade… — Seiji retrucou, arrancando risadas de todos na mesa.
Enquanto a conversa fluía, meu olhar vagou pela janela, onde o sol brilhava alto, marcando o início do verão. Era um momento simples, mas cheio de vida, o tipo de memória que eu sabia que iria guardar.
E, em algum lugar da minha mente, ainda pensava em Yuki.
Talvez, as férias fossem uma boa oportunidade para não só descansar, mas também me aproximar das pessoas importantes ao meu redor.
Nos dias seguintes, decidi aproveitar para relaxar.
Joguei alguns jogos, assisti séries que estavam acumuladas, e passei mais tempo com minha família. Minha mãe parecia aliviada ao me ver finalmente mais tranquilo, e Hana, minha irmãzinha, estava sempre por perto, mostrando seus desenhos ou me arrastando para ajudá-la em algum projeto maluco.
Nos dias que se seguiram, durante as férias, algo mudou em mim.
Ainda que fosse algo pequeno.
As conversas na biblioteca, o tempo estudando com Yuki e os momentos ao lado dos meus amigos começaram a plantar um tipo de reflexão em mim.
Qual era o meu futuro?
Quais eram as minhas ambições?
O que eu… realmente queria da minha vida?
Até aquele momento, parecia que eu estava apenas seguindo o fluxo de um rio, sem nunca realmente decidir um rumo.
Só… seguindo em frente.
Mas isso não poderia continuar assim.
Enquanto os dias voavam, decidi ir à biblioteca. Não apenas para ler, estudar ou assim. Afinal, férias era o sinônimo de jogar, para mim.
Mas tinha decidido que deveria mudar um pouco as coisas.
Fui até lá com a esperança de encontrar Yuki novamente.
Havia algo na tranquilidade dela, no jeito como estava sempre imersa nos livros, que me fazia querer entender mais sobre quem ela era.
“Ah, ainda bem.”
Para minha sorte, lá estava ela, sentada em sua mesa de sempre, rodeada por livros e totalmente concentrada.
Escolhi uma mesa próxima e comecei a ler um livro de inglês, mas, à medida que avançava, uma dúvida começou a me incomodar.
Depois de hesitar um pouco, me levantei e fui até ela.
— …Yuki, será que você pode me ajudar com isso? — perguntei, mostrando-lhe a página.
Ela ergueu o olhar, e um sorriso gentil surgiu em seu rosto.
— Claro, me mostre. — Sua voz, calma e atenciosa, imediatamente me deixou mais à vontade.
Ela começou a explicar, paciente e detalhada, guiando-me pelas linhas do texto. Eu ouvia cada palavra, admirado com a facilidade com que ela tornava as coisas mais claras.
— Entendi! Obrigado, Yuki. Sério, você é incrível nisso — falei, sem conseguir conter o elogio.
Ela desviou o olhar por um momento, parecendo um pouco tímida, mas logo sorriu novamente.
— Obrigada… mas acho que você está se saindo bem também.
Depois disso, voltamos a estudar, o silêncio preenchido apenas pelo som das páginas sendo viradas. Mas, de alguma forma, aquele silêncio parecia diferente, mais confortável. Era como se, aos poucos, eu estivesse começando a conhecer a verdadeira Yuki.
E, ao fazer isso, algo dentro de mim despertava.
Enquanto as férias de verão se desenrolavam, percebi que elas seriam mais do que apenas um período de festas e descanso.
É, talvez seria mesmo.
Era estranho, visto que…
…Eu estava começando a sentir um novo propósito se formar. Algo que não havia sentido antes.
Uma nova vontade de melhorar, de buscar algo maior e sair da minha zona confortável de sempre.