A Princesa Desertora
Após a aparição repentina de Riven e sua rejeição imediata, Gabriel estava confuso.
— Aquele é o Riven, ele também é um dos nossos, ele é um dos espadachins mais fortes do reino, atrás somente da Kaelis, e parece que ele não foi muito com a sua cara. — Amara respondeu.
Kaelis ficou quieta com a aparição e declaração repentina de Riven, pensando em ir atrás dele, mas sendo impedida por Amara.
Após o longo dia todos foram dormir, mas Gabriel permanecia inquieto, após a aparição e rejeição repentina de Riven, ao olhar pela janela do quarto onde estava hospedado dentro do castelo, ele viu o mesmo saindo do castelo e indo até uma floresta ao redor e decidiu ir atrás dele, pegando sua espada, tentando usar as habilidades de furtividade que aprendeu antes com Alastor, ocultando sua presença, os dois adentraram o bosque escuro, ele seguiu o rastro de Riven.
“Até quando ele vai continuar andando?” — Gabriel permaneceu o seguindo.
Logo após vendo Riven parar de frente a o que pareciam ser três túmulos improvisados, se ajoelhando e se matnendo em silêncio para os que estavam ali enterrados, Gabriel pisou levemente na terra, sentindo um graveto abaixo de seu pé, o fazendo se desconcentrar por um instante enquanto tentava não quebrar o galho, mas sua desconcentração foi o suficiente para Riven sentir sua presença, aparecendo atrás dele, com a espada apontada para seu pescoço.
— Por que me seguiu? — Riven perguntou friamente. Gabriel estava estático, sentindo a pressão esmagadora de Riven, e sua lâmina encostando em seu pescoço, fazendo escorrer um fio de sangue.
— Fiquei curioso. — Respondeu. — Você foi o único do grupo que eu não conheci, e quando eu tive a oportunidade, você me chamou de criança, rejeitando todo o meu esforço do nada, sem nem tentar me conhecer. — Ele estava visivelmente nervoso.
Riven embainhou sua espada novamente. — Suma. — Ordenou. Gabriel se virou para sair, mas parou antes.
— De quem são os três túmulos? — Gabriel perguntou.
Riven não o respondeu, apenas sumiu junto às folhas secas que caiam no bosque, Gabriel se virou mas não via mais ninguém, voltando para o castelo em seguida.
No seu segundo dia de treinamento, Gabriel fez sua primeira missão junto a Kaelis, algo bastante simples, que era o trabalho dos guardas do castelo, caçar um javali selvagem que causava confusão fora do castelo e atacava os viajantes.
— Nervoso? — Kaelis perguntou, ambos estavam nos portões do reino, prontos para sairem.
— Não. — Gabriel respondeu.
— Então por que está tenso? — Kaelis conseguia sentir como Gabriel estava, devido a seu nível avançado de Sentire.
— Eu me encontrei com Riven ontem... e não foi muito agradável. — Gabriel respondeu.
— Entendo, quer deixar isso para outro dia? — Kaelis o perguntou, mas ele declinou Ambos foram para fora do castelo, a caça do javali, se escondendo por entre os arbustos, eles o rastrearam, ele tinha a estatura aproximada de uma carroça de mão, e estava destruindo a barrada de um comerciante.
— Preparado? — Kaelis perguntou.
— Sim! — Gabriel afirmou. — Ótimo, mas não o mate. — Ela o instruiu. Gabriel saiu de dentro do arbusto, ocultando sua presença, indo em direção ao javali que estava distraído, mas ainda o notou e se virou até ele, mas Gabriel percebeu, e foi para seu ponto cego, revestindo seu braço com Éter, o nocauteando com um soco só.
“Impressionante, ele evoluiu tanto em apenas um dia!” — Kaelis estava orgulhosa. — Meus Parabéns Gabriel. — Kaelis chamou os guardas do castelo para retirarem o javali.
— Ele me sentiu, que droga. — Gabriel respondeu cerrando os punhos.
— É um instinto animal, ele notaria até mesmo se fosse eu, mas você se saiu bem. — Kaelis o reconfortou.
Os dois caminhavam juntos de volta ao castelo.
— Qual vai ser meu treino hoje? — Gabriel perguntou. — Um que vai te fazer implorar pela sua cama o resto do mês. — Kaelis respondeu rindo.
Os dois foram para o pátio novamente, onde estava Aeron, sem toda a armadura, seu corpo era bastante robusto, mas definido, coberto por cicatrizes.
— Finalmente chegaram. — Comentou Aeron que estava lendo, fechando o livro logo após.
— Ele é todo seu por hoje. — Respondeu Kaelis, se retirando em seguida.
— Bom, com você já são 5 dos 6. — Disse Gabriel. — E o que você vai me ensinar?
— Ensinar? HAHAHAHAHA — Aeron gargalhou. — Eu vou fazer da sua vida um inferno. — Aeron respondeu com um olhar um tanto sádico. — Você vai dar 100 voltas por esse pátio, fazer 200 agachamentos e 300 flexões, durante todos os dias até o final do mês. O rosto de Gabriel ficou completamente pálido.
— O QUÊ!? — Gabriel exclamou. — Você precisa construir massa e resistência, e se for verdade o que Kaelis me disse, você vai precisar.— Aeron respondeu.
— E o que... ela disse? — Gabriel perguntou.
Aeron hesitou bastante, mas contou a verdade.
— Você não ouviu isso de mim, mas nós... bom, Lilith localizou onde eles provavelmente estão mantendo sua mãe em cárcere, o covil principal, a princípio ela pretendia exterminar todos sozinhos, mas depois de te conhecer e treinar, ela pretende te levar lá no fim do mês para a missão de resgate, por isso você tem que crescer rápido até lá. — Aeron explicou.
Após ouvir a explicação de Aeron Gabriel deu um tapa em ambos seu rosto com ambas as mãos e começou a correr determinado.
— Isso aí! Esse é o espírito garoto. — Afirmou Aeron.
Ao ficar de noite, e Gabriel ter concluído o dia de treino com Aeron, eles voltaram para dentro do castelo, com Aeron o carregando nos ombros inconsciente, se encontrando com Kalchas.
— Esse é o Gabriel? Ele tá bem? — Kalchas perguntou.
— Sim, só foi um dia um pouquinho exaustivo para ele. — Aeron respondeu.
— Obrigado por cuidarem do meu garoto. — Ele agradeceu, se curvando levemente, com a mão visivelmente ansiosa.
Aeron o levou até seu quarto, e a seu banheiro, jogando água fria nele, o fazendo acordar no mesmo instante.
— Aaaaaaaaaaahhhhhh, que frio! — Gabriel gritou.
— Hahahahaha, tome um banho morno, vá comer alguma coisa e durma, nos vemos daqui dois dias. — Disse Aeron indo embora.
“Dois... DIAS?” — Gabriel quase desmaiou novamente.
Assim que Aeron se retirou, Gabriel sentiu seu estômago doer de fome, devido a todo o esforço que fez em um único dia.
— Eu sinto que poderia comer um javali inteiro. — Afirmou ele Após seu banho, ele foi até a sala de banquetes, onde Kaelis o esperava, junto a um enorme javali assado.
— Finalmente chegou, quase comi esse javali inteiro sozinha.
— Ela comentou — Esse… é o javali de hoje cedo? — Ele perguntou.
— Exatamente. — Ela respondeu.
Gabriel se aproximou da mesa, hipnotizado pelo aroma do javali, quase atacando ele, mas sendo bloqueado por Kaelis.
— Nananinanão, hoje você terá uma aula extra, etiqueta.
— O quê? Sério isso, isso é mesmo importante agora? — Gabriel perguntou, impaciente para comer o javali.
— Sim, é importante! E como heróis, constantemente somos chamados para banquetes, comemorações, e coisas do tipo, e é necessário que tenhamos etiqueta.
— Comentou Kaelis, chamando por um garçom, que cortou o javali e os serviu. — Primeiramente, arrume sua postura.
— Explicou Kaelis. — Postura ereta, nunca incline o corpo para a frente, coloque o guardanapo a sua frente no colo, e use os talheres de dentro para fora, mastigue sempre de boca fechada, levando a comida para a boca, e não ao contrário, evite falar com a boca cheia, e não ponha os cotovelos na mesa, use o guardanapo para limpar a boca sempre discretamente, ao comer sempre de garfadas pequenas, coma devagar e mastigue bem os alimentos.
Ela o instruía, enquanto ambos comiam.
—Ao terminar de comer, ou se caso precisar se ausentar da mesa, peça licença e ponha o guardanapo sobre a mesa, sem colocá-lo novamente no colo.
— Uau Kaelis, como sabe tanto sobre etiqueta assim? — Gabriel perguntou, enquanto limpava a boca com o guardanapo.
— Bom... na verdade foi porque… — Ela hesitou, respirou fundo, mas continuou. — Eu era uma princesa antigamente.
— Ela respondeu. Gabriel riu discretamente, e Kaelis usou um pedaço do osso do javali para acerta-lo na testa.
— Sério mesmo? — Gabriel perguntou.
— Sim. — Kaelis respondeu Começando a contar sua história para Gabriel.
— Antes de ser Kaelis… eu era Andrômeda.
Ela disse isso sem orgulho, como quem cita um nome enterrado.
— Eu nasci uma princesa, de um reino que provavelmente já ruiu, fui prometida a um nobre de outro reino ainda no berço, desde pequena me diziam como sentar, falar, andar… e que meu “jeito” era errado, para os meus pais eu não passava de uma moeda de troca. — Seu semblante mudou.
— Eu odiava os vestidos cheios de babados e adornos, as demais nobres riam de mim, me ridicularizavam, meu passatempo era treinar com os guardas, mas quando descobriram sobre, eles foram afastados, minha paixão era a esgrima.
Ao falar sobre a espada seus olhos se iluminaram.
— O único que nunca me tratou como uma princesa frágil foi o Riven, o encontrei pela primeira vez treinando golpeando uma árvore com uma espada de madeira que ele mesmo tinha feito, ali nos tornamos amigos e passamos a treinar juntos.
Kaelis tocou a própria bochecha, como se ainda sentisse o tapa.
— Até que um dia o meu pretendente apareceu, viu eu e Riven juntos e ordenou que o criassem, eu tentei impedir mas… — Ela hesitou por um instante.
— Enfim. Depois disso, eu vivi trancada, com grades nas minhas janelas, em um completo silêncio até meus 16 anos.
Ela suspirou.
— Mas no dia do meu casamento, antes do padre dar a última palavra que me sentenciaria a uma vida infernal, Riven e os antigos guardas e me resgataram, mas o velho era um mago e atacou com uma bola de fogo, mesmo ele não sendo habilidoso, mas os guardas rebateram e nós fugimos para longe.
Ela ria enquanto se lembrava.
— Livre pela primeira vez eu abandonei o nome Andrômeda e me tornei Kaelis, inspirada por uma heroína que lia em meus livros, nesse novo reino, eu e Riven viramos aventureiros, éramos fortes, apesar de bastante novos, tínhamos 16 e 17 anos, fomos ganhando reconhecimento rápido, nos achamos invencíveis, e essa foi nossa ruína, 3 de nossos antigos companheiros foram mortos, por um descuido de Riven, e isso o atormenta até hoje.
Gabriel começou a entender mais sobre o passado de Riven e sua rejeição constante a ele.