Adamas
Gabriel encarou o nada por um instante.
— Espera Lilith, você disse que outros já tiveram a mesma visão que eu tive? — Perguntou.
— No passado, muitos dos videntes de Althar tiveram essa mesma visão simultaneamente, de um vazio, que consumia tudo. — Astradamas alegou. — E por sempre estarmos certos sobre nossas visões, temiam que estávamos querendo causar o caos no mundo, querendo semear a desordem, o que nos fez chegarmos à beira da extinção, e ela chegou até você também.
Lilith franziu a testa, absorvendo cada palavra.
— Isso explica porque tantos acreditavam que os Altharions estavam extintos… e também a causa por trás.
Astradamas assentiu, abraçando Gabriel.
— O que você viu não pode ser ignorado, filho, mas também não deve ser compartilhado levianamente, nem todos suportam a ideia de saber o que espreita além da realidade.
Kaelis, até então silenciosa, respirou fundo e cruzou os braços, olhando para Gabriel com uma intensidade quase severa.
— Você está crescendo rápido demais, Gabriel. Mais rápido do que o destino talvez tivesse planejado, se pretende trilhar o caminho de herói, terá que aprender a carregar tanto sua espada quanto suas visões sem vacilar. — Ela se virou para Astradamas e depois para Kalchas. — Eu cuidarei para que ele esteja pronto quando a hora chegar.
Gabriel baixou o olhar por um instante, digerindo a mistura de orgulho, medo e responsabilidade que via refletida nos rostos ao redor.
— Não... não vai ser eu quem vai o enfrentar. — Respondeu Gabriel. — Era aquela silhueta, aquele ser estranho, que olhou para mim, como quem pedisse por algo, esperasse por algo. — Afirmou Gabriel.
— Eu sei que você fará a escolha certa meu filho. — Afirmou.
Gabriel ainda estava processando as palavras da mãe quando Kaelis deu um passo à frente.
— Se o que sua mãe disse é verdade… então você é uma peça-chave, Gabriel.
Ele ergueu os olhos, surpreso.
— Uma peça-chave? Eu… não sei nem se consigo entender direito o que vi.
Kaelis apoiou a mão em seu ombro, firme.
— Justamente por isso precisa estar preparado, não para hoje, não para amanhã… mas para o momento em que aquilo que você viu se erguer diante de nós.
Os demais heróis olharam para Kaelis.
— Vai assumir esse risco, Kaelis? Você nunca treinou alguém antes, ainda mais alguém jovem. — Comentou.
— Primeiro você deve controlar seu Éter e seu Thyr, você está evoluindo em uma velocidade assombrosa, e também prejudicial a você mesmo. — Afirmou Kaelis.
Gabriel assentiu, concordando em ser seu aprendiz, começando então a treinar junto a Kaelis de agora em diante. Algumas semanas se passam, Gabriel e Astradamas tiveram alta, e passaram a morar no castelo, junto aos demais heróis. Ao longe, em um continente completamente limpo de monstros e outras criaturas, três anciões discutiam.
— Então é certo, temos que possuir esse poder. — Afirmou um deles.
— E quem irá fazer essa conquista para nós? — Perguntou o segundo.
— Rafael e Mary. — Respondeu o terceiro.
— A sim, Rafael, então esse garoto será mais uma aquisição, uma nova ferramenta para “O Grande Az”. — Afirmou o segundo.
Adamas, a igreja que rege a ordem no mundo, e dita a verdade conforme sua vontade, ficaram sabendo do incidente envolvendo Gabriel, e foram até o reino de Aethernys, para o terem em sua posse, aos arredores do reino, uma ilustre carruagem se aproximava.
— Hmph… então este lugar miserável é o tal reino de Aethernys? O fedor desses animais chega a me embrulhar o estômago mesmo à distância… repugnante pensar que essas criaturas respiram o mesmo ar que nós, e ainda ousam carregar em suas veias um sangue da mesma cor que o nosso. — Declarou uma voz feminina, carregada de desprezo.
— Contenha-se, Mary. — Advertiu uma voz mais velha, carregada de frieza. — Por mais que sejam apenas vermes insignificantes diante de nós, não podemos esquecer, é indispensável que este novo aprendiz de Herói esteja sob nossa posse.
Chegando nos portões do reino, os guardas abriram os portões para eles após verem o símbolo da igreja, um olho, dentro de um círculo perfeito, similar a um sol, com duas asas apontadas para cima, e uma espada que o atravessava no meio.
— Abre logo, são a da Igreja de Adamas. — Afirmou um guarda, apressando para que outro abrisse o portão com mais agilidade.
— Esses porcos insignificantes… ousam nos fazer esperar? Que atrevimento vil. — Afirmou Mary com desdém.
Após entrarem no reino de Aethernys, Mary olhou fixamente nos olhos de ambos os guardas que a fizeram esperar, de dentro da carruagem, uma sombra de uma asa surgiu, seus olhos emanaram uma luminosidade vermelha, fazendo com que os dois guardas agonizassem em dor no mesmo instante.
— Já chega Mary! — Ordenou o velho que o acompanhava. — Os gritos destes infelizes ferem meus ouvidos.
Entrando no reino após Mary desfazer o que havia lançado sobre os guardas, a carruagem avançava lentamente em direção ao castelo. Pelas ruas, os moradores se curvavam, oravam e os adoravam como se fossem emissários divinos, muitos choravam de devoção, Mary, recostada no interior da carruagem, observava com desdém.
— Como latem alto esses cães… agora compreendo a razão da sua aflição anterior. — disse ela, emanando um brilho dourado por seus olhos.
Em instantes, o brilho amarelado dominou os olhares da multidão, e as adorações cessaram, um silêncio tomou o ar, enquanto os cidadãos, de rostos vazios e sem vida, dispersavam-se.
Foi apenas quando Lilith ergueu a mão e dissipou o transe.
— Então era você… indução de morte contra inocentes? — Acusou Lilith, surgindo por entre a multidão dispersa. — Se rebaixou tanto a ponto de se tornar a cadelinha da Igreja apenas para se sentir superior a mim? Você sempre foi assim, Mary… invejosa. mas nunca passará de uma vadia que almeja um trono que não pode alcançar.
A carruagem parou. Mary se levantou, e com um gesto lento e elegante, saiu para fora. Sua aparência era juvenil, quase angelical, cabelos loiros ondulados que brilhavam como ouro sob o sol, pele pálida, olhos azuis cristalinos, seu longo vestido branco contrastava com uma estranha asa em suas costas, que com suas plumagens se bifurcando ao meio em direção ao quadril, como um adorno celestial e, ao mesmo tempo, ameaçador, seu olhar angelical e calmo agora fora substituída por puro ódio.
— Filha do Mal… eu irei queimá-la viva. — Declarou Mary, em um tom de ameaça, emanando um brilho negro de seus olhos.
Antes que qualquer ataque fosse lançado, uma voz grave cortou o ar.
— BASTA. — Ordenou o homem mais velho que acompanhava Mary.
Lilith estreitou os olhos com repulsa, o reconhecendo de imediato.
— Droga… esse velho também está aqui. — Murmurou. — Lilith. — Rafael.
Descendo sutilmente da carruagem, um senhor de longos cabelos grisalhos e barba igualmente farta, seus olhos cinzentos exalavam frieza e desprezo.
— Parem já com estas infantilidades. — Declarou Rafael — Já que está aqui, Lilith, nos conduza ao castelo, desejamos falar com o rei… e com o garoto, o tal Gabriel, aquele que ousou exterminar centenas de orcs sozinho.
As palavras não foram um pedido, eram uma ordem, carregadas do mesmo tom com que um mestre falaria a um servo, Lilith se virou e os acompanhou até o castelo, onde o rei já os esperava de portas abertas, junto a Kaelis, os demais heróis e Gabriel, em uma mesa farta, para um banquete.
O Rei recepcionou os visitantes, acompanhado dos heróis juntamente a Gabriel, que o aguardavam para um banquete
— Rafael, o que o trás aqui? — Perguntou o rei, levemente nervoso.
— Não se faça de tolo. — Declarou Rafael, com a voz firme, e impositiva. — Viemos por Gabriel… o mesmo que ceifou um ninho de orcs. — Afirmou Rafael, ergueu o queixo, e varrendo todo o salão com o olhar, como se fosse um lugar impuro — E quanto a isto… esqueçam, não nos rebaixamos a partilhar da mesma mesa que bárbaros como vocês. — Reafirmou com desdém.
— Ainda mais comer em um ambiente preparado as pressas. — Completou Mary.
Gabriel, sentado à mesa, sentiu o sangue ferver em suas veias, seus punhos se fecharam com força, se recordando de uma conversa que teve anteriormente com Kaelis e Lilith, após o incidente na caverna dos orcs.
“— Gabriel… agora que você carrega o título de Aprendiz de Herói, essa notícia vai se espalhar. — Afirmou Kaelis séria, com uma expressão carregada de preocupação. — Logo se espalhará por todos os cantos, e chegará a ouvidos indesejáveis, e eles vão vir atrás de você.
— Quem? — Gabriel, perguntou espantado. — Quem iria querer meu poder? Todo reino tem seus próprios heróis? Não?
— A Ordem de Adamas. — Respondeu Lilith, com a voz trêmula, apresentando nervosismo. — Eles são os que se proclamam guardiões da ordem, e regem o mundo… mas não se engane, Gabriel, A vida dentro daquela Ordem é um verdadeiro inferno.
— E depois do que você fez… não há dúvidas, eles virão, Adamas não deixaria escapar alguém que mostrou tanto potencial. — Respondeu Kaelis. — Eles se julgam superiores a todos, tratam os fracos como lixo, e ainda se escondem atrás do manto do humanitarismo. — Disse ela com um riso frio. — É irônico, não acha?
O peito de Gabriel apertou. Ele sentiu um peso gelado em seu estômago.
— Há algo que eu ocultei quando compartilhei minhas lembranças com você Gabriel. A verdade é que eu já fui da Ordem de Adamas. — Declarou Lilith.
Seus olhos se voltaram para o nada, relembrando as cicatrizes do passado.
— Eles recolhem crianças órfãs, marcadas por guerras ou por invasões de monstros, e nos moldavam com dor e disciplina, éramos forçadas a lutar umas contra as outras… e as que não serviam eram descartadas como lixo, eu e mais uma garota fomos escolhidas, eu recusei, não podia me submeter àquela monstruosidade… mas, por isso, me obrigaram a lutar contra ela até a morte, eu sobrevivi, mas poupei sua vida, e abandonei aquele inferno. — Lilith esclareceu seu verdadeiro passado para Gabriel, enquanto se encolhia, fazendo uma lágrima escorrer por seu rosto.
— Eles não vão medir esforços para dobrar você, Gabriel. — Kaelis o alertou. — Quando chegarem… mantenha a calma, não importa o que digam. Eles possuem poderes além da compreensão… e não hesitam em usá-los.”
O salão foi consumido por um silêncio ensurdecedor após as palavras de Rafael, atmosfera, antes pacífica e agradável, agora estava carregada como se uma tempestade estivesse prestes a desabar.
Gabriel, com o punho cerrado, respirava pesado, o insulto ainda ecoava em sua mente, inflamando sua raiva. Ao lado, Amara apertava as mãos com força sobre a mesa, seu olhar trêmulo revelando o medo que ela tentava conter, memórias de seu passado sombrio com a família de assassinos a fizeram reconhecer, no tom de Rafael, a mesma frieza de quem decide sobre vida e morte de outra pessoa como um capricho.
Alastor, sentado próximo à irmã, inclinou-se ligeiramente para a frente. Seus olhos, antes serenos, agora estavam sombrios, mergulhados em um ódio silencioso. Cada palavra de desdém de Rafael parecia cutucar feridas antigas, mas ele se mantinha imóvel, como uma lâmina ainda embainhada. Aeron, por sua vez, desviou o olhar, respirando fundo, seus olhos franziam em raiva, mas ele se controlava, sentindo na pele o peso opressor de Mary e Rafael, e sabia que, se perdesse a razão, seria esmagado como um inseto, expressando sua raiva através de sua mandíbula trêmula. Riven, que sempre era calmo, entrelaçou os dedos sobre a mesa apoiando o queixo, com um olhar de desdém. O rei, tentando manter a compostura, ergueu-se de seu trono.