Roubo do Sol
O rei Uther se levantou, tentando acalmar a situação.
— Senhor Rafael, Senhora Mary… este é o salão real de um reino soberano e afiliado. — Declarou, escolhendo cuidadosamente as palavras. — Se vieram como emissários, comportem-se como tal. A hospitalidade que oferecemos não deve ser cuspida com arrogância.
Mary deu um passo à frente, seus olhos azuis cintilando em vermelho, um sorriso de puro desprezo nos lábios.
— Hospitalidade? — Respondeu com desdém. — Eu só vejo um bando de cães vestidos de seda, acreditando que têm algum valor diante de Adamas.
Gabriel se levantou de súbito, derrubando a cadeira, atraindo a atenção de todos devido ao barulho, olhando fixamente para Mary e Rafael.
— Chega! — Gritou Gabriel, sua raiva finalmente transbordou. — Vocês não têm o direito de nos tratar como lixo!
Lilith se moveu rápido, segurando o braço de Gabriel.
— Gabriel… não. — Murmurou baixo, quase suplicando.
— Então este é o garoto que chamam de Aprendiz de Herói? — Rafael indagou com desdém. — Frágil, inflamável… apenas uma criança brincando com armas perigosas.
A fúria de Gabriel o fez avançar em direção a Rafael e Mary, mas Rafael apenas estendeu a mão esquerda sutilmente, revelando dois símbolos em sua mão, uma lua branca que emanava uma luz intensa de sua palma, e ao seu dorso o símbolo de um átomo roxo.
— Saiba o seu lugar. — Murmurou com desprezo e autoridade.
No mesmo instante, o corpo de Gabriel foi lançado contra o chão, esmagado pelo aumento brutal da gravidade.
— Gabriel! — Gritou Lilith, tentando se levantar, mas Mary apenas olhou para ela, com seus olhos emanando um brilho azul, e num piscar de segundos, a induziu ao sono.
— Malditos… o que pretendem com tudo isso? — Questionou Gabriel, lutando contra a pressão que o mantinha preso ao chão. — Jamais me juntarei a lixos como vocês!
As palavras atingiram Rafael como uma lâmina, pela primeira vez, seu semblante calmo e arrogante se rompeu, sua expressão foi tomada pela ira, e estrela roxa brilhou em resposta, fazendo Gabriel gritar em agonia, fazendo seu sangue escorreu de seus lábios, de seus olhos e ouvidos, enquanto seu corpo tremia sob uma dor insuportável, cada célula de seu corpo queimada de dor. Riven se ergueu num instante, sua espada apontada contra o pescoço de Rafael, embora não a encostasse, um fio de sangue surgiu em sua pele, deslizando por sua clavícula.
— Ensis. — Murmurou Riven em tom gélido. — Pare imediatamente e suma, antes que essa simples gota se torne uma poça de sangue.
Mary olhou-o com desprezo.
— Insolente. — Seus olhos rubros se acenderam, e a dor que tomou Riven foi ainda mais terrível do que a imposta aos guardas.
O rei tentou intervir, mas sua voz ecoou em vão.
— Por favor! Retirem-se do meu reino imediatamente!
Mary virou-lhe o rosto com desdém.
— Cale-se, inseto. Você não tem o direito de dar ordens. — Em um simples olhar, lançou-o a um tormento tortuoso, o fazendo gritar em agonia diante de todos.
Os heróis reagiram, se levantaram em direção a ambos, mas Rafael ergueu novamente a mão esquerda, fazendo a lua brilhar novamente em sua palma, e de repente, todos foram esmagados contra o chão .
— Maldição… não consigo… me mover! — Kaelis murmurou, presa contra o mármore.
— Meu corpo está… sendo esmagado! — Amara arfou com os ossos rangendo sob a pressão.
A dor da irmã fez a fúria de Alastor explodir.
— DESGRAÇADO! PARE IMEDIATAMENTE OU EU TE MATO AQUI MESMO!
Rafael riu, desativando o peso gravitacional apenas ao redor de Alastor.
— Me matar? Mostre-me, quero ver do que é capaz.
Alastor não hesitou, e em um avanço, cravou sua adaga no crânio de Rafael, atravessando o olho de Rafael, mas ele não caiu, apenas sorriu, uma expressão gélida.
— Era só isso? — Zombou.
Com um gesto, lançou Alastor pelos ares, esmagando-o contra as colunas do salão, o impacto o deixou inconsciente, soterrado pelos escombros. Calmamente, Rafael retirou a adaga que lhe atravessava o olho, lâmina se desfez em pó quando a estrela roxa brilhava, e então sua mão direita se ergueu, revelando outros 2 símbolos, um sol dourado na palma, e uma estrela de três pontas cinza acima, que brilhava sobre seu olho, o reconstruindo, deixando a todos espantados.
— Mas o quê…? — Gabriel murmurou, chocado.
Ele tentou se erguer, mas Mary também o induziu também ao sono, assim também como os demais heróis junto ao rei. Com a lua em sua palma, Rafael suspendeu o corpo inconsciente de Gabriel e o levou até a carruagem, ao lado de Mary, partiriam dali para a Igreja, onde a Ordem de Adamas moldaria o garoto à sua imagem. Na saída, guardas e cidadãos assistiram, horrorizados, o corpo de Gabriel flutuando coberto por sangue ao lado dos dois, um a um, todos que tentavam impedir foram apagados pela influência de Mary.
Horas depois, os heróis despertaram, confusos.
— O que… aconteceu? — Murmurou Amara, com as mãos trêmulas.
— Minha cabeça… — Aeron gemeu.
— Levaram Gabriel. — Respondeu Kaelis em tom de derrota. — Eu jurei protegê-lo… guiá-lo… e falhei.
Riven pousou uma mão firme em seu ombro.
— Nós vamos encontrá-lo. Vamos trazê-lo de volta.
Amara correu até Alastor, ainda inconsciente, o sangue escorrendo por sua testa.
— Irmão! Alastor! — Suplicou, curando-o com sua luz, mas mesmo após estancar os ferimentos, ele não despertava. — Acorda, por favor!
Lilith, a última a abrir os olhos, socou a mesa com fúria, com lágrimas escorrendo por seu rosto.
—MALDITOS!
— O que faremos agora? — Kaelis perguntou em desespero. — Eu o perdi…
— Não, não perdeu. — Lilith respondeu, conjurando as armaduras de Kaelis e Riven. — Com um olhar de decisão. — Sinto o Éter de Gabriel, eles não foram longe, iremos atrás deles agora, e vamos trazê-lo de volta! — Virou-se para Amara, Alastor e Aeron. — Cuide do seu irmão e depois ajude o rei, ele eu sei que Alastor não morreria tão facilmente, e Aeron, cuide deles para caso mais algum visitante decida aparecer sem ser convidado.
Amara e Aeron assentiram em silêncio.
— Quando estiver pronta, Lilith. — Disse Kaelis, firme, erguendo sua espada.
Numa explosão de energia, Lilith os teletransportou até a frente da carruagem, a fazendo parar imediatamente, e obrigando Rafael e Mary saíram, encarando-os com desprezo.
— Ainda não aprenderam? — Rafael ergueu a mão esquerda, com a lua brilhando em sua palma. — Vocês não passam de insetos. — Acham mesmo que podem nos deter? — Zombou com o olhar cheio de superioridade. — A diferença entre nós não é apenas força, e sim propósito, vocês lutam por sentimentos frágeis, e nós por algo maior, pela ordem absoluta.
Kaelis desembainhou sua espada.
— Ordem? Vocês não passam de tiranos! — Retrucou Kaelis, avançando até Rafael, os olhos de Mary novamente emanaram um brilho vermelho, mas Kaelis reagiu. — Aegis!
Dispersando ataque de Mary, e atacando diretamente Rafael, mas a gravidade ao seu redor se distorceu, a esmagando violentamente.
Rafael interceptou o avanço de Kaelis, a esmagando contra o solo.
— Vocês não passam de poeira sob a lua. — Murmurou Rafael, os olhando com desprezo.
Riven avançou em direção a Rafael, enquanto Mary intervia, mas foi impedida por Lilith, que as teletransportou para outro lugar distante.
— Sua... Como ousa!? — Questionou Mary, furiosa.
— Eu te poupei no passado Mary, mas se insistirem nisso, eu posso acabar não sendo tão boazinha quanto antes. — Respondeu Lilith.
— INSOLENTE! — A asa ao redor de sua cintura se abriu, enquanto mais duas se manifestavam atrás dela. — Eu não serei tão benevolente. — Emanando um brilho negro de seus olhos, enquanto olhava diretamente para Lilith, mas sem eficiência alguma.
— Vermelho indução de dor, azul indução de sono, amarelo indução forçada a morte, agora preto? — Debochou Lilith. — Você não pode me induzir a mais nada, meu Éter vai defletir todas as suas manipulações.
Mary rangeu os dentes em ódio, ao ver que não houve efeito algum, liberando uma enorme quantidade Éter, se transformando, surgindo uma auréola sobre sua cabeça, e materializando uma lança de luz pura, fazendo surgir também um terceiro olho em sua testa.
— Eu irei te expurgar, seu demônio petulante. — Mary cuspiu, apontando sua lança em direção a Lilith. — Irei levar sua cabeça para Adamas, junto das de seus companheiros e reduziremos aquele reino medíocre a cinzas.
— Sim, você tá certa de uma coisa. — Murmurou Lilith, liberando uma quantidade exuberante Éter em resposta, que ultrapassou a liberada por Mary anteriormente. — EU SOU UM DEMÔNIO PETULANTE!
Os olhos de Lilith se tornaram completamente negros, com algumas veias que iam até seus olhos, sua pele empalideceu, chifres surgiram de sua cabeça, junto a uma calda, seus dentes se tornaram presas, e suas unhas viraram garras.
— Eu... eu sabia, eu sempre soube, tinha algo errado em você, como se atreve a perambular entre os humanos? — Questionou Mary, arremessando sua lança em Lilith, que a parou com uma mão, a quebrando ao meio, deixando Mary com um semblante de espanto em seu rosto.
— Você não pode me vencer Mary. — Respondeu Lilith. — Lua Negra!
O Éter de Lilith se tornou um miasma, formando uma lua negra acima das duas, criando uma redoma sombria, onde o Éter de Mary se enfraquecia, e o de Lilith era amplificado. A luz que emanava de Mary oscilava pela primeira vez desde o início do confronto, tremendo sob a influência da lua negra, suas asas batiam furiosamente, tentando repelir o domo sombrio que as envolvia, mas a escuridão era densa como chumbo, engolindo cada raio solar que ousava atravessar.
— Maldita! — Rosnou Mary, com os olhos emanando fúria. — Você ousa selar a luz do Criador?!
Lilith avançou, deixando um rastro de chamas negras ao seu redor, queimando o ar, com um sorriso sádico que cortava seu rosto empalidecido após sua transformação.
— Eu não só ousei, Mary... — Retrucou Lilith, com seus olhos, completamente negros que refletiam apenas a lua sombria — Eu sei que sua graça principal absorve energia solar e converte em poder, eu te arranquei do seu pedestal.
Mary rugiu, manifestando outra lança de luz, mais densa que a anterior, investindo como uma estrela cadente.
— Spei Lumen! — A lança iluminou o domo negro inteiro por um instante, como se fosse romper a lua criada por Lilith.
Mas Lilith ergueu a mão, e seu corpo foi engolido por labaredas negras que se retorciam como serpentes.
— Abyssum Nigrum!
O impacto entre luz e escuridão sacudiu o espaço, o domo tremeu como se fosse desmoronar, a explosão abriu uma cratera ao redor delas, o ar se despedaçou em ondas de choque, mas, quando a poeira assentou, Lilith permanecia em pé.
— Sua luz… está mais fraca. — Murmurou Lilith, com um sorriso perverso. — O sol não pode brilhar na presença da lua.
— Cale a boca! — Mary retrucou, batendo as asas com violência, as plumas douradas se desprenderam como lâminas afiadas em direção de Lilith.
Lilith girou o corpo, e a sua cauda demoníaca estalou contra o chão, liberando colunas de fogo negro que devoraram as penas antes que tocassem seu corpo.
Ela estendeu as mãos, e do chão brotaram correntes sombrias, enrolando-se ao redor das asas de Mary, tentando prendê-la.
— Não vou permitir que mais uma vez você fuja. — Disse Lilith com a voz grave. — Desta vez… vou acabar com você.
Mary, com o olhar incendiado, se forçava além do seu limite, emanando um clarão arrebentando as correntes de Lilith.
— EU SOU UM ANJO! — Sua voz reverberou pelo domo. — E VOCÊ NÃO PASSA DE UMA FRACASSADA QUE NUNCA DEVERIA TER EXISTIDO!
Ela disparou para frente, o terceiro olho brilhando como um sol em miniatura, fazendo o domo estremecer.
Lilith, no entanto, apenas riu.
— Então me mostre… me mostre o poder de um “anjo falho”!
E quando Mary avançou, Lilith ergueu ambas as mãos, conjurando um círculo mágico negro e colossal sob seus pés, da lua negra acima, a escuridão descia, esmagando o corpo de Mary, que conjurava uma lança de luz uma vez mais.
— Ascensio Umbrae!
—Lancea Caelestis!
O domo se rompeu junto a lua negra, céus e terra estremecerem, o clarão do choque rasgou o céu em branco e negro, e a explosão do domo fez a terra estremecer como se fosse se partir, as pedras flutuavam no ar e a gravidade parecia instável. Do centro da destruição, as duas emergiram, Mary, que estava coberta por sangue e ferimentos, se curava ao absorver a luz do sol pela sua asa, enquanto Lilith se mantinha de pé, apertando firmemente uma escoriação ao lado de sua costela, mas que queimava em brasas.