Laços
Mary se esforçava, apesar do peso de cada herói, ela os carregou sozinha, como penitência.
O céu ainda ardia em tons de vermelho e dourado, com as fendas da Manus Dei cicatrizando lentamente. Horas depois, ela cruzou os portões de Aethernys, os guardas olharam para o céu atônitos, alguns em guarda ao verem Mary retornando, outros caindo de joelho ao ver a figura angelical descendo com os heróis inconscientes, alguns murmuraram.
— É... é um milagre...
Passaram-se horas em silêncio, Gabriel foi o último a despertar na ala hospitalar, a luz do entardecer já havia voltado ao normal, entrando pela janela quando ele abriu os olhos, confuso, vendo Mary ao lado.
— Você...? — Disse Gabriel, com a voz falhando.
Logo depois, Riven, Kaelis e Lilith entraram no quarto, todos, embora exausto, se reuniam de pé, o silêncio pesado os envolvia até Kaelis intervir.
— Por que... você nos ajudou? — Questionou com um tom grave, carregada de desconfiança.
Mary fechou os olhos, respirando fundo, e então falou. Ela contou tudo, A Ordem, a manipulação de Rafael, a dor de matar as próprias irmãs, e a verdade que a corroía por dentro. Lilith, em lágrimas, confirmou cada palavra. O quarto ficou em silêncio após a confissão, até Gabriel quebrar o silêncio.
— Então... vocês carregaram tudo isso sozinhas. — Ele cerrou os punhos, tentando conter suas lágrimas.
Sendo interrompido após por Amara e Alastor que entraram no quarto, felizes em ver todos bem.
— Alastor? — Kaelis se espantou ao o ver vivo.
— Agradeça a Mary, quando trouxe vocês inconsciente, ela também me ajudou. — Afirmou Alastor, se lembrando brevemente do ocorrido.
Após retornar ao castelo, Mary avistou o rei desperto, caminhando até ele e se desculpando por tudo, indo até Amara e Alastor, tentando o curar, e percebendo que algo o prendia, rancor, ódio, desprezo, a alma de sua família morta, dispersando elas com seu Éter, logo após fazendo Alastor despertar.
— Obrigada mais uma vez por salvar meu irmão. — Amara se curvou para Mary agradecendo sua gentileza.
— Não foi nada, eu apenas fiz o certo. — Responde Mary, envergonhada.
— E o que Adamas fará com a morte de Rafael? — Riven perguntou sério.
Todos ficaram em silêncio por um momento, preocupados com as atitudes que a Igreja de Adamas poderia ter em relação ao Reino de Aethernys, até que Mary quebrou o silêncio.
— Rafael era um Arcanjo afinal, sua morte certamente foi percebida pela igreja, e os anciões já devem estar sabendo. — Respondeu Mary. — Mas como as graças deles não retornaram, eles devem presumir que eu as assimilei.
— Graças? — Gabriel perguntou confuso, um tanto desnorteado devido a batalha.
— Cada membro do Culto de Adamas possuem asas. — Explicou Mary, abrindo suas 7 asas
— Cada asa nos é dada após um ritual, onde um terceiro olho abre em nossas testas, que eles usam para nos controlar.
— Mas você não possui um terceiro olho. — Respondeu Amara.
— Ela o destruiu após se lembrar do seu passado. — Lilith respondeu.
— E nós despertamos uma, duas ou três asas, aqueles que possuem de 1 a 3 asas, como eu anteriormente, são chamados de anjos, de 4 a 5 são Arcanjos, como Rafael, e acima deles, aqueles que possuem de 6 até... bom, nunca houveram relatos anteriores, mas acima de 6, são Querubins, e cada asa simboliza uma graça diferente. — Afirmou Mary, recolhendo suas 4 novas asas. — As minhas quando anjo, eram essas três. — Ela as expandiu. — Empoderamento Solar, eu absorvo a energia do sol pra me fortalecer, Manipulação de Sentidos, podendo manipular a visão, olfato, audição, paladar, tato, equilíbrio, dor, e percepção de qualquer um livremente, mas pode ser bloqueado com o Thyr ou influência de Éter, e a Fisionomia de Anjo, que todos até três asas possuem, nos dando acesso ao Éter Sagrado, dependendo do usuário, no meu caso eu possuo o Éter de Luz Sagrada, também podemos voar, curar e purificar maldições, e possuímos uma condição física melhorada.
Mary abriu novamente as demais asas.
— Essas quatro eram as graças de Rafael. — Explicou Mary. — O Mimetismo de Anjo evoluiu para a de Arcanjo, evoluindo e melhorando as habilidades anteriores, e tendo acesso a algumas habilidades perigosas, no caso de Rafael, ele não era um Arcanjo completo, ele não possuía asas, mas o Culto de Adamas o via como arma, ele possuía o Étere do Sol, que o permitia controlar o Eletromagnetismo, a Lua, que dava a ele o controle sobre a Gravidade, a Estrela Cinza de Três Pontas, que o permitia Reconstruir qualquer coisa, e um Átomo Roxo, que o permitia Destruir as coisas ao seu redor, mas eu sou um Querubim, e eu não sei ao certo o tanto que eu mudei. — Mary expressou.
— Você não mudou em nada irmãzinha. — Respondeu Lilith a abraçando em seguida.
— Mas provavelmente eles irão retirar Aethernys dos reinos afiliados da Igreja. — Disse Mary, levemente preocupada.
— Mas isso não é problema pra gente. — Kaelis retrucou. — Afinal nós temos um prodígio entre nós. — Olhando para Gabriel que se deitou novamente, pegando no sono devido à exaustão anterior.
— Um garoto de 14 anos... — Aeron comentou.
— Ele tem minha idade quando eu me tornei heroína. — Lilith respondeu.
— E ele derrotou um “Pseudo-Arcanjo”, esse garoto realmente é especial. — Afirmou Mary, sorrindo para Gabriel inconsciente. — Mas agora eu devo ir.
— E você vai ficar bem? — Perguntou Lilith preocupada com sua irmã.
Mary apenas sorriu para ela, se virando e saindo voando pela janela em direção a capital de Adamas, sede da Igreja e do Culto de Adamas.
— Aqueles velhos… eles sabiam tudo o que Rafael fazia, e ainda assim não interviram, aquele lugar é podre. — Mary murmurou.
Alguns dias se passam e Gabriel desperta, com Kaelis e Lilith que o esperavam para ter uma conversa séria com ele.
— Finalmente acordou Gabriel. — Disse Kaelis aliviada. — Precisamos conversar com você
— Mas é tão urgente? Eu fiquei uns quatro dias apagado, eu estou faminto. — Gabriel respondeu levando a mão até a barriga.
— Eu sabia que você iria estar com fome, então trouxe um pequeno banquete para você. — Lilith respondeu, fazendo uma pequena mesa junto a alimentos levitarem em direção a Gabriel, que começou a comer no mesmo instante.
— Gabriel não é de se surpreender que você tem um ritmo de evolução acelerado, mas você despertou não só o Ensis no ninho dos orcs, como o Bulwark Sanctun, e isso é um pouco preocupante. — Afirmou Kaelis.
Gabriel terminou de comer um pedaço de pão, limpando a garganta com uma taça de suco.
— E por que isso seria preocupante Kaelis? Vocês mesmo diziam que eu era um gênio por ser tão jovem e despertar os Thyr e Éter — Gabriel perguntou.
— Quando se tem anos de treinamento, experiência e domínio sobre o Thyr básico sim, mas você os despertou graças seu Éter de Afinidade, que forçava o seu corpo a usar o Excidium e indo além do limite te permitindo usar as versões definitivas dos Thyr, que sempre vem com um recuo, no seu caso você ficou dias inconsciente, e ainda em um curto espaço de tempo, seu Éter é forte, muito forte, você tem o potencial para ser um herói ainda mais forte do que a Kaelis, mas você precisa manusear ela com cuidado, você pode acabar sobrecarregando seu corpo com o uso contínuo e descuidado de seu éter Gabriel. — Respondeu Lilith, fazendo um pano levitar até a boca de Gabriel que estava suja de suco.
Gabriel abaixou a cabeça por alguns segundos antes de responder.
— Eu entendo, eu sei que eu venho superando os meus limites… forçando eles na verdade. — Gabriel hesitou por um instante. — Contra o Rafael mesmo, depois de defletir o ataque dele, meu corpo pareceu tão pesado, minha visão ficou turva, e quando acordei no hospital horas depois, eu sentia cada célula do meu corpo doer.
— Gabriel, você é forte, muito forte, mesmo sem sua Afinidade. — Afirmou Kaelis. — Use-a apenas como trunfo, mas use com moderação, você tem um grande potencial garoto.
Gabriel assentiu balançando a cabeça levemente, voltando a comer logo após.
— Então vamos indo Gabriel, após terminar sua refeição nos encontre no pátio, uma pessoa quer te ver, e tem um presente para você. — Lilith se virou junto a Kaelis.
Após terminar de comer, Gabriel se trocou e se dirigiu até o pátio do castelo, que era tingido de dourado pelo sol do entardecer, se deparando com todos os Heróis, que estavam alinhados ao lado de uma barra de metal, Gabriel sentia ela ressoar com ele, e uma pequena mesa coberta por um lençol com a silhueta de uma lâmina, com Mary no meio deles, aguardando a sua chegada. O coração dele começou a bater mais rápido ao ver o círculo formado pelos companheiros. Mary deu um passo à frente, com suas sete asas abertas emanando uma aura que reverberava Éter e Thyr. Enquanto isso, atrás dela, repousava uma enorme barra de Aetherion puro.
o Aetherion é um metal raríssimo, sua formação ainda é um mistério,mas ele pode ser encontrado nas cavernas mais profundas do mundo, com grandes concentrações de Éter, sua superfície prateada-escura pulsa pelo metal, diferente de qualquer outra liga, o Aetherion não é apenas condutor de Éter ou Thyr, ele responde ao estado interno do portador, alterando densidade, peso, fio e até a própria forma conforme a vontade ou afinidade de quem o empunha. Tradicionalmente usado apenas em artefatos de reis ou em selos divinos, forjar com Aetherion é um ritual mais do que uma técnica. Cada peça feita desse metal torna-se praticamente única, reflete não só o Éter ou Thyr de quem a porta, mas também seu crescimento espiritual, evoluindo junto com ele, por isso, armas feitas de Aetherion são chamadas de “companheiras”, e não são meros instrumentos.
Mary passou a mão sobre o metal, abrindo suas sete asas, onde a antiga graça de Destruição, evoluiu para Reconstrução após seu despertar em Querubim, fazendo chispas azuis e douradas saltaram após Mary encostar no metal com a palma nua, a barra brilhou por alguns instantes, e após alguns segundos ela assumiu novas formas, um escudo e machado, um par de adagas, um cajado, um arco-lâmina, uma lança e um anel.
— Para Aeron, O Berserker, eu concedo o Égide das Mentes, um escudo que atrai a atenção de seus inimigos, e a Severidade da Dor, um machado que amplifica a dor além do ferimento causado. — Ela se virou até Aeron.
Aeron caminhou até Mary, pegando suas novas armas, e agradecendo a ela.
— Para Alastor, as Sombras da Ruína, um par de adagas capaz de romper Éter, Thyr, barreiras e estruturas com facilidade.
Alastor caminhou até ela, pegando suas novas adagas, que sumiram em sua mão, se tornando uma pequena fumaça negra.
— Para Amara, a Verdade da Alma, um cajado capaz de reconstruir tecidos, reverter e purificar quaisquer maldições.
Amara foi até Mary saltitante, dando um forte abraço nela pegando seu novo cajado.
— Para Riven, a Flecha Versátil, um arco que dispara flechas de calor ionizadas, podendo se transformar em uma lâmina turva de plasma.
— Riven caminhou até ela pegando sua nova arma com um pouco de receio, mas agradecendo logo após.
— Para Kaelis, a Estrela Singular, uma lança capaz de criar um vórtice de luz que puxa projéteis e desvia ataques, liberando uma explosão concentrada logo após.
— Kaelis foi até Mary, pegando sua nova lança e fazendo uma pequena reverência.
— E por fim, para a minha querida irmã, o Halo Profano, um anel que permite que você assuma uma forma híbrida entre Arcanjo e o seu sangue demoníaco, igual fez antes contra Rafael, além de permitir que você use elementos sagrados e amplificar seu Éter. — Lilith caminhou até Mary, dando a ela um abraço nela e a agradecendo.
Indo em direção a mesa coberta por um lençol, o retirando de cima e revelando a espada de Gabriel, que estava com diversas ranhuras e fissuras.