Seraphim
Mary pegou a espada trincada de Gabriel, e estendeu a ele.
— Esta espada... — Disse ela, com a voz suave porém firme. — ...não é só aço, Gabriel, são
memórias também, e eu não ousaria substituir algo assim.
Ela ergueu a lâmina, e um lampejo percorreu por todo o fio, a lâmina começou a emitir um
brilho tênue, o aço se fundiu ao Aetherion restante, consertando todas as falhas e estragos
da sua espada, mantendo os aspectos antigos toda a lâmina da espada se tornou preto, mas
seu fio se tornou dourado.
— A Incisão Solar, absorve, armazena e converte a luz solar em força, velocidade ou cortes
energizados, eu não criei outra arma para você... — Continuou. — ...mas a reconstrui,
infundindo ela com Aetherion, um metal que responde à alma de quem o empunha, sua
espada carregará agora a sua força, seu Éter, e seu Thyr, que crescerá junto a você.
Gabriel a tomou com reverência, sentindo o peso familiar, mas uma pulsação diferente,
quase como um coração batendo no punho. Quando tudo terminou, Mary se voltou à frente
de todos, recolhendo lentamente suas asas.
— Agora todos vocês carregam uma parte das minhas graças. — Disse, num tom quase
solene. — Que essas armas sejam não só poder, mas laços.
Gabriel olhou para ela, a espada tremendo em sua mão, sentindo que aquele momento
marcava um novo começo.
Após receberem as novas armas, imbuídas com fragmentos das graças de Mary, o rei
ordenou que os salões do castelo fossem preparados para um banquete. As longas mesas de
carvalho estavam cobertas por toalhas brancas e adornadas com candelabros dourados,
frutas frescas, jarras de vinho e sucos juntamente de pratos fumegantes vindos diretamente
da cozinha. O clima que antes era de tensão pela presença da Igreja, agora tinha um tom
festivo, como uma trégua frágil no meio de uma guerra que todos sabiam que ainda não
acabou. Gabriel sentou-se entre Kaelis e Lilith, a espada remodelada repousando ao pé da
mesa, ele passava o dedo pela lâmina nova, sentindo um leve pulso de energia, o Aetherion
reagindo discretamente ao seu toque, como se estivesse respirando junto dele. Ao seu
redor, os outros heróis experimentavam suas novas armas, Aeron girava o machado e
testava o peso do escudo, Riven passava a mão pela lâmina mutável de seu arco-cimitarra,
Alastor examinava as adagas negras, Amara tocava o cristal embutido em seu bastão
recém-forjado, cada arma era mais que um instrumento, era um vínculo direto com Mary.
— Parece até que estamos começando de novo — Murmurou Kaelis, tomando um gole de
vinho.
— Como quando formamos o grupo pela primeira vez — Completou Lilith, cruzando os
braços sobre a mesa.
Mary, sentada à cabeceira ao lado do rei, permanecia em silêncio, as sete asas recolhidas
atrás das costas, seu brilho sutil iluminava a mesa sem que ela precisasse fazer esforço.
Desde que chegara a Aethernys, não falava muito sobre si mesma, apenas instruía e partia
para novas tarefas, aquela era uma das poucas vezes em que permanecia junto a todos.
Gabriel ergueu o olhar para ela. Algo o incomodava desde o início, algo que os outros
pareciam evitar perguntar, mas estava na mente de todos, como Mary conseguiu retornar
em segurança, sem Rafael, mas tendo absorvido suas graças e despertado como Querubim?
A tensão rompeu-se quando Aeron, o mais direto do grupo, quebrou o silêncio.
— Mary... — Disse em tom respeitoso, mas firme. — Todos aqui devemos nossa vida a você.
Mas existe uma coisa que precisamos saber.
Os olhares se voltaram para ela. Lilith apoiou a mão no ombro da irmã, hesitante. Gabriel
respirou fundo.
— Como foi, Mary? — Perguntou ele, com a voz baixa. — Assim que chegou a Adamas,
depois de tudo...?
O salão ficou em silêncio. Apenas o crepitar das velas e o murmúrio distante dos guardas nos
corredores quebravam o ar pesado. Mary repousou a taça de vinho na mesa, olhando para
todos eles e respirando fundo.
— Eu cheguei voando, apenas com minhas 3 asas, fui abordada pela segurança de Adamas,
mas eles me deixaram entrar logo após me reconhecerem, mas eu fui recebida pelos
mensageiros dos anciões, que queriam um relatório do ocorrido, e eu fui, mas não para
entregar meu relato, eu fui os confrontar.
“Mary seguiu para uma sala escura, onde os três anciãos de Adamas a aguardavam, para
interroga-lá.
— Mary, diga-nos, que fim levou Rafael? E onde estão suas graças? — Perguntou um ancião
calmo, mas com tom autoritário.
— Rafael enlouqueceu, sequestrou o garoto, Gabriel, do reino de Aethernys, seus
companheiros vieram atrás de nós, e Rafael os atacou, mas acabou sendo derrotado por
eles. — Mary respondeu com um tom calmo, mas inquieto.
— Sabes que não podes nos enganar. — Afirmou o segundo, que estendeu a mão em
direção a ela, se surpreendendo logo após. — Mas o quê? Mary, o que houve com seu
terceiro olho?
Mary soltou um riso misturado a um suspiro.
— Eu o destruí. — Levantando sua franja e revelando uma cicatriz no local de seu antigo
terceiro olho, espantando a todos os anciões. — E as graças de Rafael... — Ela abriu todas
suas 7 asas. — ...eu as assimilei, e me tornei uma Querubim.
— IMPOSSÍVEL, COMO UMA MERA HUMANA CONSEGUIRIA SUPORTAR TAL PODER? —
Respondeu o ancião incrédulo visivelmente exaltado.
— Vocês sabiam a verdade por trás do Culto de Adamas, não sabiam? — Questionou Mary,
com um olhar sério, irradiando poder de suas asas. — Sabiam que ele “resgatava“ crianças
órfãs, e nos obrigavam a matar umas as outras, para sermos dignas de nos juntar ao Culto,
nos fazendo lavagem cerebral com esse maldito olho. — A voz de Mary tremulava, junto a
lágrimas que escorriam por seu rosto.
Os anciões se mantiveram em silêncio durante um longo tempo.
— Me falem a verdade... AGORA! — Seus olhos emanaram uma tênue luz branca, fazendo
todos os anciãos confessarem logo após.
— Sim, nós sabíamos. — Confirmou um deles, surpreso por ter revelado a verdade.
— Nós que ordenamos esse experimento, queríamos criar jovens fiéis a Igreja, por
quaisquer meios necessários. — Outro completou, se contorcendo em seu assento,
tentando parar de falar.
— A verdade mesmo Mary... — O terceiro ancião lutava contra a autoridade de Mary. — ...
é que... fo...
Um portal reluzente apareceu por trás de Mary, com uma pessoa misteriosa o atravessando,
e cancelando sua autoridade sobre os anciões.
— Isso não é certo pequena Mary. — Disse uma voz serena.
Mary se virou para tentar o confrontar.
— Quem caralhos é você? — Perguntou com um tom enfurecido.
O ser apenas ergueu seu dedo para Mary, fazendo um sinal de silêncio, e a sua boca
desapareceu por um instante, Mary se desesperou ao perceber que havia perdido sua boca.
— Shh... faça silêncio, não gosto deste tipo de palavreado. — Expressou ele, acendendo
todas as velas e luminárias à sua volta, revelando sua aparência, uma figura alta, de
aparência andrógina, um rosto delicado e expressão serena, longos cabelos branco
cacheados, e olhos azuis como a água cristalina.
O ser avançou um passo, e cada passo parecia apagar todos os sons do salão. As chamas das
velas dançaram obedientes, inclinando-se na sua direção.
— Finalmente retornou... senhor A... — Murmurou um dos anciões, antes de ter seu corpo
explodido e se tornar uma poça de sangue com um piscar de olhos do ser misterioso, o
sangue dele cobriu os outros dois anciões, que o olharam aterrorizados em um silêncio
profundo.
— Não profira meu nome com essa boca imunda, inseto insignificante.
Mary forçou a energia das suas asas, tentando manter a compostura mesmo sem boca. O
ser inclinou a cabeça, curioso, como um cientista diante de um inseto raro, e com um estalar
de dedos, a boca dela reapareceu.
— Quem é você?! — Mary cuspiu as palavras, com as asas abertas e um olhar ameaçador.
Ele sorriu com desdém.
— Eu sou Azmiel. — Seu nome percorreu por todo o corpo de Mary. — Sou o Seraphim que
guarda o trono de Adamas.
Atrás dele, doze asas se abriram, era um espetáculo de beleza avassaladora e terrível.
Com suas 12 asas abertas, a pressão era sufocante, esmagadora.
— Senhor... — Um dos anciões sussurrou, tremendo.
— Silêncio — Ordenou Azmiel. — Não vim falar convosco, vim lembrar à pequena Mary que
há forças que não podem ser tomadas por si só.
Mary rugiu, canalizando a graça da destruição em um feixe de luz sagrada, o raio atingiu
Azmiel em cheio, explodindo o chão abaixo dele, quando a fumaça dissipou, ele permanecia
ileso, e sua túnica branca sem uma mancha sequer.
— Previsível e patético. — Proferiu Azmiel.
Em um piscar de olhos ele estava à frente dela, encostando os dedos levemente em sua
testa, o toque gelado percorreu seu corpo, todo seu Éter se dissipou instantaneamente, a
fazendo cair de joelhos, sem com que seu corpo respondesse.
— Um reles Querubim que recém saiu das fraldas, pensa que pode tocar em mim? — Azmiel
murmurou com desdém e a expressão vazia. — Voltaremos a conversar quando entender
seu lugar.
Enquanto Mary arfava no chão, distante do salão, atrás de selos e correntes negras, o ser
que os anciões visitaram anteriormente ergueu a cabeça, com longos cabelos negros,
fazendo as correntes que o prendiam tremerem em um som agudo.
— Finalmente retornou... maldito... — Ele rosnou com os grilhões pulsando. — Azmiel...
As paredes estremeceram, as correntes vibravam.
De volta ao salão principal, Azmiel recolheu as asas com um movimento lento.
— Saiba seu lugar. — Ordenou. — E lembre-se, nada do que conquistou é realmente seu.
Mary tentou se levantar, os dedos afundando no mármore rachado, o coração disparado, o
Seraphim não estava mais ali, apenas o frio e o silêncio permaneceram.
— Azm... — Murmurou Mary.
— NÃO DIGA O NOME DELE! — Gritou o ancião, limpando o sangue de seu rosto. — Vá para
seus aposentos Mary.
Mary se levantou lentamente do chão, os encarando seriamente.
— Isso... não acabou. — Respondeu Mary ofegante, com as mãos ainda tremendo.
— Sim, acabou, obedeça os anciões e a igreja, ou eu irei atirar sua doce irmã em um
tormento que a faça clamar para que eu acabe com sua vida. — A voz de Azmiel ecoou pela
mente de Mary.
Seu corpo tremeu diante aquela sentença, ela rangeu os dentes, suas mãos tremiam, e ela
sentia apenas ódio e preocupação.
— Esse ódio é insignificante, você é apenas a ferramenta para o objetivo de meu pai,
obedeça ou pereça. — Azmiel proferiu
Mary caminhou até seu antigo quarto, se deitando e chorando, lágrimas de ódio e tristeza,
algumas horas se passaram e ela adormeceu, mas despertando logo após, ouvindo uma voz
similar a de Azmiel em sua cabeça, mas em um tom completamente diferente.
— Mary... Mary... MARY! — A voz ecoou em sua cabeça, a fazendo despertar. — Não
demonstre nenhuma reação, e faça o que eu te disser.
Mary se manteve deitada, imóvel, ouvindo aquela voz reverberar em sua mente.