Os cidadãos começaram a se retirar
— Esses são os heróis de Aethernys, os nossos heróis. — Disse uma senhora, orgulhosa.
— Cara, aquele Gabriel é mesmo incrível! Derrotar o Alastor... quero ver como vai se sair
contra o Riven amanhã. — Comentou um jovem animado.
— Sempre achei que Amara fosse frágil... mas ela lutou bem. Queria ver mais dela em ação.
— Murmurou uma garota, com um sorriso triste.
— Aeron contra Kaelis foi um duelo injusto... ele é mais um escudo que uma lâmina, mas
aguentou firme. — Observou outro.
— Kaelis é nossa heroína! Claro que será ela a vencedora no fim. — Afirmou um cozinheiro.
— Lilith tem um arsenal insano de habilidades! Colocou toda a arena numa ilusão, aposto
que nem os heróis notaram. — Retrucou outro.
— Pra mim, vai ser o Gabriel. — Disse um senhor de barba branca. — Ele evolui a cada
batalha.
— Eu apostaria no Riven. Está no mesmo nível da Kaelis... talvez até a supere. — Completou
outro.
— Vê, Ast... — A voz de Kalchas embargou. — Nosso garotinho está sendo comparado aos
heróis. Ele cresceu tanto...
— Está se tornando um homem. — Respondeu Astradamas, sorrindo. — E trilhando um
caminho maravilhoso.
Enquanto o povo se dispersava, o rei e os heróis retornavam ao castelo. Mary, ainda
desacordada, despertou nas costas de Lilith.
— Olha só quem resolveu acordar. — Disse Lilith.
— Me põe no chão, eu posso andar sozinha. — Respondeu Mary, tropeçando levemente.
— Vocês duas fizeram um ótimo duelo. Creio que essa rivalidade chegou ao fim, não? —
Perguntou o rei.
— Bom... creio que sim. — Disse Mary, com um meio sorriso. — Mas na próxima, eu não
vou perder pra você.
— E eu vou ganhar de novo, sua pirralha. — Lilith provocou, dando um peteleco na testa de
Mary.
Mary se enfureceu e saiu em disparada atrás dela, Lilith gargalhava enquanto corria.
— Mary não pega ninguém, só pega cocô de neném! — Lilith berrava, provocando mais
ainda.
— Eu tenho só dois anos a menos que você... VOCÊ VAI VER, LILI! — Mary gritou, e ambas
correram rumo ao castelo, deixando os heróis rindo da cena.
— Essas duas... às vezes tenho inveja da juventude de vocês. Nem em meus melhores
sonhos eu me vejo correndo assim de novo. — O rei comentou com um sossego nostálgico.
— Pare de modéstia. Já li contos sobre Sua Majestade, “A Lâmina sem Sombra”. — Aeron
retrucou.
— “A Lâmina sem Sombra”? O senhor já manejou uma espada? — Gabriel perguntou,
curioso.
— O QUÊ? — Aeron cortou, e logo em seguida começou a vangloriar o rei. — Ele era o
melhor espadachim da região, “Uther, o Exército de Um Homem Só”, o homem que derrotou
centenas de guerreiros desarmados. — Aeron elogiava, enquanto o rei corava.
— Hohoho, por favor, isso já faz décadas. Agora sou apenas um ancião de cinquenta e
poucos anos tentando guiar a nova geração. — O rei riu, modesto.
— Mesmo assim, majestade, o senhor foi e ainda é uma lenda. Foi lendo sobre seus feitos
que eu decidi me tornar herói, junto com Kaelis. — Riven respondeu, emocionado.
— Não se diminua tanto, majestade. o senhor nos incendiou e nos guiou — Completou
Kaelis, sincera.
O rei continuou caminhando em silêncio, lágrimas discretas escorreram pelo rosto.
— Idiotas... — Murmurou, sorrindo entre dentes.
O restante do caminho foi calmo até chegarem ao palácio, onde o rei ordenou um banquete
em honra aos heróis.
— Aliás... onde estão aquelas duas? — Perguntou o rei.
Um soldado correu até ele, ofegante.
— Majestade, graças aos astros... — Arfou o soldado — ...as senhoritas Lilith e Mary estão
causando um alvoroço pelo castelo.
O rei caiu em risadas ao ouvir isso, enquanto os gritos das duas ecoavam pelos corredores.
— EU VOU ARRANCAR SUAS ASAS NO DENTE, MARY! — Lilith gritava.
— VEM QUENTE QUE EU TÔ FERVENDO, CHULEZENTA! — Respondeu Mary, igualmente
exaltada.
Kaelis avançou na frente do rei e manifestou seu Thyr pelo castelo.
— AS DUAS, DESÇAM IMEDIATAMENTE ANTES QUE EU ARRANQUE O COURO DE VOCÊS NO
TAPA! — Ordenou, furiosa.
No mesmo instante, as duas desceram as escadas, trombando uma na outra, ofegantes e
risonhas, encerrando a perseguição como só irmãs seriam capazes.
— O... oi, Kaelis... como vocês estão? Hehe... he. — Lilith gaguejou, visivelmente nervosa.
Mary, por sua vez, se levantou rápido e ficou de joelhos, sem coragem de encarar Kaelis.
Mesmo sem olhar, sentia no ar uma pressão sufocante, como se fosse ser esfolada viva a
qualquer momento.
— As duas — Kaelis cruzou os braços, com o olhar afiado — Se troquem imediatamente,
arrumem toda a bagunça e nos encontrem no salão. O rei ordenou um banquete em nossa
homenagem. E nem mais um pio. Fui clara?
— S-SIM! — Responderam em uníssono, saindo quase tropeçando uma na outra enquanto
corriam pelos corredores.
De volta ao quarto, após arrumar toda a bagunça causada anteriormente, Mary se jogou de
costas na cama, contrariando a ordem.
— Piu... — Murmurou baixinho.
Depois de um banho rápido, se vestiu às pressas e encontrou Lilith no corredor. As duas
seguiram juntas até o salão, trocando farpas pelo caminho. Quando chegaram, viram a longa
mesa repleta de pratos e bebidas.
— Lilith, sente-se ao lado de Riven. — E você, Mary — Kaelis ergueu uma sobrancelha e
apontou para o assento ao seu lado. — Aqui. Por favor.
— S-sim... — Respondeu Mary, cada passo parecendo mais uma sentença.
Assim que se sentou, Kaelis se virou para ela com um sorriso doce demais para ser seguro.
— Eu posso estar enganada... mas juraria ter ouvido um “piu” vindo do seu quarto há
pouco. Gostaria de me esclarecer o que foi isso? — Perguntou num tom perigoso.
O salão inteiro congelou. Gabriel parou até de respirar. Lilith juntou as mãos, rezando
silenciosamente pela alma da irmã.
— B-bom... tinha um passarinho... na janela... e eu o afugentei. S-só isso. — Tentou
explicar Mary, o suor escorrendo pela testa.
— Entendo. — Kaelis assentiu, cortando um pedaço de carne e servindo Mary com um gesto
elegante. — Realmente, os pássaros costumam visitar nossos quartos.
De repente, ela cravou a faca no prato com tanta força que atravessou o prato junto ao
carvalho maciço da mesa. — Mas saiba... eu não sou muito fã de passarinhos.
Mary assentiu várias vezes, engolindo seco balançando a cabeça.
Logo após o rei deu início ao banquete. As conversas se espalharam pelo salão, risadas,
bebidas. Riven provocava Amara, que ameaçava socá-lo enquanto Alastor gargalhava. Kaelis
e Aeron bebiam, Lilith e Mary trocavam risadas, e Gabriel, sereno, apenas observava tudo
em silêncio.
— “Isso... é real mesmo, eu estou na mesma mesa em que os heróis, eu... sou um deles” —
A mente de Gabriel, enquanto ele sorria discretamente.
— Nada de ficar com uma expressão tão desanimadora agora Gabriel. — Disse Kaelis, dando
um tapa em suas costas. — Se anime, você derrotou o Alastor em um duelo.
Ele olhou em direção a Alastor no mesmo instante.
— Na próxima eu vou definitivamente acabar com você garoto. — Declarou Alastor.
— Não vai nadaaaa, ele acabou com você com um único golpe. — Retrucou Aeron,
enquanto gargalhava junto a Riven.
— Pelo menos meu irmão lutou até o final e não fugiu com o rabinho entre as pernas da
batalha seu monte de músculo sem cérebro. — Recrutou Amara, o provocando.
— Hahaha, ora sua... — Aeron ia responder, mas Gabriel os interrompeu por um instante, se
direcionando ao rei.
— Majestade... agora que eu percebi. — Todos voltaram sua atenção para ele. — O senhor
não é viúvo. — Supôs ele olhando para o trono do rei, reparando no trono ao seu lado, com
uma aparência e adornos mais delicados. — Com o perdão da minha intromissão, mas onde
está a rainha? — Gabriel perguntou inocentemente.
— Verdade, parando para pensar, já faz um bom tempo que não a vejo, até tinha me
esquecido dela. — Riven completou.
O rei pôs seus talheres de canto.
— Ygerna... — Murmurou o rei. — Já se fazem alguns anos, mas ela saiu para uma “tarefa”.
— Afirmou o rei.
— Tarefa? — Gabriel questionou.
— Ao contrário de mim, que me aposentei como herói e aventureiro com a idade, ela ainda
sente a chama da juventude arder mesmo com sua idade, e após um sonho esquisito a
respeito de um lago, ela foi averiguar. — Informou o rei.
— E o senhor a deixou a sós nesta jornada? — Gabriel perguntou.
O rei riu de início, junto a Kaelis e Riven.
— Rapaz... eu entendo sua preocupação, mas quando se trata da Yge... ela facilmente
superaria todos os heróis aqui presentes em um duelo, ainda que ao mesmo tempo, e
mesmo com suas novas armas. — Alegou o rei.
Gabriel se espantou com a declaração, ficando em choque por um instante.
— A rainha... é tão poderosa assim? Gabriel murmurou.
— Gabriel, o rei era conhecido como a Lâmina sem Sombra, era considerado um dos
espadachins mais fortes do continente, e o mais forte de Aethernys, até que ele foi
destronado pela rainha... Ela era conhecida como “A Lâmina de Aethernys”, e foi mestra de
Kaelis. — Informou Aeron, Gabriel se espantou ao ouvir aquela declaração.
— A vitalidade daquela mulher... é surreal para alguém daquela idade. Eu não me preocupo
com ela, mas ainda assim sinto sua falta. Já se passaram quase quatro anos desde sua
partida... — O rei fez uma pausa, fitando o vazio por um instante. — Me pergunto onde ela
está agora, se já encontrou o lago de sua visão. — Completou. — Mas ela não está só. Sua
irmã, Vivian, está a acompanhando e, apesar de seu temperamento... ela é uma maga
incrivelmente talentosa.
Algumas semanas antes, em algum lugar do mundo, a quilômetros de distância de
Aethernys, duas figuras caminhavam lentamente sobre o topo de uma montanha gélida.
Cobertas por diversas camadas de roupas, cachecóis e toucas, avançavam contra o vento
cortante até chegarem à beira de uma imensa cratera, no coração da montanha.