Gabriel sorriu ao sentir o sol no seu zênite, ao meio-dia.
— Sim...
Ele ergueu a espada, e toda a luz do do sol convergiu para seu corpo. Um anel flamejante
surgiu ao seu redor, como uma coroa solar. O calor tornou-se insuportável até mesmo para
os espectadores, as pedras começaram a derreter.
— Clypeus Coronae! — Gabriel conjurou.
Toda a dor, cada ferimento, cada impacto sofrido foi devolvido ao mundo em uma única
onda incandescente. A erupção solar expandiu-se como uma aurora viva, dourada e
silenciosa, e em um instante tudo foi consumido pela luz. Quando a explosão cessou,
restaram apenas cinzas cintilantes dançando no ar. Gabriel estava ajoelhado, a espada
cravada no chão, o corpo envolto em chamas suaves, Riven estava inconsciente ao lado, vivo
graças à barreira de Mary. Um silêncio pairava por toda a arena.
— Ele... venceu... — Murmurou Kaelis em um tom de surpresa.
Kaelis estava notavelmente incrédula, mostrando uma empolgação contida enquanto
apertava sua lança, que reverberava seus sentimentos junto a ela.
— GABRIEELLLL!!! — Kalchas rugiu. — ESSE É O NOSSO GAROTO!
Astradamas, por outro lado, apenas observava em silêncio a vitória de seu filho. Os olhos
marejados, secou discretamente as lágrimas antes que caíssem, com um sorriso orgulhoso
ao ver onde Gabriel havia chegado, Gabriel se levantava e caminhava cambaleando em
direção a Riven.
— Eu... venci... — Arfou, exausto, antes que Mary os teletransportasse para a arquibancada
Gabriel caiu na cadeira exausto ao lado dos demais heróis, enquanto era curado junto a
Riven.
O rei se levantou, caminhando à frente.
— Mas que espetáculo de luta. — Afirmou o rei comovido. — A vitória é de Gabriel! —
anunciou.
Segundos depois, Mary reconstruiu a arena e o domo com um único bater de suas asas.
— A seguir... — Antes que o rei terminasse, Kaelis se levantou com um brilho animado nos
olhos, emanando seu Thyr e Éter de maneira tão intensa que todo o reino de Aethernys
pôde sentir.
— Ei... você tá mesmo muito empolgada, não é? Tá deixando até sua aura vazar. — Alertou
Aeron.
— Desculpa. — Kaelis respirou fundo e se controlou.
— ...Ahem... — O rei retomou. — A seguir, o embate entre A Heroína Mais Forte de
Aethernys, Kaelis... — Anunciou, enquanto ela saltava da arquibancada para a arena
recém-reformada por Mary, agora maior que antes. — Contra A Encarnação do Éter Arcano,
a maga mais forte do continente, Lilith.Quando todos olhavam para ela na arquibancada, a
imagem residual de Lilith começou a se desfazer. Num piscar de olhos, Lilith surgiu em frente
a Kaelis, que já encarava o ponto exato onde ela apareceria, antes mesmo de ela chegar.
— Você acabou de decretar sua derrota. — Kaelis a provocou.
— É o que veremos. — Lilith retrucou.
— Bom... então que se inicie agora o último duelo de hoje. — Decretou o rei.
Kaelis deu um pequeno salto para trás, enquanto Lilith se transformava em volta em chamas
e voava em direção ao céu.
— LUA NEGRA! — Lilith conjurou.
A antiga cúpula da Lua Negra negra tornou-se translúcida, se expandindo até cobrir não só a
arena, mas todo o castelo.
— Ela envolveu o castelo inteiro. — Mary murmurou, surpresa.
Dois círculos surgiram no chão, e deles brotaram correntes em alta velocidade, prendendo
os braços de Kaelis que permanecia imóvel, outro círculo formou-se sob seus pés, liberando
uma torrente de chamas negras e sagradas.
— O que ela pretende...? Ela não está me subestimando... está? — Lilith sussurrou para si.
As chamas se dissiparam no mesmo instante, com um único giro da lança de Kaelis, como se
o fogo e as correntes fossem deformados pela ponta de sua arma.
— Ela... dissipou? — Lilith murmurou, atônita.
Num salto súbito, em alta velocidade, Kaelis cortou a bochecha de Lilith e pousou no topo da
barreira de Mary, se sustentando com seu Éter. Antes que respirasse, dezenas de círculos
arcanos se formaram em volta de Lilith, disparando elementos em sequência. Kaelis saltou
com tamanha força que rompeu o domo, avançando em direção a Lilith enquanto desviava
ou refletia cada ataque. O céu noturno brilhou com trilhas de luz, e a plateia assistia em
completo silêncio.
— “Essas duas... isso é surreal.” — A mente de um espectador divagava enquanto ele
assistia.
Uma nuvem de poeira se ergueu, e de dentro dela Kaelis avançou, mas Lilith, usando
gravidade, esmagou Kaelis contra o solo. A arena estremeceu e se fragmentou. Mas Kaelis se
levantou firme, resistindo à gravidade. Lilith então invocou uma criatura colossal de chamas
negras, cabeça de crocodilo, jubas e patas misturando leão e hipopótamo, envolta por
relâmpagos sombrios. A fera avançou. Kaelis se libertou da pressão gravitacional e avançou.
A Estrela Singular pulsava intensamente. Ela a segurou com as duas mãos, separando-a em
duas espadas, uma de lâmina negra e adornos dourados suave e a outra branca como a luz e
adornos azuis. Com a lâmina negra, partiu a criatura ao meio, absorvendo seu Éter, e com a
lâmina branca liberou essa energia em puro Éter, amplificado graças ao seu Thyr.
— Mas o qu—?! — Lilith arregalou os olhos ao ser atingida pelo golpe.
Da fumaça, conjurou quatro feixes de chamas negras com cabeças de cães, que avançaram
contra Kaelis. Ela se preparava para absorvê-los novamente, mas um portal abriu-se sob seus
pés, sendo envolvida e congelada por gelo negro, os quatro cães a atingiram, explodindo em
chamas.
— Ela conseguiu. — Afirmou Gabriel.
— Ela acertou a Kaelis mesmo. — Respondeu Aeron.
Riven despertou instintivamente, sentindo um desconforto estranho.
— Mas o quê...? — Murmurou zonzo.
— Você perdeu pro Gabriel, e a luta da Kaelis contra a minha irmã começou, a Lili acabou de
acertar ela. — Explicou Mary.
Riven, ainda confuso, sentou-se para assistir. Lilith voava para perto da Lua Negra, abrindo as
asas de costas para ela.
— Impetus. Indução de Dor. Gravidade. Destruição. Reconstrução. Eletromagnetismo...
Furor Nephilae. — Lilith conjurou a Manus Dei de Rafael, condensando todos os elementos
de seu Éter em uma esfera negra que distorcia o espaço ao redor.
Da fumaça, Kaelis surgiu, sem um único ferimento.
— Mas o que é aquilo? — Riven sussurrou.
— Ela... despertou? — Gabriel murmurou.
Nas costas de Kaelis, formou-se um círculo negro com quatro traços que o atravessavam sem
se tocar.
— Vamos lá, Estrela Singular... — Kaelis murmurou, saltando em direção ao ataque. —
...me mostre do que é capaz!
Ela avançou golpeando o golpe de Lilith, enquanto Lilith resistia e aplicava força contrária. A
pressão dentro do domo reverberou para além de Aethernys, por todo o continente. A
pressão gerada pela Furor Nephilae reverberava, e podia ser sentida por todo o continente.
— É como a Manus Dei do Rafael... — Riven murmurou.
— Mas essa é mais concentrada, e muito mais perigosa. — Gabriel respondeu, com uma
expressão séria.
Os olhos de Mary brilhavam, fixos em Kaelis.
— Ela está... evoluindo.
— Droga... — Lilith rosnou entre os dentes.
O domo e a Lua Negra de Lilith começaram a rachar. Fragmentos translúcidos caíam do céu,
como vidro, mas se desfaziam antes de tocar o chão. A força de Lilith desmoronava, junto a
ela que despencava, Kaelis descia dos céus como um cometa branco e negro. Seu golpe
atravessou a Furor Nephilae, cortando-a em um único arco, e seguiu adiante, direto sobre
Lilith. O impacto rasgou o domo de Mary, e o som do colapso percorreu todo o continente
como um trovão.
— É isso. — Gabriel sorriu, de nervoso. — Ela ganhou.
— É... essa é a nossa Kaelis. — Aeron respondeu.
— Irmã... — Mary sussurrou.
Riven permaneceu em silêncio, apenas observando. Kaelis pairava no ar, enquanto a poeira
se assentava, com a espada repousando sobre o ombro.
— Chega dessa palhaçada. — Disse, calmamente, descendo em direção à arena.
O Éter gravitacional da Estrela Singular expandiu-se dela como um eclipse distorcido. A força
cobriu toda a área da antiga Lua Negra, e mais além. O espaço ondulou. O céu se curvou. A
realidade rangeu, e então como vidro refletindo algo que não existe, a imagem de Lilith
caída se quebrou.
A verdadeira Lilith estava acima, sorrindo. Intacta.
— Então era isso... — Riven expressou, sentindo o peso em seu peito finalmente se esvair.
— Uma ilusão, e não tão perfeita.
— Ela... percebeu o trunfo da Lili... — Mary murmurou, incrédula. — COMO?!
Kaelis pousou no chão com suavidade. Olhos calmos. Nenhuma hesitação.
— Agora, Lilith... acabou.
Lilith sorriu. De leve. Perigoso.
— Não, Kaelis. Agora é que começa.
O Éter corrompido dela se acendeu de novo. As asas se abriram. O sangue escorreu de um
corte no rosto, mas o olhar era de êxtase.
— A lua ainda não caiu.
E no alto, a Lua Negra, trincada, começou a girar, dando a Lilith um aumento temporário de
poder antes de se extinguir por completo.
— Agora que a Kaelis desfez a técnica da Lilith, aquele incômodo que eu sentia desde que
ela ergueu a Lua Negra finalmente sumiu. — Gabriel comentou.
Todos se viraram para ele.
— Então você também sentiu? — Riven perguntou.
Gabriel apenas assentiu balançando com a cabeça. O símbolo nas costas de Kaelis mudou, se
transformando em uma espiral negra novamente, ela avançou contra Lilith, que tentava
contê-la com gravidade, correntes e feras de elementos negros. Kaelis ergueu a mão à frente
dos ataques, todos se distorceram e foram condensados em uma pequena esfera negra
pulsante ao fechar de sua mão.
— Ensis... CANNON SINGULARIS. — Kaelis lançou a esfera.
O projétil cresceu de forma descomunal, Lilith tentou escapar voando para fora do alcance,
mas Kaelis a puxou de volta com o Éter Gravitacional, forçando-a ao centro da explosão.
— Até quando isso, hein, Lilith? — Kaelis murmurou com um sorriso nervoso.
Mais uma vez, a ilusão de Lilith se estilhaçou com o ressoar do Éter de Kaelis, a verdadeira
estava ao sua frente, tentando tocá-la para induzi-la ao sono. Mas Kaelis girou a lâmina para
trás, acertando onde Lilith realmente estava, ignorando a ilusão a sua frente, liberando todo
o Éter acumulado em uma explosão à queima-roupa. Lilith foi lançada para fora da arena,
ainda no ar, tentando se recompor, Lilith encarou Kaelis, que ergueu a mão novamente,
comprimindo seu Éter e Thyr, imobilizando-a.
— Cannon Singularis. — Repetiu.
A explosão atingiu Lilith em cheio, e ela caiu inconsciente para além da borda da arena.
— Ela... ela voou para fora da arena! — Exclamou uma espectadora.
— Se continuar assim, vai cair até fora das arquibancadas! — Respondeu outro.
Antes que isso acontecesse, Mary a teleportou para a arquibancada, deitando-a ao seu lado.
— Você lutou bem, irmã. — Disse Mary, fazendo um cafuné em Lilith desacordada.
No centro da arena, a espiral nas costas de Kaelis começou a se desfazer, ela apoiou a
espada no ombro.
— Phew... — Suspirou.
O rei se levantou logo após.
— A vencedora é Kaelis. Com isso, encerramos o último duelo de hoje. — Declarou, e antes
do público comemorar, completou. — Será concedida uma pausa de quinze dias antes da
grande final.
Um burburinho de indignação tomou conta da arena.
— Vejam bem — O rei ergueu a voz — Sei o quanto todos estão ansiosos para assistir à
batalha entre Kaelis e Gabriel, nosso novo herói em ascensão. Mas ambos enfrentaram
duelos exaustivos nos últimos dois dias. Eles precisam... não! Necessitam de tempo para se
recuperar antes de um combate dessa magnitude.
Os protestos se acalmaram aos poucos, o público começou a se dispersar, comentando
animado sobre os duelos e ansiosos pela final que ocorreria em 15 dias.