Os protestos se acalmaram aos poucos, o público começou a se dispersar, comentando
animado sobre os duelos e ansiosos pela final que ocorreria em 15 dias.
— Cara, eu ainda não acredito que o Gabriel venceu o Riven... — Murmurou um
comerciante.
— Ele tá quase no mesmo nível da Kaelis agora. — Respondeu uma moradora.
— Vai, vai... me paga logo. — Resmungou outro, estendendo a mão.
— Drogaaa, eu jurei que o Riven ia ganhar! — Retrucou o perdedor da aposta.
— Sem choramingar, aposta é aposta!
— Que tristeza ter que esperar quinze dias pra final... — resmungou um garoto, cabisbaixo.
— Já para a cama, rapazinho. Amanhã cedo você tem aula — Sua mãe o repreendeu com
suavidade.
Kalchas e Astradamas permaneceram parados enquanto todos se dispersavam, e então
caminharam até Gabriel, chamando-o para conversarem a sós.
— Meu filho... — Astradamas tentou dizer, mas as lágrimas falaram primeiro, ela apenas o
abraçou com força.
— Veja o quanto você cresceu — Comentou seu pai. — Pensar que, até alguns anos atrás,
você era só uma criança catarrenta, que dependia de nós dois... — As lágrimas também
começaram a escorrer por seus olhos. — ... e veja agora, o quão maduro você está.
Parabéns, meu garoto.
— Obrigado — Gabriel respondeu, abraçando os dois fortemente, antes de voltarem juntos
para dentro do castelo.
— Cara... eu não tava botando fé que o Gabriel fosse limpar o chão com você — Comentou
Aeron.
— Não enche, e ele não limpou o chão comigo — Riven resmungou, arrancando risadas dos
demais. — Limpar o chão seria o que ele fez com o Alastor.
— Oi? — Alastor parou de caminhar. — Eu fui pego de surpresa pelo despertar dele, e
aquela onda de calor parecia mais uma erupção solar, fui totalmente pego desprevenido! —
justificou.
— Tá bom, mal perdedor — Riven provocou.
— Por que você tá provocando se foi você quem perdeu? — Retrucou Amara.
A volta ao castelo seguiu com provocações amigáveis e risadas. Ao mesmo tempo, nos
arredores do reino, três figuras encapuzadas atravessavam os portões sem serem
percebidas. Enquanto isso, outro banquete era organizado pelo rei, embora Gabriel e Kaelis
não estivessem presentes.
— Alguém tem notícias de Kaelis? — indagou o rei.
— A cabeça-dura disse que ia meditar pelos quinze dias sem comer nem beber, para refinar
a mente — Explicou Riven, mordendo um enorme pedaço de carne.
— Bom... e quanto ao Gabriel? — Perguntou o rei novamente.
— Ele me procurou depois de falar com os pais — Respondeu Lilith, tomando um gole de
vinho. — Disse que iria treinar fora do reino durante os quinze dias, levando uma grande
trouxa nas costas.
— Esses dois... — Suspirou Aeron. — Estão levando isso bastante a sério.
O rei ouviu sobre o paradeiro de ambos.
— Eu não os critico, também fiz o mesmo no dia em que pedi a mão de Ygerna em
casamento — Relatou Uther.
— Como assim, majestade? — Perguntou Mary, mordendo um pedaço de carne com tanta
força que respingou molho em sua bochecha, fazendo Lilith se virar para limpá-la.
— Desastrada... — Comentou Lilith.
— Ygerna é uma mulher forte. Não só fisicamente, mas de personalidade também —
Explicou o rei. — No nosso primeiro duelo, ela varreu o chão comigo, foi ali que eu me
apaixonei, comecei a me aproximar dela, e acabamos saindo juntos. Mas, com o tempo, me
lembrei de que ela teria que assumir a posição de rainha, e que os pais dela provavelmente
arranjariam algum pretendente para ela, e... bem... eu fiquei com bastante medo de vê-la
com outro homem, então, decidi conquistar sua mão....
— Em um duelo? — Perguntou Mary.
— Em um duelo, exatamente. — Confirmou o rei, sorrindo. — Me preparei por um mês
inteiro, e no dia marcado a desafiei para um duelo repentino, ela estranhou, mas aceitou,
e... eu perdi de novo, mas dessa vez consegui ao menos acompanhar o ritmo dela, claro,
não acertei um único golpe, mas a fiz suar e ficar séria, coisa que ninguém havia feito até
então, foi aí que me declarei, e ela aceitou, nos casamos no aniversário de 22 anos dela que
inclusive será daqui a quinze dias.
— Me pergunto como eles vão estar no fim desses quinze dias — Comentou Riven.
Alastor permanecia em silêncio, comendo calmamente, então cortou três pedaços de carne
no prato e soltou uma breve risada.
— O que foi, irmão? — Perguntou Amara.
— Aquele Gabriel... talvez ele ganhe da Kaelis — Insinuou Alastor. Havia em seu prato três
pedaços de carne cortadas, um com corte limpo, outro rasgado e o terceiro perfeitamente
cortado por fora, mas completamente destruído por dentro.
— Ei, como assim? Explica pra gente, Alastor! — Aeron pediu, inquieto.
— Não — Alastor recusou. — Vocês descobrem em quinze dias — Respondeu, terminando a
refeição.
Longe do reino, Gabriel caminhava sozinho até encontrar um lugar tranquilo, montou um
pequeno acampamento, caçou um javali sem que ele o percebesse e o preparou.
— Argh... amargo, e muito duro — Resmungou, arremessando um pedaço do osso contra
uma árvore distante a fincando no duro e rígido tronco. — Saia imediatamente! — Gabriel
rugiu.
De trás da árvore surgiu uma pessoa encapuzada, Gabriel a encarou.
— Revele-se —. Mas, antes que a figura reagisse, ele lançou outro osso para um arbusto
atrás de si — de onde surgiu mais uma pessoa encapuzada. — Tsc... agora dois —
Murmurou.
— Errado, são três, tolinho — Disse uma voz atrás dele.
A pessoa tentou atacá-lo, mas Gabriel desviou e contra-atacou, arrancando-lhe o capuz.
— Senhora Ygerna! — A primeira figura encapuzada gritou.
“Ygerna...” — A mente de Gabriel vacilou por um instante. — Maj...
Antes que pudesse completar a frase, foi nocauteado por um golpe certeiro na nuca.
Alguns minutos depois, despertou de volta em seu pequeno acampamento, confuso e com a
lembrança do golpe que ainda doía, olhando a sua volta e vendo as três pessoas, sem os
capuzes.
— Por acaso... a senhora seria... a rainha Ygerna? — Perguntou, curvando-se levemente e
escolhendo com cuidado suas palavras.
— Por favor, “senhora” está no céu. — Respondeu Ygerna com leve ironia. — Não me trate
com tanta formalidade. Eu realmente detesto isso.
Gabriel endireitou a postura, envergonhado.
— Peço pe... digo, foi mal, eu ouvi do rei que estava em uma espécie de missão com sua
irmã... qual das duas seria ela?
— Sou eu. — disse Vivian, dando um passo à frente.
Gabriel ficou por um segundo paralisado, admirado pela beleza dela.
— Wow... — Murmurou baixo. — Er... digo, e quem seria a outra?
A jovem se encolheu atrás de Ygerna, como quem buscava proteção.
— Essa é Morgana, e pretendo adotá-la como filha.
— Com o perdão da pergunta... digo, desculpe... por que vieram atrás de mim? O rei já
sabe que retornou? — Gabriel queria saber.
Ygerna caminhou até ele e lhe entregou uma tigela de sopa de javali, preparada por Vivian
enquanto ele estava desacordado. Gabriel pegou, e sem hesitar, tomou a sopa.
— Nossa! — Exclamou, bufando de satisfação. — Está deliciosa! Como conseguiram deixar a
carne tão macia e saborosa?
— É fácil, quando se conhece o método certo de preparo. — respondeu Vivian com um leve
sorriso.
Ygerna voltou a falar.
— Bom, Gabriel... o motivo de eu ter vindo atrás de você é porque fiquei curiosa — e,
confesso, fascinada, para conhecer o Herói em Ascensão de Aethernys. E quanto ao meu
retorno, gostaria que mantivesse em segredo até o dia da final.
Gabriel assentiu.
— Entendo... mas por que me ver especificamente?
— Porque quero treinar você. Quero ver do que é capaz.
Os olhos de Gabriel se arregalaram. Surpresa, espanto, incredulidade, admiração, tudo o
atingiu de uma só vez.
— A mestra da minha mestra... me treinando? Isso parece um sonho.
— E, além disso, com seu nível atual... me perdoe a franqueza, mas Kaelis te derrotaria
facilmente, e eu quero ver um duelo justo.
— Por isso eu passarei esses quinze dias treinando e aperfeiçoando minhas habilidades...
quero surpreendê-la e vencer ela. — afirmou Gabriel.
Ele piscou, e no instante seguinte, Ygerna desapareceu de sua visão.
— Mas... o quê? — Virou a cabeça de um lado para o outro, procurando ela, mas era tarde.
Um galho encostou em sua garganta.
— Morto. — Declarou Ygerna calmamente.
Gabriel engoliu seco.
— Isso vai além da ocultação de presença do Alastor... — Murmurou.
— Ele usa uma técnica parecida com a minha, uma variação. Mas não tão eficiente. Eu não
escondo minha presença. — Ela afirmou. — Eu me torno parte do ambiente. — Explicou
Ygerna. — É por isso que estou aqui. Quero treinar você, descobrir seu verdadeiro
potencial... ver o quanto sua chama pode arder e queimar, quero saber se é digno de erguer
sua espada em nome do meu reino!
Gabriel respirou fundo, o coração disparado, e com um olhar firme respondeu apenas com
um aceno, ele se tornou o aprendiz de Ygerna, mentora de sua mestra, para confronta-lá no
término dos 15 dias
— Por quanto tempo ainda vamos caminhar? — Perguntou Gabriel, ansioso pelo início do
treinamento.
— Aqui está bom... — Murmurou Ygerna, fitando o horizonte. — ... Estamos perto o
bastante, Vivi.
Vivian ergueu os braços, e uma distorção surgiu ao redor deles, engolindo-os por completo.
Num piscar de olhos, o grupo foi transportado para outro plano. Gabriel e Morgana caíram
ao chão imediatamente, sendo pressionados por uma força avassaladora, enquanto Ygerna e
Vivian permaneciam em pé, ilesas.