Gabriel empunhou a Incisão Solar pela primeira vez em 4 anos, para enfrentar Ygerna uma
última vez, antes do confronto final contra Kaelis.
— Está vazando tanto. — Murmurou ele, sentindo o Éter e Thyr sendo desperdiçado,
controlando-o logo após.
O Éter de Gabriel se estabilizou, em instantes, fluindo como uma maré calma, totalmente
precisa e controlada, ele avançou contra Ygerna, as chamas douradas do Éter contornando
seus braços e a Incisão Solar irradiando um brilho feroz. O primeiro impacto fez o chão
tremer, mas não como ele esperava, Ygerna não recuou, ela apenas deslizou sutilmente, um
passo, tão sutil quanto a curva de um rio desviando de uma pedra. Gabriel golpeou com
força o bastante para partir uma montanha ao meio, mas sua lâmina passou a milímetros
dela como se tivesse sido gentilmente guiada para longe.
— Mais. — Disse Ygerna, sem virar o rosto.
Ele atacou de novo, e de novo. Cada corte, cada investida, cada explosão solar. Tudo
desaparecia antes do contato, mas não por que ele errava ou ela bloqueava, mas porque
algo na trajetória simplesmente... cedia, mudava, escorria para longe dela, como se o
próprio golpe não quisesse acertá-la. Gabriel cerrou os dentes, ascendendo o Éter Solar
— Classe C — O calor começou o ondular como uma auréola ao redor de seu corpo.
Após alguns anos de treino e aperfeiçoamento, Gabriel dominou o Éter Solar, mesmo sem o
contato direto com a espada, o Éter ficou gravado em seu ser, e após um rígido treinamento
ele o controlou, e criou um sistema que reflete seu domínio técnico em escalas de A-B, até
progredir em um nível de poder destrutivo, de C até X. Após alguns segundos o ar em volta
dele se distorceu, o chão se rachou até a luz a sua volta tremulava.
— Certo... — murmurou Gabriel. — Sem brincadeiras.
Ele pisou, explodindo em direção a ela com.
— Aetherflare. — Avançou, a lâmina emanando chamas brancas, liberando energia radial
solar concentrada.
Ygerna suspirou, deu um único passo para o lado, e tocou o ar com o dedo, e isso foi o
suficiente para fazer o ataque de Gabriel colapsar sobre si mesmo, a luz se dobrou e um
clarão surgiu, logo após se partindo em fragmentos luminosos que evaporaram antes de
atingir o chão. Gabriel recuou meio passo, os olhos arregalados.
— O que... você fez? — Gabriel indagou.
— Eu alterei o fluxo. — Respondeu friamente.
A diferença era brutal, contra Alastor ele conseguia lutar, contra Riven, trocar golpes e até
mesmo defender, mas contra Ygerna, ele não conseguia sequer encostar nela.
— 4 anos... e ele ainda não encostou na senhorita Ygerna. — Comentou Morgana, os
encarando.
Vivian, por outro lado, cruzou os braços.
— Ele finalmente sentiu. — Comentou.
— Sentiu o quê? — Perguntou Morgana, sem tirar os olhos dos dois.
Vivian suspirou, apontando o queixo na direção de Ygerna, que avançava com elegância
predatória.
— O Éter ridículo dela. — Disse Vivian.
Morgana piscou, confusa.
— Ridículo?
— Sim. Disse Vivian com desdém — Maré e Ponto. — Dois poderes absolutamente inúteis e
fracos.
Gabriel tentou um corte diagonal, mas Ygerna tocou o pulso dele com a lateral da
Cael’Dranyr, a força do golpe escorreu pela lâmina como água... e desapareceu no ar.
Gabriel quase caiu para frente, desequilibrado, sem entender como sua energia havia se
dissolvido, Vivian continuou, agora com uma expressão amarga.
— Ygerna transformou esses dois poderes imbecis em armas absolutas.
Morgana virou-se para ela.
— Como assim?
Vivian ergueu um dedo, apontando para o duelo.
— Maré, ela pode sentir e manipular qualquer fluxo, líquidos, o ar, até mesmo energia
cinética até mesmo outros Éteres, e a própria luz. — Apontou o outro dedo.
— Ponto, ela detecta o ponto fraco natural de qualquer golpe, postura, e técnica, um toque
dela, e o ataque se desmancha sozinho.
Vivian deu um meio sorriso, abaixo delas, Gabriel tentava atacar.
— Corona Flamma. — A espada se acendeu em chamas, para repelir os ataques de Ygerna,
mas as chamas se dobraram antes mesmo de se formarem.
Seu próprio fluxo de Éter estava sendo redirecionado contra si, ele cambaleou um passo
para trás. Vivian concluiu, como se estivesse explicando algo óbvio.
— Com a Maré, ela leva toda a força do ataque para o ponto certo, com Ponto, ela encontra
exatamente onde tudo colapsa... e com os dois... — Vivian abriu a mão, indicando Ygerna,
que apenas inclinou a cabeça para desviar de um golpe que Gabriel teve certeza de que
acertaria. — ...ela desmonta qualquer coisa no momento em que você cria.
— É uma técnica tão absurda que parece trapaça. — Comentou Morgana, com os olhos
arregalados.
Ygerna não está desviando, não está bloqueando, nem mesmo lutando contra Gabriel. Ela
desfazia todos os seus golpes, como se não existissem. No campo, Gabriel respirava fundo.
Ygerna caminhava em sua direção, a espada apoiada no ombro, serena, impecável.
— Agora que você percebeu... — Ela disse, os olhos fixos nele. — ...comece a lutar de
verdade, Gabriel.
Gabriel sentiu o estômago afundar, por que pela a primeira vez em 4 anos, Ygerna estava o
levando a sério. Gabriel pensava em diversas formas e meios de contra-atacar o Éter
impassável de Ygerna. Ele avançou, mas desta vez sem formar um golpe, ele irrompeu, o Éter
Solar explodiu ao redor dele em uma esfera irregular, um sol em miniatura, Ygerna não
recuou, ela ergueu a Cael’Dranyr levemente para o lado, e o sol foi repartido em três.
— Fluxo demais eu dobro. — Ela murmurou, pisando firme no chão, estilhaçando o solo sob
a pressão.
Gabriel franziu o cenho, então tentou outra coisa. Ele expandiu o Éter Solar para uma
descarga instantânea, sem trajetória, sem preparação, apenas Éter puro surgindo de um
vazio, um clarão, seco, veloz demais para ter direção. E, pela primeira vez, Ygerna precisou
reagir antes de entender. Uma parte do golpe atravessou, lambendo o ar ao lado de seu
rosto e vaporizando o ar numa linha fina. Ela moveu a espada um milímetro, e aquele único
milímetro foi suficiente para que a luz seguinte fosse desviada para o alto.
— Isso foi perigoso. — Ela admitiu sussurrando, quase sorrindo.
Gabriel sentiu algo como uma vitória ínfima, mas real, então aumentou. Outra explosão
omnidirecional, maior, depois outra, depois outra, camadas, erupções, marés de chamas,
surgindo num pulso sem ritmo, sem continuidade lógica. Não havia direção para manipular,
Ygerna se jogou no meio das explosões. A Maré dela não tentou dobrar a totalidade da
explosão, mas abafava as bordas, onde o solar crescia caótico, ela caçava micro
instabilidades, as falhas no Éter, e os esmagava com precisão tão fina quanto cruel, e então
ela girou o punho, Gabriel viu e entendeu.
— Ponto. — Ele sussurrou quando sentiu o golpe dela desmontar seu ataque no exato
instante em que sua emissão vacilou.
Ela não lia sua técnica, ela lia seu ritmo interno, pequenas hesitações microscópicas em seu
foco, mínimas quedas no controle, e milésimos onde seu Éter oscilava, ela o rompia, ele se
enfureceu levemente, sentindo-se sempre superado por sua mestra, e desistiu de focar, das
técnicas, das intenções. Ele explodiu o campo, como uma estrela em colapso, uma
supernova, a explosão não veio de um ponto, veio de todo o corpo, simultâneo, bruto, a
terra derreteu, o céu sumiu por alguns segundos, as rochas ao redor viraram fumaça, e
Ygerna foi arrastada dois passos para trás, ela firmou os pés, o solo rachando sob as botas, e
o ar ao redor dela tornou-se um vórtice de energia retorcida, Maré em estado de fúria
silenciosa.
— Agora sim. — Disse ela.
Gabriel arfou, suando,e de longe, Vivian estreitou os olhos.
— Ele não vai durar mais que alguns ataques desses... — Ela murmurou. — E quando ele
vacilar de novo... ela vai destruir o fluxo dele.
Morgana engoliu seco.
— É essa... a força da mestra?
Vivian assentiu, quase com desprezo.
— Maré. e Ponto, dois Éteres que qualquer idiota chamaria de inúteis, até ela transformar
eles em algo capaz de dobrar um sol e desmontar um colapso estelar com um único passo
errado.
Ygerna respirou fundo, erguendo a Cael’Dranyr, um Thyr emanava, Dominus, o ar ao redor
dela ficou imóvel, e Gabriel soube, instintivamente, que ela finalmente havia decidido ir
sério.
— Vamos continuar, Gabriel, mostre o que você aprendeu em 4 anos.
Ele apertou a Incisão Solar com força e avançou, emanando o próprio Dominus, os olhos de
ambos emanavam pequenas luzes carmesins e negras, que causavam leves fissuras na
realidade.
— Ensis, Bulwark. — Gabriel avançou golpeando com a lâmina vermelha alaranjada,
enquanto o Dominus dobrava levemente o ar ao redor da lâmina.
Ygerna sorriu, pela primeira vez usando a Cael’Dranyr para atacar, golpeando em direção a
Gabriel.
— INTERESSANTE GAROTO... — Comentou, cobrindo sua espada com Ensis e Bulwark igual
Gabriel.
E o choque veio, as lâminas não colidiram, elas se repeliram, mas o impacto foi tão severo,
que todo o planeta entrou em colapso, o próprio núcleo se desestabilizou e o planeta
começou a morrer lentamente, pequenas erupções aconteciam, a lava emergia do solo.
Mesmo parecendo que ambos estavam em pé de igualdade, Ygerna deu um passo a frente,
se sobressaindo sem esforço e empurrando Gabriel longe, a uma velocidade tão absurda
que o solo a baixo dele simplesmente era destroçado com a velocidade, colidindo com uma
montanha do outro lado do continente, a despedaçando por completo com um único
impacto.
— Gabriel... — Morgana murmurou preocupada.
Gabriel se ergueu no mesmo instante sobre os escombros, com pequenas escoriações, mas
sorrindo, enquanto olhava para cima.
— Meio-dia... — Comentou sorrindo, ambos seus Éteres ativando.
No instante seguinte, os destroços da montanha abaixo dele se liquefazerem, derreteram
igual água enquanto evaporaram e ele disparou em direção a Ygerna, rasgando e queimando
o ar, ao avistar Ygerna de longe ele despertou, seus cabelos crepitavam como labaredas, um
arco solar surgiu ao redor dele, como as próprias labaredas do sol.
— M... Solbrand Tempestas. — Ele rugiu.
Disparando uma enxurrada de cortes de plasma, similar a uma tempestade solar que rasgou
o horizonte como uma muralha de luz viva, cada corte deixava um rastro de plasma tão
quente que o próprio ar se desfazia em partículas ionizadas, enquanto o céu tremia, Ygerna
ergueu o rosto e sorriu como quem presenciasse algo belo e avançou um único passe, e com
a maré, ela desfez metade dos cortes, redobrando-os em uma espiral suave, como se os
golpes fosse apenas água fluindo em volta de seu corpo, enquanto a outra metade, Gabriel
fez questão de tornar imprevisível, brutal, caos puro, cortes sem ritmo, pulsares sem
padrões, mas Ygerna ainda os lia, não os golpes, mas os padrões invisíveis no caos, o ponto
exato onde Gabriel perdia um fragmento de foco, e ali ela visava o ataque, e em um único
movimento ela atacou, a Cael’Dranyr não tocou nenhum dos cortes, ela atacou no ponto do
fluxo dele,e a tempestade solar se fragmentou como vidro, o plasma queimou o solo em
milhares de trilhas tortas, desenhando cicatrizes incandescentes pelo continente inteiro...
mas nenhuma delas chegou perto dela. Gabriel surgiu do meio da luz, avançando, a Incisão
Solar convertida em um pedaço vivo de sol, crescendo em intensidade, ele mirou o pescoço
dela, Ygerna inclinou a cabeça e a lâmina passou tão perto que queimou alguns fios de seus
cabelos.
— Belo golpe. — Ela disse, tranquila, mesmo com algumas mechas carbonizadas flutuando
ao vento.
Gabriel girou a lâmina, descendo novamente, mas Ygerna usou a Maré, não para desviar o
golpe, mas para desviar Gabriel. A força dele mudou de direção no meio do movimento,
como se seu corpo fosse puxado por uma corrente invisível, Gabriel perdeu o ângulo por
meio milésimo, e isso bastou. Ygerna avançou na abertura, a Cael’Dranyr roçou seu peito, e
mesmo sem tocá-lo, o impacto do Dominus que fluía na lâmina abriu uma cratera atrás dele
quando a onda de pressão saiu, Gabriel voou centenas de metros para trás novamente, mas
se estabilizou no ar, envolto por um sol latejante.