Saga 1: Torneio
Como uma cena arrancada de um conto de fadas, o grande castelo se erguia imponente contra o céu — suas torres adornadas com estandartes imperiais, seus jardins pintados de flores vibrantes, suas águas tão cristalinas que dançavam com o próprio reflexo do sol. Um reino de suprema divindade. Um santuário onde nenhum mortal comum jamais deveria por os pés.
A ilha flutuante derivava muito acima do mar aberto, empoleirada sobre as nuvens, onde o azul do céu era mais profundo e puro do que o oceano lá embaixo.
A bandeira do império trazia um desenho que dispensava explicações — uma cruz marcada por três traços centrais. Representava mais do que o maior poder que o mundo já conhecera. Representava aquele que governava tudo.
A Trindade dos Paladinos Divinos. A T.P.D.
A aliança dos três maiores reinos existentes, impondo a vontade dos Deuses sobre cada governo mortal que ousasse se chamar de nação.
Dentro do castelo, um homem de cabelos vermelhos e capa carmesim estava ao lado de um senhor idoso. Os passos do velho eram frágeis e trêmulos, mas ele se conduzia com a dignidade pesada de quem governou por muito tempo e pretendia continuar assim. O salão estava repleto de representantes das mais variadas raças — seres com orelhas de animal, chifres imponentes e feições pontiagudas — todos debatendo política mundial com a ansiedade coletiva de quem havia sido recentemente lembrado de quão frágil era o mundo deles.
O homem de cabelos vermelhos aguentou aproximadamente dez minutos antes que o tédio se tornasse insuportável.
Ele bocejou, escapou do encontro sem cerimônia alguma e vagou pelos corredores do palácio até encontrar o que procurava — um jardim isolado, longe do barulho. Flores que haviam desaparecido há muito tempo do resto do mundo desabrochavam ali com uma insistência tranquila. Espécies que jamais tocariam o solo comum. Espécies que não tinham razão alguma para ainda existir.
Ele não ligava para flores.
Cruzou os braços e caminhou em direção a uma criança que estava entre as pétalas, olhando para elas como se fossem as coisas mais preciosas do mundo.
"O que você acha que está fazendo?" Sua voz saiu severa. "Não disse para você parar de brincar com essas... flores?"
"Pai!" Os olhos do menino se arregalaram, assustados e levemente culpados. "P-perdão! É que..." Ele olhou de volta para as flores, algo genuinamente desarmado em sua expressão. "São diferentes de tudo que já vi. Nunca vi nada tão bonito."
A expressão do homem se endureceu.
Então, silenciosamente, desmoronou.
Por apenas um momento — um único instante desguarnecido — a silhueta de uma mulher pareceu se sobrepor ao rosto do menino. A mesma inclinação da cabeça. A mesma contemplação quieta nos olhos. A mesma suavidade que não tinha nenhum direito de existir num mundo como este.
Ele estremeceu.
Por que vocês dois são tão parecidos?
"Pai? Você parece distraído." O menino inclinou a cabeça. "Aconteceu algo na reunião?"
O homem se conteve, trouxe de volta para o rosto uma expressão controlada e gesticulou com indiferença em direção ao salão atrás dele. "Não. Simplesmente resolvi ir embora." Uma pausa. "Não há nenhuma ameaça real — o Rei apenas insiste que eu fique parado ali parecendo útil."
Deixou a última tensão escapar e voltou toda a atenção para o filho. Seu olhar derivou para o alto, em direção ao céu além dos muros do jardim. "Quando não restam mais adversários fortes... tudo se torna tão tedioso."
"Você podia arranjar um hobby!" O menino animou-se imediatamente, gesticulando para as flores ao redor. "Como eu. Olha — cada flor tem um significado. Algumas representam a liberdade. Outras representam a beleza." Ele tocou uma pétala com absoluta ternura, como se temesse que ela se desfizesse. "E algumas representam o próprio amor. Dá pra ver tudo isso numa única espécie rara, se você souber o que procurar."
O homem ouviu em silêncio.
Então sua expressão escureceu — levemente, apenas o suficiente — e ele se abaixou até o nível do menino.
"Você devia abandonar isso," disse em voz baixa. "E se você treinasse? Ficasse mais forte. Virasse Capitão, como seu pai."
O rosto do menino caiu.
"Pai..." Ele olhou para as próprias mãos por um momento. "Já te disse. Não sou como meus irmãos. Eles querem ser Capitães — querem proteger o reino." Uma pausa, pequena e honesta. "Mas eu sou fraco. Não tenho nem magia. A única coisa que sei fazer é... guiar as vidas que ainda estão por vir."
O homem o encarou.
Não era a resposta que esperava. Não chegava nem perto da resposta que esperava.
E ainda assim — contrariando todos os seus melhores instintos — um sorriso fraco puxou o canto de sua boca. Ele estendeu a mão e despenteou o cabelo do menino com certa rispidez, do jeito que se faz quando as palavras não são bem suficientes para o momento.
"Filho. Me prometa uma coisa." Sua voz baixou, carregando um peso que normalmente não tinha. "Um dia, você vai mostrar a esse mundo todo o seu potencial." Uma pausa, quieta e deliberada. "Seu verdadeiro poder mora no seu coração. Você é... esperança."
Alguns Dias Depois...
"JACK! CUIDADO — O NAVIO VAI VIRAR!"
Jack sorriu torto.
"Relaxa." Sua voz era pura arrogância contra o rugido da tempestade. "Eu jamais vou perder pra algo assim."
Ele estava na proa de um navio que se despedaçava, encarando um monstro marinho colossal que atravessava as ondas como se não existissem. Ao redor dele, seus companheiros gritavam. Navios se partiam em todas as direções. O mundo era caos, sal e barulho — e Jack tinha o controle de tudo isso, sorrindo como alguém que jamais sequer considerara a possibilidade de perder.
Flashes do passado cruzaram sua mente entre os golpes.
Filho, eu prometo. No seu sétimo aniversário, vou te dar a melhor arma do mundo!
O menino estava nervoso — como sempre — mas ofereceu um sorriso quieto mesmo assim. Hahaha, tá bom, Pai. Mas acho que uma arma não vai ser muito útil pra mim.
De volta ao presente, Jack cometeu um erro.
Subestimou a fera.
Traído pela própria certeza, pela suposição de que nada neste mundo poderia realmente tocá-lo — ele deixou uma abertura, e a criatura a aproveitou sem hesitar.
Sangue escorria de seus ferimentos, do mesmo carmesim profundo de seus cabelos. A fera estava a poucos instantes de distância. E pela primeira vez em sua vida, o rosto do homem mais forte do mundo se abriu numa expressão que jamais havia vestido antes.
Desespero.
Ele pensou no filho pela última vez — as flores, o sorriso quieto, a promessa que nunca poderia cumprir.
"JACK!"
A fera diminuiu a distância.
E o engoliu inteiro.
Num futuro não tão distante, o aniversário da criança chegou.
Mas os rumores alcançaram a casa antes que qualquer celebração pudesse começar.
"O quê?" A voz da mulher cortou o cômodo como vidro partido. "Você está me dizendo que meu marido... morreu em combate?" Ela encarou os cavaleiros à sua frente, beleza e fúria dividindo o mesmo rosto sem aparente contradição. "Impossível. Meu marido jamais morreria de forma tão patética."
"Mãe..." Uma mãozinha puxou a borda de sua manga. "O Pai está morto?"
Ela não olhou para ele.
Os filhos mais velhos ficaram paralisados pela notícia — até que seus olhos se voltaram, quase em uníssono, para o menor entre eles. Giyo já sabia o que vinha por aí. Havia aprendido a reconhecer aquilo da mesma forma que se aprende a reconhecer uma tempestade se aproximando — não pela compreensão, mas pelo que o corpo faz quando ela se aproxima.
O golpe veio sem aviso. Um soco no rosto. Sangue do nariz até a boca, quente e imediato. O que se seguiu foi metódico e sem pausa — sua mãe e seus irmãos, juntos — e quando acabou, o jogaram para fora, entre os plebeus.
Sem roupas. Coberto de ferimentos. Afogando-se em algo que ainda não tinha nome.
"Me ajudem... alguém, por favor me ajude..."
Sol e chuva. Dia e noite. As palavras gastas de tanto se repetirem.
Dois anos se passaram.
Uma chuva pesada cobriu o reino de silêncio e cinza.
Um menino se movia por ruas vazias, seus passos absorvidos pelo som da água que caía. Havia muito tempo que ele havia parado de tentar abafar o próprio choro. Não havia mais ninguém para ouvir, e já não parecia mais importar.
"Quanto tempo mais meu corpo vai continuar lutando?" Sua voz mal se qualificava como voz. "Simplesmente... aceita. Desiste logo."
Ele encontrou o grande muro — a fronteira entre plebeus e nobres, entre a vida que um dia teve e o que quer que aquilo fosse agora — e parou diante dele. Pedra. Sólida. Indiferente. Ficou olhando por um longo momento, então desabou, arrastando-se para dentro do beco mais próximo.
A chuva o encharcou completamente.
Seu rosto carregava cicatrizes em espiral que estavam ali há mais tempo do que conseguia lembrar. Suas roupas eram trapos mantidos juntos pela teimosia. Seus olhos tinham o olhar de quem havia desistido de tudo — exceto, teimosa e irracionalmente, pela insistência fraca do próprio corpo em continuar respirando.
Você prometeu. Disse que voltaria.
"DROGA PRA TUDO!"
Sua voz rachou contra as paredes do beco.
A chuva respondeu com nada.
Então — passos.
Rápidos. Deliberados. O som agudo e ritmado de saltos na pedra molhada. Giyo ficou imóvel imediatamente, pressionando-se de volta para as sombras e puxando a escuridão ao redor de si como uma segunda pele.
"Droga, vou me atrasar de novo!" A voz de uma mulher, afiada de frustração. "Não posso perder essa dessa vez — o evento inteiro da escola desmorona sem mim!"
Ela passou pela entrada do beco em velocidade — cabelos escuros, olhos pretos como carvão, segurando uma bolsa numa mão e verificando o relógio com a outra a cada poucos segundos, como se ele lhe devesse algo. Estava quase passando quando ouviu.
Ela parou.
Voltou.
"A-alô?" Sua voz afinou, incerta. "Tem alguém aí?"
Silêncio nas sombras.
Ela se aproximou. Seus olhos se ajustaram.
Um menino no chão, olhando para ela com a imobilidade absoluta de algo que foi encurralado vezes o suficiente para parar de correr. Quando ela se moveu em sua direção, ele recuou imediatamente.
"Fica longe!"
Ela não vacilou. Ajoelhou-se devagar, avaliando o estado dele — os ferimentos, os trapos, o sangue que parecia familiar demais para ser fresco. "Você está bem? Parece que está com dor. Deixa eu—"
Ele afastou sua mão com um tapa.
Então uma crise de tosse o tomou sem aviso. Sangue espirrou de sua boca. As cicatrizes em espiral no rosto se abriram, escorrendo carmesim pelos trapos encharcados abaixo delas.
"O que é isso?" Paola se aproximou apesar de tudo, ignorando o protesto em cada linha do corpo dele. "Nunca vi marcas assim. Parecem... perigosas."
"Mais comuns do que você imagina." Sua voz era áspera e monótona. "Dói. Não é da sua conta."
Ele parou de recuar.
Algo nela — a solidez dela, a completa ausência de medo ou repulsa — foi sugando a resistência dele em incrementos lentos. Ela abriu a bolsa e tirou um lenço sem pedir permissão, e começou a limpar os ferimentos dele com o cuidado objetivo de alguém que já havia decidido que era isso que estava fazendo.
"Não estou aqui pra te machucar," ela disse. "Estava a caminho da escola onde trabalho. Parei porque te ouvi." Ela encontrou seus olhos diretamente. "Meu nome é Paola. Sou professora na Grande Academia do Distrito Nobre."
Um longo silêncio.
"...Giyo," ele murmurou.
"Giyo." Ela repetiu com cuidado, como se quisesse ter certeza de que havia acertado. "O que você está fazendo aqui? É raro ver alguém tão perto da fronteira do Distrito Nobre."
"Venho aqui às vezes." Seu olhar caiu para o chão. "Na esperança de que meu pai volte. Ele desapareceu numa missão real. Não o vejo desde então..."
A expressão de Paola mudou. "Espera — seu pai estava envolvido no Grande Incidente? A última missão real?" Ela expirou devagar. "Sinto muito. Muitos cavaleiros foram perdidos. Mas há rumores de que apenas os Capitães sobreviveram — e pode ser só questão de tempo até que retornem e relatem o que realmente aconteceu."
Giyo a agarrou pelos braços.
O movimento foi súbito e desesperado, e seus olhos se acenderam com algo que não estava ali um momento antes — algo frágil e teimoso e impossível de desviar o olhar.
"Sério?! Isso quer dizer que a notícia que me deram pode ser mentira?"
"É possível," ela disse com honestidade. "A informação veio por terceiros. E envolvendo uma fera marinha?" Um leve tom cortante em sua voz. "A história toda pode ser bem menos confiável do que alguém admitiu até agora."
O luto não foi a lugar nenhum. Mas algo se instalou por trás dele.
Esperança. Pequena, precária, e completamente recusando ser razoável a esse respeito.
Paola olhou para o relógio e entrou em pânico imediatamente. "Meu Deus, vou me atrasar demais — o Diretor vai—"
"Seu relógio está errado."
Ela piscou. "Como assim?"
"Os ponteiros. Estão travados." Ele apontou para o pulso dela. "Não se mexeram desde o momento em que você tocou meu rosto."
Paola olhou para o relógio.
Então soltou um longo e lento suspiro de alívio absoluto. "Graças a Deus..." Ela o olhou com algo novo na expressão. "Estou impressionada. A maioria das pessoas deste lado do muro nunca viu um relógio."
"É porque eu não sou bem um plebeu." As palavras saíram planas, gastas pela repetição. "Tenho sangue nobre. Mas minha família me abandonou." Ele disse sem drama, sem pedir nada disso. "Por isso estou aqui fora. Esperando."
Paola cobriu a boca.
Quando abaixou a mão, algo nela havia claramente sido decidido.
"Vem comigo," ela disse. "Vou te levar ao meu dormitório na escola — considere um agradecimento por me salvar de uma conversa muito desagradável com o Diretor." Ela sorriu, e havia algo quietamente intenso por trás disso. "E já que estamos nisso... gostaria de dar uma olhada mais de perto nessas suas marcas. Descobrir exatamente o que está te deixando doente."
Giyo a encarou por um momento.
Então riu.
De verdade, por completo — a tensão se abrindo de uma vez só, a primeira risada genuína em mais tempo do que conseguia lembrar. Durou apenas alguns segundos, mas pareceu algo se movendo dentro dele.
"Certo," ele disse. "É exatamente o que eu estava pensando."
Ele se levantou. A dor ainda estava lá. A cidade ainda era fria, úmida e indiferente. Mas a brasa no peito havia pegado em algo, e não ia se apagar.
Eles caminharam juntos pela chuva até que os portões da academia surgiram à vista — enormes e inconfundíveis, construídos para fazer você se sentir pequeno, e querendo isso mesmo.
"Bem-vindo à Academia H.I.R.O."
Giyo ficou pálido.
"Claro que você trabalha aqui." Ele se aproximou levemente de Paola sem bem querer, sua voz caindo. "Tem gente lá dentro de quem eu não gosto. Minha família... está matriculada aqui."
Paola o puxou gentilmente para um abraço breve, uma mão pousando em seu cabelo por apenas um momento.
"Vai ficar tudo bem. Estou aqui." Ela se afastou, encontrando seus olhos. "Os exames de admissão são em breve. Quando você passar, terá todo o direito de estar aqui."
"Espero não ter que brigar com ninguém," Giyo murmurou. "Hehe."
"Ah, mas você vai com certeza." Seu sorriso se tornou radiante de um jeito que era, sinceramente, levemente alarmante. "Fufufu. A seleção tem três etapas: Magia, Físico e Psicológico. Dominar a magia e condicionar o corpo é essencial para qualquer um que queira chegar ao topo."
Giyo olhou para as próprias mãos.
Mexeu os dedos.
"Bom..." Ele parecia profundamente, genuinamente constrangido. "Sobre isso. Eu não tenho magia."
Paola congelou.
"...COMO ASSIM?"
Continua...