O-xi-gê-ni-o.
O elemento de oxigênio tem massa atômica igual a 15,999, um número que carrega consigo a imprecisão fundamental de toda medição, nada no universo é exatamente o que dizemos que é, tudo é aproximação, tudo é nossa tentativa de capturar algo que existe independentemente da nossa capacidade de nomeá-lo.
Seu símbolo é a letra "O".
Uma letra que se parece com um círculo vazio, o que é irônico considerando que este elemento é responsável por praticamente tudo que mantém organismos complexos funcionando.
Possui oito prótons, oito nêutrons e oito elétrons que orbitam em uma configuração que os livros de química descrevem como "estável", mas estabilidade é uma palavra enganosa, porque o que torna o oxigênio estável é exatamente sua incompletude, sua fome, sua necessidade desesperada de preencher aquele vazio na camada de valência onde faltam exatamente dois elétrons para completar a oitava, e é precisamente aí que mora o perigo, a reatividade, a fome que faz dele o maior incendiário do universo conhecido.
Tudo que queima, queima por causa dele.
Tudo que oxida, oxida por causa dele.
Tudo que envelhece e se decompõe e retorna ao pó, faz isso sob a supervisão direta deste elemento que compõe 65% da minha massa corporal mas que eu trato como garantido, como se ar fosse um direito adquirido e não um presente temporário que pode ser revogado a qualquer segundo por um simples colapso dos processos bioquímicos que mantêm meu diafragma contraindo e relaxando doze vezes por minuto.
Eu inspiro agora.
Deixo que ele atravesse as membranas alveolares em uma difusão passiva que os livros de fisiologia descrevem tecnicamente como gradiente de pressão parcial—pO₂ arterial caindo elegantemente de 100 mmHg para 40 mmHg venoso, uma queda que seria fatal se acontecesse muito rápido mas que acontece na velocidade exata para manter tudo funcionando—e nesse intervalo microscópico de tempo, aquele átomo de oxigênio se liga à hemoglobina em um dos quatro sítios cooperativos, descrevendo um gráfico sigmoidal que lembra o movimento de uma serpente acordando, primeiro lento e relutante, depois ávido e faminto.
Saturação de 97%.
Nunca 100%.
Porque saturação total é fisiologicamente impossível, porque sempre sobra um pouco de espaço vazio...
É poético, de certa forma.
Esse elemento que compõe mais da metade do meu peso corporal, que está presente em cada molécula de água que bebo, em cada proteína que sintetizo, em cada pensamento que penso—porque pensamentos custam energia e energia custa oxigênio—e ainda assim eu o trato como se fosse infinito, como se fosse garantido, desperdiçando-o em frases como esta, cada palavra custando aproximadamente 500 ml de volume corrente, doze respirações por minuto, seis litros por minuto, 8.640 litros por dia transformados metodicamente em dióxido de carbono e vapor d'água, um ciclo de oxidação que não tem fim até que tenha um fim, até que o gradiente de pressão parcial finalmente pare de funcionar e tudo que sou retorne à atmosfera na forma de gases dispersos.
Mas isso é para depois.
Por enquanto, ainda estou respirando.
Por enquanto, ainda estou desperdiçando oxigênio.
Por enquanto, é isso.
Estação de Kudanshita, Chiyoda
25 de outubro de 2024, 15:29
"As pessoas que sabem exatamente o quão inúteis são e ainda assim continuam respirando, essas são as que mais me perturbam, cara..."
Eu disse isso em voz alta, não porque esperava resposta, mas porque meus pensamentos vazaram para fora.
A garota sentada à minha frente inclinou a cabeça ligeiramente para a direita, um ângulo de aproximadamente quinze graus, o suficiente para indicar curiosidade sem comprometimento.
"É tão estranho assim?" ela perguntou, sua voz carregando aquele tom de diversão controlada que pessoas inteligentes usam quando já sabem a resposta mas querem ver você tropeçar tentando explicar. "Eu acho que é apenas pragmático. Ou talvez seja um desperdício. Ainda não me decidi."
Eu não sabia o que responder a isso.
A pergunta não era difícil mas porque qualquer resposta honesta revelaria muito sobre mim, e revelar coisas sobre si mesmo para estranhos em trens é geralmente considerado má etiqueta social, embora eu nunca tenha entendido completamente o porquê disso.
Fiquei em silêncio.
E ela pareceu satisfeita com isso, como se ela tivesse preferido esta resposta mais eloquente do que qualquer palavra que eu poderia ter dito em voz alta.
O trem chacoalhava em seu ritmo constante, num balanço metálico que é simultaneamente reconfortante e nauseante.
Fechei os olhos por um momento e respirei profundamente.
Quando abri os olhos novamente, ela ainda estava me olhando.
"Você está pensando em algo específico," ela disse, não como pergunta mas como observação, como se pudesse ler os padrões elétricos do meu cérebro através da expressão facial. "Ou talvez esteja pensando em nada."
Eu estava pensando em como aqueles que proclamam aos quatro ventos a sua própria mediocridade, que a ostentam como uma medalha de honra e esperam aplausos pela honestidade brutal, esses eu consigo ignorar com facilidade relativa (não que eu realmente consiga ignorá-los, porque ignorar genuinamente algo requer um tipo de disciplina), mas aquelas pessoas que, em silêncio profundo e com uma calma inadimplente, simplesmente aceitam que não são nada, que sua existência é insignificante, um arredondamento, e mesmo assim continuam acordando todas as manhãs como se houvesse um motivo, essas pessoas me irritam de uma forma que não consigo articular.
"E o que isso tudo tem a ver com qualquer coisa?" ela perguntou, inclinando a cabeça agora para o outro lado, estabelecendo simetria,.
Sei lá.
Honestamente, sei lá.
Eu só sei que não se trata de tipos ou categorias ou da personalidade humana em si.
Trata-se de altitude. Altura.
Trata-se de onde você está posicionado verticalmente.
Pense comigo por um segundo: há pessoas que vivem acima das nuvens, cujos pés nunca tocam o chão porque elas flutuam e a visão é clara, onde tudo faz sentido porque a distância suficiente faz tudo ser mais fácil.
Também existem pessoas que vivem no chão, solidamente plantadas no nível do mar, respirando o ar denso.
E então existem pessoas que vivem dentro das frestas do asfalto ou dentro da crosta terrestre (seja lá como queira chamar), pessoas tão insignificantes que nem vale a pena o esforço de levantar o pé para pisar por cima.
Eu sou uma dessas pessoas.
Já aceitei isso, mceitação não significa felicidade.
"Tipo alguém que, sei lá, consegue falar de trás para frente," eu murmurei.
Eu jamais conseguiria falar de trás para frente, não importa quanto tempo praticasse.
Se eu tentasse, tenho certeza de que minha língua ficaria dormente por pelo menos quinze minutos depois, e eu fico pensando na vergonha que seria se tivesse que visitar um consultório também.
Doutor, eu estava tentando falar de trás para frente e acabei machucando a língua...
Não quero nem pensar nisso...
"O quê?" ela perguntou, genuinamente confusa agora, a primeira vez que sua expressão quebrou daquela máscara de diversão controlada.
"Nada," eu disse.
Ela riu.
Foi uma risada curta, o som que escapa antes que você possa censurá-lo.
"Você é estraaaaaanho," ela disse, e havia algo provocante na sua voz.
"E o que isso faz de você?" ela perguntou novamente, desta vez com mais ênfase, como se a pergunta fosse importante, como se minha resposta realmente importasse para algum cálculo que ela estava fazendo mentalmente.
Eu não respondi.
Porque sabia exatamente qual era a resposta e essa resposta era tão patética, tão fundamentalmente vergonhosa.
Algumas perguntas são retóricas não porque quem pergunta não quer resposta, mas porque a resposta honesta é tão frágil, tão vulnerável ao contato com o ar externo, que ela se desintegraria no momento em que deixasse os lábios,
O mundo é misericordioso e gentil com os desatentos, sim.
É brutal, e digo isso com toda a sinceridade, para qualquer um que veja com clareza absoluta, para qualquer um que realmente olhe sem o filtro protetor da distração constante ou da esperança ilusória.
Se você não está entendendo o que estou tentando dizer aqui, permita-me oferecer uma sugestão: desacelere seu ciclo respiratório, feche seus olhos, e releia mentalmente as últimas três frases.
Isso fará com que a informação reverbere de forma mais eficiente.
Mas honestamente, toda essa merda é brutal para qualquer um.
Para os atentos e desatentos igualmente. Para os que vivem acima das nuvens e para os outros também...
É especialmente brutal para qualquer um que entenda, com a clareza que eu me referi, que algumas pessoas nasceram no último andar de um prédio residencial de luxo, enquanto outras pessoas nasceram no subsolo sem janelas, e o elevador que, teoricamente, conectaria esses andares foi removido antes da conclusão da construção.
Mobilidade vertical realmente é uma linha de pensamento versátil.
Existem duas maneiras e apenas duas, de sobreviver à revelação dessas verdades, de continuar funcionando depois que você realmente entende essas merdas.
A primeira opção é decidir que o mundo em si não tem valor. Escolhar essa opção significaria "arrancar tudo com os dentes até poder fingir que os restos na sua boca são uma espécie de 'banquete'."
A segunda opção é aceitar que seu próprio valor é uma ilusão. Escolhar essa opção significaria "passar o resto da vida tentando não se olhar demais no espelho."
Qual dessas opções é mais corajosa?
Qual delas demonstra mais fortaleza mental?
Qual delas é a mentira reconfortante e qual é o mecanismo de defesa psicológica disfarçado de filosofia?
Eu pensei muito sobre isso e cheguei à conclusão de que realmente não existe uma terceira opção.
Mesmo quando certas pessoas excepcionais, através de combinação rara de circunstância e neurologia, conseguem forçar uma terceira opção a existir temporariamente, o resultado inevitável é que você acaba escolhendo o pior caminho possível para alcançar algo que apenas se assemelha a um sorriso genuíno.
Ah, sim...
Ela se inclinou ligeiramente para frente, e a luz neon do trem refletiu em seus olhos.
"Então me diga," ela disse, sua voz baixa o suficiente que eu tive que me esforçar para ouvir sobre o barulho do trem, "para onde você está indo?"
Desviei o olhar instantaneamente, reflexo automático, incapaz de manter aquele contato visual.
Não respondi. Não havia resposta honesta que não fosse patética. Tudo bem, pensei. O silêncio é um luxo subestimado na economia social moderna. Às vezes a coisa mais valiosa que você pode oferecer é absolutamente nada.
O trem chacoalhava continuamente, aquele movimento perpétuo que te faz questionar se você está realmente se movendo ou se o mundo está se movendo ao seu redor enquanto você permanece estaticamente preso no lugar.
Encostei a cabeça no vidro frio da janela, sentindo a vibração passar através do crânio diretamente para o cérebro.
Deixei meus olhos desfocarem até que as luzes lá fora se transformassem em manchas.
Era relaxante de uma maneira estranha.
Meu nome é Azashi Jinko.
Eu deveria ter começado com isso...
Atualmente tenho vinte anos de idade, o que é demograficamente jovem mas que parece velho psicologicamente.
Eu não tenho um emprego, ou um sonho.
Eu não tenho qualidades redentoras que eu possa listar, a menos que você considere minhas habilidade em Tetris.
Não sei por que estou te contando isso...
Talvez porque seja mais fácil falar comigo mesmo do que com a garota sentada à minha frente, cujos olhos tem aquela curiosidade zombeteira, como se ela estivesse esperando que eu provasse que mereço o oxigênio que estou desperdiçando.
Ela é uma deles, aliás.
Uma deles.
Ainda não sei exatamente qual deles, porque existem vários no aplicativo. Também não quero saber especificamente qual deles ela é.
Se ela estiver falando a verdade, e não há razão particular para acreditar que está, mas também não há razão para assumir que está mentindo, seu nome é Nyoko Hayarumi.
Ela tem cabelo curto tingido de roxo cortado em ângulos geométricos.
Veste uma jaqueta larga, daquelas que você esperaria ver em alguém perambulando do lado de fora de um cassino.
Ela está falando comigo há dez minutos.
"Você não é muito bom nisso, não é?" ela disse de repente, quebrando o silêncio.
Ela inclinou a cabeça novamente. Sua voz mantinha aquela qualidade de ser simultaneamente suave e cortante, como uma faca de cozinha embrulhada em algodão orgânico.
"Bom em quê?" perguntei, embora soubesse exatamente ao que ela estava se referindo.
"Em bater papo," ela respondeu com honestidade brutal. "Você é ruim em ler pessoas, em responder apropriadamente as deixas, em manter contato visual, em modular o tom de voz para corresponder ao contexto emocional."
Dei de ombros.
Não valia a pena discutir algo que era óbvio.
Era objetivamente verificável.
E ela estava certa sobre tudo, e nós dois sabíamos disso com certeza absoluta.
Sou um fracassado.
Quanto mais tento entender outras pessoas, mais eu falho em entendê-las, como se compreensão humana fosse inversamente proporcional ao esforço aplicado.
Quanto mais tento me conectar, mais me desconecto.
É quase impressionante na sua consistência.
Nyoko ainda estava me observando com aquela intensidade que fazia minha pele coçar metaforicamente, seus lábios curvados em algo que não chegava tecnicamente a ser um sorriso mas que transmitia diversão mesmo assim.
"Você está no chat, não é?" ela disse, não como pergunta mas como declaração de fato já verificado. "Zero Degrees. Aquele usuário que nunca posta nada, que apenas espia silenciosamente. Por acaso você está atrás da badge de 'Observador'? Porque isso seria estranho... A resignação combina com você. É bem a sua cara. Eu estava errada, na verdade, você é muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuiiiito estranho...""
Não sei o que ela quer dizer com isso, e não vou perguntar, e quantos "U"s ela usou?
Meu estômago se revirou desconfortavelmente ao ouvir aquelas palavras inglesas, "Zero Degrees", saindo da boca dela em voz alta no mundo físico em vez de permanecer seguramente contida no espaço digital onde eu poderia fingir que não era real.
Afinal, por que os americanos falam "Zero Degrees"? No plural.
Zero é zero, não é mais que um.
Enfim...
Minha voz saiu trêmula quando tentei responder.
Ninguém deveria saber disso.
Ninguém.
Eu fui cuidadoso, meticulosa E obsessivamente cuidadoso sobre manter separação completa entre minha presença online no aplicativo e minha vida.
Eu não sou um deles.
Apenas baixei o aplicativo há três meses porque ele apareceu espontaneamente no meu celular sem que eu o instalasse, e quando tentei deletar ele reinstalava automaticamente, e eventualmente eu desisti e apenas o deixei lá.
Estou lá há noventa e dois dias exatos, lendo as mensagens deles em silêncio.
Nunca posto.
Nunca comento.
Nunca sequer reajo a nada, de nenhuma forma.
Não me atrevo a interagir porque interação requer que você tenha algo a contribuir, e eu não tenho nada que pessoas como eles achariam valioso ou interessante ou relevante.
Não sou perspicaz o suficiente.
Não sou inteligente o suficiente.
Não sou nada suficiente.
"Você não vai negar?" Nyoko disse, inclinando-se ainda mais para frente agora, invadindo definitivamente meu espaço pessoal, seus cotovelos apoiados nos próprios joelhos de forma que seu rosto estava a menos de meio metro do meu.
O trem balançou violentamente e por um instante sua sombra se estendeu pelos assentos vazios entre nós, alongada pela iluminação de cima, transformando-a momentaneamente em algo que parecia duas vezes o tamanho humano normal.
"Que chato," ela continuou, soando genuinamente desapontada. "Achei que você ao menos tentaria mentir. As mentiras são sempre mais interessantes do que admissões imediatas. Mentiras revelam o que você deseja que fosse verdade, enquanto verdades revelam apenas o que já é óbvio."
"Por quê...?" consegui murmurar, minha voz quase inaudível mesmo para mim mesmo, praticamente engolida pelo ruído constante do trem. "Como você...?"
As palavras morreram na minha garganta antes de formar pergunta completa.
Ela riu novamente, desta vez com mais camadas de significado embutidas.
Nyoko pegou o celular dela, movimento súbito que me fez piscar reflexivamente.
A tela iluminou seu rosto de baixo para cima com aquela luz azulada artificial característica de LEDs modernos, criando sombras dramáticas que faziam seu rosto parecer levemente não-humano, como máscara em vez de pele.
Ela tocou na tela algumas vezes, gestos precisos e econômicos, e então—
Meu próprio celular vibrou no bolso com aquela vibração específica, dupla pulsação curta, que significava notificação de aplicativo em vez de ligação ou mensagem de texto normal.
Não quero olhar.
Realmente, genuinamente, não quero olhar.
Eu sei exatamente o que é sem precisar verificar.
Uma notificação daquela maldita sala de bate-papo.
Do Zero Degrees.
Do aplicativo que não deveria existir mas existe, que não deveria saber onde eu estou mas aparentemente sabe, que não deveria conectar minha presença digital à minha existência física mas claramente conseguiu fazer exatamente isso.
"Dá uma olhada," Nyoko disse casualmente, sem desviar os próprios olhos da tela iluminada. "Você vai querer ver isso. Prometo que vale o desconforto psicológico."
Sua voz carregava aquela qualidade de alguém que sabe exatamente o que está prestes a acontecer e está antecipando sua reação com algo próximo de alegria sádica.
Eu não mexi.
Permaneci completamente imóvel, como se imobilidade pudesse de alguma forma prevenir o inevitável.
Mas celulares não ligam para imobilidade.
Ele vibrou novamente.
E novamente.
E novamente.
Ela, que estava sentada a menos de um metro de mim sorrindo com aquela expressão que dizia claramente: "surpresa! Você foi pego! Não há escapatória!"
Eu desbloqueei o celular com dedos que tremiam levemente.