O crepúsculo ainda tentava continuar no céu, que agora trocava de cor, indo do roxo pro cinza, e finalmente para o azul, enquanto a aurora trazia novamente a luz para o mundo. Foi nesse momento que Roy saiu de sua casa e respirou o ar gelado da manhã. Era o primeiro dia da primavera, e por esse motivo, a manhã estava muito mais agradável do que a dos dias anteriores. Era um homem jovem, com pouco mais de vinte anos, bonito e forte, com quase um metro e noventa, e com ombros largos. Seus olhos eram cinza, como a névoa que cobre o mundo em uma manhã úmida, afiados e atentos, e seus cabelos, tão negros quanto carvão, curtos e volumosos, que esvoaçavam com o movimento do vento. Tinha um nariz elegante e um maxilar esculpido. Por baixo do manto, castanho-avermelhado, usava sua armadura de couro rubro, cozido e leve, característica do Capitão da Guarda, que chegava a cobrir seus ombros, calças do mesmo tipo e longas botas de couro, desgastadas pelo uso. Além de braçadeiras de couro negro.
Se dirigia, caminhando rápido, para os estábulos. Quando chegou lá, seu grande garanhão negro o aguardava. Estava comendo feno, mas quando o viu chegar, levantou a cabeça e relinchou. Seu nome era Relâmpago. Era o maior e mais rápido cavalo do vilarejo, com um grosso pescoço. Roy afagou seu pescoço e sua crina e depois começou a sela-lo e prepará-lo para a viagem. Tirando Relâmpago, pouco mais de meia dúzia de cavalos estavam nos estábulos.
Quando o conduziu para fora, o sol, timidamente, já aparecia no leste, surgindo acima da Grande Montanha. Já estava montando em Relâmpago e começando a se deslocar para o portão, quando escutou uma voz atrás de si:
– Irmão – chamou a voz. Ele conhecia bem o dono dela. Era o Chefe do vilarejo, e seu irmão, Brennin. – Vai sair sem se despedir? – Perguntou ele, quando Roy fez Relâmpago virar em sua direção. O Chefe do vilarejo era um homem de meia-idade, mais alto que Roy. Usava roupas simples, no geral, uma calça folgada, forrada de lã, e uma camisa de linho branca. Mas usava um longo manto completamente negro, que quase tocava o chão, preso em seus ombros por um broche de prata, que retratava duas espadas se cruzando. Roy sabia que era feito de cetim. De um lado era quase brilhoso, do outro, completamente opaco. Tinha os mesmos olhos cinzas que seu irmão, cansados e com profundas olheiras, um longo cabelo escorrido, que passava dos seus ombros, tão negros quanto os de Roy. Um nariz simétrico e um maxilar definido.
– Não achei que você estava acordado ainda.
– O Chefe sempre deve acordar antes dos outros – Brennin respondeu com um sorriso. – E, na verdade, quase nem dormi essa noite. Daene pode dar a luz a qualquer momento. Dalia me falou que acredita que será na próxima semana.
Aquilo deixava Roy um pouco triste, afinal, se a viagem demorasse mais do que o esperado, ele poderia perder o nascimento de seu sobrinho, ou sobrinha.
Brennin pareceu ler seus pensamentos.
– Não se preocupe, a viagem vai ser tranquila e rápida. Senhor Hill, que trouxe a carroça, disse que a estrada está deserta. Os salteadores, provavelmente, estão se escondendo do frio. – Isso não mudava nada, os poucos salteadores que perambulavam por esses lados não eram uma preocupação para Roy. Sozinho ele poderia lidar com todos eles, com certa facilidade, e além dele mais cinco integrantes da Guarda estavam indo junto. – Ah, quando chegar em Blue Valley diga ao velho Will que mandei um abraço, e que sinto muito por não poder ir pessoalmente esse ano. – Brenin acrescentou depois de um tempo.
– As suas ordens Chefe. – Disse em tom brincalhão. Depois que se despediram, Roy começou seu caminho em direção ao portão, sua espada longa, de uma mão, batendo com a bainha contra sua coxa a cada galope.
Não demorou muito, depois que se separou de seu irmão, para que dois jovens montados em cavalos malhados se pusessem a galopar junto dele.
– Estávamos à procura do senhor, Capitão – disse Jory animado como sempre. Ele era mais baixo que a maioria, mas estava sempre entusiasmado e cheio de energia. Havia completado dezenove anos recentemente, e a quase um ano atrás, havia entrado para a Guardo do Vilarejo, sendo pessoalmente treinado por Roy. Tinha cabelos ruivos, volumosos e desarrumados. Era musculoso e, assim como todos os membros da Guarda, usava a mesma armadura de couro cozido e manto castanho-avermelhado de Roy, mas a armadura deles era de cor negra. – Allen disse que o senhor já estaria nos esperando no portão a uma hora dessas.
– Estava me despedindo de Brennin. – Respondeu Roy, analisando seus dois companheiros de viagem.
– Ah, estava se despedindo do Chefe. Foi por isso que não o encontramos no portão – Allen disse, parecendo com vergonha. Allen era conhecido por ser quieto e reservado. Tinha a mesma idade de Jory, com uma diferença de que havia nascido dois meses antes. Entraram na Guarda juntos. Ele era mais baixo do que Roy, mas vários centímetros mais alto do que Jory, era magro e esguio, e por baixo do capuz de seu manto, tinha cabelos loiros e encaracolados. – O filho dele já nasceu?
Allen falou tão baixo, que Roy teve que se esforçar para ouvir a pergunta.
– Ainda não – respondeu. – Por conta disso, não podemos demorar.
– Mas é você quem está atrasado. – Disse Jory. Roy o olhou com um olhar cortante, que o fez baixar a cabeça. – Estava brincando, Capitão.
Roy não respondeu, apenas fez Relâmpago aumentar a velocidade e tomou a dianteira, enquanto cruzavam o vilarejo.
Aquele era o maior vilarejo a oeste da Grande Montanha, – uma montanha, monstruosamente grande, que parecia cortar os céus com seu cume afiado. Podia ser vista a centenas de quilômetros de distancia – e o único que podia se gabar de ter uma muralha. Ela era grossa, feita de madeira de carvalho, cercando o vilarejo por todos os lados. Dentro, havia centenas de casas simples, de apenas um andar, feitas de madeira ou pedra polida, às vezes ambos, e telhados feitos de madeira de carvalho, forrados com palha ou junco. Pequenos jardins de flores coloridas, que agora começavam a mostrar sinais do desabrochar, separavam todas as casas do vilarejo, como se fosse um muro.
Roy sempre se perguntou sobre o porquê do nome do vilarejo ser: Vilarejo dos Esquecidos, embora isso não importasse mais, porque até mesmo esse nome fora esquecido. O nome que se usa hoje é Vilarejo dos Reis. Roy escutou, de seu pai, que o chamam assim por causa de sua linhagem, que remonta a centenas de anos atrás, antes do início da contagem dos dias, ao primeiro Rei da raça Humana. Seu pai dizia, também, que se Aschaton, o maior reino que já existiu, não tivesse sucumbido à guerra civil, seu irmão Brennin seria rei, algum dia, depois de ele próprio ter seu reinado. Acabou que Brennin não virou Rei, mas se tornou Chefe do vilarejo e, ao invés de governar milhões de pessoas, acabou liderando pouco mais de duas mil. Aparentemente, seu irmão tinha nascido para governar, de um jeito ou de outro.
Conseguia ver o portão, feito da mesma madeira da muralha, e tão grosso quanto, quando chegaram ao centro do vilarejo, onde começavam a preparar as refeições da manhã.
Esperando a água de um grande caldeirão de ferro, completamente gasto, estava Kyra, a melhor cozinheira do vilarejo.
– Já entreguei seu desjejum a Erock – ela disse enquanto eles passavam. – Ele está esperando no portão.
Roy agradeceu, e seguiu seu caminho.
Ao chegarem ao portão, encontraram Erock escovando seu grande cavalo branco. O homem mais velho do vilarejo, com quase oitenta anos. Era tão alto quanto Roy, mas muito mais forte, tanto, que a clássica armadura da Guarda não cabia nele, então usava apenas as ombreiras, presas por tiras de couro que atravessavam seu peitoral, deixando seu tronco nu. Usava calças, muito justas, que não chegavam à panturrilha e o mesmo manto castanho-avermelhado que os outros. Sua cabeça não tinha sequer um fio de cabelo, mas sua barba branca era dura e espessa. Seu corpo era coberto de cicatrizes, da cabeça à cintura. Junto dele se encontrava a carroça que escoltariam para Blue Valley, e apoiado em uma das rodas traseiras, estava o grande machado de Erock, que só um homem tão grande e forte como ele conseguiria levantar.
Acenou com a cabeça, em sinal de comprimento, quando Roy e os outros chegaram.
– Harden ainda não chegou capitão – disse Erock, com sua voz grossa. – Está atrasado. Devemos partir sem ele?
– Sabe como ele é – lembrou Roy. – Vamos esperar mais um pouco. Ele deve chegar logo.
Roy desceu de Relâmpago, e se aproximou da carroça que os aguardava parada em frente ao portão, agora, aberto do vilarejo. Puxou o fino tecido que escondia a carga que estava transportando na parte de trás, para olhar o que teria que escoltar e, entendeu porque ele, o Capitão da Guarda, fora instruído, por Brenin, para escoltar pessoalmente a carroça até Blue Valley. Dentro, haviam quilos e mais quilos de comida. Carne vermelha de cervo, carne branca de coelho, cevada, trigo, maçãs, laranjas e outras, variedades de legumes, frutas e carnes.
Se virou para seus companheiros e disse:
– Essa carga é importante. O pessoal de Blue Valley conta conosco. – O inverno tinha sido duro, o mais frio desde que nascera. Com um frio de congelar os ossos. Era provável que os estoques de comida de Blue Valley estivessem acabando, isso se já não estivessem terminados.
Nesse momento, escutou um grito ao longe – Esperem. Eu cheguei, estou aqui! – Roy se virou já sabendo quem era.
– Quase partimos sem você. – Disse para o homem que se aproximava montado em sua égua.
– Desculpe capitão, dormi demais. – Harden falou enquanto tirava a remela dos olhos. Era uma década mais novo do que Erock, seus finos cabelos castanhos estavam, completamente, bagunçados, e sua barba, negra e grossa, tão longa que cobria seu peito, estava emaranhada. Era conhecido como O barba. Na sua época já havia sido musculoso, mas a idade chegou, e com ela a barriga e a gordura chegaram também. Impressionantemente sua armadura ainda cabia, mas trazia o manto com capuz em uma das mãos, provavelmente por sair com pressa de casa.
– Imagino que não tenha quebrado o jejum ainda – sugeriu Roy, e quando Harden concordou, acrescentou. – Vamos aproveitar para comermos antes de partir então. Erock, disseram que haviam lhe entregado o desjejum.
Depois que todos haviam terminado de comer, Roy avisou para o condutor da carroça, senhor Hill, que era hora de partirem.
Assim que saíram do vilarejo, Roy escutou o pesado portão ser fechado atrás de si. Deu um rápido olhar para trás, e involuntariamente um pensamento cruzou sua mente: Será que deveria mesmo partir? Afinal, ele era o Capitão da Guarda e se qualquer coisa ruim acontecesse com o vilarejo, a culpa seria dele. Mas o Chefe o havia designado para essa tarefa, e querendo ou não, tinha uma longa viagem pela frente.