Seguiram sentido oeste, contornando os largos muros de madeiras de carvalho do vilarejo. Roy e Erock seguiam a frente, ditando o ritmo da viagem, logo atrás vinha a carroça, sendo puxada por dois grandes cavalos de tração, sendo guiados pelo senhor Hill. Ao lado da carroça vinham Jory e Allen, e atrás deles Harden vinha na retaguarda.
Após alguns quilômetros, subiram uma pequena elevação, que logo depois os fez descer novamente, um declive suave. Depois disso, não demorou muito para que chegassem ao Rio Safira. A estrada que os esperava era de terra batida, feita a décadas atrás. Já faziam anos que a estrada não estava em suas melhores condições, mas ainda assim, era melhor do que nada. Ela segue rio acima, pro norte, em direção a grande cadeia de montanhas que se estende longe no horizonte e, tirando algumas poucas curvas acentuadas, que a estrada fazia para imitar o movimento do rio, ela seguia sempre reto.
Enquanto seguiam a estrada, conseguiam ver planaltos que se erguiam a mais de trezentos metros, com topos planos, parecendo grandes mesas, e escarpas íngremes com declives acentuados. Mas eles galopavam em áreas planas, com grama brotando, aqui e ali pela estrada, e com a água do rio ao seu lado, brilhando na luz do sol. Passavam também, por alguns conjuntos de árvores esparsas, o maior deles, com não mais do que quinze delas.
Depois de cavalgar o dia inteiro, e parar para se alimentar e descansar apenas uma única vez, Roy percebeu que o sol começava a se pôr, e o anoitecer se aproximava. O ritmo deles não passava de um trote e, por conta disso, os cavalos não pareciam tão cansados.
Roy os fez seguir mais um pouco, mas quando viu alguns zimbros altos que poderiam os esconder durante a noite, parou, se virou para Erock e disse:
– Avise os outros que passaremos a noite aqui.
Erock os avisou, e o acampamento foi montado atrás dos zimbros, com uma fogueira improvisada no centro. O dia havia sido agradável, mas quando o sol se foi, o frio tomou conta. Não era nada comparado ao frio do inverno, então ninguém pareceu desconfortável. Senhor Hill pegou sua amada frigideira, que levava consigo onde quer que fosse, junto com todo seu kit de cozinha, e começou a cozinhar a refeição noturna.
Escolheu alguns ingredientes que eram transportados na carroça, colocou uma quantidade pequena de gordura na frigideira e a levou ao fogo. Quando a gordura derreteu, colocou cebola, cortada em pequenos cubos, e alho esmagado, mexendo constantemente. O cheiro era incrível.
– Erock, você conhece essa rota melhor do que eu – Roy falou enquanto esperava a refeição ficar pronta. – Quando acha que chegaremos?
– Se continuarmos nesse ritmo… devemos chegar à ponte antes do meio do dia – fez uma pausa e acrescentou. – Se tivéssemos indo mais rápido, já estaríamos lá.
– Eu sei, mas a carroça está lotada. Achei melhor seguir mais lentamente.
Erock assentiu, e o silêncio tomou conta do acampamento. Apenas o crepitar do fogo afastava o silêncio completo.
– Ia muito para Blue Valley? – perguntou Jory, quando não conseguiu mais suportar o silêncio. – Dizem que as mulheres de lá são lindas. Alguma delas fisgou seu coração de pedra Erock?
Harden gargalhou alto ao ouvir aquilo.
Erock não respondeu, apenas encarou Jory, que fugiu do olhar, abaixando a cabeça.
– Ele lutou na Guerra dos Anões. – Explicou Harden.
– Ah! – exclamou Jory, surpreso. – Você também lutou Harden?
Dessa vez, foi Erock quem riu. A risada dele era estranha, sua voz era muito grossa.
– Lutar não é bem a palavra.
– Eu era muito jovem – explicou Harden novamente. – Era só um recruta da Guarda. Mas queria muito participar, por isso me camuflei entre os outros soldados e marchei com eles. Quando o Capitão Cedrick percebeu o que eu fiz, tentou me mandar embora, mas implorei para me deixar ficar. – Ele fez uma pausa e olhou para Erock, que já o estava olhando com um sorriso no rosto. – E ele deixou, – Continuou ele. – mas não iria me deixar lutar. Então fiquei responsável pelo armamento e suprimentos.
– O que ele quer dizer, é que ele afiava nossas armas e nos trazia comida – disse Erock voltando a rir. Ele pegou seu machado do chão ao seu lado, testou a lâmina com o dedo, olhou para Harden e disse: – Precisa de mais fio, quer relembrar os velhos tempos?
– Vai se fuder! – xingou Harden.
Erock deixou o machado cair e voltou a rir.
– Então o Chefe Cedrick era o Capitão nessa época? – perguntou Allen enquanto Jory ria com Erock. Era a primeira vez que Roy escutava a voz dele desde que saíram do vilarejo.
– Sim, – respondeu Harden. – assim como Brennin, ele foi Capitão da Guarda, e depois virou Chefe do vilarejo. – Olhou para Roy e acrescentou. – Tal pai, tal filho.
– E como ele era? – perguntou Jory, voltando a prestar atenção em Harden. – Como Capitão eu quero dizer.
– Ele era um grande guerreiro. O melhor que alguma vez já vi – Erock quem respondeu. – Bem, tirando Roy.
– Ele me ensinou tudo que sei. – Roy falou com orgulho.
– Sim, seu avô também era um grande guerreiro, todos vocês são. Está no sangue. São os descendentes de Reis – se virou para Roy e continuou. – Seu avô, Chefe Ensom, costumava dizer que sua linhagem fora abençoada antes do início da contagem dos dias. Antes até mesmo do mundo chorar e dos Deuses caírem – Sorriu e olhou para cima, pro céu estrelado. – Seu avô falava que quando ele partisse, Cedrick seria o último de sua linhagem, e que deveria ter filhos. O fazia prometer que teria.
Erock riu lembrando do passado, e Roy riu com ele, pois lembrou que seu pai fez ele e Brenin fazerem a mesma promessa.
– Chefe Ensom ainda conseguiu ver Brennin nascer, – continuou Erock. – ficou tão feliz. Na época, os mais velhos diziam que ficou mais feliz do que no dia em que Cedrick nasceu.
Roy ficou um pouco triste, mas não deixou transparecer, pois nisso seu pai não tivera a mesma sorte.
– Chefe Ensom adorava seu neto. Brincava com ele o tempo todo. Tinha começado a ensinar Brennin sobre a arte da espada, – Erock fez uma pausa. – mas infelizmente morreu logo após. Dizem que foi de felicidade.
Talvez seja por isso que Brennin não gosta de falar sobre nosso avô, pensou Roy.
– Você também se lembra dele, não é Harden? – perguntou Erock.
– Claro que sim, era Chefe do vilarejo quando nasci. Lembro que o pobre Brennin ficou tão triste quando ele se foi que demorou muito tempo para que Cedrick o convencesse a voltar a praticar com a espada.
Antes que Roy pudesse dizer alguma coisa, Senhor Hill avisou que a comida estava pronta. Depois disso, não falaram mais nada sobre aquele assunto.
Naquela noite comeram coelho com cebola e alho revogados. Senhor Hill era um cozinheiro de mão cheia, então obviamente a comida estava muito gostosa.
Após todos terminarem a refeição, apagaram a fogueira e decidiram seus turnos de guarda. Roy ficou com o primeiro turno.
Enquanto os outros se deitaram para dormir e descansar, Roy ficou sentado, as costas escoradas contra a roda da carroça, um joelho levantado contra o corpo enquanto olhava atentamente tentando perceber algum movimento na estrada, ou no descampado que se estendia atrás deles.
Depois de algum tempo, onde nada aconteceu, percebeu um vento estranho vindo do leste. Um vento de chuva. Provavelmente choveria no dia seguinte .
Quando chegou o momento de trocar a guarda, se aproximou de Harden, que era o guarda do próximo turno, e gentilmente o acordou.
– Tudo tranquilo. – Roy disse quando Harden ficou em pé.
Harden assentiu e tomou seu posto, enquanto Roy se deitava, procurando ficar confortável para dormir. Demorou algum tempo, mas logo estava dormindo.
Naquela noite, sonhou com seu pai.
No sonho, ele tinha cinco anos novamente. Estava sentado no chão, vendo seu pai e seu irmão trocarem golpes com espadas com uma precisão surreal. Sempre que Brennin tentava acertar, seu pai defendia. Ele não atacava, pelo menos não com espadas que tinham fio, com essas, apenas defendia.
Depois que Brennin cansou e abaixou a espada, ele correu na direção deles, com uma pequena espada de madeira nas mãos.
– Agora é minha vez – falava empolgado. – Agora sou eu papai.
– Você ainda é muito jovem, Roy. – Seu pai respondeu.
– Não me importo, quero aprender a usar a espada igual ao Brennin. – Roy continuava a insistir.
Seu pai respirou fundo, abriu um largo sorriso e disse:
– Está bem então, mas não conte para sua mãe.
Roy assentiu animado, esperou seu pai pegar outra espada de madeira, e então começaram a trocar golpes.
Essa foi a primeira vez que usei uma espada, lembrou Roy.
Ainda conseguia se lembrar como ficara feliz quando o pai permitiu que treinasse com eles. Isso já faz muito tempo.
Entendi, devo estar sonhando. E quando percebeu isso, abriu os olhos e acordou.
Se sentou e olhou em volta. O mundo estava escuro, a alvorada não havia chegado ainda. Todos ainda dormiam no acampamento, com exceção de Erock, que havia ficado com o último turno da guarda.
Quando percebeu que seu capitão estava se levantou, disse:
– Nada a relatar Capitão.
– Quanto tempo para o nascer do sol?
– Acredito que menos de uma hora.
– Acorde todos então, vamos partir cedo.
Erock fez como ordenado, e quando todos estavam de pé, levantando acampamento, Roy ajudou o senhor Hill a preparar o desjejum. Pão com queijo e mel. Comeram rapidamente e, logo após, começaram a cavalgar. Continuaram seguindo a estrada para o norte, com o rio sempre ao seu lado.
Assim como Erock havia dito, chegaram à ponte um pouco antes do meio do dia. Ali, o rio se bifurcava em dois. Um seguindo para o sul, onde a estrada o seguia, e o outro seguindo a oeste, onde serpenteava entre os altos planaltos.
Havia duas pontes ali, uma que cruzava o rio a oeste, por onde continuava a estrada para o norte, e a outra que cruzava o Rio Safira para o leste. Ambas as pontes eram feitas de madeira negra, eram grossas, mas também estreitas. Suas balaustradas eram baixas e feitas da mesma madeira negra da ponte. Embaixo de ambas as pontes, haviam vigas feitas de aço que as sustentavam.
Roy achava a ponte larga o suficiente para que pudessem passar dois cavalos lado a lado, mas a carroça teria que passar sozinha.
Harden atravessa a ponte que segue ao leste primeiro, avançando e checando o terreno a frente. Após algum tempo, Harden retorna e sinaliza para atravessarem. Jory e Allen se apressam para atravessar, e logo depois, senhor Hill conduz a carroça pela ponte. Roy se vira para chamar Erock, e percebe que o companheiro está parado, montado em seu cavalo, olhando fixamente para a continuação da estrada ao norte e para a vasta cadeia de montanhas no final dela.
– Saudades? – Pergunta chegando perto do companheiro.
Erock demora um pouco para responder.
– Está mais para nostalgia, eu acho – sua voz melancólica.
– Faz muito tempo que não vai para Thalmor?
Ele assente.
– Tempo demais.
– Se quiser, quando estivermos voltando, posso lhe dispensar – Erock sorri, e Roy continua. – Tenho certeza que Jory e Allen ficariam felizes em lhe acompanhar, afinal não é todo dia que temos a chance de ver um dos robustos anãos.
Ele próprio só havia visto uma vez. Quando ainda era criança, um anão visitou o vilarejo. Não lembrava de muito, apenas que seu pai havia o acompanhado no caminho de volta e, quando voltou, trazia uma espada consigo, que hoje foi passada para Brennin após sua morte. Roy nunca havia ido a Thalmor, mas escutara diversas historias de seu pai sobre o grande reino dos anões; onde fortalezas eram construídas dentro de grandes montanhas e palácios gigantescos ficavam escondidos embaixo da terra. Onde os maiores e melhores ferreiros forjavam armas e armaduras incríveis, e mineiros garimpavam e mineravam rios de ouro e pedras preciosas.
– Agradeço a oferta, mas acho melhor não – responde educadamente Erock. – Temos que voltar para o vilarejo, e também, já faz muito tempo desde que estive lá pela última vez, talvez nem me reconheçam mais.
– Duvido – diz Roy. – Acho difícil esquecer de um companheiro que lutou ao seu lado em uma guerra. Ainda mais um cheio de cicatrizes e que carregue um machado tão grande.
Erock abre um sorriso grande e solta uma risada.
– Sim. Talvez não.
– Vamos? – pergunta Roy.
Erock assente.
E assim cruzam a ponte para se juntar ao seus outros companheiros.