1 volume – 2 capítulo:O acordo gelado [PARTE 1: DOIS ANOS DEPOIS]
(O capítulo começa com um letreiro grande na tela: "Dois anos se passaram".)
A câmera foca em dois pezinhos pisando firmes no chão de terra da toca. Subindo o enquadramento, vemos Borë. Ele agora está com exatamente 87 centímetros de altura. Seus cabelos marrons estão um pouco mais longos, e suas características físicas mudaram: ele agora tem pequenas orelhas um pouco pontudas e caídas, uma herança bizarra desse mundo. Ele veste um casaco marrom grosso com pelugem branca na gola e nas mangas, combinado com uma calça marrom-escura do mesmo tecido.
Ele cruza os braços de bebê, suspira e limpa o nariz com as costas da mão. Agora, ele já consegue balbuciar e falar algumas palavras em voz alta, misturadas aos seus pensamentos.
Borë:
— Cara... eu ainda não acredito que a gente teve que recorrer ao método que você escolheu. Sério, Tatipen. Humilhante.
A câmera se vira e mostra Tatipen, que está logo ao lado dele, com 86 centímetros de altura. Ela veste um conjunto idêntico ao do irmão: o casaco marrom com pelugem branca e a calça escura. Suas orelhinhas pontudas e caídas dão uma vibe fofa, mas a expressão dela é de uma mini-chefe pragmática.
Tatipen:
— Ah, para de reclamar, Borë! Era o único jeito. Foi o método que a gente teve que fazer para sobreviver na falta da nossa mãe coelha. Se a gente não fizesse aquele trato e ajudasse na colheita deles em troca do leite, a gente teria virado picolé de bebê há dezoito meses.
Borë (pensamento):
— Tá, ela tem um ponto. Mas pô, trabalhar para coelhos gigantes medievais? Meu eu do passado passaria vergonha...
Borë (em voz alta):
— É... pelo menos fazendo essa correria toda a gente vai ter a chance de ganhar experiência com a nossa Alma de Mana. O meu controle tá ficando bem mais afiado.
De repente, o ambiente ao redor deles muda. O ar fica subitamente mais denso e gélido.
Tatipen para de andar imediatamente. A fofura dela some, dando lugar aos instintos afiados da sua Alma Pós-Morte. Ela estica o braço e pega o seu cajado — que, na verdade, parece apenas um pedaço de madeira torto e velho que ela achou no chão, mas que ela empunha como uma arma letal.
Borë percebe o perigo no mesmo milésimo de segundo. Ele joga a mão para trás e saca a sua adaga, ficando em posição de guarda.
Borë (sussurrando, dentes cerrados):
— Tem... tem alguém por perto. E é pesado.
O corpo dos dois bebês começa a tremer violentamente. Mas as linhas de expressão no desenho deixam claro: não é de frio, é de puro instinto de sobrevivência perante uma presença esmagadora.
[PARTE 2: SHPATË STAKLO KANONO]
A névoa branca que entra pela boca da toca se abre devagar. Passos firmes ecoam.
Do meio do gelo, surge um homem de 1,70m de altura. Ele tem cabelos brancos com reflexos azulados que se movem levemente com o vento. Ele veste um casaco branco com detalhes em azul-claro, uma camisa branca por baixo e uma calça preta justa. O que mais chama a atenção são duas espadas embainhadas na sua cintura. Ele tem um semblante calmo, quase frio, mas mantém um sorrisinho de canto.
Homem Misterioso:
— Olha só... É um verdadeiro prazer conhecer vocês dois, Borë e Tatipen. Vocês cresceram bem rápido.
Borë não abaixa a guarda por nada. Ele dá um passo à frente da irmã, com a adaga em riste.
Borë (com a voz firme, mas de bebê):
— Quem é você, afinal? E como sabe os nossos nomes?
Homem Misterioso:
— Podem relaxar, pequenos. Eu me chamo Shpatë Staklo Kanono. Eu era um velho amigo daquela coelha que amamentou vocês no primeiro dia de vida de vocês.
Ao ouvir a menção à criatura que os salvou, Tatipen dá um passo à frente, apertando o pedaço de madeira com tanta força que os nós dos seus dedinhos ficam brancos.
Tatipen:
— O que você sabe sobre ela?! Onde ela está?!
Shpatë:
— Eu sei apenas o que ela me falou antes de... bom, antes de precisar ir. Mas olhem, eu não estou aqui para atacar vocês. Só estou neste lugar isolado porque me pediram para treinar vocês dois. Ela queria que vocês ficassem fortes.
Borë avalia o homem de cima a baixo. Ele percebe que, se aquele cara quisesse matá-los, já teria feito isso antes mesmo de eles piscarem. O cérebro de malandro do Borë começa a bolar uma estratégia.
Borë:
— Tatipen... abaixa o cajado. Confia em mim.
Tatipen olha para o irmão, bufa, mas relaxa os ombros e abaixa o pedaço de madeira, embora continue de olhos bem abertos. Borë guarda a adaga e cruza os braços com uma cara de negociante safado.
Borë:
— É o seguinte, "seu" Shpatë. A gente tá com uma fome desgraçada. Se você for lá fora e pegar alguma coisa de verdade para a gente comer, a gente aceita ser treinado por você. Negócio fechado?
Shpatë solta uma risada curta, achando graça da audácia daquele cotoco de gente.
Shpatë:
— Justo. Eu vou pegar uma coisa para vocês comerem. Esperem aqui.
O homem se vira. Com passos calmos, ele vai se afastando em direção à saída da toca, até sumir completamente no meio da névoa gelada e espessa.
[PARTE 3: O ATAQUE DOS COELHOS]
Os dois irmãos voltam para o interior da civilização da toca. Mas, ao chegarem na praça central subterrânea, eles se deparam com uma cena assustadora: dezenas de coelhos gigantes estão reunidos em silêncio, cercando o caminho.
Diferente do normal, eles não estão se movendo de forma fofa. Eles estão estáticos, emanando uma tensão pesada.
Borë (tentando acalmar o ambiente):
— Ei, galera! Não precisam se preocupar com a janta hoje, beleza? Um homem esquisito de cabelo azul apareceu ali fora e se ofereceu para buscar comida para nós dois. Podem relaxar!
No momento em que Borë termina de falar a palavra "homem", o clima muda para o terror puro.
Os olhos de todos os coelhos gigantes brilham em um vermelho vivo e sangrento. Suas bocas se abrem, revelando fileiras de dentes afiados e pontudos como navalhas, que ninguém sabia que eles tinham.
Todos os coelhos soltam um grito agudo, estridente e monstruoso em uníssono — um som ensurdecedor que, naquele ecossistema, significa apenas uma coisa: uma ameaça terrível está vindo.
VUM!
Shpatë reaparece de repente, surgindo do teto da toca com um salto. Ele cai de pé entre os bebês e os monstros.
Shpatë:
— Voltei rápidos! Eu achei um local com comida ali perto, mas os moradores disseram que o Borë e a Tatipen precisam ir junto comigo para pegar...
Antes que ele termine de falar, os coelhos gigantes com dentes de tubarão avançam em massa contra Shpatë, saltando com as garras prontas para despedaçá-lo.
Shpatë:
— Opa. Parece que eles não gostam de visitas.
Com uma velocidade incompreensível para os olhos de um bebê, Shpatë saca uma de suas espadas. A lâmina é bizarra: a parte de baixo tem o formato angular de **|*, e a parte de cima repete o mesmo formato de **|*, fazendo com que a arma inteira pareça uma adaga gigante com duas lâminas paralelas e afiadas de ambos os lados.
Shpatë:
— Estilo Staklo: Fluxo de Transição.
Uma aura de alma azul-brilhante explode ao redor da espada de Shpatë. Ele faz um movimento circular rápido no ar. No mesmo instante, vários círculos mágicos azuis aparecem no chão, exatamente embaixo das patas de todos os coelhos que estavam no ar e no chão.
ZIP! ZIP! ZIP!
Em um piscar de olhos, os círculos brilham e todos os coelhos simplesmente somem no ar, deixando a praça da toca completamente vazia e silenciosa.
[PARTE 4: AS CONDIÇÕES DO TRATO]
Tatipen dá um passo à frente, com os olhos brilhando de interesse pela magia que acabou de presenciar.
Tatipen:
— Ei! O que foi que você fez com eles? Para onde eles foram?
Shpatë (guardando a espada na cintura de forma descontraída):
— Eu só teleportei os coelhos para um local seguro aqui perto. Se eu ficasse parado, eles iam me comer vivo. Aqueles dentes não são para comer cenoura, garota.
Borë limpa o suor da testa, impressionado, mas mantendo a pose de calmo.
Borë:
— Mas eles vão ficar bem? A gente ainda precisa do leite deles, sabe como é...
Shpatë:
— Vão sim, não se preocupe. Mas me digam... vocês ouviram o que eu falei antes de a recepção calorosa começar?
Borë e Tatipen (juntos, balançando a cabeça negativamente):
— Não.
Shpatë (coçando a cabeça):
— Pois bem. Os moradores de um vilarejo humano que eu achei aqui perto disseram que podem doar folhas de cenoura e suprimentos para sustentar essa toca inteira. Mas com uma condição: o responsável ou a responsável pelos coelhos deve ir lá buscar junto comigo. No caso, vocês dois.
Tatipen troca um olhar cúmplice com Borë. A mente deles trabalha em sincronia perfeita. Ela dá um passo à frente, aponta o cajado de madeira para Shpatë e dita as regras com a maior seriedade que seus 86 centímetros permitem.
Tatipen:
— Nós aceitamos ir com você, Shpatë. Mas com uma única condição!
Shpatë:
— Sou todo ouvidos, mini-chefe.
Tatipen:
— Neste ano em que estamos, o nosso segundo ano, você vai nos ajudar a cuidar, proteger e alimentar esta toca de coelhos. E quando o terceiro ano chegar, você será obrigado a nos ajudar com o plano que eu planejei para a nossa jornada. Aceita?
Shpatë encara os dois bebês de cabelos marrons. Ele solta um longo suspiro, coça a nuca e dá um sorriso resignado.
Shpatë:
— Cara... vocês dois são muito novos para terem tantas condições assim em um contrato. Mas... como eu fiz uma promessa solene para aquela coelha, eu vou cumprir a minha palavra. Eu aceito o trato.
Shpatë se vira de costas e começa a caminhar em direção à saída da toca, fazendo um gesto com a mão.
Shpatë:
— Vamos logo, pequetitos. Tratem de me seguir. A neve lá fora não espera por ninguém.
Borë e Tatipen se entreolham, sorriem com os dentes de leite e correm com seus passos curtos logo atrás do espadachim, prontos para pisar no mundo exterior pela primeira vez. (Shpatë estende as duas mãos, tocando de leve nos ombros de Borë e Tatipen. Com um brilho azul intenso que cega o painel por um segundo, ele teleporta os três para fora da toca.)
(A cena corta para a entrada de um vilarejo rústico, cercado por grandes cercas de madeira pontuda e plantações cobertas por uma fina camada de neve. Uma placa de madeira gasta na entrada diz: KYLÄ NÚMERO 98.)
(Caminhando ao encontro deles com passos medidos, surge uma garotinha de 1,30 m de altura. Ela tem cabelos marrons-claros, íris marrom-escura e veste um casaco marrom cuja parte da frente é unida por um lindo laço branco. Por baixo do casaco, ela usa um vestido branco sem mangas, e calça duas botas marrom-escuras. Sua postura é extremamente calma, demonstrando uma formalidade quase monárquica, mas de uma maneira infantil.)
Garotinha: Seja muito bem-vindos à nossa comunidade. É um prazer imenso finalmente conhecer vocês, Borë e Tatipen. O Shpatë me falou muito bem de vocês no caminho.
(Ela faz uma pequena e elegante reverência cortesã.)
Borë: (Olhando para cima, já que ela é bem maior) Caramba, você fala igual a um adulto de livro. Quem é você? É a dona do lugar?
Garotinha: Quase isso. Eu me chamo Shef Número 100. Atualmente, sou a chefe oficial desta vila. Minha querida mãe atingiu os 100 anos de idade recentemente e infelizmente faleceu, então, por direito de linhagem, eu assumi o controle de Kylä 98.
Shef 100: Mas mudando de assunto para o que realmente interessa... o Shpatë já me explicou toda a situação peculiar de vocês dois e a fome da toca dos coelhos gigantes. Eu aceito sim doar todas as folhas de cenoura que vocês precisarem para manter os animais alimentados, mas com uma única e urgente condição: vocês precisam me dar uma força com um problema que está assolando os nossos moradores.
Borë: Que tipo de problema? Se for briga de monstros, a gente ainda é meio compacto para isso, sabe?
Shef 100: Não é bem uma briga... ainda. Algo... ou alguém... está invadindo a nossa plantação principal durante as madrugadas e roubando as nossas cenouras inteiras direto da terra, sem deixar rastros. Quero que vocês usem os seus sentidos para nos ajudar a vigiar e capturar o culpado hoje à noite.
Borë: (Olhando para a adaga e depois coçando a bochecha, meio sem jeito) Olha, Shef... para ser bem sincero com você, a gente só sabe o básico do básico de como usar a nossa Alma de Mana. A gente só consegue fazer coisas simples, tipo imbuir a mana em objetos, que é como eu fortaleço a minha adaga e ela fortalece aquele pedaço de madeira que chama de cajado. Nós ainda não sabemos correr super rápido sem nos cansar, e o nosso combate se resume a manter os coelhos calmos caçando o que dá na neve para conseguir carne boa, e depois complementar com as folhas que você nos der. Não sei se somos os guardas ideais.
Shef 100: (Sorri de forma extremamente compreensiva e gentil, batendo as mãos no vestido) Eu entendo perfeitamente a limitação de vocês, Borë. Não se preocupem com isso, a intenção e a mana de vocês já serão de grande ajuda. Por favor, entrem na vila, o vento está ficando forte. Podemos conversar melhor e comer algo quente lá dentro, enquanto eu explico o que os moradores locais viram e o que exatamente eles acham que está pegando as nossas cenouras inteiras.
PARTE 5: A Sombra nas Árvores
(Borë, Tatipen, Shpatë e a Shef 100 começam a caminhar para o interior caloroso de Kylä 98, conversando de forma animada enquanto a silhueta da vila se destaca contra o céu cinzento.)
(A câmera lentamente se afasta do vilarejo, deixando as vozes deles para trás, e sobe em direção às copas congeladas e escuras das árvores da floresta densa ao redor.)
(Escondida perfeitamente entre os galhos secos e a névoa fria, uma silhueta escura de 1,60 m de altura observa fixamente cada passo do grupo. A criatura possui um anel dourado reluzente em volta do pescoço, uma íris amarela idêntica e brilhante como a dos dois irmãos e duas grandes asas negras que batem de leve para espantar a neve acumulada.)
(A sombra misteriosa não diz uma única palavra, mantendo um silêncio sepulcral, apenas estreitando os olhos amarelos com um brilho ameaçador na direção de Borë e Tatipen enquanto a nevasca volta a cair pesadamente sobre o mundo.)
Vrum.
O efeito do teleporte passou num estalo e o vento congelante da superfície bateu direto na minha cara. Estávamos na entrada de um pequeno vilarejo cercado por estacas de madeira pontudas para proteção contra feras. Uma placa de madeira gasta e semi-coberta de neve na entrada dizia: Kylä Número 98.
— Quem vem lá? Identifiquem-se! — uma voz infantil, mas extremamente formal e pomposa, ecoou de trás da cerca.
De trás de uma das cabanas, uma garotinha de aproximadamente 1,30m de altura apareceu caminhando devagar, com as mãos cruzadas atrás das costas. Ela tinha cabelos castanho-claros bem cortados e íris castanho-escuras. Vestia um casaco marrom cuja parte da frente era unida por um laço branco delicado; por baixo, usava um vestido branco sem mangas que parecia bem limpo, contrastando com suas duas botas de couro marrom-escuras. Ela mantinha uma postura perfeitamente ereta, exalando uma calma forçada e uma formalidade estritamente infantil, como se estivesse brincando de ser adulta.
— É um prazer imenso conhecer vocês, Borë e Tatipen — ela disse, parando na nossa frente e fazendo uma leve reverência de etiqueta. — Eu me chamo Shef Número 100. Sou a chefe oficial desta vila. Minha mãe completou 100 anos recentemente e acabou falecendo, então eu assumi o posto de liderança por direito de linhagem.
Fiquei encarando a menina com uma cara de tacho completa. Uma chefe de vila que parece ter tamanho de quem acabou de sair do jardim de infância? Fala sério, esse mundo é muito esquisito com idades.
— Mas mudando de assunto, porque o tempo é escasso — Shef Continuou, erguendo o queixo de forma mandona. — O Shpatë já me explicou a situação de vocês e da toca subterrânea. Eu aceito fornecer as folhas de cenoura para os seus coelhos mutantes. Porém... com uma única e estrita condição. Vocês vão ter que me ajudar com um problema de segurança. Algo, ou alguém, está invadindo nossa plantação todas as noites e roubando as cenouras inteiras, direto da terra. Quero que vocês ajudem a capturar o culpado em flagrante.
Dei de ombros, resolvendo abrir o jogo para não dar falsas esperanças para a patroa mirim.
— Olha, Shef, a gente até aceita ajudar no trabalho de guarda, mas tem um detalhe importante: a gente só sabe o básico do básico de como usar a nossa Alma de Mana. Tipo... a gente consegue imbuir a energia em objetos, como a minha adaga ou o cajado torto da Tatipen para dar mais dano. Mas a gente ainda não sabe correr super rápido sem colocar os bofes para fora, sabe? Nosso trabalho até agora é manter os coelhos calmos caçando o que achamos na neve. A carne deles é boa, e depois a gente alimenta eles com as folhas que você vai dar. É só o que sabemos fazer. Não espera que a gente solte um raio laser.
Shef Número 100 colocou a mão no queixo, adotando uma postura pensativa e analisando nossas limitações com um olhar clínico de criança séria.
— Eu entendo as limitações de vocês devido à tenra idade — Shef Assentiu, de maneira compreensiva. — Mas não se preocupem, o plano não exige força bruta extrema. Podem entrar na vila primeiro. Vamos até a minha residência para conversarmos melhor sobre o que os moradores testemunharam a respeito do que está levando as cenouras inteiras.
Parte 5: A Sombra nas Árvores e o Chá Gelado
Enquanto caminhávamos para dentro dos limites de Kylä 98, eu e Tatipen paramos abruptamente no meio do caminho, como se tivéssemos batido em uma parede invisível. Nossas orelhas caídas deram um leve espasmo físico, apontando para cima por um segundo.
— O que foi? Por que pararam? — Shef Perguntou, virando-se para trás com as sobrancelhas franzidas.
— Eu e a Tatipen... sentimos perigo por perto — falei, meus olhos estreitando enquanto escaneavam as copas das árvores cobertas de neve ao redor da cerca da vila. O elo mental com a Tatipen estava estalando de tensão. — Tem alguma coisa olhando para cá. Uma vibe muito ruim.
— Ah, não precisam se preocupar com isso, garoto — Shef Deu um sorriso confiante e balançou a mão, desdenhando do meu aviso. — Afinal de contas, vocês estão sob a minha jurisdição. Vocês têm tanto o Shpatë quanto eu para proteger a vila. Ninguém é louco de atacar.
Olhei para ela de cima a baixo, com uma sobrancelha totalmente arqueada, sem paciência para o ego dela.
— Menina, você é literalmente uma criança. Se um bicho pular aqui, você vira parquinho de diversão dele.
Shef Inflou as bochechas na hora, cruzando os braços e batendo o pé na neve, extremamente ofendida pela minha total falta de respeito com o cargo dela.
— Vocês dois ainda têm só 2 anos de idade! Eu já tenho 6 anos completos! Sou bem mais velha, mais alta e muito mais experiente em liderança que vocês dois juntos!
Segurei a vontade absurda de rir da cara dela. Virei o pescoço para o Shpatë, que vinha logo atrás caminhando com aquela cara de paisagem dele, parecendo que preferia estar em qualquer outro lugar do mundo.
— Ei, Shpatë... você por acaso tem medo dela? — perguntei em um tom zombeteiro. — Porque eu e a Tatipen só tememos a autoridade dela no papel do contrato, porque no tamanho e no soco...
— Não tenho medo — Shpatë respondeu direto, com aquela voz gélida e monótona de sempre, sem nem olhar para a menina. — Afinal de quaisquer coisas, ela ainda não amadureceu o poder dela por completo para ser uma ameaça real para mim.
Shef Soltou um resmungo indignado e marchou na frente. Caminhamos mais um pouco até chegar à casa dela. Era uma estrutura pequena e bem peculiar: uma cabana de madeira totalmente circular, com o teto cônico feito de folhas secas prensadas e amarradas, o que fazia a casa inteira parecer um grande chapéu de palha de fazendeiro fincado no meio da neve.
— Por favor, tirem as botas de neve e deixem-nas organizadas do lado de fora — Shef Instruiu de maneira cortês, tentando recuperar a pose de chefe ao abrir a porta de madeira.
Todos nós tiramos as botas e entramos. O interior era surpreendentemente aquecido por uma pequena lareira de pedra. Shef Foi até o balcão com passos rápidos e serviu uma xícara de chá fumegante para ela mesma e outra para o Shpatë, ignorando a gente por um momento. Ela se virou, equilibrando a bandeja de madeira com cuidado.
— Vocês vão querer um pouco de chá, Borë, Tatipen? Para aquecer os corpos pequenos de vocês?
— Não, obrigado — respondemos juntos, secos, sentando de pernas cruzadas no chão fofo perto do fogo.
— Entendo. Menos desperdício — ela colocou as xícaras na mesa baixa de madeira e se sentou com elegância infantil. — Sintam-se em casa... ou na toca de vocês, tanto faz. Basicamente, eu preciso conversar seriamente sobre o plano tático que eu elaborei para resolver esse mistério das cenouras.
— Que plano seria esse? — Tatipen perguntou, apoiando o queixo na ponta do seu cajado de madeira torto, olhando fixamente para a garota.
— Antes de tudo, preciso explicar a gravidade da situação econômica da nossa comunidade — Shef Começou, endireitando a postura e adotando um tom dramático. — A nossa vila está com o estoque de cenouras quase em falta por causa desses roubos noturnos. Se continuar assim por mais uma semana, estaremos à beira de cometer o maior vexame da nossa história: pedir suprimentos para a Kylä Número 99. Isso é algo que a minha família não faz há gerações! Meu orgulho não permite!
— E por que vocês simplesmente não vão lá e pedem? — perguntei, esticando as pernas. — Se os caras têm comida e vocês estão passando fome, qual o problema? Orgulho enche barriga por acaso?
— Você não entende nada de política, Borë — Shef Me deu um olhar feio, irritada com o meu pragmatismo. — Pelo que minha falecida mãe me falou, depois que a grande guerra entre a nossa Kylä 98 e a Kylä 99 acabou, as duas vilas fizeram um pacto de sangue extremamente rígido. Ficou determinado que cada vila deveria se sustentar de forma totalmente independente, sem nunca interferir, comercializar ou pedir esmola para a outra. Quebrar isso reabriria velhas feridas de guerra. Por isso, meu plano consiste no seguinte...
Ela se inclinou para frente na mesa, baixando o tom de voz para dar um clima de suspense.
— Esta noite, eu quero que você, Borë, e você, Tatipen, fiquem parados bem no meio da plantação principal, servindo de isca viva na escuridão. Quando o que quer que esteja roubando as cenouras aparecer para pegar vocês, o Shpatë vai usar o poder de teleporte dele para tirar vocês dois de lá instantaneamente, trazendo-os de volta para esta sala. No mesmo milissegundo, eu serei teleportada pelo Shpatë para o lugar exato onde vocês estavam, bem na frente da criatura, e vou prendê-la usando a minha habilidade especial de Alma de Mana. O que acham? É infalível.
Tatipen tombou a cabeça para o lado, as orelhas pontudas balançando, genuinamente curiosa com a mecânica daquilo.
— Como você tem uma habilidade de Alma de Mana própria sendo tão jovem, Shef? Você disse que tem só 6 anos.
Shef Sorriu de orelha a orelha, inflando o peito de orgulho com a pergunta.
— Eu comecei a treinar o básico da Alma de Mana logo aos 2 anos de idade, exatamente igual a vocês. Aos 3 anos, quando minha mãe estava com seus 97 anos e começou a adoecer gravemente, a pressão me fez despertar e eu finalmente desenvolvi a minha própria habilidade única de restrição. E então... todos vão colaborar com o meu plano hoje à noite?
— Fazer o quê, né? Eu topo — respondi, vendo que era o único jeito de conseguir comida para os nossos coelhos e garantir nosso teto.
— Eu também vou colaborar — Tatipen concordou, balançando a cabeça.
— Estou dentro — Shpatë murmurou do seu canto escuro, dando um gole lento no seu chá, sem mudar a expressão facial.
Shef Bateu as palminhas de alegria, radiante com a obediência do grupo.
— Ótimo! Perfeito! Estamos todos sintonizados!
Satisfeita com o sucesso da sua primeira reunião de cúpula militar, Shef Pegou sua xícara de chá com as duas mãos para dar um gole vitorioso e quente. Mas assim que encostou os lábios na borda, sua expressão de chefe murchou por completo. Ela olhou para o fundo do recipiente com uma enorme e genuína decepção de criança mimada.
— Ah... que droga. Esfriou.
Parte 6: O Observador Alado
Enquanto a conversa corria dentro da cabana aquecida, do lado de fora, a poucos metros dos limites protegidos pelas estacas de Kylä 98, o perigo real espreitava em silêncio absoluto.
No alto de uma das árvores mais altas e antigas da floresta congelada, totalmente oculta pela folhagem densa e pela névoa fria da tarde que caía, estava uma sombra imponente de aproximadamente 1,60m de altura. A criatura possuía um anel dourado reluzente e misterioso cravado perfeitamente ao redor do pescoço e duas imensas asas negras e plumadas recolhidas elegantemente nas costas.
Seus olhos, com duas íris amarelas idênticas e brilhantes como as de Borë e Tatipen, cortavam a penumbra do fim do dia.
Sem emitir um único som, sem balançar uma única pena contra o vento forte, a silhueta alada apenas observava fixamente a cabana circular da chefe da vila, esperando pacientemente o cair da noite e o início do plano.
Vrum.
O efeito do teleporte passou num estalo e o vento congelante da superfície bateu direto na minha cara. Estávamos na entrada de um pequeno vilarejo cercado por estacas de madeira pontudas para proteção contra feras. Uma placa de madeira gasta e semi-coberta de neve na entrada dizia: Kylä Número 98.
— Quem vem lá? Identifiquem-se! — uma voz infantil, mas extremamente formal e pomposa, ecoou de trás da cerca.
De trás de uma das cabanas, uma garotinha de aproximadamente 1,30m de altura apareceu caminhando devagar, com as mãos cruzadas atrás das costas. Ela tinha cabelos castanho-claros bem cortados e íris castanho-escuras. Vestia um casaco marrom cuja parte da frente era unida por um laço branco delicado; por baixo, usava um vestido branco sem mangas que parecia bem limpo, contrastando com suas duas botas de couro marrom-escuras. Ela mantinha uma postura perfeitamente ereta, exalando uma calma forçada e uma formalidade estritamente infantil, como se estivesse brincando de ser adulta.
— É um prazer imenso conhecer vocês, Borë e Tatipen — ela disse, parando na nossa frente e fazendo uma leve reverência de etiqueta. — Eu me chamo Shef Número 100. Sou a chefe oficial desta vila. Minha mãe completou 100 anos recentemente e acabou falecendo, então eu assumi o posto de liderança por direito de linhagem.
Fiquei encarando a menina com uma cara de tacho completa. Uma chefe de vila que parece ter tamanho de quem acabou de sair do jardim de infância? Fala sério, esse mundo é muito esquisito com idades.
— Mas mudando de assunto, porque o tempo é escasso — Shef Continuou, erguendo o queixo de forma mandona. — O Shpatë já me explicou a situação de vocês e da toca subterrânea. Eu aceito fornecer as folhas de cenoura para os seus coelhos mutantes. Porém... com uma única e estrita condição. Vocês vão ter que me ajudar com um problema de segurança. Algo, ou alguém, está invadindo nossa plantação todas as noites e roubando as cenouras inteiras, direto da terra. Quero que vocês ajudem a capturar o culpado em flagrante.
Dei de ombros, resolvendo abrir o jogo para não dar falsas esperanças para a patroa mirim.
— Olha, Shef, a gente até aceita ajudar no trabalho de guarda, mas tem um detalhe importante: a gente só sabe o básico do básico de como usar a nossa Alma de Mana. Tipo... a gente consegue imbuir a energia em objetos, como a minha adaga ou o cajado torto da Tatipen para dar mais dano. Mas a gente ainda não sabe correr super rápido sem colocar os bofes para fora, sabe? Nosso trabalho até agora é manter os coelhos calmos caçando o que achamos na neve. A carne deles é boa, e depois a gente alimenta eles com as folhas que você vai dar. É só o que sabemos fazer. Não espera que a gente solte um raio laser.
Shef Número 100 colocou a mão no queixo, adotando uma postura pensativa e analisando nossas limitações com um olhar clínico de criança séria.
— Eu entendo as limitações de vocês devido à tenra idade — Shef Assentiu, de maneira compreensiva. — Mas não se preocupem, o plano não exige força bruta extrema. Podem entrar na vila primeiro. Vamos até a minha residência para conversarmos melhor sobre o que os moradores testemunharam a respeito do que está levando as cenouras inteiras.
Parte 5: A Sombra nas Árvores e o Chá Gelado
Enquanto caminhávamos para dentro dos limites de Kylä 98, eu e Tatipen paramos abruptamente no meio do caminho, como se tivéssemos batido em uma parede invisível. Nossas orelhas caídas deram um leve espasmo físico, apontando para cima por um segundo.
— O que foi? Por que pararam? — Shef Perguntou, virando-se para trás com as sobrancelhas franzidas.
— Eu e a Tatipen... sentimos perigo por perto — falei, meus olhos estreitando enquanto escaneavam as copas das árvores cobertas de neve ao redor da cerca da vila. O elo mental com a Tatipen estava estalando de tensão. — Tem alguma coisa olhando para cá. Uma vibe muito ruim.
— Ah, não precisam se preocupar com isso, garoto — Shef Deu um sorriso confiante e balançou a mão, desdenhando do meu aviso. — Afinal de contas, vocês estão sob a minha jurisdição. Vocês têm tanto o Shpatë quanto eu para proteger a vila. Ninguém é louco de atacar.
Olhei para ela de cima a baixo, com uma sobrancelha totalmente arqueada, sem paciência para o ego dela.
— Menina, você é literalmente uma criança. Se um bicho pular aqui, você vira parquinho de diversão dele.
Shef Inflou as bochechas na hora, cruzando os braços e batendo o pé na neve, extremamente ofendida pela minha total falta de respeito com o cargo dela.
— Vocês dois ainda têm só 2 anos de idade! Eu já tenho 6 anos completos! Sou bem mais velha, mais alta e muito mais experiente em liderança que vocês dois juntos!
Segurei a vontade absurda de rir da cara dela. Virei o pescoço para o Shpatë, que vinha logo atrás caminhando com aquela cara de paisagem dele, parecendo que preferia estar em qualquer outro lugar do mundo.
— Ei, Shpatë... você por acaso tem medo dela? — perguntei em um tom zombeteiro. — Porque eu e a Tatipen só tememos a autoridade dela no papel do contrato, porque no tamanho e no soco...
— Não tenho medo — Shpatë respondeu direto, com aquela voz gélida e monótona de sempre, sem nem olhar para a menina. — Afinal de quaisquer coisas, ela ainda não amadureceu o poder dela por completo para ser uma ameaça real para mim.
Shef Soltou um resmungo indignado e marchou na frente. Caminhamos mais um pouco até chegar à casa dela. Era uma estrutura pequena e bem peculiar: uma cabana de madeira totalmente circular, com o teto cônico feito de folhas secas prensadas e amarradas, o que fazia a casa inteira parecer um grande chapéu de palha de fazendeiro fincado no meio da neve.
— Por favor, tirem as botas de neve e deixem-nas organizadas do lado de fora — Shef Instruiu de maneira cortês, tentando recuperar a pose de chefe ao abrir a porta de madeira.
Todos nós tiramos as botas e entramos. O interior era surpreendentemente aquecido por uma pequena lareira de pedra. Shef Foi até o balcão com passos rápidos e serviu uma xícara de chá fumegante para ela mesma e outra para o Shpatë, ignorando a gente por um momento. Ela se virou, equilibrando a bandeja de madeira com cuidado.
— Vocês vão querer um pouco de chá, Borë, Tatipen? Para aquecer os corpos pequenos de vocês?
— Não, obrigado — respondemos juntos, secos, sentando de pernas cruzadas no chão fofo perto do fogo.
— Entendo. Menos desperdício — ela colocou as xícaras na mesa baixa de madeira e se sentou com elegância infantil. — Sintam-se em casa... ou na toca de vocês, tanto faz. Basicamente, eu preciso conversar seriamente sobre o plano tático que eu elaborei para resolver esse mistério das cenouras.
— Que plano seria esse? — Tatipen perguntou, apoiando o queixo na ponta do seu cajado de madeira torto, olhando fixamente para a garota.
— Antes de tudo, preciso explicar a gravidade da situação econômica da nossa comunidade — Shef Começou, endireitando a postura e adotando um tom dramático. — A nossa vila está com o estoque de cenouras quase em falta por causa desses roubos noturnos. Se continuar assim por mais uma semana, estaremos à beira de cometer o maior vexame da nossa história: pedir suprimentos para a Kylä Número 99. Isso é algo que a minha família não faz há gerações! Meu orgulho não permite!
— E por que vocês simplesmente não vão lá e pedem? — perguntei, esticando as pernas. — Se os caras têm comida e vocês estão passando fome, qual o problema? Orgulho enche barriga por acaso?
— Você não entende nada de política, Borë — Shef Me deu um olhar feio, irritada com o meu pragmatismo. — Pelo que minha falecida mãe me falou, depois que a grande guerra entre a nossa Kylä 98 e a Kylä 99 acabou, as duas vilas fizeram um pacto de sangue extremamente rígido. Ficou determinado que cada vila deveria se sustentar de forma totalmente independente, sem nunca interferir, comercializar ou pedir esmola para a outra. Quebrar isso reabriria velhas feridas de guerra. Por isso, meu plano consiste no seguinte...
Ela se inclinou para frente na mesa, baixando o tom de voz para dar um clima de suspense.
— Esta noite, eu quero que você, Borë, e você, Tatipen, fiquem parados bem no meio da plantação principal, servindo de isca viva na escuridão. Quando o que quer que esteja roubando as cenouras aparecer para pegar vocês, o Shpatë vai usar o poder de teleporte dele para tirar vocês dois de lá instantaneamente, trazendo-os de volta para esta sala. No mesmo milissegundo, eu serei teleportada pelo Shpatë para o lugar exato onde vocês estavam, bem na frente da criatura, e vou prendê-la usando a minha habilidade especial de Alma de Mana. O que acham? É infalível.
Tatipen tombou a cabeça para o lado, as orelhas pontudas balançando, genuinamente curiosa com a mecânica daquilo.
— Como você tem uma habilidade de Alma de Mana própria sendo tão jovem, Shef? Você disse que tem só 6 anos.
Shef Sorriu de orelha a orelha, inflando o peito de orgulho com a pergunta.
— Eu comecei a treinar o básico da Alma de Mana logo aos 2 anos de idade, exatamente igual a vocês. Aos 3 anos, quando minha mãe estava com seus 97 anos e começou a adoecer gravemente, a pressão me fez despertar e eu finalmente desenvolvi a minha própria habilidade única de restrição. E então... todos vão colaborar com o meu plano hoje à noite?
— Fazer o quê, né? Eu topo — respondi, vendo que era o único jeito de conseguir comida para os nossos coelhos e garantir nosso teto.
— Eu também vou colaborar — Tatipen concordou, balançando a cabeça.
— Estou dentro — Shpatë murmurou do seu canto escuro, dando um gole lento no seu chá, sem mudar a expressão facial.
Shef Bateu as palminhas de alegria, radiante com a obediência do grupo.
— Ótimo! Perfeito! Estamos todos sintonizados!
Satisfeita com o sucesso da sua primeira reunião de cúpula militar, Shef Pegou sua xícara de chá com as duas mãos para dar um gole vitorioso e quente. Mas assim que encostou os lábios na borda, sua expressão de chefe murchou por completo. Ela olhou para o fundo do recipiente com uma enorme e genuína decepção de criança mimada.
— Ah... que coisa. Esfriou.
(Fim do 2 capítulo)