Capítulo 30 — Lâminas, Máscaras e Novos Caminhos
O amanhecer em Aetheryon trouxe um céu limpo e um vento constante que atravessava as estruturas suspensas do reino como um sussurro antigo.
Era um dia comum.
Mas para alguns…
seria o início de mudanças profundas.
O Primeiro Passo de Isamu
Isamu estava sentado perto de uma das pontes de pedra branca, observando o mar lá embaixo.
Desde que chegara, tudo parecia grande demais.
Distante demais.
Complexo demais.
Ele nunca havia sido um guerreiro.
Nunca havia precisado ser.
Mas aquele lugar exigia algo diferente.
— Ainda pensando em fugir?
A voz suave surgiu atrás dele.
Isamu virou.
Lysera.
Ela trazia duas espadas de treino nas mãos.
— Eu não estou fugindo.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Ainda.
Isamu riu baixo.
— Você insiste muito.
Lysera sentou ao lado dele.
O vento balançava seus cabelos claros.
Por alguns segundos, ela apenas observou o horizonte.
Então falou:
— Há pouco tempo… eu treinei um garoto.
Isamu ficou em silêncio.
— Ele também dizia que não queria lutar.
Pausa.
— Mas ele lutava pelos outros.
Os olhos dela ficaram mais distantes.
— O nome dele era Daichi.
Isamu reconheceu o nome imediatamente.
— Ren falou dele.
Lysera assentiu.
— Ele era amigo do Ren.
Um leve sorriso surgiu.
— Era gentil demais para esse mundo.
O silêncio voltou.
Mas dessa vez… não era pesado.
Lysera levantou.
— Vem.
Isamu olhou para ela.
— Só um treino básico.
— Eu não—
Ela jogou uma espada de madeira para ele.
Ele quase deixou cair.
— Você não precisa querer.
— Só precisa tentar.
Isamu respirou fundo.
Olhou para a espada.
Depois para o mar.
E então se levantou.
— Tá bom.
O Treinamento Começa
O campo de treino estava vazio.
Lysera se posicionou.
— Primeiro… postura.
Isamu tentou imitar.
Ficou torto.
Desajeitado.
Ela riu.
— Relaxa.
Ela se aproximou e ajustou os ombros dele.
— Espada não é força.
— É equilíbrio.
Isamu tentou novamente.
Agora estava melhor.
— Agora… ataque.
Ele avançou.
Lento.
Previsível.
Lysera desviou com facilidade.
— De novo.
E assim começou.
Por horas.
Movimentos simples.
Passos básicos.
Controle.
Isamu errou.
Caiu.
Errou de novo.
Mas não desistiu.
E isso… chamou a atenção de Lysera.
Quando o sol começou a se pôr, ela caminhou até um pequeno suporte de armas.
Pegou uma espada real.
Uma katana simples.
Mas elegante.
Ela voltou até ele.
— Você merece algo melhor que madeira.
Isamu arregalou os olhos.
— Eu?
— Você.
Ela estendeu a arma.
— Sua primeira katana.
Isamu segurou.
Sentiu o peso.
Sentiu a responsabilidade.
Sentiu… algo novo.
Lysera sorriu.
— Agora começa de verdade.
Ali…
um novo laço começava a nascer.
Eryndor e a Ordem Silenciosa
Enquanto isso, no salão superior de Aetheryon…
Eryndor observava um mapa antigo sobre uma mesa de pedra.
Alguns soldados aguardavam em silêncio.
— Quero informações sobre um homem.
Ele apontou.
— Kanzaki.
Os soldados trocaram olhares discretos.
— Descubram onde ele está.
— Rotas.
— Movimentações.
— Rotina.
Um dos soldados perguntou:
— Devemos enfrentá-lo?
Eryndor respondeu sem levantar o olhar:
— Ainda não.
Silêncio.
— Apenas encontrem.
Os soldados assentiram.
E partiram.
O motivo…
ainda não precisava ser revelado.
Mas dentro de Eryndor…
algo havia sido despertado desde que ouvira aquele nome.
Um Novo Treinador para Ren
No campo principal de combate…
Ren respirava fundo enquanto segurava suas duas espadas curvas.
Seus movimentos já estavam mais rápidos.
Mais precisos.
Mas ainda não eram suficientes.
Eryndor surgiu atrás dele.
— Você evoluiu.
Ren virou.
— Ainda não é o bastante.
Eryndor assentiu.
— Por isso… trouxe alguém.
Passos pesados ecoaram.
Um homem alto se aproximou.
Cabelos grisalhos curtos.
Cicatrizes no rosto.
Postura firme.
Presença esmagadora.
— Este é Takemura.
O homem analisou Ren de cima a baixo.
— Duas lâminas… estilo agressivo.
Ren não respondeu.
Takemura sorriu de lado.
— Gosto disso.
Eryndor continuou:
— Ele vai treinar você.
— Mais pesado do que eu.
Ren apertou as espadas.
Takemura apontou para o campo.
— Venha.
Ren avançou.
O primeiro choque de lâminas foi brutal.
Muito mais rápido.
Muito mais técnico.
Ren percebeu imediatamente:
Takemura era diferente.
Experiente.
Letal.
Eryndor começou a se afastar.
Mas antes disse:
— Quando achar que está pronto…
— Vá até a capela principal.
Ren assentiu.
— Tenho uma missão para você.
Eryndor saiu.
Sabendo que aquele garoto…
ainda levaria tempo para chegar lá.
A Vila — Preparativos para o Festival
A vila estava viva.
Colorida.
Movimentada.
Bandeiras sendo erguidas.
Barracas montadas.
Crianças correndo.
O retorno de Seraphiel estava sendo celebrado.
Moradores sorriam.
Sacerdotes organizavam tudo.
O clima era de paz.
Ou pelo menos…
de aparência de paz.
Dentro da igreja, Seraphiel caminhava ao lado de Kanzaki.
— A vila parece tranquila.
— Eles precisam disso — respondeu Kanzaki.
Seraphiel parou diante de um vitral iluminado.
— E quanto aos três?
Kanzaki entendeu.
— Daichi está morto.
— Ren fugiu.
— Aoi está em missão.
Seraphiel permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Jovens carregando destinos perigosos.
Kanzaki cruzou os braços.
— Eles escolheram seus caminhos.
Seraphiel respondeu:
— Ou foram empurrados para eles.
O padre local se aproximou para falar sobre os preparativos.
A música começava a ecoar pela vila.
Mas mesmo com a celebração…
havia tensão escondida.
Vorthal — A Máscara de Aoi
O céu estava nublado quando a embarcação chegou.
As águas ao redor eram mais escuras.
Mais densas.
O reino surgia entre formações rochosas enormes.
Fortalezas de pedra negra.
Torres altas.
Arquitetura pesada.
Imponente.
Vorthal.
Aoi observava tudo em silêncio.
Sua expressão era neutra.
Mas sua mente trabalhava rápido.
Ela estava infiltrada.
Uma guerreira perdida.
Uma história criada cuidadosamente pela igreja.
Quando o barco encostou, guardas armados se aproximaram.
Armaduras escuras.
Olhares desconfiados.
Um deles caminhou até a frente.
A presença dele era diferente.
Mais autoritária.
Mais experiente.
— Nome.
Aoi respondeu calmamente:
— Aoi.
O homem a analisou.
Longos segundos.
— Sou General Karthus.
A voz era grave.
— Recebemos informações sobre você.
Aoi manteve a postura.
— Preciso de abrigo.
Karthus observou novamente.
Como se tentasse ler algo além da aparência.
Mas então virou-se.
— Venha.
Ela começou a caminhar ao lado dele.
Enquanto atravessavam os portões gigantes de Vorthal…
Aoi entendeu uma coisa:
Aquele lugar escondia muito mais do que aparentava.
E sua missão…
estava apenas começando.
O Vento Mudando os Caminhos
Em Aetheryon…
Isamu praticava seus primeiros golpes com a nova katana.
Lysera observava.
Sorrindo.
Ren continuava seu treinamento brutal com Takemura.
Cada golpe mais rápido.
Mais agressivo.
Mais preciso.
Eryndor observava tudo de longe.
Silencioso.
Calculando.
Enquanto isso…
na distante Vorthal…
Aoi caminhava por entre corredores de pedra escura.
Cada passo…
mais fundo no desconhecido.
E sem que nenhum deles percebesse…
todos já estavam sendo puxados para o mesmo destino.