Capítulo 34 – Ecos de Dúvida
O mar ao redor de Aetheryon havia voltado à calmaria.
Os restos dos navios de Vorthal ainda estavam sendo removidos, e o cheiro de madeira queimada misturado com sal permanecia no ar. Soldados caminhavam de um lado para outro carregando equipamentos, reparando estruturas e cuidando dos feridos.
A batalha tinha acabado.
Mas algo havia mudado.
Não era apenas uma vitória.
Era o início de algo maior.
O Peso da Primeira Batalha
Ren estava sozinho na área de treinamento.
Suas duas espadas curvas estavam fincadas no chão diante dele.
O vento balançava levemente seus cabelos enquanto ele observava as lâminas.
A luta contra os soldados de Vorthal ainda estava fresca em sua mente.
Os cortes.
O sangue.
Os movimentos instintivos.
Ele lembrava de cada detalhe.
E também lembrava de algo que o incomodava.
O quanto aquilo tinha sido… natural.
Ren fechou os olhos.
A voz de Takemura ecoava em sua cabeça:
Ameaça elimina.
Sem hesitação.
Sem piedade.
Sem dúvidas.
Por alguns segundos, ele apertou os punhos.
Então respirou fundo.
— Ainda não acabou… — murmurou.
Ele pegou as duas espadas.
Girou as lâminas lentamente.
Seu movimento estava mais firme.
Mais preciso.
Mais forte.
A batalha tinha mudado algo dentro dele.
E pela primeira vez desde que chegou em Aetheryon…
Ren sentia que estava pronto.
Pronto para a missão que Eryndor havia mencionado.
Mas ele ainda não iria procurá-lo.
Ainda não.
Algo dizia que precisava de mais um pequeno passo.
O Treinamento de Isamu
Do outro lado do reino, próximo a uma área aberta onde pequenas correntes de água passavam entre pedras claras, Isamu treinava com Lysera.
Diferente de Ren, o treinamento de Isamu não era baseado em agressividade.
Era baseado em controle.
Respiração.
Equilíbrio.
Energia espiritual.
Lysera caminhava lentamente ao redor dele.
— Não segure a energia… deixa ela fluir.
Isamu tentou novamente.
Sua katana se moveu no ar.
Desta vez, um leve rastro de energia surgiu.
Ainda fraco.
Mas muito mais estável que antes.
Lysera sorriu discretamente.
— Está melhorando rápido.
Isamu abaixou a espada.
— Acho que é porque… agora eu sei pra que estou treinando.
Lysera inclinou a cabeça.
— E pra quê?
Isamu ficou em silêncio por alguns segundos.
— Pra não ser inútil quando alguém precisar de mim.
Lysera não respondeu.
Mas seus olhos suavizaram.
Ela entendia exatamente o que aquilo significava.
Vorthal – Sombras e Segredos
Enquanto isso, muito distante dali…
Aoi caminhava pelos corredores de pedra escura de Vorthal.
Já fazia alguns dias desde sua infiltração.
E quanto mais observava…
Mais perguntas surgiam.
Os soldados daquele reino eram diferentes.
Não lutavam por fé.
Não lutavam por devoção.
Lutavam por evolução.
Por poder.
Por domínio.
Ela havia começado a ouvir mais sobre os ancestrais.
Fragmentos de conversas.
Treinamentos específicos.
Pesquisas antigas.
Mapas.
Relatos.
Nada completo.
Mas suficiente para formar uma imagem perigosa.
Durante um treinamento, o General Karthus observava os soldados praticando técnicas com lâminas reforçadas com o metal especial de Vorthal.
Aoi se aproximou.
— General… vocês realmente acreditam que conseguem controlar um ancestral?
Karthus respondeu sem olhar para ela:
— Não acreditamos.
— Sabemos.
Aoi ficou em silêncio.
Ele continuou:
— A igreja teme os ancestrais.
Nós queremos dominá-los.
Essa é a diferença.
Aoi sentiu algo estranho ao ouvir aquilo.
Uma pequena dúvida.
Rápida.
Quase imperceptível.
Mas existiu.
Se a igreja fez um pacto…
Se os ancestrais continuam existindo…
Se Vorthal quer dominá-los…
Então quem realmente está certo?
O pensamento surgiu…
E desapareceu quase imediatamente.
Ela desviou o olhar.
— Só estava curiosa.
Karthus finalmente olhou para ela.
Seu olhar era analítico.
— Curiosidade é boa.
Desde que não vire dúvida.
Aoi apenas assentiu.
Mas aquela pequena dúvida…
Mesmo curta…
Não desapareceu completamente.
Sinais no Horizonte
De volta à vila da igreja, o festival já havia terminado.
As ruas estavam mais calmas.
Algumas lanternas ainda permaneciam penduradas, balançando lentamente com o vento.
Kanzaki caminhava sozinho perto da borda da floresta.
Silencioso.
Atento.
Foi então que ele sentiu.
Uma presença distante.
Fraca.
Mas organizada.
Ele não virou o rosto.
Não mudou a expressão.
Apenas continuou caminhando.
Mais alguns passos.
Então parou.
Seus olhos se moveram levemente para o lado.
Entre as árvores…
Muito distante…
Movimentos sutis.
Soldados.
Observando.
Analisando.
Procurando.
Kanzaki percebeu imediatamente.
Eryndor.
Ele não sorriu.
Não demonstrou preocupação.
Apenas entendeu.
— Então finalmente começou… — murmurou.
Ele virou de costas.
Como se não tivesse visto nada.
E voltou em direção à vila.
O Que Está por Vir
Naquela mesma noite, dentro da floresta…
Os soldados enviados por Eryndor observavam a vila à distância.
Um deles abriu um pequeno mapa.
Outro marcou a localização.
— Confirmado.
— Encontramos.
O líder do grupo fechou o mapa lentamente.
— Avisem Eryndor.
— Encontramos Kanzaki.
O vento soprou forte entre as árvores.
A guerra começava a se mover.
De forma silenciosa.
Estratégica.
Inevitável.