Capítulo 41 — O Retorno e a Sombra que se Aproxima
O sol nascia lentamente sobre Aetheryon.
A luz dourada atravessava as nuvens finas no horizonte, refletindo sobre as estruturas do reino como um presságio de calmaria… uma calmaria que não duraria.
O portão principal se abriu com um som pesado de madeira e metal.
E então ele apareceu.
Ren.
Seus passos eram lentos.
Firmes.
O manto ainda sujo de poeira e sangue seco. As duas espadas curvas estavam presas em suas costas, mas havia algo diferente nelas agora… algo mais pesado, mais real.
Seus olhos.
Já não eram os mesmos.
Guardas no portão foram os primeiros a perceber.
Um deles arregalou os olhos.
— …Ele voltou.
Outro engoliu seco.
— Sozinho?
Antes que pudessem dizer mais alguma coisa—
— REN!
A voz veio forte, quase como um grito de guerra.
Takemura.
Ele surgiu do campo de treinamento praticamente correndo, um sorriso largo no rosto, como se não acreditasse no que estava vendo.
— SEU DESGRAÇADO!
Ele chegou já dando um soco leve no ombro de Ren.
— Eu sabia que você não ia morrer!
Ren soltou um pequeno ar pelo nariz, quase um sorriso.
— Ainda não.
Outros soldados começaram a se aproximar.
Murmuros surgiram.
— Ele voltou mesmo…
— Sozinho…
— Esse é o cara que foi pra Vorthal?
— Dizem que matou dezenas lá…
— Não… dizem que foi muito mais…
Entre os soldados, duas figuras se destacaram.
Lysera.
Isamu.
Lysera caminhava com passos calmos, mas seu olhar carregava alívio.
Isamu vinha logo atrás, com um leve sorriso, mas os olhos atentos.
— Você demorou — disse Lysera, cruzando os braços.
Ren respondeu:
— Tive trabalho.
Isamu inclinou levemente a cabeça.
— Você… tá diferente.
Ren olhou pra ele por um segundo.
— Todo mundo muda.
Silêncio.
Takemura então entrou no meio da conversa, batendo palmas.
— Beleza, beleza! Chega de papo filosófico.
Ele se aproximou mais de Ren.
— E aí?
— Como foi?
Os outros soldados se aproximaram mais.
Todos queriam ouvir.
Ren olhou ao redor.
Respirou fundo.
E falou.
— Vorthal… não é só um reino.
O tom dele ficou mais sério.
— É um campo de guerra esperando pra explodir.
O silêncio caiu imediatamente.
— E agora…
Ele continuou.
— Vai explodir.
Takemura franziu o cenho.
— Fala direito.
Ren respondeu direto:
— Estamos em guerra.
O peso daquelas palavras caiu como uma lâmina sobre todos.
Alguns soldados se entreolharam.
Outros ficaram em silêncio.
Lysera estreitou levemente os olhos.
Isamu ficou imóvel.
Takemura soltou um riso curto.
— …Claro que estamos.
Mas o olhar dele mostrava que ele sabia que aquilo era sério.
Muito sério.
Um dos soldados perguntou:
— E o general de lá?
Ren ficou em silêncio por um segundo.
As imagens voltaram.
A luta.
A destruição.
O momento final.
Ele respondeu:
— Está morto.
Mais silêncio.
Agora… pesado.
Takemura abriu um sorriso maior ainda.
— HA!
— Eu sabia!
— Eu sabia que você ia conseguir!
Ele bateu no ombro de Ren novamente.
Mas Ren não reagiu.
Porque ele sabia.
Aquilo não tinha sido uma vitória comum.
Lysera percebeu.
Mas não disse nada.
Isamu também percebeu.
E também ficou em silêncio.
Ao longe…
Alguns soldados começaram a comemorar.
Mas não era uma comemoração leve.
Era o tipo de comemoração de quem sabe que venceu uma batalha…
mas chamou uma guerra.
Vila da Igreja — Algumas horas depois
O festival ainda acontecia.
Ou pelo menos…
tentava.
As lanternas voltaram a ser acesas.
As barracas foram reorganizadas.
As pessoas tentavam sorrir.
Mas algo havia mudado.
O clima não era mais o mesmo.
A alegria estava forçada.
No centro da vila, caminhando lado a lado…
Kanzaki.
Seraphiel.
Os dois andavam lentamente.
Observando.
Sentindo.
Seraphiel falou:
— Eles estão tentando fingir que está tudo bem.
Kanzaki respondeu:
— É o que as pessoas fazem.
Uma pausa.
— Continuam.
Seraphiel olhou para ele.
— Você realmente acha que foi a escolha certa mandar Aoi?
Kanzaki não respondeu de imediato.
Seus olhos estavam distantes.
— Ela não é uma criança.
Seraphiel retrucou:
— Ela tem dezessete anos.
Kanzaki respondeu:
— E já tomou decisões que homens mais velhos não conseguiriam.
Silêncio.
Seraphiel então falou, mais baixo:
— Mesmo assim…
Kanzaki parou de andar.
Olhou para o céu.
— Aoi não vai falhar.
A voz dele era firme.
Sem dúvida.
Seraphiel observou por alguns segundos.
Então sorriu de leve.
— Você confia muito nela.
Kanzaki respondeu:
— Porque eu conheço ela.
O vento soprou entre as lanternas.
O som do festival ecoava fraco ao redor.
Mas então…
Kanzaki parou.
Completamente.
Seus olhos mudaram.
Seraphiel percebeu na hora.
— O que foi?
Kanzaki não respondeu.
Ele apenas olhou em direção à floresta.
Ao longe.
Muito longe.
Algo estava errado.
Floresta ao redor da vila
A luz do sol mal atravessava as árvores densas.
Sombras cobriam o chão.
O som de passos era quase inexistente.
Mas ele estava lá.
Caminhando.
Sem pressa.
Sem medo.
Eryndor.
Seus olhos estavam fixos à frente.
A presença dele parecia distorcer o ambiente ao redor.
Folhas caíam antes mesmo de ele tocá-las.
O vento parecia evitar passar por ele.
Ele caminhava como alguém que já sabia exatamente o que iria encontrar.
E o que iria fazer.
Por um breve momento…
Ele parou.
Olhou para a vila ao longe.
As lanternas.
As casas.
As pessoas.
E então murmurou, quase inaudível:
— Então é aqui…
Silêncio.
Seus olhos ficaram mais frios.
— Onde tudo começa.
Ele voltou a andar.
Passo a passo.
Se aproximando.
Cada vez mais.
Sem pressa.
Porque ele sabia…
Que ninguém ali poderia pará-lo.