Capítulo 42 — O Homem que Caminha Sozinho
O som do festival… morreu.
Não foi de repente.
Foi como se tivesse sido sufocado.
As risadas diminuíram primeiro.
Depois as conversas.
Depois até o som das lanternas balançando no vento pareceu mais baixo.
Um silêncio pesado começou a se espalhar pela vila.
Porque alguém estava caminhando.
Lentamente.
Sem pressa.
Eryndor.
Seus passos eram calmos.
Firmes.
Cada pisada no chão de terra parecia ecoar mais do que deveria.
Toc.
Toc.
Toc.
As pessoas começaram a abrir caminho sem nem perceber.
Era instinto.
Algo dentro delas gritava para sair da frente.
Mães puxavam filhos.
Homens recuavam.
Soldados da igreja levavam as mãos às armas…
Mas não avançavam.
Porque sentiam.
Sentiam que aquilo não era um inimigo comum.
No centro da vila, sob a luz das lanternas…
Kanzaki parou completamente.
Ao lado dele, Seraphiel também.
Os olhos dos dois estavam fixos.
No homem que se aproximava.
O vento soprou.
Levantando levemente o manto de Eryndor.
A presença dele era pesada.
Não era só força.
Era intenção.
Era morte.
Ele continuou andando.
Sem acelerar.
Sem hesitar.
Até que parou.
A poucos metros dos dois.
Silêncio absoluto.
Ninguém respirava direito.
Por um breve segundo…
Nada aconteceu.
Então—
Seraphiel ergueu a mão.
A energia começou a se concentrar em sua palma.
Luz.
Branca.
Pura.
Violenta.
O ar ao redor começou a vibrar.
Se ele lançasse aquilo…
Não sobraria nada.
Mas antes que a magia fosse liberada—
Kanzaki segurou o braço dele.
Firme.
Sem olhar.
Seraphiel virou o rosto, surpreso.
— O que você está fazendo?
Kanzaki respondeu baixo.
— Se você lançar isso…
Seus olhos continuavam fixos em Eryndor.
— A vila vai junto.
A energia na mão de Seraphiel tremulou.
Por um segundo…
Ele hesitou.
E então desfez a magia.
O silêncio voltou.
Eryndor observava tudo.
Sem expressão.
Mas seus olhos demonstravam algo.
Interesse.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Então…
A voz dele era calma.
Mas carregava um peso absurdo.
— Ainda existem pessoas com bom senso aqui.
Silêncio.
Kanzaki respondeu:
— Você não veio até aqui para elogiar.
Eryndor deu um pequeno passo à frente.
A poeira se moveu sob seus pés.
— Não.
Ele olhou ao redor.
Para as casas.
Para as pessoas.
Para as lanternas.
E então voltou os olhos para Kanzaki.
— Eu vim representando Aetheryon.
Murmúrios surgiram entre os moradores.
Aetheryon.
O nome começou a ecoar como um sussurro perigoso.
Eryndor continuou:
— Vim pelo fim definitivo da igreja.
O ar ficou mais pesado.
Alguns sacerdotes apertaram seus símbolos.
Seraphiel estreitou os olhos.
Mas não interrompeu.
Ainda.
Eryndor deu mais um passo.
Agora estava mais próximo.
Muito mais próximo.
— E estou procurando um guerreiro.
Uma pausa.
Seus olhos ficaram mais focados.
— Kanzaki.
Silêncio.
Pesado.
Lento.
Kanzaki então respondeu.
Sem mover um músculo.
— Você acabou de encontrar.
O vento soprou entre os dois.
Eryndor olhou diretamente nos olhos dele.
E então…
Um leve sorriso surgiu.
— Eu imaginei.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Ouvi muitas coisas sobre você.
Seus olhos analisavam cada detalhe.
Cada movimento.
Cada respiração.
— Decidi vir ver pessoalmente.
Uma pausa.
— E também por um motivo principal.
Antes que ele continuasse—
Seraphiel deu um passo à frente.
Sua presença mudou.
A aura ao redor dele se intensificou.
— Chega disso.
A voz dele era firme.
— Kanzaki, acabe com isso.
Ele olhou ao redor.
— As pessoas já viram o suficiente.
— O festival não vai parar por causa de um invasor.
Kanzaki não respondeu imediatamente.
Mas antes que pudesse—
Eryndor falou.
Sem sequer olhar para Seraphiel.
— Fique quieto.
O silêncio caiu como um golpe.
Todos olharam.
Seraphiel virou o rosto lentamente.
Os olhos dele agora estavam frios.
— Você sabe com quem está falando?
Eryndor respondeu, finalmente olhando para ele.
Mas sem qualquer respeito.
— Não.
Uma pausa.
— E não me importo.
O ar ficou pesado.
Muito pesado.
Seraphiel deu um passo à frente.
A energia começou a surgir novamente.
Mas Eryndor continuou, ignorando completamente.
— Meu alvo…
Ele virou o olhar de volta para Kanzaki.
— é o seu companheiro.
Seraphiel cerrou os dentes.
Mas dessa vez…
Ele não avançou.
Porque percebeu.
Aquilo não era sobre ele.
Era sobre algo maior.
Muito maior.
Eryndor respirou fundo.
E então…
Falou.
A voz baixa.
Mas carregando tudo.
— Eu vim por Aetheryon.
Uma pausa.
O vento soprou.
— Pelo fim definitivo da igreja.
As lanternas balançaram.
— E principalmente…
Seus olhos escureceram.
— pelo meu irmão.
Silêncio.
Absoluto.
O mundo pareceu parar.
Então ele terminou.
— Raizen.
O nome caiu como uma lâmina.
Kanzaki franziu o cenho.
— …Raizen?
Os olhos dele se estreitaram.
— O líder dos Kurogane?
Uma pausa.
— Como…
— vocês podem ser irmãos?
Eryndor soltou um pequeno ar.
Quase como um riso sem humor.
— Porque vocês enxergaram errado desde o início.
Ele começou a caminhar lentamente de lado.
— Os Kurogane…
Ele olhou para o chão.
— nunca foram o verdadeiro problema.
Levantou o olhar novamente.
— Foram uma distração.
Murmúrios surgiram entre os sacerdotes.
Seraphiel ficou completamente em silêncio.
Eryndor continuou:
— Criados por nós.
— Por mim…
— e por Raizen.
Cada palavra era pesada.
— Viemos para investigar.
— Para entender o que a igreja realmente escondia.
Seus olhos ficaram mais frios.
— Não para dominar.
Uma pausa.
— Mas vocês não esperaram.
O ar ficou mais denso.
— Vocês atacaram.
— Julgaram.
— E mataram.
Silêncio.
Total.
Eryndor parou de andar.
Ficou de frente para Kanzaki novamente.
— Você matou meu irmão.
Sem emoção na voz.
Mas com algo pior.
Certeza.
— Um dos maiores guerreiros que já existiu.
Uma pausa.
— E agora…
Ele levou a mão lentamente até a katana.
— eu vim buscar a sua cabeça.
O som da lâmina começando a sair da bainha ecoou no silêncio.
SHING…
Kanzaki não recuou.
Não hesitou.
Apenas observou.
Então…
Falou.
— Se você quer isso…
Ele levou a mão até sua própria espada.
— então lute.
Uma pausa.
Ele olhou rapidamente para Seraphiel.
— Não interfira.
Seraphiel ficou em silêncio.
Mas entendeu.
Kanzaki voltou o olhar para Eryndor.
— Essa luta…
Sua voz ficou firme.
— é minha.
Eryndor terminou de sacar a katana.
A lâmina refletiu a luz das lanternas.
Fria.
Letal.
— Ótimo.
Kanzaki também sacou a espada.
O som metálico cortou o ar.
Os dois começaram a caminhar um em direção ao outro.
Passo.
Por passo.
O vento soprou entre eles.
As pessoas ao redor recuaram ainda mais.
O mundo parecia prender a respiração.
Porque todos sabiam.
Aquilo não era só um duelo.
Era o início de algo muito maior.
E quando as lâminas se encontrassem…
Nada mais seria o mesmo.